Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Tet-Zayin · Mishná 8 (última do perek)

O não-judeu que acendeu a lâmpada, e a rampa do navio

נָכְרִי שֶׁהִדְלִיק אֶת הַנֵּר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Se um não-judeu acendeu a lâmpada, o judeu usufrui de sua luz; mas, se foi em benefício do judeu, é proibido. Se encheu água para dar de beber a seu animal, o judeu dá de beber depois dele; mas, se foi em benefício do judeu, é proibido. Se um não-judeu fez uma rampa para descer por ela, o judeu desce depois dele; mas, se foi em benefício do judeu, é proibido. Ocorreu um caso com Rabán Gamliel e os anciãos, que vinham num navio, e um não-judeu fez uma rampa para descer por ela, e desceram por ela Rabán Gamliel e os anciãos

Se um não-judeu acendeu a lâmpadapor conta própria, para seu próprio uso — o judeu usufrui de sua luzpois, mesmo estando presente e beneficiando-se, o não-judeu agiu por si mesmo, sem instrução — mas, se foi em benefício do judeuacendida a pedido ou para agradar especificamente ao judeu — é proibidousufruir dessa luz no próprio Shabat, ainda que o não-judeu tenha agido por sua própria vontade e não sob ordem explícita. Se encheu água para dar de beber a seu animalde um poço em domínio público — o judeu dá de beber depois delea seu próprio animal, com a mesma água já retirada — mas, se foi em benefício do judeu, é proibidopois aqui há receio de que o não-judeu tire mais água do que precisa, sabendo que beneficiará o judeu. Se um não-judeu fez uma rampauma prancha inclinada de um navio até a terra — para descer por ela, o judeu desce depois deleusando a mesma estrutura construída pelo não-judeu para si — mas, se foi em benefício do judeu, é proibidopela mesma razão anterior. Ocorreu um caso com Rabán Gamliel e os anciãossábios que viajavam juntos — que vinham num navio, e um não-judeu fez uma rampa para descer por elapor sua própria iniciativa — e desceram por ela Rabán Gamliel e os anciãosdemonstrando na prática que a permissão vale mesmo para os maiores sábios, desde que a ação do não-judeu não tenha sido feita especificamente em benefício deles.

נָכְרִי שֶׁהִדְלִיק אֶת הַנֵּר, מִשְׁתַּמֵּשׁ לְאוֹרוֹ יִשְׂרָאֵל, וְאִם בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל, אָסוּר. מִלֵּא מַיִם לְהַשְׁקוֹת בְּהֶמְתּוֹ, מַשְׁקֶה אַחֲרָיו יִשְׂרָאֵל, וְאִם בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל, אָסוּר. עָשָׂה גוֹי כֶּבֶשׁ לֵירֵד בּוֹ, יוֹרֵד אַחֲרָיו יִשְׂרָאֵל, וְאִם בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל, אָסוּר. מַעֲשֶׂה בְרַבָּן גַּמְלִיאֵל וּזְקֵנִים שֶׁהָיוּ בָאִין בִּסְפִינָה, וְעָשָׂה גוֹי כֶּבֶשׁ לֵירֵד בּוֹ, וְיָרְדוּ בוֹ רַבָּן גַּמְלִיאֵל וּזְקֵנִים:

Encerramento do Perek Tet-Zayin · חֲתִימַת הַפֶּרֶק

A mishná final retoma e amplia o princípio de amirá le-nochri visto na mishná 6: o critério decisivo não é apenas se o judeu pediu ao não-judeu, mas se este agiu por conta própria ou em benefício do judeu. O caso de Rabán Gamliel confirma na prática que grandes sábios seguiam essa halachá sem hesitação.

Shemot 20:9-10
שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבֹד וְעָשִׂיתָ כָּל מְלַאכְתֶּךָ׃ וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַיהוָה אֱלֹהֶיךָ, לֹא תַעֲשֶׂה כָל מְלָאכָה אַתָּה וּבִנְךָ וּבִתֶּךָ עַבְדְּךָ וַאֲמָתְךָ וּבְהֶמְתֶּךָ וְגֵרְךָ אֲשֶׁר בִּשְׁעָרֶיךָ׃
Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra; mas o sétimo dia é Shabat para Hashem, teu D-us; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu animal, nem teu estrangeiro que está em tuas portas.

Por que a lâmpada é diferente da água. A Guemará (Shabat 122a) explica a razão de a mishná repetir o mesmo princípio três vezes com exemplos distintos: se ensinasse apenas o caso da lâmpada, poder-se-ia pensar que só ali a permissão vale, pois "uma lâmpada serve para um como serve para cem" — o não-judeu não precisa aumentar o esforço para beneficiar também o judeu. Mas a água tirada de um poço exige receio de que ele tire mais por causa do judeu; por isso repete o caso da água. E, se ensinasse só a água, poder-se-ia pensar que apenas ali se teme o aumento do esforço, mas não na lâmpada; por isso repete ambos. Já a rampa do navio, embora se assemelhe à lâmpada — pois "uma rampa serve para um como serve para cem" — foi ensinada especialmente por causa do caso histórico de Rabán Gamliel e os anciãos, para demonstrar que a prática seguia essa halachá mesmo entre os maiores sábios de Israel.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica a lei do benefício da melachá feita por não-judeu por conta própria, em Hilchot Shabat, capítulo seis.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 6:1
וְאִם עָשָׂה הַנָּכְרִי מְלָאכָה מֵעַצְמוֹ בְּשַׁבָּת בֵּין שֶׁעָשָׂה לְעַצְמוֹ בֵּין שֶׁעָשָׂה בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל מֻתָּר לֵהָנוֹת בְּאוֹתָהּ מְלָאכָה לְאַחַר הַשַּׁבָּת. וְאִם עָשָׂה בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל אָסוּר לוֹ לְיִשְׂרָאֵל שֶׁנַּעֲשֵׂית בִּשְׁבִילוֹ לֵהָנוֹת בְּאוֹתָהּ מְלָאכָה בְּשַׁבָּת עַצְמָהּ:
E, se o não-judeu fez uma melachá por conta própria no Shabat — seja para si mesmo, seja em benefício de um judeu — é permitido beneficiar-se dessa melachá depois do Shabat. Mas, se a fez em benefício de um judeu, é proibido ao judeu para quem foi feita beneficiar-se dessa melachá no próprio Shabat.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 6:3
נָכְרִי שֶׁהִדְלִיק אֶת הַנֵּר מִשְׁתַּמֵּשׁ לְאוֹרוֹ יִשְׂרָאֵל וְאִם בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל הִדְלִיקוֹ אָסוּר לְהִשְׁתַּמֵּשׁ לְאוֹרוֹ עַד מוֹצָאֵי שַׁבָּת. וְכֵן אִם מִלֵּא הַנָּכְרִי מַיִם לְהַשְׁקוֹת בְּהֶמְתּוֹ מַשְׁקֶה אַחֲרָיו יִשְׂרָאֵל אִם עֲדַיִן נִשְׁאַר בַּכְּלִי. וְאִם בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל מִלֵּא אָסוּר. עָשָׂה נָכְרִי כֶּבֶשׁ לֵירֵד בּוֹ מִן הַסְּפִינָה יוֹרֵד אַחֲרָיו יִשְׂרָאֵל וְאִם בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל עֲשָׂאוֹ אָסוּר:
Se um não-judeu acendeu a lâmpada, o judeu usufrui de sua luz; mas, se a acendeu em benefício de um judeu, é proibido usufruir de sua luz até o final do Shabat. E, do mesmo modo, se o não-judeu encheu água para dar de beber a seu animal, o judeu dá de beber depois dele, se ainda restou no recipiente; mas, se encheu em benefício de um judeu, é proibido. Se um não-judeu fez uma rampa para descer dela do navio, o judeu desce depois dele; mas, se a fez em benefício de um judeu, é proibido.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam por que os três exemplos são necessários, e o significado da rampa do navio no caso de Rabán Gamliel.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 16:8
נכרי שהדליק את הנר משתמש לאורו ישראל כו': אילו השמיענו נר בלבד היינו אומרים נר לאחד נר למאה ולפיכך אם הדליק לעצמו משתמש אחריו ישראל אבל מים אפילו מלא לעצמו לא ישקה אחריו ישראל ואילו השמיענו מלא מים היינו אומרים בזה בלבד אם בשביל ישראל אסור כי נחוש שמא ירבה בשאיבת המים בשביל ישראל אבל נר אפי' הדליק בשביל ישראל ובשבילו מותר. ואמרו כבש מקום חלק שיורדין בו ואין מעלות כמו בסולם ולא זכר זה אלא להשמיענו מעשה ר"ג וזקנים ודע כי כשיהיה נכרי וישראל והוא יודעו ומכירו אסור לו להשקות בהמתו אחריו כי מפני הכרתו וידיעתו בו שמא הרבה בשאיבת המים בשבילו ובזה כל מה שאפשר להרבות ולהוסיף עליו יהיה אסור בו זה הענין:

"Se um não-judeu acendeu a lâmpada, o judeu usufrui de sua luz etc." — se nos tivesse ensinado apenas o caso da lâmpada, diríamos: "uma lâmpada serve para um como serve para cem", e por isso, se a acendeu para si mesmo, o judeu usufrui depois dele; mas, quanto à água, mesmo que a tenha enchido para si mesmo, o judeu não daria de beber depois dele.

E, se nos tivesse ensinado apenas o caso da água, diríamos que somente nesse caso, se foi em benefício do judeu, é proibido — porque tememos que ele tire mais água por causa do judeu — mas, quanto à lâmpada, mesmo que a tenha acendido em benefício do judeu, seria permitido, já que também é para si mesmo.

E "rampa" — lugar plano por onde se desce, sem degraus como uma escada; e não a mencionou senão para nos ensinar o caso de Rabán Gamliel e os anciãos.

E sabe que, quando há um não-judeu e um judeu, e aquele o conhece e o reconhece, é proibido dar de beber a seu animal depois dele — pois, por causa desse conhecimento e reconhecimento, talvez tenha aumentado a extração de água por causa dele; e, nesse caso, tudo que for possível aumentar e acrescentar por causa dele será proibido.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 16:8
מִלֵּא מַיִם. מִבּוֹר בִּרְשׁוּת הָרַבִּים: כֶּבֶשׁ. עוֹשִׂין בִּסְפִינָה גְּדוֹלָה לֵירֵד בּוֹ מִן הַסְּפִינָה לַיַּבָּשָׁה. וְאִיצְטְרִיךְ תַּנָּא לְאַשְׁמְעִינַן נֵר וּמַיִם, דְּאִי תָּנָא נֵר הֲוָה אֲמֵינָא נֵר הוּא דְּשָׁרֵי דְּלֵיכָּא לְמִגְזַר שֶׁמָּא יַרְבֶּה בִּשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל, דְּנֵר לְאֶחָד נֵר לְמֵאָה, אֲבָל מַיִם דְּאִיכָּא לְמִגְזַר אָסוּר. וְאִי אַשְׁמְעִינַן מַיִם הֲוָה אֲמֵינָא מַיִם הוּא דְּבִשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל אָסוּר, אֲבָל נֵר אַף עַל גַּב דְּבִשְׁבִיל יִשְׂרָאֵל כֵּיוָן דְּאִיהוּ נַמִּי צָרִיךְ לֵיהּ שָׁרֵי, דְּנֵר לְאֶחָד נֵר לְמֵאָה, צְרִיכָא. וְכֶבֶשׁ אַף עַל גַּב דְּדָמִי לְנֵר, דְּכֶבֶשׁ לְאֶחָד כֶּבֶשׁ לְמֵאָה, מִשּׁוּם מַעֲשֶׂה דְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל וּזְקֵנִים תָּנָא לֵיהּ, דְּמַעֲשֶׂה רַב:

"Encheu água" — de um poço em domínio público.

"Rampa" — fazem-na num navio grande para descer por ela do navio à terra.

E o tanaíta precisou nos ensinar tanto o caso da lâmpada quanto o da água: pois, se tivesse ensinado apenas a lâmpada, diríamos que só ali é permitido, pois não há receio de que aumente por causa do judeu, já que "uma lâmpada serve para um como serve para cem"; mas, quanto à água, havendo receio, seria proibido. E, se tivesse ensinado apenas a água, diríamos que só ali, se foi em benefício do judeu, é proibido; mas a lâmpada, mesmo que tenha sido em benefício do judeu, já que ele também precisa dela, seria permitida, pois "uma lâmpada serve para um como serve para cem" — por isso foi necessário ensinar ambos.

E, quanto à rampa, embora se assemelhe à lâmpada — pois "uma rampa serve para um como serve para cem" — ensinou-a por causa do caso de Rabán Gamliel e os anciãos, pois um caso relatado tem força de lei.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 122a
מתני' אם בשביל ישראל אסור - מדרבנן: מילא מים - מבור ברה"ר: כבש - עושין בספינה גדולה לירד בו מספינה ליבשה:

"Mishná: se foi em benefício do judeu, é proibido" — por decreto rabínico.

"Encheu água" — de um poço em domínio público.

"Rampa" — fazem-na num navio grande para descer por ela do navio à terra.

O encerramento do Perek Tet-Zayin. Com esta mishná se conclui o Perek Tet-Zayin, que abriu com a urgência de salvar os escritos sagrados e os bens materiais de um incêndio no Shabat, percorreu as medidas do que se pode salvar, o recurso de vestir-se repetidamente, o anteparo protetor contra as chamas, e a distinção entre o não-judeu independente e a criança sob tutela, e encerra com o princípio geral de que a ação do não-judeu por conta própria — mesmo beneficiando o judeu de passagem — não impõe restrição, ao passo que a ação feita especificamente em seu benefício permanece proibida. O perek seguinte dará continuidade às leis de Shabat com novos temas práticos do cotidiano.