Todos os utensílios se movem no Shabat — utensílios que têm portas, como um armário, uma caixa ou um baú — e suas portas com eles — as portas próprias desses utensílios se movem junto com o próprio utensílio — mesmo que tenham se soltado no Shabat — ainda que as portas tenham se desprendido do utensílio no próprio dia de Shabat, continuam sendo movidas junto com ele, pois já eram parte do utensílio antes do Shabat. Pois não se assemelham às portas da casa — que, mesmo tendo se soltado no Shabat, não podem ser movidas — porque não fazem parte do que foi preparado — as portas da casa nunca foram destinadas ao uso de serem movidas de um lugar a outro; elas ficam fixas em seu lugar, e por isso não têm o estatuto de utensílio preparado (muchan) para ser deslocado, ao contrário das portas dos utensílios pequenos, que são consideradas parte do próprio utensílio.
O Perek Yud-Zayin abre um novo bloco temático dentro de Massechet Shabat: as leis de muktzê — a categoria de objetos que, por diferentes razões, ficam separados do uso no Shabat e não podem ser movidos, mesmo sem envolver nenhuma melachá propriamente dita. A primeira mishná estabelece o princípio geral: todo utensílio é, em regra, "preparado" (muchan) para ser movido, e suas partes acessórias — como uma porta — herdam esse estatuto, desde que já fossem parte do utensílio antes do início do Shabat.
O que é muktzê. A proibição de tiltul (mover objetos) no Shabat não decorre diretamente do versículo da Torá sobre a melachá, mas é um decreto rabínico — shvut — destinado a preservar o caráter de repouso do dia, evitando que a pessoa trate o Shabat como um dia comum de trabalho e movimentação de ferramentas. A Guemará (Shabat 123a) explica que a razão de a mishná mencionar especificamente "mesmo que tenham se soltado no Shabat" é ensinar um caso não óbvio: poder-se-ia pensar que, como as portas se separaram do utensílio apenas durante o Shabat, elas ainda não tinham, no início do dia, o estatuto de "preparadas" separadamente — mas a mishná esclarece que, por já pertencerem ao utensílio antes do Shabat, continuam com o mesmo estatuto do utensílio principal.
Como o Rambam codifica as leis gerais de muktzê e do movimento de utensílios com suas portas, em Hilchot Shabat, capítulo vinte e cinco.
Os comentadores explicam por que a mishná precisou ensinar especificamente o caso das portas soltas no próprio Shabat, e a diferença entre elas e as portas da casa.
"Todos os utensílios se movem no Shabat, e suas portas com eles etc." — disseram "mesmo que tenham se soltado no Shabat" para ensinar que, mesmo que tenham se soltado durante a própria semana, movem-se no Shabat.
E não se assemelham às portas da casa, que, se se desprenderam, não se movem, mesmo que tenham se desprendido no próprio Shabat — porque não se pensou em movê-las e deslocá-las, e não foram feitas para isso; e este é o sentido do que disseram, "porque não fazem parte do que foi preparado".
"Todos os utensílios" — que têm portas.
"Se movem no Shabat, e suas portas com eles" — e mesmo que as portas tenham se soltado dos utensílios antes do Shabat, movem-se no Shabat junto com os utensílios.
"E não se assemelham às portas da casa" — que, mesmo tendo se soltado no Shabat, não se movem, porque as portas da casa não fazem parte do que foi preparado — ou seja, não foram feitas para serem movidas.
"Mishná: todos os utensílios se movem no Shabat, e suas portas com eles" — todos os utensílios que têm portas, como um armário, uma caixa ou um baú, movem-se no Shabat, e as portas que têm ao lado se movem junto com eles.
"Mesmo que tenham se soltado" — as portas dos utensílios se movem, e não se assemelham às portas da casa, que não se movem, porque as portas da casa não fazem parte do que foi preparado para ser movido, pois não são utensílio; mas estas são utensílio por dependerem do utensílio principal a que pertencem.
Abrindo o tema de muktzê. Com esta mishná se inicia o Perek Yud-Zayin, dedicado às leis de muktzê — objetos separados do uso no Shabat por diversas razões: por não serem utensílios (como pedras e madeira bruta), por terem uma função proibida (como um martelo de ferreiro), ou por serem indignos de uso (como um utensílio quebrado ou sujo). O capítulo prosseguirá detalhando quais ferramentas podem ser usadas para fins diferentes de sua função original, o estatuto de objetos quebrados, e os casos específicos de tampas, pedras e trincos.