Um cervo que entrou por si mesmo na casa, e uma pessoa fechou a porta diante dele, é responsável — pois este é um ato completo de captura realizado por uma única pessoa. Fecharam-na duas pessoas juntas, são isentas — pois, quando dois realizam juntos um trabalho que um só poderia ter feito sozinho, nenhum dos dois é responsável pela oferenda plena, já que cada um fez apenas metade do trabalho. Não conseguia um sozinho fechá-la, e a fecharam dois, são responsáveis — pois, quando o trabalho realmente requer as duas pessoas, cada uma delas é considerada como tendo realizado o trabalho completo. E Rabi Shimon isenta — mesmo neste último caso, por entender que a responsabilidade conjunta nunca se aplica quando mais de uma pessoa participa do mesmo ato.
Esta mishná aplica o princípio da mishná anterior — que a casa é um espaço de captura completa para o cervo — a um caso concreto, e a partir dele introduz um princípio mais amplo das leis de Shabat: a responsabilidade de duas pessoas que realizam juntas um único ato de trabalho. Esse princípio, conhecido como shenayim she'assauha ("dois que o fizeram"), aparece em diversos contextos ao longo do tratado e determina que, quando um trabalho poderia ter sido feito por uma só pessoa, dois que o fazem juntos são isentos — mas quando o trabalho realmente exige ambos, cada um é responsável como se o tivesse feito sozinho.
Por que "dois que o fizeram" são isentos. A Torá formula a proibição de Shabat no singular — "não farás nenhuma obra" — indicando que a responsabilidade plena por oferenda recai sobre quem realiza sozinho um trabalho completo. Quando dois indivíduos dividem entre si um único ato que um só teria podido realizar, nenhum dos dois completou individualmente a obra inteira; por isso ambos são isentos da oferenda, embora o ato permaneça rabinicamente proibido. Mas quando a natureza do trabalho exige necessariamente a força ou a ação de duas pessoas — como fechar uma porta pesada demais para uma só —, cada uma delas é considerada, perante a lei, como tendo realizado sozinha o trabalho completo.
Como o Rambam codifica esta mishná quase literalmente, e decide que a norma prática não segue Rabi Shimon, em Hilchot Shabat, capítulo dez.
A norma prática não segue Rabi Shimon. O Rambam codifica os três casos da mishná — um fechando sozinho, dois fechando juntos um trabalho que um só poderia fazer, e dois fechando juntos um trabalho que realmente exige ambos — sem mencionar a isenção de Rabi Shimon no último caso, seguindo a maioria dos sábios que o consideram responsável. Isto está de acordo com o princípio geral de que, quando um tanaita individual discorda de uma opinião anônima ou majoritária da mishná, a halachá segue a maioria.
Os comentadores explicam por que dois que fecham juntos são isentos, e a base da opinião de Rabi Shimon.
"Um cervo que entrou na casa, e uma pessoa fechou a porta diante dele, é responsável etc." — a razão pela qual disseram que ambos são isentos já foi explicada no início do tratado. E a norma prática não segue Rabi Shimon.
"Um cervo que entrou" — por si mesmo na casa, e uma pessoa fechou a porta diante dele — esta é a sua captura completa.
"Fecharam-na duas, são isentas" — pois se tornam "dois que o fizeram" (um trabalho que um só poderia realizar).
"Não conseguia um sozinho fechá-la" — de modo que era necessário, pela própria natureza da porta, fechá-la com duas pessoas; e assim há, para cada uma delas, um trabalho completo, pois sem ela o ato não se realizaria.
"E Rabi Shimon isenta" — e a norma prática não segue Rabi Shimon.
"Nossa mishná: um cervo que entrou" — por si mesmo. "E uma pessoa fechou a porta diante dele" — esta é a sua captura completa.
"Fecharam-na duas, são isentas" — pois se tornam "dois que o fizeram" (um trabalho que um só poderia realizar).
"Não conseguia um sozinho fechá-la" — de modo que era próprio da natureza da porta fechá-la com duas pessoas; e assim há, para cada uma delas, um trabalho completo, pois sem ela o ato não se realizaria.
"E Rabi Shimon isenta" — segundo sua própria linha de raciocínio, pois ele expõe versículos para isentar tanto o caso em que "este sozinho não pode" quanto o caso em que "aquele sozinho não pode", conforme já discutido no capítulo Hamatzniá (Shabat 92b).
A base bíblica da opinião de Rabi Shimon. Rashi remete à discussão do perek Hamatzniá, onde Rabi Shimon deriva de versículos que mesmo quando dois indivíduos, cada um incapaz de realizar sozinho o trabalho completo, o realizam juntos, ainda assim permanecem isentos — pois, para ele, a responsabilidade individual plena exige que o próprio indivíduo tivesse sido capaz de realizar o trabalho inteiro sozinho, o que nunca ocorre quando duas pessoas são estruturalmente necessárias. Os sábios discordam, e a norma prática segue a maioria. A mishná seguinte prosseguirá com um caso ainda mais sutil de captura por meio de duas pessoas sentadas sucessivamente à porta.