Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud Guimel · Mishná 5

Quem caça um pássaro para a gaiola e um cervo para a casa

הַצָּד צִפּוֹר לַמִּגְדָּל וּצְבִי לַבַּיִת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Rabi Yehudá diz: quem caça um pássaro para a gaiola e um cervo para a casa é responsável; os sábios discordam quanto ao alcance do que conta como captura completa, e Rabán Shimon ben Gamliel introduz o princípio de que nem todos os cercados são iguais — quem falta captura é isento, e quem não falta captura é responsável

Rabi Yehudá diz: aquele que caça um pássaro confinando-o para dentro de uma gaiola, e um cervo confinando-o para dentro de uma casa, é responsávelpois nestes espaços, a fera ou a ave já está capturada de forma plena e definitiva. Mas os sábios dizem: pássaro só se considera capturado quando levado para a gaiola; e um cervo, quando levado para a casa, ou para o pátio, ou para os cercadospois estes espaços, sendo maiores que uma casa, ainda assim contam como captura, uma vez que o animal já não pode escapar deles com facilidade. Rabán Shimon ben Gamliel diz: não são todos os cercados iguaisalguns são pequenos o bastante para contar como captura, outros são grandes demais e não contam. Esta é a regra geral: aquele a quem falta ainda um ato de captura é isento, e aquele a quem não falta nenhum ato de captura é responsável.

רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הַצָּד צִפּוֹר לַמִּגְדָּל וּצְבִי לַבַּיִת, חַיָּב. וַחֲכָמִים אוֹמְרִים, צִפּוֹר לַמִּגְדָּל, וּצְבִי לַבַּיִת וְלֶחָצֵר וְלַבֵּיבָרִין. רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל אוֹמֵר, לֹא כָל הַבֵּיבָרִין שָׁוִין. זֶה הַכְּלָל, מְחֻסַּר צִידָה, פָּטוּר, וְשֶׁאֵינוֹ מְחֻסַּר צִידָה, חַיָּב:

Sobre a melachá de tzeidá · עַל מְלֶאכֶת הַצַּיִד

Com esta mishná, o perek muda de assunto: encerrados os trabalhos de fios e tecidos, a mishná passa a discutir a melachá de tzeidá — capturar animais —, um dos trabalhos-principais realizados na construção do Mishcan, onde se caçava o tachash e outros animais para obter suas peles. O tema central aqui é definir o momento exato em que um animal se considera "capturado": não basta persegui-lo, é preciso confiná-lo de tal modo que sua fuga se torne impraticável.

Shemot 35:2-3
שֵׁשֶׁת יָמִים תֵּעָשֶׂה מְלָאכָה וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי יִהְיֶה לָכֶם קֹדֶשׁ שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן לַיהוָה, כָּל הָעֹשֶׂה בוֹ מְלָאכָה יוּמָת.
Seis dias se fará trabalho, mas no sétimo dia haverá para vós santidade, Shabat de descanso para Hashem; todo aquele que fizer trabalho nele morrerá.

A caça como trabalho do Mishcan. A Guemará (Shabat 106a-106b) relaciona o trabalho de tzeidá à captura do tachash e de outros animais cujas peles eram usadas nas cobertas do Mishcan. Por isso, a definição halachica de "captura" segue o modelo prático da própria construção: um animal só se considera capturado, no sentido pleno da melachá, quando é confinado em um espaço do qual não pode escapar com facilidade — seja uma gaiola para um pássaro pequeno e ágil, seja uma casa, um pátio ou um cercado para um animal maior como o cervo. A disputa entre Rabi Yehudá e os sábios, e a precisão adicional de Rabán Shimon ben Gamliel, giram em torno de quão amplo pode ser esse espaço de confinamento e ainda assim contar como captura completa.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica a lei da captura e do princípio de mechusar tzeidá, decidindo como Rabán Shimon ben Gamliel, em Hilchot Shabat, capítulo dez.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 10:19-20
הַצָּד דָּבָר שֶׁדֶּרֶךְ מִינוֹ לָצוּד אוֹתוֹ חַיָּב, כְּגוֹן חַיָּה וְעוֹפוֹת וְדָגִים, וְהוּא שֶׁיָּצוּד אוֹתָן לְמָקוֹם שֶׁאֵינוֹ מְחֻסַּר צֵידָה. כֵּיצַד. כְּגוֹן שֶׁרָדַף אַחֲרֵי צְבִי עַד שֶׁהִכְנִיסוֹ לְבַיִת... כָּל מָקוֹם שֶׁאִם יָרוּץ בּוֹ יַגִּיעַ לַחַיָּה בִּשְׁחִיָּה אַחַת, אוֹ שֶׁהָיוּ הַכְּתָלִים קְרוֹבִין זֶה לָזֶה עַד שֶׁיִּפֹּל צֵל שְׁנֵיהֶם לָאֶמְצַע כְּאֶחָד, הֲרֵי זֶה מָקוֹם קָטָן.
Aquele que caça algo cuja espécie costuma ser caçada é responsável — como fera, aves e peixes —, desde que os capture para um lugar que não falte captura. Como assim? Por exemplo, que tenha perseguido um cervo até introduzi-lo numa casa... Todo lugar onde, se alguém correr nele, alcançará a fera com uma única inclinação do corpo, ou onde as paredes estejam próximas o bastante para que a sombra de ambas caia no centro como uma só, este é considerado um lugar pequeno.

O critério de "mechusar tzeidá": um lugar pequeno é já captura. O Rambam decide como Rabán Shimon ben Gamliel — que não todos os cercados são iguais — e explica o critério prático para distinguir um "lugar pequeno", onde o confinamento já configura captura completa, de um "lugar grande", onde a captura ainda não está completa. O teste é físico: se um perseguidor, correndo dentro do espaço, consegue alcançar o animal com uma única inclinação do corpo (ou se as paredes são próximas o suficiente para que as sombras de ambas se encontrem no centro), o espaço é pequeno e o animal já está capturado; caso contrário, ainda falta um ato de captura, e quem o introduziu nesse espaço maior é isento.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam a diferença entre a gaiola do pássaro e a casa do cervo, e por que a halachá segue Rabán Shimon ben Gamliel.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 13:5
רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר הַצָּד צִפּוֹר לַמִּגְדָּל וּצְבִי לַבַּיִת חַיָּב כוֹ': בֵּיבָר מָקוֹם שֶׁמַּכְנִיסִין בּוֹ הָעוֹפוֹת וְהַבְּהֵמוֹת, וְהֲלָכָה כַּחֲכָמִים כַּאֲשֶׁר פֵּרֵשׁ רַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל.

"Rabi Yehudá diz: aquele que caça um pássaro para a gaiola e um cervo para a casa é responsável etc." — o beivar é um lugar no qual se introduzem as aves e os animais. E a norma prática segue os sábios, conforme explicado por Rabán Shimon ben Gamliel.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 13:5
הַצָּד צִפּוֹר. עַד שֶׁהִכְנִיסוֹ לְמִגְדָּל שֶׁל עֵץ, ארמאריא"ו בְּלַעַ"ז, חַיָּב, שֶׁזּוֹ הוּא צִידָתוֹ, אֲבָל אִם הִכְנִיסוֹ לַבַּיִת אֵינוֹ נִצּוֹד בְּכָךְ. וּצְבִי. נִצּוֹד מִשֶּׁהִכְנִיסוֹ לַבַּיִת וְנָעַל בְּפָנָיו, אֲבָל אִם הִכְנִיסוֹ לַגִּנָּה אוֹ לֶחָצֵר אֵין זוֹ צִידָה. וְלַבֵּיבָרִין. קַרְפִּיפוֹת הַמֻּקָּפִים חוֹמָה שֶׁמַּכְנִיסִין שָׁם חַיּוֹת וְנִשְׁמָרִים שָׁם. כָּל הַמְחֻסָּר צִידָה. שֶׁקָּשֶׁה לְתָפְשׂוֹ שָׁם, כְּגוֹן שֶׁאֵינוֹ מַגִּיעַ לוֹ בִּשְׁחִיָּה אַחַת שֶׁשּׁוֹחֶה לְתָפְשׂוֹ. וַהֲלָכָה כְּרַבָּן שִׁמְעוֹן בֶּן גַּמְלִיאֵל.

"Aquele que caça um pássaro" — só é responsável quando o introduz numa gaiola de madeira (armário, em francês antigo), pois esta é a sua captura completa; mas se o introduziu numa casa, não está capturado por isso, pois pode escapar por janelas.

"E um cervo" — está capturado desde que o introduza numa casa e feche a porta diante dele; mas se o introduziu num jardim ou num pátio, isto não é captura.

"E para os cercados" — recintos murados nos quais se introduzem animais e são ali guardados.

"Todo aquele a quem falta captura" — porque é difícil apanhá-lo ali, como quando não se consegue alcançá-lo com uma única inclinação do corpo ao abaixar-se para agarrá-lo. E a norma prática segue Rabán Shimon ben Gamliel.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 106a-106b
מַתְנִי' הַצָּד צִפּוֹר. עַד שֶׁהִכְנִיסוֹ לְמִגְדָּל מִשְׁטִי"ר בְּלַעַ"ז חַיָּב דְּזוֹ הִיא צִידָתוֹ, אֲבָל אִם הִכְנִיסוֹ לַבַּיִת אֵינוֹ נִצּוֹד בְּכָךְ שֶׁיּוֹצֵא לוֹ דֶּרֶךְ חַלּוֹנוֹת: וּצְבִי. נִצּוֹד מִשֶּׁהִכְנִיסוֹ לְבֵיתוֹ וְנָעַל בְּפָנָיו, אֲבָל אִם הִכְנִיסוֹ לְגִנָּה אוֹ לֶחָצֵר אֵין זוֹ צִידָה. הַמְחֻסָּר צִידָה. שֶׁקָּשֶׁה לְתָפְשׂוֹ שָׁם כִּדְמְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא.

"Nossa mishná: aquele que caça um pássaro" — só é responsável quando o introduz numa gaiola (meshtir, em francês antigo), pois esta é a sua captura; mas se o introduziu numa casa, não está capturado por isso, pois ele sai por meio das janelas.

"E um cervo" — está capturado desde que o introduza em sua casa e feche a porta diante dele; mas se o introduziu num jardim ou num pátio, isto não é captura.

"Aquele a quem falta captura" — porque é difícil apanhá-lo ali, conforme se explica na Guemará.

O tamanho do espaço determina se a captura já ocorreu. Esta mishná ensina que "capturar" não é apenas confinar um animal fisicamente, mas confiná-lo de modo que sua fuga se torne praticamente impossível — critério que varia conforme a espécie (um pássaro precisa de uma gaiola pequena; um cervo, de uma casa inteira) e conforme o tamanho do cercado. A mishná seguinte aplicará este mesmo princípio a um caso concreto: o cervo que entra sozinho numa casa, e a responsabilidade de quem fecha a porta atrás dele.