Rabi Eliezer diz: se não trouxe o instrumento na véspera de Shabat — referindo-se ao bisturi usado para circuncidar o bebê — traz-o em Shabat descoberto — abertamente, à vista de todos, para que se saiba que se trata de um preceito, e não de um transporte proibido comum — mas em tempo de perigo, cobre-o diante de testemunhas — quando as autoridades decretaram perseguição contra a prática da circuncisão, cobre-se o instrumento para não ser notado, mas na presença de testemunhas que possam atestar, se necessário, que se trata de um bisturi de preceito e não de objeto pessoal — e disse ainda Rabi Eliezer: corta-se lenha para fazer carvão — o carvão necessário para forjar a ferramenta — e para fazer uma ferramenta de ferro — ou seja, o próprio bisturi da circuncisão, caso não haja outro pronto — Rabi Akiva estabeleceu um princípio: toda obra que é possível fazer na véspera de Shabat não afasta o Shabat — como os preparativos da circuncisão, que podem ser feitos com antecedência e por isso não justificam violar o Shabat — e a que não é possível fazer na véspera de Shabat afasta o Shabat — como a própria circuncisão, cujo tempo fixo é exatamente o oitavo dia, e que por isso, quando esse dia cai em Shabat, tem prioridade sobre ele.
O Perek Yud-Tet é dedicado inteiramente às leis do brit milá (circuncisão) quando seu oitavo dia cai em Shabat — retomando a menção breve com que se encerrou o capítulo anterior. A primeira mishná estabelece o princípio geral que rege todo o capítulo: a circuncisão em si, cujo momento fixo é o oitavo dia, afasta o Shabat; mas os preparativos que poderiam ter sido feitos antes não o fazem.
"No oitavo dia" — dia fixo, mesmo que caia em Shabat. A Torá fixa o oitavo dia de vida como o momento da circuncisão, sem exceção para o Shabat. Os sábios (Rambam, Hilchot Milá 1:9) ensinam que a circuncisão em seu devido tempo — o oitavo dia — afasta o Shabat, mas a circuncisão fora de seu devido tempo (por exemplo, adiada por doença) não afasta nem o Shabat nem o Yom Tov. É exatamente essa diferença entre "o que tem tempo fixo, que não pode ser antecipado" e "o que pode ser preparado com antecedência" que Rabi Akiva formula como princípio geral nesta mishná, e que orienta todo o restante do capítulo: os preparativos da milá (bisturi, curativos, vinho e azeite) devem, sempre que possível, ser deixados prontos antes do Shabat; apenas o ato da circuncisão propriamente dito, e o que dele decorre imediatamente, tem licença para ocorrer no dia sagrado.
Como o Rambam codifica, em Hilchot Milá, o princípio de que a circuncisão em seu tempo devido afasta o Shabat, e a exigência de realizá-la apenas de dia.
Os comentadores explicam por que se traz o bisturi descoberto, o cuidado em tempo de perseguição, e o princípio de Rabi Akiva que estrutura todo o capítulo.
"Rabi Eliezer diz: se não trouxe o instrumento na véspera de Shabat..." — por isso se traz descoberto, para tornar o preceito querido. E se cobre, em tempo de perigo, diante de testemunhas, para que não o suspeitem de estar profanando o Shabat.
E quando pecou negligenciando o bisturi, traz-o em Shabat — mas pelo caminho dos telhados. E Rabi Eliezer permite trazê-lo pelo domínio público, mas a halachá não segue essa opinião, pois o princípio que estabeleceu Rabi Akiva é verdadeiro: a circuncisão não pode ser feita na véspera de Shabat, porque seu preceito é, em todo caso, no oitavo dia.
"Rabi Eliezer diz: se não trouxe o instrumento" — o bisturi para circuncidar o bebê. "Traz-o em Shabat descoberto" — para dar a conhecer que este preceito é querido, a ponto de se violar por ele o Shabat.
"Mas em tempo de perigo" — quando decretaram perseguição contra a circuncisão. "Cobre-o diante de testemunhas" — para que testemunhem que traz um bisturi de preceito, e não o suspeitem de estar carregando outros objetos.
"E para fazer uma ferramenta de ferro" — a fim de fazer um bisturi para a circuncisão. "Toda obra que é possível fazer na véspera de Shabat" — como os preparativos da circuncisão: já que é possível fazê-los na véspera de Shabat, não afastam o Shabat — e isso discorda de Rabi Eliezer.
"E a que não é possível fazer na véspera de Shabat" — como a própria circuncisão, que não pode ser feita antes, pois seu tempo é o oitavo dia — essa afasta o Shabat. E a halachá segue Rabi Akiva.
Na mishná: "Rabi Eliezer diz: se não trouxe o instrumento" — o bisturi para circuncidar o bebê; e isso se conecta à mishná do capítulo anterior, que terminou dizendo "e fazem-se em Shabat todas as necessidades da circuncisão".
"Descoberto" — diante de todos; e na Guemará se explica por que se exige trazê-lo descoberto.
"Mas em tempo de perigo" — quando os arameus (romanos) decretaram perseguição contra a circuncisão. "Cobre-o diante de testemunhas" — para que testemunhem que traz um bisturi de preceito, e não o suspeitem.