Não se faz salmoura — água fortemente salgada, na proporção usada para conservar alimentos — no Shabat — pois seu preparo assemelha-se ao trabalho de curtir ou processar alimento para conservação, o que é proibido — mas se faz água salgada — em pequena quantidade, apenas para uso imediato — e nela se molha o pão, e se coloca no guisado. Disse Rabi Yosei: não é isto também salmoura, seja em grande quantidade, seja em pequena? — ou seja, se a proibição decorre da natureza da mistura, ela deveria se aplicar igualmente à pequena quantidade, sem distinção de volume — e esta é a água salgada permitida: quando se coloca óleo primeiro na água ou primeiro no sal — pois o óleo, adicionado antes, impede que o sal se dissolva bem na água, enfraquecendo o processo, de modo que o resultado não se assemelha ao preparo usual de conservação.
Esta mishná inicia a segunda seção temática do perek, dedicada aos limites do preparo de alimentos e ao uso de remédios no Shabat. A salmoura ilustra um princípio central: um processo que, em grande escala, constitui um trabalho proibido de conservação de alimentos, torna-se permitido em pequena escala e para uso imediato, desde que a forma de preparo evidencie que a intenção não é a de curtir ou conservar.
Curtir e preparar alimentos como trabalho proibido. A Guemará (Shabat 108a-b) discute longamente o preparo da salmoura, associando-o ao trabalho de me'abed (curtir couro) transposto para o âmbito alimentar: assim como curtir pele com sal e água a preserva e transforma sua qualidade, preparar uma solução salina forte para conservar vegetais ou carnes tem o mesmo efeito sobre o alimento, e por isso é proibido em grande quantidade. A permissão de pequena quantidade, e especialmente da técnica de inverter a ordem — colocando o óleo antes do sal ou da água — demonstra publicamente que o propósito é apenas o tempero imediato, e não a conservação, afastando qualquer semelhança com o trabalho proibido.
Como o Rambam codifica esta halachá, detalhando a proporção permitida e o motivo do decreto contra a água salgada forte.
Sal e ovo, sal e rabanete. O Rambam prossegue, no mesmo capítulo, distinguindo entre alimentos: é permitido salgar um ovo, pois não há costume de conservá-lo em salmoura, mas é proibido salgar um rabanete ou vegetal semelhante, pois isso se assemelha à preparação de kevashim (picles) no Shabat, e curtir alimentos dessa forma é considerado análogo a cozinhar. Ainda assim, é permitido mergulhar o rabanete em sal já preparado e comê-lo imediatamente, pois o contato breve, sem tempo de curtimento, não configura o trabalho proibido.
Os comentadores explicam a diferença entre quantidade grande e pequena, a objeção de Rabi Yosei, e por que a técnica do óleo resolve o problema.
"Não se faz salmoura no Shabat, mas se faz, etc." — hilmi é água e sal, e não há diferença entre o hilmi e a água salgada senão que o hilmi é em quantidade grande, e a água salgada é em quantidade pequena.
E Rabi Yosei é rigoroso e proíbe até mesmo a água salgada, e não a permite senão quando se derrama óleo sobre o sal ou sobre a água. E a halachá não segue Rabi Yosei — a opinião normativa é a do primeiro Tana, que distingue entre grande e pequena quantidade, independentemente da ordem em que o óleo é adicionado.
"Não se faz salmoura" — água salgada em grande quantidade, que se coloca em vegetais que se conservam para se manterem.
"Mas se faz" — água salgada em pequena quantidade, para molhar nela o pão ou colocar no guisado.
"Não é isto também salmoura, seja em grande quantidade, seja em pequena?" — isto é, se a grande quantidade é proibida, também a pequena deveria ser proibida, pois diriam: "trabalho grande é proibido e trabalho pequeno é permitido" — e essa distinção pareceria arbitrária a Rabi Yosei — mas, na realidade, tanto uma quanto outra são proibidas, pois isto se assemelha a curtir e preparar o alimento nela colocado para que se conserve.
"E esta é a permitida" — coloca-se óleo na água primeiro, antes de colocar o sal, ou coloca-se óleo primeiro no sal, antes de colocar a água — pois o óleo o impede, de modo que o sal não se mistura bem com a água, e enfraquece sua força.
"E não segue a halachá a opinião de Rabi Yosei" — a lei segue o primeiro Tana, que distingue quantidade grande de pequena, e não exige a técnica do óleo para toda água salgada permitida.
"Mishná: hilmi" — salmoura, em antigo francês, "sallemoire" — a água fortemente salgada usada para conservar alimentos, cujo nome técnico Rashi traduz ao vernáculo de seu tempo para deixar claro do que se trata.
O decreto sobre a aparência do trabalho. Nota-se, nesta mishná, um princípio recorrente nas leis de Shabat: mesmo quando o ato em si não constitui tecnicamente o trabalho proibido — pois a quantidade pequena de água salgada não é suficiente para efetivamente conservar alimento algum —, os Sábios ainda assim decretaram cautela, exigindo uma mudança perceptível na forma de preparo (a inversão da ordem do óleo), para que o observador não confunda o ato permitido com o processo proibido de conservação em larga escala.