Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud Dalet · Mishná 1

Os oito répteis mencionados na Torá

שְׁמֹנָה שְׁרָצִים הָאֲמוּרִים בַּתּוֹרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Os oito répteis mencionados na Torá — quem os captura ou os fere é responsável; quanto aos demais insetos e répteis, quem os fere é isento; quem os captura por necessidade é responsável, e sem necessidade é isento; animal ou ave que já está em sua posse — quem os captura é isento, e quem os fere é responsável

Os oito répteis mencionados na Toráa doninha, o rato, o crocodilo-da-terra e suas espécies, o ouriço, o camaleão, o lagarto, a lesma e a toupeira, listados em Vaicrá 11:29-30 — quem os captura ou os fere é responsávelpois possuem pele, e o ferimento causado neles deixa marca duradoura, tornando o ato uma forma de trabalho proibido. Quanto aos demais insetos e répteiscomo vermes, caracóis e escorpiões, que não possuem pele própria — quem os fere é isentopois neles não há a marca que caracteriza o trabalho proibido de ferir. Quem os captura por necessidade é responsávelquando há uso prático para o animal capturado — sem necessidade é isentopois sua espécie não é normalmente objeto de captura útil, e o ato não constitui o trabalho de caçar em sentido pleno. Animal ou ave que já está em sua possedomesticado ou confinado, já sob controle da pessoa — quem os captura é isentopois, estando já sob domínio, não há novo ato de captura — e quem os fere é responsávelpois possuem pele, e o ferimento neles configura o mesmo trabalho proibido que nos répteis mencionados na Torá.

שְׁמֹנָה שְׁרָצִים הָאֲמוּרִים בַּתּוֹרָה, הַצָּדָן וְהַחוֹבֵל בָּהֶן, חַיָּב. וּשְׁאָר שְׁקָצִים וּרְמָשִׂים, הַחוֹבֵל בָּהֶן פָּטוּר, הַצָּדָן לְצֹרֶךְ, חַיָּב, שֶׁלֹּא לְצֹרֶךְ, פָּטוּר. חַיָּה וְעוֹף שֶׁבִּרְשׁוּתוֹ, הַצָּדָן פָּטוּר, וְהַחוֹבֵל בָּהֶן חַיָּב:

Sobre o novo tema do perek · עַל עִנְיָנוֹ הֶחָדָשׁ שֶׁל הַפֶּרֶק

Com esta mishná abre-se o Perek Yud-Dalet, conhecido como "Perek Shemoná Shratzim", que aprofunda as leis de captura já introduzidas nos perakim anteriores, aplicando-as agora aos répteis impuros mencionados na Torá, e distinguindo-as do trabalho de ferir — para, em seguida, dedicar o restante do perek às leis de alimentos e remédios permitidos no Shabat.

Vaicrá 11:29-30
וְזֶה לָכֶם הַטָּמֵא בַּשֶּׁרֶץ הַשֹּׁרֵץ עַל הָאָרֶץ, הַחֹלֶד וְהָעַכְבָּר וְהַצָּב לְמִינֵהוּ׃ וְהָאֲנָקָה וְהַכֹּחַ וְהַלְּטָאָה וְהַחֹמֶט וְהַתִּנְשָׁמֶת׃
E estes vos serão impuros entre os répteis que se arrastam sobre a terra: a doninha, o rato e o crocodilo-da-terra segundo sua espécie; o ouriço, o camaleão, o lagarto, a lesma e a toupeira.

A pele como critério do trabalho de ferir. A Guemará (Shabat 107a-b) explica que estes oito répteis, ao contrário dos demais insetos e vermes, possuem pele — e, por isso, um ferimento causado neles produz uma marca que não se refaz, tornando o ato uma forma do trabalho proibido de choveil (ferir), derivado, segundo uma opinião, do trabalho principal de meparek (extrair, dentro da categoria de debulhar), ou, segundo outra, do trabalho de tzoveia (tingir), pois o sangue retido sob a pele a tinge. Já os demais répteis e insetos, por não possuírem pele própria, regeneram-se, e ferir-lhes não constitui trabalho proibido de Torá — embora a captura, quando útil, continue sendo responsabilidade plena, pois o critério da caça é a utilidade do animal capturado, e não a presença de pele.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica a lei de captura destes répteis, em conjunto com o princípio geral de que toda captura intencional obriga, mesmo sem necessidade prática do animal em si.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 10:21
אֶחָד שְׁמֹנָה שְׁרָצִים הָאֲמוּרִין בַּתּוֹרָה וְאֶחָד שְׁאָר שְׁקָצִים וּרְמָשִׂים שֶׁיֵּשׁ לְמִינָן צִידָה, הַצָּד אֶחָד מִכֻּלָּן בֵּין לְצֹרֶךְ בֵּין שֶׁלֹּא לְצֹרֶךְ אוֹ לְשַׂחֵק בָּהֶן, חַיָּב, הוֹאִיל וְנִתְכַּוֵּן לָצוּד וְצָד, שֶׁמְּלָאכָה שֶׁאֵינָהּ צְרִיכָה לְגוּפָהּ חַיָּב עָלֶיהָ. הַצָּד אֶת הַיָּשֵׁן וְאֶת הַסּוּמָא חַיָּב.
Tanto os oito répteis mencionados na Torá quanto os demais insetos e répteis cuja espécie costuma ser capturada — quem captura qualquer um deles, seja por necessidade, seja sem necessidade, ou mesmo para brincar com eles, é responsável, visto que teve intenção de capturar e capturou, pois um trabalho que não é necessário por si mesmo ainda assim obriga. Quem captura o que está dormindo ou o que é cego é responsável.

Por que o Rambam amplia a mishná. Note-se que o Rambam, ao codificar esta halachá, aparentemente estende a responsabilidade também aos casos "sem necessidade", divergindo da leitura simples da mishná, que isenta a captura sem necessidade dos "demais insetos e répteis". A Guemará (Shabat 106b-107a) explica que esta isenção da mishná segue a opinião de Rabi Shimon, para quem um trabalho que não é necessário por si mesmo (melachá she'einá tzericha legufáh) não obriga por Torá — mas a halachá final segue Rabi Yehudá, para quem todo trabalho realizado com intenção, mesmo sem necessidade prática do resultado, obriga plenamente. É por isso que o Rambam, seguindo a opinião normativa, afirma que a captura obriga "seja por necessidade, seja sem necessidade".

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam a distinção entre os répteis com pele e sem pele, e o critério de responsabilidade na captura.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 14:1
שמנה שרצים האמורים בתורה הצדן כו': דע כי החובל והוא העושה חבורה אינו חייב אלא בשני תנאין, האחד שיעשה חבורה בנפש חיה שיש לו עור ויצא ממנו דם, או שיהיה הדם צרור תחת העור כמו שיארע מהכאות האבן וכיוצא בו. והתנאי השני הוא שיתכוין באותה חבורה שיהנה באותו דם או באותו בשר לרפואה או להאכילה לבהמה, אבל אם לא נתכוון אלא היזק הבהמה או לצערה הרי הוא מקלקל.

"Os oito répteis mencionados na Torá, quem os captura, etc." — saiba que quem fere, isto é, causa uma ferida, não é responsável senão sob duas condições: a primeira, que faça a ferida em um ser vivo que tenha pele, e saia dele sangue, ou que o sangue fique retido sob a pele, como ocorre em pancadas de pedra e semelhantes.

E a segunda condição é que tenha intenção, com essa ferida, de aproveitar-se daquele sangue ou daquela carne para remédio ou para alimentar um animal; mas, se não teve intenção senão de prejudicar o animal ou fazê-lo sofrer, isto é trabalho destrutivomekalkel.

E já se estabeleceu antes que todo trabalho destrutivo é isento; e este é o sentido do que dizem: "quem fere um animal por necessidade de seu cão" ou "quem queima algo com intenção de aproveitar suas cinzas" — nesses casos é responsável. E aquele que fere com a intenção que dissemos é derivado do trabalho de debulhar, pois separa aquilo de sua ligação.

E disse aqui que estas oito espécies mencionadas na Torá quanto à impureza — a doninha, o rato, o crocodilo-da-terra segundo sua espécie, o ouriço, o camaleão, o lagarto, a lesma e a toupeira (Vaicrá 11:29-30) — todas possuem pele, e por isso quem as fere, como ensinamos, é responsável; e as demais espécies de répteis e insetos não têm pele, e por isso quem as fere é isento, pois ela se renova e volta ao que era antes — e do mesmo modo quem as mata é isento, salvo o que nasce delas, macho e fêmea. E já se esclareceu na arte da medicina que a pele, quando ferida, jamais retorna ao que era; por isso ele é responsável em tudo que tem pele.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 14:1
שְׁמֹנָה. הַחֹלֶד וְהָעַכְבָּר כוּ' הַמְּנוּיִין בְּפָרָשַׁת וַיְהִי בַּיּוֹם הַשְּׁמִינִי. הַצָּדָן חַיָּב. שֶׁיֵּשׁ בְּמִינָן נִצּוֹד. וְהַחוֹבֵל בָּהֶן חַיָּב. דְּיֵשׁ לָהֶן עוֹר וְהַוְיָא לַהּ חַבּוּרָה שֶׁאֵינָהּ חוֹזֶרֶת, וְחַיָּב מִשּׁוּם מְפָרֵק שֶׁהִיא תּוֹלָדָה דְּדָשׁ. אִי נַמִּי כֵּיוָן דְּיֵשׁ לָהֶן עוֹר נִצְבָּע הָעוֹר בַּדָּם הַנִּצְרָר בּוֹ וְחַיָּב מִשּׁוּם צוֹבֵעַ. וּשְׁאָר שְׁקָצִים וּרְמָשִׂים. כְּגוֹן תּוֹלָעִים וְחֶלְזוֹנוֹת וְעַקְרַבִּים, הַחוֹבֵל בָּהֶם פָּטוּר, דְּאֵין לָהֶם עוֹר. שֶׁלֹּא לְצֹרֶךְ פָּטוּר. דְּאֵין בְּמִינָן נִצּוֹד. חַיָּה וְעוֹף שֶׁבִּרְשׁוּתוֹ הַצָּדָן פָּטוּר. שֶׁהֲרֵי נִצּוֹדִים וְעוֹמְדִים הֵן. וְהַחוֹבֵל בָּהֶן חַיָּב. דְּיֵשׁ לָהֶן עוֹר.

"Os oito" — a doninha e o rato, etc., os enumerados na porção "Vaihí bayom hashemini" (Vaicrá 11).

"Quem os captura é responsável" — pois sua espécie costuma ser capturada.

"E quem os fere é responsável" — pois têm pele, e isto se torna uma ferida que não se refaz, e é responsável por debulhar, que é derivado do trabalho de dash; ou ainda, visto que têm pele, a pele se tinge com o sangue retido nela, e é responsável por tingir.

"E os demais insetos e répteis" — como vermes, caracóis e escorpiões — quem os fere é isento, pois não têm pele.

"Sem necessidade é isento" — pois sua espécie não costuma ser capturada.

"Animal ou ave que já está em sua posse, quem os captura é isento" — pois já se encontram capturados e permanecem assim.

"E quem os fere é responsável" — pois têm pele. E note-se que quem fere não é responsável em nenhum destes casos que ensinamos senão quando precisa do sangue; mas, se não feriu senão para prejudicar, já estabelecemos que todo trabalho destrutivo é isento.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 107a
מתני' שמנה שרצים. החולד והעכבר וגו' (ויקרא יא): הצדן. חייב שבמינו ניצוד: והחובל בהן חייב. דיש להן עור כדמפרש בגמרא, והויא ליה חבורה שאינה חוזרת והויא ליה תולדה דשוחט. ל"א כיון דיש להן עור נצבע העור בדם הנצרר בו דחייב משום צובע: ושאר שקצים ורמשים. כגון תולעת ונחשים ועקרבים: החובל בהן פטור. דאין להם עור: שלא לצורך פטור. דאין במינו ניצוד והויא מלאכה שאינה צריכה לגופה ור' שמעון היא כדמוקי לה בגמ': חיה ועוף שברשותו. פטור אם צדן שהרי ניצודין ועומדין: והחובל בהן חייב. דיש להן עור.

"Mishná: os oito répteis" — a doninha e o rato etc. (Vaicrá 11).

"Quem os captura" — é responsável, pois sua espécie costuma ser capturada.

"E quem os fere é responsável" — pois têm pele, como se explica na Guemará, e isto se torna uma ferida que não se refaz, e é derivado de shochet (abater); outra explicação: visto que têm pele, a pele se tinge com o sangue nela retido, e é responsável por tingir.

"E os demais insetos e répteis" — como vermes, cobras e escorpiões.

"Quem os fere é isento" — pois não têm pele.

"Sem necessidade é isento" — pois sua espécie não costuma ser capturada, e isto é um trabalho que não é necessário por si mesmo, e segue a opinião de Rabi Shimon, como se estabelece na Guemará.

"Animal ou ave que já está em sua posse" — é isento se os capturar, pois já se encontram capturados e permanecem assim.

"E quem os fere é responsável" — pois têm pele.

Abertura de um novo bloco temático. Encerrada a lei de captura dos répteis, as três mishnayot seguintes deste perek voltam-se a um tema distinto, ainda que relacionado à proteção da santidade do Shabat: os limites entre alimentação comum e uso medicinal, pois os Sábios proibiram, por decreto, tratamentos médicos evidentes no Shabat, temendo que levassem à preparação de remédios — um ato que envolveria moer ingredientes, trabalho plenamente proibido por Torá.