Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud Alef · Mishná 6 (última)

Quem lança e se lembra depois

הַזּוֹרֵק וְנִזְכַּר לְאַחַר שֶׁיָּצְתָה מִיָּדוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerramento do Perek Yud Alef: quem lança um objeto e se lembra, depois que já saiu de sua mão, que é Shabat — se outro o apanhou, ou um cão o apanhou, ou foi queimado, está isento; quem lançou uma pedra para ferir pessoa ou animal e se lembrou antes que o ferimento se consumasse está isento; este é o princípio: todos os responsáveis por oferenda pelo pecado só o são quando o início e o fim de sua ação são por engano

Aquele que lança um objeto e se lembraque é Shabat e que está transgredindo, tendo lançado por esquecimento — depois que o objeto já saiu de sua mãomas antes de pousar em seu destino — se outro o apanhou, ou um cão o apanhou, ou foi queimado no ar antes de pousar, está isentopois, embora o início da ação — o arrancar o objeto do lugar de origem — tenha sido por esquecimento genuíno, o pouso, que completa a transgressão, nunca ocorreu da forma exigida: foi interceptado por outro agente ou destruído antes de se consumar como pouso pleno. E do mesmo modo, aquele que lançou uma pedra para ferir uma pessoa ou um animale por isso seria responsável por uma oferenda pelo pecado, caso o ferimento se consumasse por esquecimento — e se lembrou antes que o ferimento se consumasse, está isento. Este é o princípio: todos os responsáveis por trazer oferendas pelo pecado só o são quando o início de sua ação e o fim dela são por esquecimentoou seja, a pessoa deve permanecer inconsciente da transgressão do início ao fim do ato; se ela se lembra no meio do processo, mesmo que o ato se complete fisicamente depois, falta a condição plena para a responsabilidade por oferenda.

הַזּוֹרֵק וְנִזְכַּר לְאַחַר שֶׁיָּצְתָה מִיָּדוֹ, קְלָטָהּ אַחֵר, קְלָטָהּ כֶּלֶב, אוֹ שֶׁנִּשְׂרְפָה, פָּטוּר. זָרַק לַעֲשׂוֹת חַבּוּרָה, בֵּין בָּאָדָם וּבֵין בַּבְּהֵמָה, וְנִזְכַּר עַד שֶׁלֹּא נַעֲשֵׂית חַבּוּרָה, פָּטוּר. זֶה הַכְּלָל, כָּל חַיָּבֵי חַטָּאוֹת אֵינָן חַיָּבִין עַד שֶׁתְּהֵא תְחִלָּתָן וְסוֹפָן שְׁגָגָה:

Sobre o encerramento do Perek Yud Alef · עַל סִיּוּם הַפֶּרֶק

Esta última mishná do capítulo não trata diretamente das leis de domínio, mas fecha o assunto do lançamento com um princípio geral sobre a responsabilidade por oferenda pelo pecado: a exigência de que o esquecimento persista do início ao fim da ação.

Vaicrá 4:27-28
וְאִם נֶפֶשׁ אַחַת תֶּחֱטָא בִשְׁגָגָה מֵעַם הָאָרֶץ בַּעֲשֹׂתָהּ אַחַת מִמִּצְוֹת יְהוָה אֲשֶׁר לֹא תֵעָשֶׂינָה וְאָשֵׁם. אוֹ הוֹדַע אֵלָיו חַטָּאתוֹ אֲשֶׁר חָטָא, וְהֵבִיא קָרְבָּנוֹ שְׂעִירַת עִזִּים תְּמִימָה נְקֵבָה עַל חַטָּאתוֹ אֲשֶׁר חָטָא.
E se uma pessoa do povo da terra pecar por esquecimento, ao fazer uma das coisas que Hashem ordenou não fazer, e se tornar culpada. Ou lhe for dado a conhecer o pecado que cometeu, trará como sua oferenda uma cabra sem defeito, fêmea, por seu pecado que cometeu.

Por que a lembrança no meio da ação isenta. A Torá exige, para a responsabilidade por trazer uma oferenda pelo pecado, que a transgressão tenha sido cometida por shegagah — esquecimento genuíno. A tradição oral esclarece que esse esquecimento deve caracterizar toda a ação, do início ao fim: se a pessoa se torna consciente de que está transgredindo em algum ponto entre o início do ato (como o arrancar do objeto para lançá-lo) e sua conclusão (o pouso do objeto, ou a consumação do ferimento), falta a condição de "esquecimento pleno", e ela fica isenta da oferenda — mesmo que o resultado físico da transgressão ainda se complete por conta própria.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica o princípio de que o início e o fim da transgressão devem ser por esquecimento, usando exatamente o exemplo do transporte no Shabat, em Hilchot Shegagot, capítulo dois.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shegagot 2:1
אֵין אָדָם חַיָּב חַטָּאת עַל שִׁגְגָתוֹ עַד שֶׁיִּהְיֶה שׁוֹגֵג מִתְּחִלָּה וְעַד סוֹף. אֲבָל אִם שָׁגַג בַּתְּחִלָּה וְהֵזִיד בַּסּוֹף, אוֹ הֵזִיד בַּתְּחִלָּה וְשָׁגַג בַּסּוֹף, פָּטוּר מִקָּרְבַּן חַטָּאת. כֵּיצַד. כְּגוֹן שֶׁהוֹצִיא חֵפֶץ מֵרְשׁוּת לִרְשׁוּת בְּשַׁבָּת, עָקַר בְּזָדוֹן וְהִנִּיחַ בִּשְׁגָגָה, אוֹ שֶׁעָקַר בִּשְׁגָגָה וְהִנִּיחַ בְּזָדוֹן, פָּטוּר, עַד שֶׁיַּעֲקֹר בִּשְׁגָגָה וְיַנִּיחַ בִּשְׁגָגָה.
Ninguém é responsável por oferenda pelo pecado por seu esquecimento, a menos que esteja esquecido do início ao fim. Mas se esqueceu no início e agiu deliberadamente no fim, ou agiu deliberadamente no início e esqueceu no fim, está isento da oferenda pelo pecado. Como assim? Por exemplo, aquele que transportou um objeto de um domínio a outro no Shabat: se arrancou deliberadamente e pousou por esquecimento, ou arrancou por esquecimento e pousou deliberadamente, está isento, a menos que arranque por esquecimento e pouse por esquecimento.

Por que o Rambam escolhe justamente este exemplo. É notável que o Rambam, ao codificar o princípio geral de que o início e o fim de toda transgressão devem ser por esquecimento, escolha precisamente o exemplo do transporte no Shabat — o mesmo tema central deste capítulo da Mishná. Isso demonstra como a última mishná do Perek Yud Alef não é um apêndice desconectado, mas a aplicação natural, ao caso específico do lançamento, de um princípio que rege toda a estrutura da responsabilidade penal por transgressões inadvertidas na Torá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores esclarecem a estrutura lógica da mishná e por que "dois que a fizeram" — o lançador e quem apanhou o objeto — resultam em isenção para ambos.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 11:6
הַזּוֹרֵק וְנִזְכַּר לְאַחַר שֶׁיָּצְאָה מִיָּדוֹ, קָלְטָהּ אַחֵר כוֹ': כְּשֶׁתְּדַקְדֵּק לְשׁוֹן זֹאת הַמִּשְׁנָה תִּמְצָא בָּהּ קֻשְׁיָא. וְהוּא כִּי הוּא אָמַר כְּשֶׁנִּזְכַּר שֶׁהוּא אָסוּר וְאַחַר כֵּן קְלָטוֹ אַחֵר לְאוֹתוֹ דָּבָר שֶׁזָּרַק, שֶׁהוּא פָּטוּר; וְאִם לֹא קְלָטוֹ אַחֵר, אֶלָּא שֶׁנָּפַל לָאָרֶץ, יִהְיֶה חַיָּב, וְזֶה אַחַר שֶׁנִּזְכַּר. וְאַחַר כֵּן אָמַר כָּל חַיָּבֵי חַטָּאוֹת אֵינָן חַיָּבִין עַד שֶׁתְּהֵא תְּחִלָּתָן וְסוֹפָן שְׁגָגָה. וְשֵׁעָרוּהָ בַּגְּמָרָא כָּךְ: הַזּוֹרֵק וְנִזְכַּר לְאַחַר שֶׁיָּצְאת מִיָּדוֹ, אוֹ שֶׁלֹּא נִזְכַּר וְקְלָטָהּ אַחֵר אוֹ קְלָטָהּ כֶּלֶב אוֹ נִשְׂרְפָה, פָּטוּר. הָא נָחָה, חַיָּב חַטָּאת. בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים, כְּשֶׁחָזַר וְשָׁכַח, אֲבָל לֹא חָזַר וְשָׁכַח, פָּטוּר, שֶׁכָּל חַיָּבֵי חַטָּאוֹת אֵינָן חַיָּבִין עַד שֶׁתְּהֵא תְּחִלָּתָן וְסוֹפָן שְׁגָגָה.

"Aquele que lança e se lembra depois que já saiu de sua mão, se outro o apanhou etc." — Quando você examinar com precisão a linguagem desta mishná, encontrará nela uma dificuldade. Pois ele disse que, quando se lembrou que é proibido, e depois disso outro apanhou aquele objeto que lançou, está isento; e se outro não o apanhou, mas caiu no chão, seria responsável — e isso depois de já ter se lembrado. E em seguida disse: todos os responsáveis por oferendas pelo pecado só o são quando o início e o fim são por esquecimento.

E a Guemará esclareceu assim: aquele que lança e se lembra depois que já saiu de sua mão, ou não se lembrou, mas outro o apanhou, ou um cão o apanhou, ou foi queimado, está isento. Mas se pousou normalmente, sem interceptação, é responsável por oferenda. Em que caso se disse isto? Quando a pessoa voltou a esquecer depois de momentaneamente se lembrar; mas se não voltou a esquecer, está isento, pois todos os responsáveis por oferendas pelo pecado só o são quando o início e o fim de sua ação são por esquecimento.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 11:6
הַזּוֹרֵק. בְּשַׁבָּת בְּשׁוֹגֵג, וְנִזְכָּר שֶׁהוּא שַׁבָּת לְאַחַר שֶׁיָּצְאָה הָאֶבֶן מִתַּחַת יָדוֹ קֹדֶם שֶׁתָּנוּחַ, אֲפִלּוּ לֹא קְלָטָהּ אַחֵר אֶלָּא שֶׁנָּחָה כְּדַרְכָּהּ, פָּטוּר, דְּהָכִי תְּנַן לְקַמָּן עַד שֶׁתְּהֵא תְּחִלָּתָן וְסוֹפָן בִּשְׁגָגָה. וְהַאי תְּחִלָּתוֹ בִּשְׁגָגָה וְסוֹפוֹ מֵזִיד, הוֹאִיל וְנִזְכַּר שֶׁהוּא שַׁבָּת קֹדֶם שֶׁתָּנוּחַ. וּמַתְנִיתִין הָכִי מִפָרְשָׁא: הַזּוֹרֵק וְנִזְכַּר לְאַחַר שֶׁיָּצְאָה מִתַּחַת יָדוֹ, אִי נַמִּי לֹא נִזְכַּר אֶלָּא שֶׁקְּלָטָהּ אַחֵר וְכוּ' פָּטוּר, דַּהֲוָה לֵיהּ שְׁנַיִם שֶׁעֲשָׂאוּהָ פְּטוּרִים. הָא נָחָה, חַיָּב חַטָּאת. בַּמֶּה דְּבָרִים אֲמוּרִים כְּשֶׁחָזַר וְשָׁכַח, אֲבָל לֹא חָזַר וְשָׁכַח, פָּטוּר, שֶׁכָּל חַיָּבֵי וְכוּ'. זֶה הַכְּלָל. לְאַתּוֹיֵי נַמִּי מַעֲבִיר חֵפֶץ מִמָּקוֹם לְמָקוֹם, שֶׁאִם עָקַר בִּשְׁגָגָה וְנִזְכַּר שֶׁהוּא שַׁבָּת קֹדֶם שֶׁיַּנִּיחַ, פָּטוּר.

"Aquele que lança" — no Shabat por esquecimento, e se lembrou que é Shabat depois que a pedra saiu de sua mão, antes de pousar; mesmo que outro não a tenha apanhado, mas ela pousou normalmente, está isento, pois assim ensinaremos adiante: até que o início e o fim sejam por esquecimento. E este é um caso de início por esquecimento e fim deliberado, já que se lembrou que é Shabat antes que a pedra pousasse.

E nossa mishná se explica assim: aquele que lança e se lembra depois que a pedra saiu de sua mão — ou também não se lembrou, mas outro a apanhou etc. — está isento, pois seriam dois que a realizaram, e ambos ficam isentos. Mas se pousou sem interceptação, é responsável por oferenda. Em que caso se disse isto? Quando a pessoa voltou a esquecer; mas se não voltou a esquecer, está isento, pois todos os responsáveis por oferendas etc.

"Este é o princípio" — vem incluir também aquele que transfere um objeto de um lugar a outro: se arrancou por esquecimento e se lembrou que é Shabat antes de pousar, está isento.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 102a
מַתְנִי' הַזּוֹרֵק. בְּשׁוֹגֵג: וְנִזְכָּר. שֶׁהוּא שַׁבָּת: מֵאַחַר שֶׁיָּצְתָה. הָאֶבֶן מִיָּדוֹ וְקֹדֶם שֶׁתָּנוּחַ: קְלָטָהּ אַחֵר. קָא סָלְקָא דַעְתָּךְ לְאַחַר שֶׁנִּזְכַּר זֶה קְלָטָהּ אַחֵר, הָוּוּ לְהוּ שְׁנַיִם שֶׁעֲשָׂאוּהָ, וּכְגוֹן שֶׁנֶּעֱקַר מִמְּקוֹמוֹ וְקִבֵּל, אוֹ שֶׁקְּלָטָהּ כֶּלֶב בְּפִיו, דְּלָא הֲוֵי הֲנָחָה, דְּבָעֵינַן מָקוֹם ד' פָּטוּר.

"Nossa mishná: 'aquele que lança'" — a Guemará abre a análise da mishná esclarecendo cada termo — por esquecimento.

"E se lembrou" — que é Shabat.

"Depois que já saiu" — a pedra de sua mão, e antes que pousasse.

"Outro a apanhou" — ocorre à mente, neste ponto da análise, que depois que este se lembrou, outro a apanhou, e assim seriam dois que a realizaram juntos, cada um responsável apenas por parte da ação, o que gera isenção para ambos — como quando o segundo se moveu de seu lugar e a recebeu, ou quando um cão a apanhou em sua boca — pois isso não constitui um pouso válido, já que exigimos um lugar de quatro tefachim, ou então é lugar isento por natureza, como a boca de um cão em movimento.

Encerrando o Perek Yud Alef. Com esta mishná se fecha o décimo primeiro capítulo do tratado de Shabat — dedicado, do início ao fim, à categoria de lançar (zerikah) e passar de mão em mão (hoshatah) entre os diferentes domínios: o lançamento direto entre domínio privado e público (11:1), o caso das duas sacadas e a fonte no serviço dos levitas (11:2), o lançamento contra uma parede e a questão do objeto que rola (11:3), o baixio de água que assume status de domínio público (11:4), o transporte entre o mar e embarcações (11:5) e, por fim, o princípio geral de que toda responsabilidade por oferenda exige esquecimento do início ao fim (11:6). O Perek Yud Bet, a seguir, continuará a explorar as categorias de trabalho proibido no Shabat.