Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud Dalet · Mishná 2

Não se faz salmoura no Shabat

אֵין עוֹשִׂין הִילְמִי בְשַׁבָּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Não se faz salmoura no Shabat, mas se faz água salgada e nela se molha o pão, e se coloca no guisado — Rabi Yosei disse: não é isto também salmoura, seja em grande quantidade, seja em pequena? E esta é a água salgada permitida: quando se coloca óleo primeiro na água ou no sal

Não se faz salmouraágua fortemente salgada, na proporção usada para conservar alimentos — no Shabatpois seu preparo assemelha-se ao trabalho de curtir ou processar alimento para conservação, o que é proibido — mas se faz água salgadaem pequena quantidade, apenas para uso imediato — e nela se molha o pão, e se coloca no guisado. Disse Rabi Yosei: não é isto também salmoura, seja em grande quantidade, seja em pequena?ou seja, se a proibição decorre da natureza da mistura, ela deveria se aplicar igualmente à pequena quantidade, sem distinção de volume — e esta é a água salgada permitida: quando se coloca óleo primeiro na água ou primeiro no salpois o óleo, adicionado antes, impede que o sal se dissolva bem na água, enfraquecendo o processo, de modo que o resultado não se assemelha ao preparo usual de conservação.

אֵין עוֹשִׂין הִילְמִי בְשַׁבָּת, אֲבָל עוֹשֶׂה הוּא אֶת מֵי הַמֶּלַח וְטוֹבֵל בָּהֶן פִּתּוֹ וְנוֹתֵן לְתוֹךְ הַתַּבְשִׁיל. אָמַר רַבִּי יוֹסֵי, וַהֲלֹא הוּא הִילְמִי, בֵּין מְרֻבֶּה וּבֵין מֻעָט. וְאֵלוּ הֵן מֵי מֶלַח הַמֻּתָּרִין, נוֹתֵן שֶׁמֶן בַּתְּחִלָּה לְתוֹךְ הַמַּיִם אוֹ לְתוֹךְ הַמֶּלַח:

Sobre o preparo de alimentos e o receio de conservação · עַל תִּקּוּן הָאֹכֶל וְחֲשַׁשׁ הָעִבּוּד

Esta mishná inicia a segunda seção temática do perek, dedicada aos limites do preparo de alimentos e ao uso de remédios no Shabat. A salmoura ilustra um princípio central: um processo que, em grande escala, constitui um trabalho proibido de conservação de alimentos, torna-se permitido em pequena escala e para uso imediato, desde que a forma de preparo evidencie que a intenção não é a de curtir ou conservar.

Shemot 35:2-3
שֵׁשֶׁת יָמִים תֵּעָשֶׂה מְלָאכָה, וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי יִהְיֶה לָכֶם קֹדֶשׁ שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן לַיהוָה, כָּל הָעֹשֶׂה בוֹ מְלָאכָה יוּמָת׃ לֹא תְבַעֲרוּ אֵשׁ בְּכֹל מֹשְׁבֹתֵיכֶם בְּיוֹם הַשַּׁבָּת׃
Seis dias se fará trabalho, mas o sétimo dia vos será santo, Shabat de descanso completo para Hashem; todo aquele que fizer trabalho nele será morto. Não acendereis fogo em nenhuma de vossas moradas no dia do Shabat.

Curtir e preparar alimentos como trabalho proibido. A Guemará (Shabat 108a-b) discute longamente o preparo da salmoura, associando-o ao trabalho de me'abed (curtir couro) transposto para o âmbito alimentar: assim como curtir pele com sal e água a preserva e transforma sua qualidade, preparar uma solução salina forte para conservar vegetais ou carnes tem o mesmo efeito sobre o alimento, e por isso é proibido em grande quantidade. A permissão de pequena quantidade, e especialmente da técnica de inverter a ordem — colocando o óleo antes do sal ou da água — demonstra publicamente que o propósito é apenas o tempero imediato, e não a conservação, afastando qualquer semelhança com o trabalho proibido.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica esta halachá, detalhando a proporção permitida e o motivo do decreto contra a água salgada forte.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 22:10
מְעָרֵב אָדָם מַיִם וּמֶלַח וְשֶׁמֶן וְטוֹבֵל בּוֹ פִּתּוֹ אוֹ נוֹתְנוֹ לְתוֹךְ הַתַּבְשִׁיל, וְהוּא שֶׁיַּעֲשֶׂה מְעַט, אֲבָל הַרְבֵּה אָסוּר מִפְּנֵי שֶׁנִּרְאֶה כְּעוֹשֶׂה מְלָאכָה מִמְּלֶאכֶת הַתַּבְשִׁיל. וְכֵן לֹא יַעֲשֶׂה מֵי מֶלַח עַזִּין, וְהֵן שְׁנֵי שְׁלִישֵׁי מֶלַח וּשְׁלִישׁ מַיִם, מִפְּנֵי שֶׁנִּרְאֶה כְּעוֹשֶׂה מוּרְיָס.
Uma pessoa pode misturar água, sal e óleo, e nela molhar seu pão ou colocá-la no guisado — desde que faça pouca quantidade; mas em grande quantidade é proibido, pois se assemelha a realizar um trabalho do preparo de conservas de alimento. E, do mesmo modo, não se deve fazer água salgada forte — que é dois terços de sal e um terço de água — pois se assemelha a fazer murias (molho de peixe salgado usado como condimento e conservante).

Sal e ovo, sal e rabanete. O Rambam prossegue, no mesmo capítulo, distinguindo entre alimentos: é permitido salgar um ovo, pois não há costume de conservá-lo em salmoura, mas é proibido salgar um rabanete ou vegetal semelhante, pois isso se assemelha à preparação de kevashim (picles) no Shabat, e curtir alimentos dessa forma é considerado análogo a cozinhar. Ainda assim, é permitido mergulhar o rabanete em sal já preparado e comê-lo imediatamente, pois o contato breve, sem tempo de curtimento, não configura o trabalho proibido.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam a diferença entre quantidade grande e pequena, a objeção de Rabi Yosei, e por que a técnica do óleo resolve o problema.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 14:2
אין עושין הילמי בשבת אבל עושה הוא כו': הילמי הוא המים והמלח, ואין בין הילמי ובין מי המלח אלא שהילמי שיעור גדול ומי מלח שיעור קטן. ורבי יוסי מחמיר ואוסר אפילו מי מלח, ואינו מתיר אלא כשישפוך שמן על המלח או על המים. ואין הלכה כרבי יוסי.

"Não se faz salmoura no Shabat, mas se faz, etc." — hilmi é água e sal, e não há diferença entre o hilmi e a água salgada senão que o hilmi é em quantidade grande, e a água salgada é em quantidade pequena.

E Rabi Yosei é rigoroso e proíbe até mesmo a água salgada, e não a permite senão quando se derrama óleo sobre o sal ou sobre a água. E a halachá não segue Rabi Yosei — a opinião normativa é a do primeiro Tana, que distingue entre grande e pequena quantidade, independentemente da ordem em que o óleo é adicionado.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 14:2
אֵין עוֹשִׂין הִילְמִי. מֵי מֶלַח מְרֻבִּים שֶׁנּוֹתְנִים לְתוֹךְ יְרָקוֹת שֶׁכּוֹבְשִׁין אוֹתָן לְהִתְקַיֵּם. אֲבָל עוֹשִׂין. מֵי מֶלַח מֻעָטִים כְּדֵי לִטְבֹּל בָּהֶן פִּתּוֹ אוֹ לְתוֹךְ הַתַּבְשִׁיל. וַהֲלֹא הוּא הִילְמִי בֵּין מְרֻבֶּה בֵּין מֻעָט. כְּלוֹמַר אִם הַמְרֻבִּים אֲסוּרִים אַף הַמֻּעָטִים אֲסוּרִים, דְּיֹאמְרוּ מְלָאכָה מְרֻבָּה אֲסוּרָה וּמְלָאכָה מֻעֶטֶת מֻתֶּרֶת, אֶלָּא אֵלּוּ וָאֵלּוּ אֲסוּרִים מִפְּנֵי שֶׁהוּא כִּמְעַבֵּד וּמְתַקֵּן אֶת הָאֹכֶל הַנִּתָּן בְּתוֹכוֹ כְּדֵי שֶׁיִּתְקַיֵּם. וְאֵלּוּ הֵן הַמֻּתָּרִים. נוֹתֵן שֶׁמֶן בְּתוֹךְ הַמַּיִם בַּתְּחִלָּה קֹדֶם שֶׁיִּתֵּן הַמֶּלַח, אוֹ נוֹתֵן שֶׁמֶן בַּתְּחִלָּה לְתוֹךְ הַמֶּלַח קֹדֶם שֶׁיִּתֵּן אֶת הַמַּיִם, דְּהַשֶּׁמֶן מְעַכְּבוֹ שֶׁאֵין הַמֶּלַח מִתְעָרֵב יָפֶה עִם הַמַּיִם וּמַתִּישׁ אֶת כֹּחוֹ.

"Não se faz salmoura" — água salgada em grande quantidade, que se coloca em vegetais que se conservam para se manterem.

"Mas se faz" — água salgada em pequena quantidade, para molhar nela o pão ou colocar no guisado.

"Não é isto também salmoura, seja em grande quantidade, seja em pequena?" — isto é, se a grande quantidade é proibida, também a pequena deveria ser proibida, pois diriam: "trabalho grande é proibido e trabalho pequeno é permitido" — e essa distinção pareceria arbitrária a Rabi Yosei — mas, na realidade, tanto uma quanto outra são proibidas, pois isto se assemelha a curtir e preparar o alimento nela colocado para que se conserve.

"E esta é a permitida" — coloca-se óleo na água primeiro, antes de colocar o sal, ou coloca-se óleo primeiro no sal, antes de colocar a água — pois o óleo o impede, de modo que o sal não se mistura bem com a água, e enfraquece sua força.

"E não segue a halachá a opinião de Rabi Yosei" — a lei segue o primeiro Tana, que distingue quantidade grande de pequena, e não exige a técnica do óleo para toda água salgada permitida.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 108a
מתני' הילמי. שלמוייר"א.

"Mishná: hilmi" — salmoura, em antigo francês, "sallemoire" — a água fortemente salgada usada para conservar alimentos, cujo nome técnico Rashi traduz ao vernáculo de seu tempo para deixar claro do que se trata.

O decreto sobre a aparência do trabalho. Nota-se, nesta mishná, um princípio recorrente nas leis de Shabat: mesmo quando o ato em si não constitui tecnicamente o trabalho proibido — pois a quantidade pequena de água salgada não é suficiente para efetivamente conservar alimento algum —, os Sábios ainda assim decretaram cautela, exigindo uma mudança perceptível na forma de preparo (a inversão da ordem do óleo), para que o observador não confunda o ato permitido com o processo proibido de conservação em larga escala.