Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud-Chet · Mishná 1

Esvaziar o celeiro para hóspedes ou para a casa de estudo

מְפַנִּין אֲפִלּוּ אַרְבַּע וְחָמֵשׁ קֻפּוֹת שֶׁל תֶּבֶן
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Esvazia-se até quatro ou cinco cestas de palha ou de grãos por causa de hóspedes ou por causa da interrupção da casa de estudo, mas não o celeiro. Transfere-se a teruma pura, o demai, o primeiro dízimo do qual já foi tirada a teruma, o segundo dízimo e o consagrado que foram resgatados, e o tremoço seco, porque é alimento para os pobres. Mas não se transfere o tevel, nem o primeiro dízimo do qual não foi tirada a teruma, nem o segundo dízimo e o consagrado que não foram resgatados, nem o luf, nem a mostarda. Rabán Shimon ben Gamliel permite o luf, porque é alimento para corvos.

Esvazia-se até quatro ou cinco cestas de palha ou de grãosa expressão "até quatro ou cinco" não é um limite exato, mas uma forma de dizer "mesmo em boa quantidade", pois se necessário pode-se esvaziar ainda mais — por causa de hóspedes ou por causa da interrupção da casa de estudoquando é preciso liberar o espaço para acomodar convidados numa refeição ou alunos que vieram ouvir uma explicação — mas não o celeiroou seja, é permitido esvaziar parte do celeiro para essas finalidades, contanto que não se conclua o esvaziamento total até chegar ao piso, pois isso poderia levar a nivelar os buracos do chão, uma obra proibida no Shabat — transfere-se a teruma puramesmo por um israelita comum, a quem não é permitido comê-la, pois, sendo própria para o cohen, tem estatuto de alimento útil — o demaiproduto sobre o qual paira a dúvida se os dízimos foram separados, que pode ser dado de comer aos pobres — o primeiro dízimo do qual já foi tirada a teruma, o segundo dízimo e o consagrado que foram resgatadosmesmo que o proprietário tenha pago apenas o valor principal do resgate e ainda deva o quinto adicional, o produto já está liberado para uso e transporte — e o tremoço seco, porque é alimento para os pobreso tremoço cru é amargo demais para se comer sem preparo prévio, mas depois de seco e cozido torna-se alimento aceitável mesmo para pessoas necessitadas, e por isso mantém o estatuto de utensílio útil — mas não se transfere o tevelproduto do qual certamente ainda não foram separadas as porções sagradas, sequer as instituídas apenas por decreto rabínico, como o que foi plantado num vaso sem furo — nem o primeiro dízimo do qual não foi tirada a teruma, nem o segundo dízimo e o consagrado que não foram resgatadospois enquanto essas porções sagradas não forem devidamente separadas ou resgatadas, o produto continua proibido tanto para consumo quanto para transporte — nem o luf, nem a mostardaplantas que, cruas, não servem de alimento nem para pessoas nem para a maioria dos animais domésticos comuns, e por isso permanecem muktzê Rabán Shimon ben Gamliel permite o luf, porque é alimento para corvosele considera que, sendo o luf usado por pessoas abastadas para alimentar corvos que criam por prestígio, isso já lhe confere o estatuto de utensílio útil; mas a halachá não segue sua opinião.

מְפַנִּין אֲפִלּוּ אַרְבַּע וְחָמֵשׁ קֻפּוֹת שֶׁל תֶּבֶן וְשֶׁל תְּבוּאָה מִפְּנֵי הָאוֹרְחִים וּמִפְּנֵי בִטּוּל בֵּית הַמִּדְרָשׁ, אֲבָל לֹא אֶת הָאוֹצָר. מְפַנִּין תְּרוּמָה טְהוֹרָה, וּדְמַאי, וּמַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן שֶׁנִּטְּלָה תְרוּמָתוֹ, וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְהֶקְדֵּשׁ שֶׁנִּפְדּוּ, וְהַתֻּרְמוֹס הַיָּבֵשׁ, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכָל לַעֲנִיִּים. אֲבָל לֹא אֶת הַטֶּבֶל, וְלֹא מַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן שֶׁלֹּא נִטְּלָה תְרוּמָתוֹ, וְלֹא אֶת מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְהֶקְדֵּשׁ שֶׁלֹּא נִפְדּוּ, וְלֹא אֶת הַלּוּף, וְלֹא הַחַרְדָּל. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל מַתִּיר בְּלוּף, מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכַל עוֹרְבִין:

Abertura do Perek Yud-Chet · פְּתִיחַת הַפֶּרֶק

O novo capítulo abre com um caso especial dentro das leis de muktzê: em benefício de hóspedes ou do estudo da Torá, permite-se esvaziar em parte um celeiro cheio de palha ou grãos, ainda que isso implique mover uma quantidade considerável de produtos — desde que não se conclua o esvaziamento total, e desde que os produtos movidos tenham, eles próprios, estatuto de alimento permitido.

Shemot 20:9-10
שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבֹד וְעָשִׂיתָ כָּל מְלַאכְתֶּךָ׃ וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַיהוָה אֱלֹהֶיךָ, לֹא תַעֲשֶׂה כָל מְלָאכָה אַתָּה וּבִנְךָ וּבִתֶּךָ עַבְדְּךָ וַאֲמָתְךָ וּבְהֶמְתְּךָ וְגֵרְךָ אֲשֶׁר בִּשְׁעָרֶיךָ׃
Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra; mas o sétimo dia é Shabat para Hashem, teu D-us; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem teu estrangeiro que está em tuas portas.

Por que se permite esvaziar o celeiro em parte. A Guemará (Shabat 126b) explica que o essencial da proibição de mover terra e produtos amontoados decorre do receio de que, ao esvaziar completamente um espaço, a pessoa acabe nivelando os buracos do piso — uma forma de construção, proibida por ser semelhante à lavra do chão. Por isso, mesmo quando há necessidade real, como acomodar hóspedes ou não interromper o estudo da Torá, permite-se apenas o esvaziamento parcial, com cada pessoa carregando algumas cestas, e caminhando pelo espaço de modo natural, sem nivelar deliberadamente o solo. Já a lista dos produtos que podem ou não ser transferidos decorre de um princípio diferente: só se pode mover aquilo que tem estatuto de alimento permitido — pronto para consumo humano ou, ao menos, para os pobres — enquanto o que ainda está preso por obrigações não cumpridas de teruma e dízimos, ou é intrinsecamente impróprio para consumo, permanece muktzê.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica a lei de esvaziar o celeiro e a lista de alimentos permitidos e proibidos para transporte, em Hilchot Shabat, capítulo vinte e seis.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 26:15
אוֹצָר שֶׁל תְּבוּאָה אוֹ שֶׁל כַּדֵּי יַיִן אַף עַל פִּי שֶׁמֻּתָּר לְהִסְתַּפֵּק מִמֶּנּוּ אָסוּר לְהַתְחִיל בּוֹ לְפַנּוֹתוֹ אֶלָּא לִדְבַר מִצְוָה כְּגוֹן שֶׁפִּנָּהוּ לְהַכְנָסַת אוֹרְחִין אוֹ לִקְבֹּעַ בּוֹ בֵּית הַמִּדְרָשׁ וְכֵיצַד מְפַנִּין אוֹתוֹ. כָּל אֶחָד וְאֶחָד מְמַלֵּא אַרְבַּע אוֹ חָמֵשׁ קֻפּוֹת עַד שֶׁגּוֹמְרִין. וְלֹא יְכַבְּדוּ קַרְקָעִיתוֹ שֶׁל אוֹצָר כְּמוֹ שֶׁבֵּאַרְנוּ אֶלָּא נִכְנָס וְיוֹצֵא בּוֹ וְעוֹשֶׂה שְׁבִיל בְּרַגְלָיו בִּכְנִיסָתוֹ וּבִיצִיאָתוֹ.
Um celeiro de grãos ou de barris de vinho — embora seja permitido servir-se dele — é proibido começar a esvaziá-lo, a menos que seja por motivo de mitsvá, como esvaziá-lo para acomodar hóspedes ou para estabelecer nele a casa de estudo. E como se esvazia? Cada pessoa enche quatro ou cinco cestas, até que todos terminem. E não se deve nivelar o piso do celeiro, como já explicamos, mas apenas entrar e sair, formando um caminho com os próprios pés ao entrar e ao sair.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 26:16
כָּל שֶׁהוּא רָאוּי לְמַאֲכַל בְּהֵמָה וְחַיָּה וְעוֹף הַמְּצוּיִין מְטַלְטְלִין אוֹתוֹ בְּשַׁבָּת. כֵּיצַד. מְטַלְטְלִין אֶת הַתֻּרְמוֹס הַיָּבֵשׁ מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכָל לְעִזִּים אֲבָל לֹא אֶת הַלַּח. אֶת הֶחָצָב מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכָל לִצְבָאִים. אֶת הַחַרְדָּל מִפְּנֵי שֶׁהוּא מַאֲכָל לְיוֹנִים.
Tudo que serve de alimento para animais domésticos, feras e aves comuns pode ser transferido no Shabat. Como assim? Transfere-se o tremoço seco, porque é alimento para cabras, mas não o úmido; a raiz de esquilha, porque é alimento para gazelas; a mostarda, porque é alimento para pombas.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam por que se limita o esvaziamento do celeiro, e detalham a lista de produtos agrícolas permitidos e proibidos para transporte no Shabat.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 18:1
מפנין מלה עברית מן פניתי הבית ואמרו אפי' ד' וה' על דרך הרבוי כאילו אמר אפי' מנין גדול ובתנאי שלא יפנה אותו האוצר כולו עד שלא יניח שם שום דבר וזהו ענין אמרו אבל לא את האוצר והטעם בזה כי קרקע האוצר חפור וחרב ונחוש שמא ישוה קרקעו בידו והוא אמרם דילמא אתי לאשוויי גומות ולא התירו זה אלא לדבר מצוה כמו שהמשיל מפני האורחין ומפני בטול בה"מ. והתירו טלטול התרומה ואפי' היה ישראל כיון שהיא ראויה לכהן ובתנאי שתהיה תרומה טהורה שתהיה ראויה לאכילה וכמו כן הדמאי הוא ראוי לעניים. ולוף מין ממיני הבצלים בלי ספק. ואין הלכה כרבן שמעון בן גמליאל.

"Esvazia-se" — palavra hebraica derivada de "esvaziei a casa" (Bereshit 24:31). E disseram "até quatro ou cinco" como forma de exagero, como se dissessem "mesmo em grande número", com a condição de que não se esvazie o celeiro inteiro, sem deixar ali nada. É este o sentido de "mas não o celeiro": o piso do celeiro é escavado e vazio, e há receio de que a pessoa acabe nivelando-o com sua própria mão — o que é dito na Guemará como "não venha a nivelar buracos". E isso só foi permitido por motivo de mitsvá, como exemplificado por causa de hóspedes ou da interrupção da casa de estudo.

E permitiram transportar a teruma mesmo sendo o dono um israelita, já que ela é própria para o cohen; e desde que seja teruma pura, própria para consumo. E do mesmo modo o demai é próprio para os pobres.

E o luf é, sem dúvida, uma espécie de bulbo. E a halachá não segue Rabán Shimon ben Gamliel.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 18:1
אַרְבַּע וְחָמֵשׁ. לָאו דַּוְקָא, דְּאִי בָּעֵי אֲפִלּוּ טוּבָא נַמִּי. אֲבָל לֹא אֶת הָאוֹצָר. כְּלוֹמַר וּבִלְבַד שֶׁלֹּא יִגְמֹר אֶת הָאוֹצָר כֻּלּוֹ עַד שֶׁיַּגִּיעַ לְקַרְקָעִיתוֹ, דִּלְמָא אָתֵי לְאַשְׁווֹיֵי גֻּמּוֹת. וּדְמַאי. דְּחָזֵי לַעֲנִיִּים, כְּדִתְנָן מַאֲכִילִין אֶת הָעֲנִיִּים דְּמַאי. לוּף. מִין קִטְנִית שֶׁאֵינוֹ רָאוּי חַי אֲפִלּוּ לִבְהֵמָה. וְרַמְבַּ"ם פֵּרֵשׁ מִין מִמִּינֵי הַבְּצָלִים. לְעוֹרְבִין. כְּגוֹן עֲשִׁירִים שֶׁמְּגַדְּלִים עוֹרְבִים לִגְדֻלָּה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל.

"Quatro e cinco" — não é exato, pois, se quiser, pode esvaziar até mais.

"Mas não o celeiro" — ou seja, contanto que não termine de esvaziar o celeiro inteiro até chegar ao piso, pois talvez venha a nivelar os buracos.

"E demai" — que é próprio para os pobres, como ensinamos: dá-se aos pobres o demai para comer.

"Luf" — uma espécie de leguminosa que, crua, não serve nem mesmo para animais. E o Rambam explicou que é uma espécie de bulbo.

"Para corvos" — como os ricos que criam corvos por prestígio. E a halachá não segue Rabán Shimon ben Gamliel.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 126b
שיש להן בית אחיזה - בית יד: ה"ג ואמר רב יהודה והוא שיש תורת כלי עליהן - שהכיסוי ראוי לתשמיש עצמו הוא דניטלין בשבת ואם אין תורת כלי עליו לא אמרינן כיסוי כלי הוה כלי ודלתות שידה תיבה ומגדל דתנא מתני' נוטלין יש תורת כלי עליהן דראויין לישב עליהן ולתת עליהן מזונות לקטן.

Rashi, ao chegar a este ponto do daf 126b da Guemará, comenta a mishná anterior sobre tampas de utensílios e o princípio de que só se movem no Shabat objetos que tenham "estatuto de utensílio" — isto é, que sejam próprios para algum uso. Esse mesmo princípio, explica ele, sustenta a regra geral por trás da mishná de abertura deste capítulo: um item só pode ser transferido no Shabat quando serve, de fato, a algum propósito útil, seja alimentar seja de outra natureza — nunca por si mesmo, como simples matéria bruta.