Esvazia-se até quatro ou cinco cestas de palha ou de grãos — a expressão "até quatro ou cinco" não é um limite exato, mas uma forma de dizer "mesmo em boa quantidade", pois se necessário pode-se esvaziar ainda mais — por causa de hóspedes ou por causa da interrupção da casa de estudo — quando é preciso liberar o espaço para acomodar convidados numa refeição ou alunos que vieram ouvir uma explicação — mas não o celeiro — ou seja, é permitido esvaziar parte do celeiro para essas finalidades, contanto que não se conclua o esvaziamento total até chegar ao piso, pois isso poderia levar a nivelar os buracos do chão, uma obra proibida no Shabat — transfere-se a teruma pura — mesmo por um israelita comum, a quem não é permitido comê-la, pois, sendo própria para o cohen, tem estatuto de alimento útil — o demai — produto sobre o qual paira a dúvida se os dízimos foram separados, que pode ser dado de comer aos pobres — o primeiro dízimo do qual já foi tirada a teruma, o segundo dízimo e o consagrado que foram resgatados — mesmo que o proprietário tenha pago apenas o valor principal do resgate e ainda deva o quinto adicional, o produto já está liberado para uso e transporte — e o tremoço seco, porque é alimento para os pobres — o tremoço cru é amargo demais para se comer sem preparo prévio, mas depois de seco e cozido torna-se alimento aceitável mesmo para pessoas necessitadas, e por isso mantém o estatuto de utensílio útil — mas não se transfere o tevel — produto do qual certamente ainda não foram separadas as porções sagradas, sequer as instituídas apenas por decreto rabínico, como o que foi plantado num vaso sem furo — nem o primeiro dízimo do qual não foi tirada a teruma, nem o segundo dízimo e o consagrado que não foram resgatados — pois enquanto essas porções sagradas não forem devidamente separadas ou resgatadas, o produto continua proibido tanto para consumo quanto para transporte — nem o luf, nem a mostarda — plantas que, cruas, não servem de alimento nem para pessoas nem para a maioria dos animais domésticos comuns, e por isso permanecem muktzê — Rabán Shimon ben Gamliel permite o luf, porque é alimento para corvos — ele considera que, sendo o luf usado por pessoas abastadas para alimentar corvos que criam por prestígio, isso já lhe confere o estatuto de utensílio útil; mas a halachá não segue sua opinião.
O novo capítulo abre com um caso especial dentro das leis de muktzê: em benefício de hóspedes ou do estudo da Torá, permite-se esvaziar em parte um celeiro cheio de palha ou grãos, ainda que isso implique mover uma quantidade considerável de produtos — desde que não se conclua o esvaziamento total, e desde que os produtos movidos tenham, eles próprios, estatuto de alimento permitido.
Por que se permite esvaziar o celeiro em parte. A Guemará (Shabat 126b) explica que o essencial da proibição de mover terra e produtos amontoados decorre do receio de que, ao esvaziar completamente um espaço, a pessoa acabe nivelando os buracos do piso — uma forma de construção, proibida por ser semelhante à lavra do chão. Por isso, mesmo quando há necessidade real, como acomodar hóspedes ou não interromper o estudo da Torá, permite-se apenas o esvaziamento parcial, com cada pessoa carregando algumas cestas, e caminhando pelo espaço de modo natural, sem nivelar deliberadamente o solo. Já a lista dos produtos que podem ou não ser transferidos decorre de um princípio diferente: só se pode mover aquilo que tem estatuto de alimento permitido — pronto para consumo humano ou, ao menos, para os pobres — enquanto o que ainda está preso por obrigações não cumpridas de teruma e dízimos, ou é intrinsecamente impróprio para consumo, permanece muktzê.
Como o Rambam codifica a lei de esvaziar o celeiro e a lista de alimentos permitidos e proibidos para transporte, em Hilchot Shabat, capítulo vinte e seis.
Os comentadores explicam por que se limita o esvaziamento do celeiro, e detalham a lista de produtos agrícolas permitidos e proibidos para transporte no Shabat.
"Esvazia-se" — palavra hebraica derivada de "esvaziei a casa" (Bereshit 24:31). E disseram "até quatro ou cinco" como forma de exagero, como se dissessem "mesmo em grande número", com a condição de que não se esvazie o celeiro inteiro, sem deixar ali nada. É este o sentido de "mas não o celeiro": o piso do celeiro é escavado e vazio, e há receio de que a pessoa acabe nivelando-o com sua própria mão — o que é dito na Guemará como "não venha a nivelar buracos". E isso só foi permitido por motivo de mitsvá, como exemplificado por causa de hóspedes ou da interrupção da casa de estudo.
E permitiram transportar a teruma mesmo sendo o dono um israelita, já que ela é própria para o cohen; e desde que seja teruma pura, própria para consumo. E do mesmo modo o demai é próprio para os pobres.
E o luf é, sem dúvida, uma espécie de bulbo. E a halachá não segue Rabán Shimon ben Gamliel.
"Quatro e cinco" — não é exato, pois, se quiser, pode esvaziar até mais.
"Mas não o celeiro" — ou seja, contanto que não termine de esvaziar o celeiro inteiro até chegar ao piso, pois talvez venha a nivelar os buracos.
"E demai" — que é próprio para os pobres, como ensinamos: dá-se aos pobres o demai para comer.
"Luf" — uma espécie de leguminosa que, crua, não serve nem mesmo para animais. E o Rambam explicou que é uma espécie de bulbo.
"Para corvos" — como os ricos que criam corvos por prestígio. E a halachá não segue Rabán Shimon ben Gamliel.
Rashi, ao chegar a este ponto do daf 126b da Guemará, comenta a mishná anterior sobre tampas de utensílios e o princípio de que só se movem no Shabat objetos que tenham "estatuto de utensílio" — isto é, que sejam próprios para algum uso. Esse mesmo princípio, explica ele, sustenta a regra geral por trás da mishná de abertura deste capítulo: um item só pode ser transferido no Shabat quando serve, de fato, a algum propósito útil, seja alimentar seja de outra natureza — nunca por si mesmo, como simples matéria bruta.