Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud Dalet · Mishná 3

Não se come hissopo grego no Shabat

אֵין אוֹכְלִין אֵזוֹב יוֹן בְּשַׁבָּת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Não se come hissopo grego no Shabat, pois não é alimento de pessoas saudáveis, mas se come yoezer e se bebe abuvroê; todo alimento pode ser comido para remédio e toda bebida pode ser bebida, exceto água de tamareiras e o cálice de raízes, pois curam a icterícia; mas se pode beber água de tamareiras pela sede, e untar óleo de raízes sem intenção de remédio

Não se come hissopo grego — uma planta amarga que cresce entre os espinhos — no Shabat, pois não é alimento de pessoas saudáveis — e, portanto, quem o come evidentemente o faz por razões medicinais, o que os Sábios proibiram por decreto, temendo que a busca por remédios levasse à moagem de ingredientes — mas se come yoezer — uma erva que muitas pessoas saudáveis também costumam comer — e se bebe abuvroê — uma planta cujo uso é igualmente comum entre pessoas saudáveis. Todo alimento — que pessoas saudáveis costumam comer — pode ser comido para remédio, e toda bebida pode ser bebida — ainda que com intenção curativa, pois, sendo alimento comum, seu consumo não revela publicamente intenção medicinal — exceto água de tamareiras e o cálice de raízes, pois são — bebidas que pessoas saudáveis não costumam consumir, sendo conhecidas especificamente como remédio para a icterícia — e por isso seu consumo delataria intenção medicinal evidente — mas se pode beber água de tamareiras pela sede — quando não há doença, e a intenção é apenas saciar a sede — e untar óleo de raízes sem intenção de remédio — pois, sem tal intenção declarada, o uso do óleo não constitui tratamento médico proibido.

אֵין אוֹכְלִין אֵזוֹב יוֹן בְּשַׁבָּת, לְפִי שֶׁאֵינוֹ מַאֲכַל בְּרִיאִים, אֲבָל אוֹכֵל הוּא אֶת יוֹעֶזֶר וְשׁוֹתֶה אַבּוּב רוֹעֶה. כָּל הָאֳכָלִין אוֹכֵל אָדָם לִרְפוּאָה, וְכָל הַמַּשְׁקִין שׁוֹתֶה, חוּץ מִמֵּי דְקָלִים וְכוֹס עִקָּרִים, מִפְּנֵי שֶׁהֵן לַיְרוֹקָה. אֲבָל שׁוֹתֶה הוּא מֵי דְקָלִים לִצְמָאוֹ, וְסָךְ שֶׁמֶן עִקָּרִין שֶׁלֹּא לִרְפוּאָה:

Sobre o critério de alimento comum · עַל סִימַן מַאֲכַל בְּרִיאִים

Esta mishná estabelece o princípio central que governa o uso de remédios no Shabat: o critério decisivo não é a intenção interna da pessoa, que não pode ser verificada, mas sim se o item consumido é reconhecido como alimento ou bebida de pessoas saudáveis. Quando o é, seu consumo é permitido mesmo com intenção curativa, pois não há decreto contra algo que não revela publicamente essa intenção; quando não o é, seu consumo é proibido, ainda que a pessoa não esteja de fato doente, pois o próprio ato demonstra intenção medicinal.

Devarim 5:12-14
שָׁמוֹר אֶת יוֹם הַשַּׁבָּת לְקַדְּשׁוֹ, כַּאֲשֶׁר צִוְּךָ יְהוָה אֱלֹהֶיךָ׃ שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבֹד וְעָשִׂיתָ כָּל מְלַאכְתֶּךָ׃ וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַיהוָה אֱלֹהֶיךָ, לֹא תַעֲשֶׂה כָל מְלָאכָה אַתָּה וּבִנְךָ וּבִתֶּךָ וְעַבְדְּךָ וַאֲמָתֶךָ וְשׁוֹרְךָ וַחֲמֹרְךָ וְכָל בְּהֶמְתֶּךָ׃
Guarda o dia do Shabat para santificá-lo, como te ordenou Hashem, teu D-us. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra; mas o sétimo dia é Shabat para Hashem, teu D-us; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu boi, nem teu jumento, nem nenhum de teus animais.

O decreto rabínico contra tratamentos médicos. A Guemará (Shabat 53b, 109b) explica que os Sábios proibiram, por decreto geral, o uso de remédios evidentes no Shabat — não porque curar seja em si um trabalho proibido pela Torá, mas por receio de que a pessoa doente, ao buscar tratamento, viesse a moer ervas ou ingredientes medicinais, incorrendo no trabalho proibido de tochen (moer). Como consequência desse decreto, tornou-se necessário distinguir cuidadosamente entre alimentos e bebidas comuns — cujo consumo, mesmo com propósito curativo, permanece permitido, pois não revela abertamente essa intenção — e substâncias reconhecidas exclusivamente como remédio, cujo consumo é proibido justamente por evidenciar publicamente o tratamento.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica o princípio geral de alimento comum versus remédio evidente, em Hilchot Shabat, capítulo vinte e um.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 21:21
כֵּיצַד. לֹא יֹאכַל דְּבָרִים שֶׁאֵינָן מַאֲכַל בְּרִיאִים, כְּגוֹן אֱזוֹבְיוֹן וּפֵיאָה. וְלֹא דְּבָרִים הַמְשַׁלְשְׁלִים כְּגוֹן לַעֲנָה וְכַיּוֹצֵא בָּהֶם. וְכֵן לֹא יִשְׁתֶּה דְּבָרִים שֶׁאֵין דֶּרֶךְ הַבְּרִיאִים לִשְׁתּוֹתָן, כְּגוֹן מַיִם שֶׁבִּשְּׁלוּ בָּהֶן סַמְמָנִין וַעֲשָׂבִים.
Como assim? Não se deve comer coisas que não são alimento de pessoas saudáveis, como o hissopo grego e a peiá. Nem coisas laxantes, como a absinto e semelhantes. E, do mesmo modo, não se deve beber coisas que pessoas saudáveis não costumam beber, como água na qual se cozinharam ervas e plantas medicinais.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 21:22
אוֹכֵל אָדָם אֳכָלִין וּמַשְׁקִין שֶׁדֶּרֶךְ הַבְּרִיאִים לְאָכְלָן וְלִשְׁתּוֹתָן, כְּגוֹן הַכֻּסְבָּרָא וְהַכְּשׁוּת וְהָאֵזוֹב, אַף עַל פִּי שֶׁהֵן מְרַפְּאִין, וְאוֹכְלָן כְּדֵי לְהִתְרַפֵּא בָּהֶם מֻתָּר, הוֹאִיל וְהֵם מַאֲכַל בְּרִיאִים.
Uma pessoa pode comer alimentos e beber bebidas que pessoas saudáveis costumam comer e beber, como o coentro, o lúpulo e o hissopo comum, ainda que sejam curativos; e comê-los com o propósito de se curar por meio deles é permitido, visto que são alimento de pessoas saudáveis.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores identificam as plantas mencionadas e explicam por que a água de tamareiras e o cálice de raízes constituem exceção dentro da própria exceção.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 14:3
אין אוכלין אזוב יון בשבת לפי שאינו מאכל בריאים כו': אזוב יון הוא בערבי אחטוברו"ם. ויועזר הוא בערבי פורנ"ג וכיוצא בו. ואבוב רועה בערבי אצאלדע"י. ומה שאמרו כל האוכלין אוכל אדם לרפואה, ענינו כי כל דבר שדרכו שאוכלין אותו הבריאים ויזונו בו, שהוא מותר לאדם לאכלו על דרך רפואה, כיון שהוא מזון אצל בני אדם בכלל.

"Não se come hissopo grego no Shabat, pois não é alimento de pessoas saudáveis etc." — hissopo grego é, em árabe, achtuvrum. E yoezer é, em árabe, furanj e semelhante a ele. E abuvroê é, em árabe, atzaldai.

E o que dizem "todo alimento pode ser comido por uma pessoa para remédio" — seu sentido é que toda coisa cujo costume é que pessoas saudáveis a comam e dela se alimentem, é permitido a uma pessoa comê-la a título de remédio, visto que é considerada alimento entre as pessoas em geral.

E, na continuação de seu comentário, o Rambam identifica também os demais itens da mishná: a água de tamareiras é a água de dois tamareiras plantadas em Eretz Israel entre as quais corria uma fonte, cuja bebida provoca efeito laxante progressivo; e o cálice de raízes é preparado triturando-se certas raízes e cascas aromáticas, misturadas ao vinho, remédio conhecido para a icterícia — e, por isso, seu consumo delata intenção medicinal, salvo quando bebido apenas pela sede.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 14:3
אֵזוֹב יוֹן. מִין אֵזוֹב שֶׁגָּדֵל בֵּין הַקּוֹצִים וּמֵמִית הַתּוֹלָעִים שֶׁבַּמֵּעַיִם. שֶׁאֵינוֹ מַאֲכַל בְּרִיאִים. וּמוּכְחָא מִלְּתָא דְּלִרְפוּאָה אָכֵיל לֵיהּ, וְאָסוּר לְאָכְלוֹ בְּשַׁבָּת, גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִשְׁחֹק סַמְמָנִים, דַּהֲוֵי תּוֹלָדָה דְּטוֹחֵן. אֲבָל אוֹכֵל הוּא אֶת יוֹעֶזֶר. דְּהַרְבֵּה אוֹכְלִין אוֹתוֹ כְּשֶׁהֵן בְּרִיאִים. כָּל הָאֳכָלִים אוֹכֵל אָדָם לִרְפוּאָה. כָּל דָּבָר שֶׁהוּא אֹכֶל וְהַבְּרִיאִים אוֹכְלִים אוֹתוֹ, יָכֹל אָדָם לְאָכְלוֹ בְּשַׁבָּת אַף עַל פִּי שֶׁהוּא מִתְכַּוֵּן לִרְפוּאָה. חוּץ מִמֵּי דְקָלִים. הֵם שְׁנֵי אִילָנוֹת מִמִּינֵי הַדְּקָלִים שֶׁהָיוּ בְּאֶרֶץ יִשְׂרָאֵל וּבֵינֵיהֶם מַעְיַן מַיִם. מִפְּנֵי שֶׁהֵן לַיְרוֹקָה. בַּעַל חֹלִי הַנִּקְרָא יֵרָקוֹן, אִם יִשְׁתֶּה מֵהֶן יֵרָפֵא. לִצְמָאוֹ. אִם אֵינוֹ חוֹלֶה.

"Hissopo grego" — um tipo de hissopo que cresce entre os espinhos e mata os vermes que há nos intestinos.

"Pois não é alimento de pessoas saudáveis" — e a própria coisa demonstra que é comido por remédio, e é proibido comê-lo no Shabat, por decreto, temendo que se venha a moer ingredientes, o que é derivado do trabalho de moer.

"Mas se come yoezer" — pois muitas pessoas o comem quando estão saudáveis.

"Todo alimento pode ser comido por uma pessoa para remédio" — toda coisa que é alimento, e que pessoas saudáveis comem, uma pessoa pode comê-la no Shabat ainda que tenha intenção de remédio.

"Exceto água de tamareiras" — são duas árvores de tamareiras que havia em Eretz Israel, entre as quais corria uma fonte de água.

"Pois curam a icterícia" — quem sofre da doença chamada icterícia, se bebe dessa água, se cura.

"Pela sede" — quando não está doente.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 109b
מתני' איזביון. מפרש בגמרא שאינו מאכל בריאים ומוכחא מלתא דלרפואה אכיל ליה: אבל אוכל הוא את יועזר. שהרבה אוכלין אותו כשהן בריאין: ממי דקלים. מפרש בגמרא: וכוס עיקרין. משקה שכותשין לתוכו עיקרי ירקות ובשמים, ובגמרא מפרש ליה: מפני שהן לירוקה. לחולי של ירקון, ואינו מאכל בריאים: לצמאו. אם אינו חולה.

"Mishná: hissopo grego" — a Guemará explica que não é alimento de pessoas saudáveis, e a própria coisa demonstra que se come por remédio.

"Mas se come yoezer" — pois muitas pessoas o comem quando estão saudáveis.

"De água de tamareiras" — a Guemará explica.

"E o cálice de raízes" — bebida em que se trituram raízes de vegetais e especiarias, e a Guemará a explica.

"Pois curam a icterícia" — doença chamada icterícia, e não é alimento de pessoas saudáveis.

"Pela sede" — quando não está doente. Nesse caso, o consumo é permitido, pois a finalidade evidente é saciar a sede, e não tratar a icterícia.

Óleo de raízes: a exceção final. A mishná encerra permitindo untar óleo de raízes — o mesmo óleo preparado com as raízes do cálice medicinal — desde que não haja intenção de remédio; a Guemará (Shabat 110a) esclarece que esse óleo era também usado por algumas pessoas apenas por prazer ou higiene, e por isso seu uso sem propósito curativo declarado permanece fora do decreto, ilustrando mais uma vez que o critério central destas leis é a aparência pública do ato, e não apenas a intenção interior de quem o pratica.