A cana de oliveiras — uma vareta usada para verificar as azeitonas prensadas no monte, se seu óleo já se acumulou o suficiente para serem levadas ao lagar — se há um nó em sua ponta — uma espécie de tampa formada na extremidade da cana — recebe impureza ritual — pois o nó forma uma pequena cavidade que retém um pouco do óleo que escorre das azeitonas, dando à cana o estatuto de recipiente (beit kibul), e todo utensílio com capacidade de recipiente está sujeito à impureza ritual — e, se não — não tem esse nó — não recebe impureza ritual — pois, mesmo sendo oca por dentro, sua cavidade não foi feita para reter nada, tornando-a um simples "utensílio de madeira liso" (peshutei chlei etz), categoria isenta de impureza ritual. De qualquer modo, move-se no Shabat — tanto com nó quanto sem nó, pois em ambos os casos é um verdadeiro utensílio, feito com a finalidade específica de revirar e verificar as azeitonas.
Embora a discussão sobre impureza ritual (tumá) não tenha relação direta com o Shabat, a mishná a insere aqui para ensinar que a definição de "utensílio" para efeitos de tiltul no Shabat é mais ampla do que a definição de "utensílio" para efeitos de receber impureza: mesmo o objeto que não é recipiente algum continua sendo um utensílio genuíno, com finalidade de uso, e por isso pode ser movido no Shabat.
Por que a mishná insere aqui a lei de impureza ritual. A Guemará (Shabat 123b) explica que a mishná ensina o caso da cana de oliveiras precisamente aqui, no meio das leis de tiltul, para esclarecer um ponto que poderia gerar confusão: como "utensílio de madeira liso" (sem cavidade de recipiente) não recebe impureza ritual pela lei da Torá, alguém poderia pensar que também não teria o estatuto de utensílio para fins de Shabat — mas a mishná ensina que essas são categorias independentes: mesmo sendo "liso" e imune à impureza, continua sendo um utensílio de uso genuíno, e por isso se move livremente no Shabat.
Como o Rambam codifica o princípio geral de que todo utensílio de função permitida se move no Shabat, independente de seu estatuto quanto à impureza ritual, em Hilchot Shabat, capítulo vinte e cinco.
Os comentadores explicam a função da cana de oliveiras e a razão pela qual o nó em sua ponta determina seu estatuto quanto à impureza ritual.
"A cana de oliveiras — se há um nó em sua ponta, recebe impureza ritual etc." — fazem uma vareta para bater com ela as azeitonas, e reviram com ela as azeitonas quando estão no lagar; e fazem na ponta de algumas dessas varetas algo como uma bolota redonda ou um nó. E, quando revira com ela as azeitonas, ergue a vareta e olha para essa bolota, se há nela oleosidade ou não; e ela se assemelha a um utensílio de recipiente, e por isso torna-se impura.
"A cana de oliveiras" — cana feita para verificar as azeitonas no monte de prensagem, se seu óleo já se acumulou dentro dela e chegaram a ficar próprias para o lagar.
"Se há um nó em sua ponta" — como uma espécie de tampa na cana, recebe impureza ritual, porque, por estar tapada com o nó, permanece nela um pouco do óleo que escorre das azeitonas, e com isso se verifica se já chegou o momento de prensar; e ela tem o estatuto de recipiente.
"E, se não" — não tem nó — embora seja oca, sua cavidade não foi feita para reter nada; por isso tem o estatuto de "utensílio de madeira liso" e não recebe impureza ritual.
"De qualquer modo, move-se no Shabat" — pois é um utensílio, feito para revirar com ele as azeitonas.
"A cana de oliveiras" — com que se revira as azeitonas no lagar, para que não apodreçam.
"Se há um nó em sua ponta" — como uma espécie de cavidade para reter óleo, para verificar se chegou o momento do lagar.
"Recebe impureza ritual" — porque tem capacidade de recipiente.
"De qualquer modo, move-se no Shabat" — pois é um utensílio.
Transição para o próximo tema. Depois de estabelecer, com a cana de oliveiras, que a definição de utensílio para o Shabat é independente da definição de utensílio para impureza ritual, a mishná seguinte trará a opinião de Rabi Yossi sobre quais ferramentas ficam de fora da regra geral de que "todos os utensílios se movem no Shabat" — introduzindo a categoria de muktzê por causa do alto valor econômico do objeto.