Aquele que escreve duas letras no Shabat em dois lapsos de esquecimento separados — uma letra pela manhã e uma à tardinha — havendo entre as duas um intervalo de consciência plena de que era Shabat, de modo que cada letra foi escrita em um momento distinto de esquecimento — Rabban Gamliel responsabiliza por trazer oferenda pelo pecado, como se a pessoa tivesse cometido, de forma inadvertida, um único trabalho completo de duas letras — e os sábios isentam — pois entendem que a consciência intermediária, ainda que breve, separa os dois atos em duas metades de medida distintas, cada uma insuficiente por si só para gerar responsabilidade plena.
Esta última mishná do capítulo levanta uma questão de princípio geral, análoga à que fechou o capítulo anterior: se o conhecimento intermediário entre dois atos parciais de uma mesma categoria de trabalho separa-os em duas ações distintas, ou se ambos se unem como um único trabalho completo.
A questão de "há conhecimento para metade da medida". A disputa entre Rabban Gamliel e os sábios gira em torno de um princípio técnico da lei de responsabilidade penal: quando alguém realiza metade da medida mínima de um trabalho proibido (aqui, uma única letra, que é metade da medida de "duas letras"), tem um momento de consciência de que é Shabat, e depois volta a esquecer e completa a medida — essa consciência intermediária conta como "conhecimento" que divide o ato em duas unidades separadas e insuficientes, ou é irrelevante, unindo as duas metades num único trabalho pelo qual se é responsável?
Como o Rambam codifica o princípio de que "há conhecimento para metade da medida", decidindo a norma prática como os sábios, em Hilchot Shegagot, capítulo seis.
Por que a norma prática segue os sábios. O Rambam decide que a consciência intermediária, mesmo breve, é juridicamente relevante: ela interrompe a continuidade do "esquecimento" exigida para a responsabilidade por oferenda pelo pecado, dividindo o que poderia ter sido um único trabalho em dois atos parciais e independentes. Como cada metade, isoladamente, é insuficiente para gerar responsabilidade, a pessoa fica isenta de oferenda em ambos os casos — ainda que, do ponto de vista prático, ela tenha efetivamente escrito duas letras completas no mesmo dia de Shabat.
Os comentadores explicam o fundamento da disputa entre Rabban Gamliel e os sábios sobre "conhecimento para metade da medida", e como isso se aplica ao caso da escrita.
"Aquele que escreve duas letras em dois lapsos de esquecimento etc." — A intenção desta lei é que aquele que realiza parte de um trabalho numa hora do dia de Shabat, e não a concluiu, e a concluiu em outra hora, estando esquecido nas duas horas, mas se lembrou entre as duas horas de que aquela parte que fez foi uma transgressão, e depois voltou a esquecer e concluiu o trabalho — Rabban Gamliel diz: não há conhecimento para metade da medida, e aquele conhecimento é como se não tivesse existido e não deixou marca alguma; e, num único lapso de esquecimento, ele realizou o trabalho inteiro, e por isso é responsável por oferenda pelo pecado.
E os sábios dizem: há conhecimento para metade da medida, e a parte do trabalho se separa da outra parte por meio do conhecimento; e por isso ele é isento da oferenda, mas é responsável por açoites de rebeldia pela metade da medida, como já explicamos. Pois quando disseram "isento", esta foi sua intenção. Em que caso se disse isto? Quando fez a metade da medida deliberadamente; mas se foi por esquecimento, não é açoitado. E a norma prática é como os sábios.
"Em dois lapsos" — depois de escrever uma letra por esquecimento, ficou sabendo que havia transgredido, e voltou a esquecer, e por esquecimento escreveu uma segunda letra ao lado dela.
"Uma pela manhã e uma à tardinha" — já que houve intervalo suficiente entre elas para tomar conhecimento, é como se fossem dois lapsos de esquecimento distintos.
"Rabban Gamliel responsabiliza" — pois opina que não há conhecimento para metade da medida capaz de dividir, de modo que a outra metade não se junta a ela separadamente.
"E os sábios isentam" — pois opinam que o conhecimento entre as duas metades da medida as divide entre si, e não se torna como se as duas metades da medida tivessem ocorrido num único lapso de esquecimento. E a norma prática é como os sábios.
"'Todos os responsáveis por oferendas pelo pecado só o são quando o início e o fim são por esquecimento'" — a Guemará aplica este princípio, já estabelecido para outras categorias de trabalho, também ao caso da escrita: logo, se a pessoa soube nesse ínterim que era Shabat, é isenta, pois não há aqui um único esquecimento completo. E esta é a razão dos sábios, que isentam também aqui, no caso de escrever duas letras — pois em que a escrita seria diferente das demais categorias de trabalho?
Encerrando o Perek Yud Bet. Com esta mishná se fecha o décimo segundo capítulo do tratado de Shabat — dedicado às categorias de construção e acabamento de obra (12:1), lavoura e colheita (12:2), e à extensa categoria de escrever, abordada em suas várias nuances: a medida mínima de duas letras (12:3), os materiais e superfícies válidos (12:4), os casos de isenção por material não permanente, método incomum ou falta de unidade (12:5), e, por fim, o princípio de que o conhecimento intermediário divide um ato em duas metades insuficientes (12:6). Este último tema ecoa deliberadamente o encerramento do capítulo anterior, reforçando que a exigência de "esquecimento do início ao fim" é um princípio transversal a todas as categorias de trabalho proibido no Shabat. O Perek Yud Gimel, a seguir, continuará a tratar da categoria de tecelagem e das medidas mínimas de outros trabalhos relacionados a fios e tecidos.