Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Vav · Mishná 10 (última)

Remédios populares e os caminhos do emorreu

יוֹצְאִין בְּבֵיצַת הַחַרְגּוֹל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerramento do Perek Vav: sai-se com ovo de gafanhoto, dente de raposa e prego do enforcado por cura, segundo Rabi Meir; os Sábios proíbem mesmo em dia de semana, por caminhos do emorreu

A mulher ou o homem sai no Shabat com ovo de gafanhoto, e com dente de raposa, e com prego do homem crucificadopendurados no corpopor motivo de curao ovo de gafanhoto pendurado no ouvido cura sua dor; o dente de raposa serve tanto para quem dorme demais quanto para quem sofre de insônia, conforme o tipo de dente usado; o prego retirado de uma execução por enforcamento, pendurado no pescoço, cura a febre terçãpalavras de Rabi Meir. E os Sábios dizem: mesmo em dia de semana é proibido usar estes remédios, por serem caminhos do emorreu — crenças supersticiosas e costumes dos povos gentios, dos quais é preciso se distanciar.

יוֹצְאִין בְּבֵיצַת הַחַרְגּוֹל, וּבְשֵׁן שׁוּעָל, וּבְמַסְמֵר מִן הַצָּלוּב, מִשּׁוּם רְפוּאָה, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, אַף בְּחֹל אָסוּר, מִשּׁוּם דַּרְכֵי הָאֱמוֹרִי:

Fontes da Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A última Mishná do Perek Vav encerra o tema do vestir e do carregar com uma disputa que ultrapassa a hilchot Shabat: até que ponto remédios populares, herdados de práticas gentias, são compatíveis com a fé de Israel.

Vayikrá (Levítico) 18:3
כְּמַעֲשֵׂה אֶרֶץ מִצְרַיִם אֲשֶׁר יְשַׁבְתֶּם בָּהּ לֹא תַעֲשׂוּ, וּכְמַעֲשֵׂה אֶרֶץ כְּנַעַן אֲשֶׁר אֲנִי מֵבִיא אֶתְכֶם שָׁמָּה לֹא תַעֲשׂוּ, וּבְחֻקֹּתֵיהֶם לֹא תֵלֵכוּ
"Como se faz na terra do Egito, onde habitastes, não fareis; e como se faz na terra de Canaã, para onde vos levo, não fareis; e em seus costumes não andareis."

Por que esta Mishná gira em torno deste versículo. A proibição de "caminhos do emorreu" é derivada deste versículo, que probe seguir os costumes das nações — especialmente aqueles fundados em superstição e magia, sem base racional ou eficácia comprovada. A disputa entre Rabi Meir e os Sábios não é, no fundo, sobre o Shabat, mas sobre o status desses três remédios populares: Rabi Meir os classifica como medicina legítima — e portanto permitidos mesmo no domínio público em Shabat, como qualquer outro remédio — enquanto os Sábios os classificam como superstição pura, proibida em qualquer dia da semana por violar "em seus costumes não andareis". A halachá, notavelmente, não segue nenhum dos dois extremos de forma simples, mas estabelece o princípio de que tudo que tem eficácia médica comprovada — ainda que pareça estranho — não é considerado caminho do emorreu.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como esta Mishná foi codificada em lei prática pelo Rambam — o princípio geral de que remédio comprovado não é caminho do emorreu, encerrando o Perek Vav.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Avodá Zará 11:11
כָּל דָּבָר שֶׁעוֹשִׂין אוֹתוֹ מִשּׁוּם רְפוּאָה וְנִסָּה בְּנִסָּיוֹן, אֵין בּוֹ מִשּׁוּם דַּרְכֵי הָאֱמוֹרִי, אֶלָּא אֲפִלּוּ נֶאֱמַר עַל דֶּרֶךְ סְגֻלָּה.
Toda coisa que se faz por motivo de cura, e foi testada por experiência, não tem nela caminhos do emorreu — mesmo que seja dita por via de virtude tradicional.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 19:14
וְכֵן כָּל שֶׁיֵּשׁ בּוֹ מִשּׁוּם רְפוּאָה אֵין בּוֹ מִשּׁוּם דַּרְכֵי הָאֱמוֹרִי, וְעַל זֶה סָמְכוּ לוֹמַר שֶׁהֲלָכָה כְּרַבִּי מֵאִיר בִּדְבָרִים אֵלּוּ.
E assim, tudo que tem nele motivo de cura não tem caminhos do emorreu; e nisso se apoiaram para dizer que a halachá segue Rabi Meir nestas matérias.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

O que os grandes comentadores dizem sobre a função específica de cada um dos três remédios, e o princípio final que resolve a disputa entre Rabi Meir e os Sábios.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 6:10
חרגול מין חגב את החרגול למינהו וזה יועיל לחולשת עצבי הירכים בסגלה: ושן של שועל יעשה לשינה ומי שיקח שן של שועל חי ויתלה אותו על מי שארך שנתו תקיצו ואם לוקח משועל מת יעשה להפך וכמו כן יזמו בעלי סגלות כי כשיוקח מסמר מעץ הצלוב ויתלה אותו על גרגרת מי שיש בו קדחת שלישית יועיל לו. והלכה כרבי יוסי כי העיקר אצלנו כל שיש בו משום רפואה אין בו משום דרכי האמורי ועל זה לא אמר הכתוב ולא תלכו בחקות הגוים.

Chargol é um tipo de gafanhoto, como está escrito: "o gafanhoto conforme sua espécie" (Vayikrá 11:22); e este ovo ajuda contra a fraqueza dos nervos das coxas, por virtude tradicional.

E o dente de raposa se usa para o sono: quem toma um dente de raposa viva e o pendura sobre quem dorme demais, o desperta; e se toma o dente de uma raposa morta, faz o contrário — induz o sono em quem sofre de insônia. E assim, da mesma forma, ensinaram os detentores de virtudes tradicionais: que quando se toma um prego da madeira do enforcado e se pendura sobre o pescoço de quem tem febre terçã, ajuda-o.

E a halachá segue Rabi Yossi [ou seja, os Sábios, na maioria das versões], pois o princípio para nós é que tudo que tem nele motivo de cura não tem nele caminhos do emorreu; e por isso a Escritura não disse "e não andareis nos costumes das nações" de forma absoluta, mas apenas quanto aos costumes desprovidos de fundamento.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 6:10
החרגול. מין חגב, כדכתיב את החרגול למינהו, ותולין אותו באזן ומרפאים בו כאב האזן: ובשן של שועל. דעבדי לשינתא. למאן דנים להקיצו, תולין עליו שן של שועל חי. ולמאן דלא נים כדי שיישן, תולין עליו שן של שועל מת: ובמסמר הצלוב. מסמר שבעץ התלוי, אם יניחוהו על נפח שבמכה יסיר הנפח. ורמב"ם פירש שמשימין אותו בצואר מי שיש לו קדחת שלישית וירפאנו: ורבי מאיר אומר אף בחל אסור. ואין הלכה כרבי מאיר, דקימא לן כל דבר שיש בו משום רפואה אין בו משום דרכי האמורי, ולא קרינן בהו ובחקתיהם לא תלכו.

"O chargol": um tipo de gafanhoto, como está escrito: "o gafanhoto conforme sua espécie"; e o penduram na orelha, e curam com ele a dor de ouvido.

"E com dente de raposa": pois servem para questões de sono. Para quem dorme demais, para despertá-lo, penduram sobre ele um dente de raposa viva; e para quem não dorme, para que durma, penduram sobre ele um dente de raposa morta.

"E com o prego do enforcado": prego que estava na madeira do enforcado; se o colocarem sobre um inchaço na ferida, removerá o inchaço. E o Rambam explicou que o colocam no pescoço de quem tem febre terçã, e o cura.

"E Rabi Meir diz: mesmo em dia de semana é proibido": e a halachá não segue Rabi Meir, pois estabelecemos que tudo que tem nele motivo de cura não tem nele caminhos do emorreu, e não se aplica a eles o versículo "e em seus costumes não andareis".

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 67a
מתני' דרכי האמורי - ניחוש הוא וכתיב ובחקתיהם לא תלכו.

"Nossa Mishná: 'caminhos do emorreu'" — estes remédios, quando desprovidos de eficácia comprovada, constituem superstição, e sobre eles está escrito: "e em seus costumes não andareis" (Vayikrá 18:3) — encerrando assim o Perek Vav com o princípio que distingue medicina legítima de crença vã, tema que retornará ao longo do tratado.