Não se come hissopo grego — uma planta amarga que cresce entre os espinhos — no Shabat, pois não é alimento de pessoas saudáveis — e, portanto, quem o come evidentemente o faz por razões medicinais, o que os Sábios proibiram por decreto, temendo que a busca por remédios levasse à moagem de ingredientes — mas se come yoezer — uma erva que muitas pessoas saudáveis também costumam comer — e se bebe abuvroê — uma planta cujo uso é igualmente comum entre pessoas saudáveis. Todo alimento — que pessoas saudáveis costumam comer — pode ser comido para remédio, e toda bebida pode ser bebida — ainda que com intenção curativa, pois, sendo alimento comum, seu consumo não revela publicamente intenção medicinal — exceto água de tamareiras e o cálice de raízes, pois são — bebidas que pessoas saudáveis não costumam consumir, sendo conhecidas especificamente como remédio para a icterícia — e por isso seu consumo delataria intenção medicinal evidente — mas se pode beber água de tamareiras pela sede — quando não há doença, e a intenção é apenas saciar a sede — e untar óleo de raízes sem intenção de remédio — pois, sem tal intenção declarada, o uso do óleo não constitui tratamento médico proibido.
Esta mishná estabelece o princípio central que governa o uso de remédios no Shabat: o critério decisivo não é a intenção interna da pessoa, que não pode ser verificada, mas sim se o item consumido é reconhecido como alimento ou bebida de pessoas saudáveis. Quando o é, seu consumo é permitido mesmo com intenção curativa, pois não há decreto contra algo que não revela publicamente essa intenção; quando não o é, seu consumo é proibido, ainda que a pessoa não esteja de fato doente, pois o próprio ato demonstra intenção medicinal.
O decreto rabínico contra tratamentos médicos. A Guemará (Shabat 53b, 109b) explica que os Sábios proibiram, por decreto geral, o uso de remédios evidentes no Shabat — não porque curar seja em si um trabalho proibido pela Torá, mas por receio de que a pessoa doente, ao buscar tratamento, viesse a moer ervas ou ingredientes medicinais, incorrendo no trabalho proibido de tochen (moer). Como consequência desse decreto, tornou-se necessário distinguir cuidadosamente entre alimentos e bebidas comuns — cujo consumo, mesmo com propósito curativo, permanece permitido, pois não revela abertamente essa intenção — e substâncias reconhecidas exclusivamente como remédio, cujo consumo é proibido justamente por evidenciar publicamente o tratamento.
Como o Rambam codifica o princípio geral de alimento comum versus remédio evidente, em Hilchot Shabat, capítulo vinte e um.
Os comentadores identificam as plantas mencionadas e explicam por que a água de tamareiras e o cálice de raízes constituem exceção dentro da própria exceção.
"Não se come hissopo grego no Shabat, pois não é alimento de pessoas saudáveis etc." — hissopo grego é, em árabe, achtuvrum. E yoezer é, em árabe, furanj e semelhante a ele. E abuvroê é, em árabe, atzaldai.
E o que dizem "todo alimento pode ser comido por uma pessoa para remédio" — seu sentido é que toda coisa cujo costume é que pessoas saudáveis a comam e dela se alimentem, é permitido a uma pessoa comê-la a título de remédio, visto que é considerada alimento entre as pessoas em geral.
E, na continuação de seu comentário, o Rambam identifica também os demais itens da mishná: a água de tamareiras é a água de dois tamareiras plantadas em Eretz Israel entre as quais corria uma fonte, cuja bebida provoca efeito laxante progressivo; e o cálice de raízes é preparado triturando-se certas raízes e cascas aromáticas, misturadas ao vinho, remédio conhecido para a icterícia — e, por isso, seu consumo delata intenção medicinal, salvo quando bebido apenas pela sede.
"Hissopo grego" — um tipo de hissopo que cresce entre os espinhos e mata os vermes que há nos intestinos.
"Pois não é alimento de pessoas saudáveis" — e a própria coisa demonstra que é comido por remédio, e é proibido comê-lo no Shabat, por decreto, temendo que se venha a moer ingredientes, o que é derivado do trabalho de moer.
"Mas se come yoezer" — pois muitas pessoas o comem quando estão saudáveis.
"Todo alimento pode ser comido por uma pessoa para remédio" — toda coisa que é alimento, e que pessoas saudáveis comem, uma pessoa pode comê-la no Shabat ainda que tenha intenção de remédio.
"Exceto água de tamareiras" — são duas árvores de tamareiras que havia em Eretz Israel, entre as quais corria uma fonte de água.
"Pois curam a icterícia" — quem sofre da doença chamada icterícia, se bebe dessa água, se cura.
"Pela sede" — quando não está doente.
"Mishná: hissopo grego" — a Guemará explica que não é alimento de pessoas saudáveis, e a própria coisa demonstra que se come por remédio.
"Mas se come yoezer" — pois muitas pessoas o comem quando estão saudáveis.
"De água de tamareiras" — a Guemará explica.
"E o cálice de raízes" — bebida em que se trituram raízes de vegetais e especiarias, e a Guemará a explica.
"Pois curam a icterícia" — doença chamada icterícia, e não é alimento de pessoas saudáveis.
"Pela sede" — quando não está doente. Nesse caso, o consumo é permitido, pois a finalidade evidente é saciar a sede, e não tratar a icterícia.
Óleo de raízes: a exceção final. A mishná encerra permitindo untar óleo de raízes — o mesmo óleo preparado com as raízes do cálice medicinal — desde que não haja intenção de remédio; a Guemará (Shabat 110a) esclarece que esse óleo era também usado por algumas pessoas apenas por prazer ou higiene, e por isso seu uso sem propósito curativo declarado permanece fora do decreto, ilustrando mais uma vez que o critério central destas leis é a aparência pública do ato, e não apenas a intenção interior de quem o pratica.