Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud Bet · Mishná 5

Quem escreve com líquidos que não permanecem

כָּתַב בְּמַשְׁקִין
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Escreveu com líquidos, suco de frutas, poeira de estradas, poeira de escribas, ou qualquer material que não permanece, é isento; com o dorso da mão, o pé, a boca, o cotovelo; escreveu uma letra junto a escrita já existente; escreveu sobre escrita já existente; teve a intenção de escrever chet e escreveu dois zayin, um no chão e um na viga; sobre duas paredes da casa, ou duas tábuas de um caderno que não se leem juntas, é isento; caso de uma letra por abreviação — Rabi Yehoshua ben Beteira responsabiliza, os sábios isentam

Escreveu com líquidos escuros, com suco de frutas, com poeira de estradas — traçando o formato das letras com o dedo na areia ou na poeira do caminho — com poeira de escribas — o pó usado para secar a tinta — e com qualquer material com o qual a escrita não permanece, é isento. Do mesmo modo, se escreveu com o dorso de sua mão, com seu pé, com sua boca e com seu cotovelo — segurando a pena de forma incomum — escreveu uma única letra — mesmo que fosse adjacente a escrita preexistente, completando duas letras juntas — ou escreveu sobre escrita já existente — repassando a pena sobre letras já escritas — teve a intenção de escrever a letra chet e escreveu dois zayin — de modo que não se formou o teto que une as duas pernas da letra chet, parecendo duas letras zayin separadas — um no chão e um na viga — ou seja, uma letra numa superfície baixa e outra numa alta, sem conexão visual direta — escreveu sobre duas paredes da casa — que não formam ângulo adjacente — ou sobre duas tábuas de um caderno, e elas não se leem juntas, é isento. Escreveu uma única letra por abreviação — representando uma palavra inteira — Rabi Yehoshua ben Beteira responsabiliza por oferenda, e os sábios isentam — pois consideram que apenas uma letra, mesmo com significado abreviado, não constitui o ato mínimo de "escrever duas letras".

כָּתַב בְּמַשְׁקִין, בְּמֵי פֵרוֹת, בַּאֲבַק דְּרָכִים, בַּאֲבַק הַסּוֹפְרִים, וּבְכָל דָּבָר שֶׁאֵינוֹ מִתְקַיֵּם, פָּטוּר. לְאַחַר יָדוֹ, בְּרַגְלוֹ, בְּפִיו וּבְמַרְפְּקוֹ, כָּתַב אוֹת אַחַת סָמוּךְ לִכְתָב, וּכְתָב עַל גַּבֵּי כְתָב, נִתְכַּוֵּן לִכְתֹּב חֵי"ת וְכָתַב שְׁנֵי זַיְ"נִין, אֶחָד בָּאָרֶץ וְאֶחָד בַּקּוֹרָה, כָּתַב עַל שְׁנֵי כָתְלֵי הַבַּיִת, עַל שְׁנֵי דַפֵּי פִנְקָס וְאֵין נֶהְגִּין זֶה עִם זֶה, פָּטוּר. כָּתַב אוֹת אַחַת נוֹטָרִיקוֹן, רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן בְּתֵירָא מְחַיֵּב, וַחֲכָמִים פּוֹטְרִין:

Sobre os casos de isenção na escrita · עַל מִקְרֵי הַפְּטוֹר בַּכְּתִיבָה

Esta mishná reúne uma série de casos em que, apesar de haver ato físico de escrever, falta algum elemento essencial para a responsabilidade plena: permanência do material, quantidade mínima de letras, ou unidade de leitura entre as partes escritas.

Shemot 35:2
שֵׁשֶׁת יָמִים תֵּעָשֶׂה מְלָאכָה, וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי יִהְיֶה לָכֶם קֹדֶשׁ שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן לַיהוָה, כָּל הָעֹשֶׂה בוֹ מְלָאכָה יוּמָת.
Seis dias se fará trabalho, e no sétimo dia haverá para vós santidade, Shabat de descanso para Hashem; todo aquele que fizer trabalho nele morrerá.

O princípio geral por trás dos casos de isenção. Todos os casos reunidos nesta mishná ilustram uma mesma lógica: para que um ato conte como o "trabalho" proibido de escrever, ele precisa satisfazer a definição completa dessa categoria — não apenas produzir marcas com formato de letras, mas fazê-lo de modo permanente, pela via costumeira (com a mão, não com o cotovelo ou a boca), em quantidade mínima de duas letras, e de forma que as partes escritas formem uma unidade legível. A ausência de qualquer um desses elementos torna o ato uma imitação da escrita, não a escrita em si — por isso todos estes casos resultam em isenção da oferenda pelo pecado, ainda que o ato permaneça proibido por decreto rabínico.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica os casos de isenção relacionados a materiais não permanentes e escrita por vias incomuns, em Hilchot Shabat, capítulo onze.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 11:15-16
כָּתַב בְּמַשְׁקִין שֶׁאֵינָן מִתְקַיְּמִין, כְּגוֹן מֵי פֵּרוֹת, אוֹ שֶׁכָּתַב בַּאֲבַק שֶׁעַל גַּבֵּי הַקַּרְקַע אוֹ בַּאֲבַק סוֹפְרִים, פָּטוּר, שֶׁאֵין זֶה כְּתָב הַמִּתְקַיֵּם. כָּתַב בְּיָדוֹ הַשְּׂמָאלִית, אוֹ בְּרַגְלוֹ, אוֹ בְּפִיו, אוֹ בְּמַרְפֵּקוֹ, פָּטוּר, שֶׁאֵין דֶּרֶךְ כְּתִיבָה בְּכָךְ.
Escreveu com líquidos que não permanecem, como suco de frutas, ou escreveu na poeira sobre o solo ou na poeira dos escribas, é isento, pois esta não é escrita que permanece. Escreveu com sua mão esquerda, ou com seu pé, ou com sua boca, ou com seu cotovelo, é isento, pois esta não é a forma usual de escrever.

Dois fundamentos distintos para a isenção. O Rambam distingue dois motivos independentes para isentar: o primeiro é a falta de permanência do material (líquidos que se apagam, poeira que se dissipa), pois a definição de trabalho proibido exige um resultado duradouro. O segundo é a falta do "modo usual" de realizar o ato — escrever com o pé ou a boca, mesmo que produza letras permanentes, não constitui a forma convencional de escrita, e por isso, embora a pessoa tenha alcançado um resultado funcionalmente equivalente, falta o elemento formal que a Torá exige para responsabilidade plena.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam os materiais mencionados, o caso da letra chet transformada em dois zayin, e a disputa sobre a letra única como abreviação (notarikon).

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 12:5
כָּתַב בְּמַשְׁקִין בְּמֵי פֵירוֹת בַּאֲבַק דְּרָכִים כוֹ': אֶחָד בָּאָרֶץ וְאֶחָד בַּקּוֹרָה רוֹצֶה לוֹמַר כָּתַב אוֹת אַחַת בָּאָרֶץ וְאַחַת בַּקּוֹרָה: וְנוֹטָרִיקוֹן הוּא שֶׁיִּכְתֹּב אוֹת אַחַת מֵרֹאשׁ הַמִּלָּה וְיוּבַן מֵאוֹתָהּ אוֹת כָּל הַמִּלָּה כְּמוֹ שֶׁיִּכְתֹּב ק' וְיַנְקֹד עָלֶיהָ וְיִהְיֶה רֶמֶז עַל קָרְבָּן אוֹ יִכְתֹּב מ' וְיִהְיֶה רֶמֶז עַל מַעֲשֵׂר וְיוּבַן מִמֶּנּוּ זֶה כְּפִי מַה שֶּׁהִסְכִּימוּ אַנְשֵׁי נוֹף אֶחָד אוֹ אַנְשֵׁי מְדִינָה אַחַת רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן בְּתֵירָא אָמַר כֵּיוָן שֶׁהַכֹּל מְבִינִים מֵאוֹתָהּ אוֹת הַמִּלָּה כֻּלָּהּ כְּאִלּוּ כָּתַב אוֹתִיּוֹת הַרְבֵּה וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

"Escreveu com líquidos, com suco de frutas, com poeira de estradas etc." — "Um no chão e um na viga" quer dizer que escreveu uma letra no chão e uma na viga do teto, sem conexão visual entre elas.

E notarikon é quando se escreve uma única letra do início da palavra, e a partir dessa letra se compreende a palavra inteira — como quem escreve kuf e a pontua, sendo indício de "korban" (oferenda), ou escreve mem, sendo indício de "maasser" (dízimo), e isto se compreende conforme o que combinaram os habitantes de determinada região ou de determinada cidade. Rabi Yehoshua ben Beteira disse: uma vez que todos compreendem a partir daquela letra a palavra inteira, é como se tivesse escrito muitas letras. E a norma prática é como os sábios.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 12:5
בְּמַשְׁקִין. שֶׁמַּשְׁחִירִין, כְּמוֹ מֵי תּוּתִים וְכַיּוֹצֵא בָּהֶן: בְּמֵי פֵרוֹת. שֶׁל כָּל שְׁאָר פֵּרוֹת: בַּאֲבַק דְּרָכִים. כְּגוֹן שֶׁסָּרַט בְּאֶצְבָּעוֹ צוּרַת אוֹתִיּוֹת עַל הַחֹל וְהָאָבָק שֶׁבַּדְּרָכִים: בַּאֲבַק סוֹפְרִים. עַפְרוּרִית שֶׁל קֶסֶת הַסּוֹפֵר: לְאַחַר יָדוֹ. עַל גַּב יָדוֹ, שֶׁאָחַז הַקֻּלְמוֹס בְּאֶצְבְּעוֹתָיו וְהָפַךְ יָדוֹ וְכָתַב: וּבְמַרְפְּקוֹ. הַפֶּרֶק הָאֶמְצָעִי שֶׁבַּזְּרֹעַ: אוֹת אַחַת סָמוּךְ לִכְתָב. אֵצֶל אוֹת כְּתוּבָה זִוֵּג לָהּ אַחַת וְהִשְׁלִימָהּ לִשְׁתַּיִם: כְּתָב עַל גַּבֵּי כְּתָב. הֶעֱבִיר קֻלְמוֹס עַל אוֹתִיּוֹת הַכְּתוּבִים כְּבָר וְחִדְּשָׁם: וְכָתַב שְׁנֵי זַיְנִין. שֶׁלֹּא נִרְאֶה הַגַּג שֶׁל חי"ת אֶלָּא שְׁנֵי הָרַגְלַיִם נִרְאֶה כְּאִלּוּ הֵם שֵׁנִי זַיְינִי"ן: עַל שְׁנֵי כָתְלֵי הַבַּיִת. שֶׁאֵינָן בַּמִּקְצוֹעַ: עַל שְׁנֵי דַּפֵּי פִנְקָס. שֶׁעֲשׂוּיִין עַמּוּדִים עַמּוּדִים, כָּתַב אוֹת אַחַת בְּעַמּוּד זֶה וְאוֹת אַחַת בְּעַמּוּד זֶה, וְאֵינוֹ יָכֹל לְקָרְבָן אֶלָּא אִם כֵּן יַחְתֹּךְ מַה שֶּׁמַּפְסִיק בֵּינֵיהֶן. וְתָנָא בָּרֵישָׁא כָּתְלֵי הַבַּיִת הַמְּרֻחָקִים זֶה מִזֶּה וַהֲדַר תָּנֵי דַּפֵּי פִּנְקָס, וְלֹא זוֹ אַף זוֹ קָתָנֵי: אוֹת אַחַת עַל שֵׁם נוֹטָרִיקוֹן. שֶׁעוֹשֶׂה סִימָן נְקֻדָּה עָלֶיהָ וּמְבִינִים מֵאוֹתָהּ הָאוֹת תֵּבָה שְׁלֵמָה, כְּגוֹן קוֹ"ף קָרְבָּן, מֵ"ם מַעֲשֵׂר, תָּ"ו תְּרוּמָה: רַבִּי יְהוֹשֻׁעַ בֶּן בְּתֵירָא אוֹמֵר חַיָּב. כֵּיוָן שֶׁהַכֹּל מְבִינִים מֵאוֹתָהּ הָאוֹת תֵּבָה שְׁלֵמָה, כְּאִלּוּ כָּתַב אוֹתִיּוֹת שֶׁל כָּל הַתֵּבָה: וַחֲכָמִים פּוֹטְרִין. שֶׁהֲרֵי לֹא כָּתַב שְׁתֵּי אוֹתִיּוֹת. וַהֲלָכָה כַּחֲכָמִים.

"Com líquidos" — que escurecem, como suco de amoras e semelhantes.

"Com suco de frutas" — de quaisquer outras frutas.

"Com poeira de estradas" — como quem risca com o dedo o formato de letras na areia e na poeira dos caminhos.

"Com poeira de escribas" — o pó do tinteiro do escriba.

"Com o dorso de sua mão" — sobre o dorso de sua mão, segurando a pena com os dedos e virando a mão, escrevendo assim.

"E com seu cotovelo" — a articulação do meio do braço.

"Uma letra adjacente à escrita" — junto a uma letra já escrita, emparelhou-lhe outra e a completou em duas.

"Escreveu sobre escrita" — passou a pena sobre letras já escritas e as renovou.

"E escreveu dois zayin" — de modo que não se via o teto do chet, mas apenas as duas pernas, parecendo que eram dois zayin.

"Sobre duas paredes da casa" — que não estão no ângulo adjacente.

"Sobre duas tábuas de um caderno" — que são feitas em colunas, e escreveu uma letra nesta coluna e uma letra naquela coluna, e não pode juntá-las a menos que corte o que as separa. E a mishná ensinou primeiro as paredes distantes da casa e depois as tábuas do caderno, ensinando a progressão de "não apenas isto, mas também isto".

"Uma letra por notarikon" — que faz um sinal de pontuação sobre ela, e todos compreendem, a partir daquela letra, uma palavra inteira, como kof para "korban", mem para "maasser", tav para "terumah".

"Rabi Yehoshua ben Beteira diz responsável" — já que todos compreendem, a partir daquela letra, a palavra inteira, é como se tivesse escrito as letras de toda a palavra.

"E os sábios isentam" — pois não escreveu duas letras. E a norma prática é como os sábios.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 105a
וְעָלוּ בְיָדוֹ שְׁתַּיִם - הַיְנוּ נַמִּי מִתְכַּוֵּן לִכְתֹּב ח' וְכָתַב שְׁנֵי זַיְנִין: הָא - דִּתְנַן פָּטוּר: דְּבָעֵי זִיּוּנֵי - שֶׁעֲדַיִן צְרִיכוֹת רָאשֵׁי הַזַּיְנִין לְזַיְּנָן בְּתָגִין שֶׁלָּהֶן שֶׁהַזַּיְנִין צְרִיכוֹת ג' זִיּוּנִין יָמִין וּשְׂמֹאל וּלְמַעְלָה כִּדְאָמְרִינַן בִּמְנָחוֹת (דַּף כ״ט:).

"'E resultaram em suas mãos duas'" — a Guemará explica que isto também se refere ao caso de quem teve a intenção de escrever a letra chet e escreveu dois zayin.

"'Esta'" — a distinção entre os dois casos: o caso que ensinamos como isento.

"'Pois precisam de coroamento'" — pois as pontas dos zayin ainda precisam ser coroadas com seus adornos, já que os zayin precisam de três coroamentos — direita, esquerda e em cima — como dizemos em Menachot (29b) a respeito da escrita ritual de um sefer Torá.

Encerrando o tema da escrita imperfeita. Esta mishná reúne, de forma sistemática, todos os modos pelos quais um ato de escrita pode falhar em satisfazer a definição plena de trabalho proibido: material que não perdura, método incomum, quantidade insuficiente (uma única letra), ou falta de unidade entre as partes. A disputa final, sobre a letra única usada como abreviação convencional, mostra os limites da categoria: mesmo quando o significado é plenamente compreendido pela comunidade, os sábios exigem a presença física de duas letras distintas para que se configure o ato completo de "escrever".