Aquele que lança um objeto do mar para a terra seca, ou da terra seca para o mar, ou do mar para o barco, ou do barco para o mar, ou de um barco para outro, está isento — pois o mar tem status de carmelit, e um barco, ainda que tenha as medidas de um domínio privado, quando o transporte se dá entre ele e a carmelit, ou entre duas embarcações que são, cada uma, um domínio privado distinto, não configura a transgressão bíblica plena de transportar entre domínio privado e domínio público — barcos amarrados, transportam-se objetos de um ao outro — quando dois ou mais barcos estão atados entre si, formando um conjunto unificado, é permitido transportar objetos livremente de um para o outro, como se fossem um único domínio — mas se não estão amarrados, mesmo que estejam próximos, não se transportam objetos de um ao outro — pois, sem a amarração que os une fisicamente, cada barco permanece um domínio privado independente, e o espaço de água entre eles, ainda que estreito, interrompe a continuidade que permitiria o transporte livre.
Esta mishná trata do status jurídico de embarcações no mar, que constituem domínios privados móveis situados dentro de uma carmelit, e da regra que rege o transporte entre elas.
Por que a amarração une os barcos em um só domínio. Um barco com as medidas mínimas de quatro tefachim por quatro, e paredes de dez tefachim de altura, tem status de domínio privado pleno, ainda que flutue sobre o mar (que é carmelit). Quando dois barcos estão fisicamente amarrados um ao outro, a tradição oral os trata como um único domínio privado contínuo, permitindo o transporte livre entre eles — de modo semelhante a duas casas ligadas por uma passagem comum. Mas a mera proximidade, sem amarração física, não gera essa unidade jurídica: cada barco permanece seu próprio domínio, separado do outro pela carmelit do mar entre eles.
Como o Rambam codifica a lei do transporte entre embarcações e entre o mar e a terra, em Hilchot Shabat, capítulos catorze e quinze.
Como a halachá trata barcos amarrados. A halachá segue esta mishná integralmente: barcos amarrados uns aos outros formam, para os fins do transporte no Shabat, um único domínio privado contínuo, e o transporte entre eles é permitido sem restrição adicional. Já entre barcos não amarrados — mesmo lado a lado — o transporte é proibido, pois cada embarcação retém seu status de domínio privado independente, e a carmelit do mar os separa juridicamente, ainda que fisicamente estejam próximos.
Os comentadores explicam a necessidade do eruv entre embarcações pertencentes a donos distintos, e a razão pela qual a mera proximidade não substitui a amarração física.
"Aquele que lança do mar para a terra seca e da terra seca para o mar etc." — Já explicamos que o mar é carmelit. E quando diz "amarradas, transportam-se de uma à outra", isto é depois de fazer o eruv — pois são como duas casas de donos distintos que precisam se unir por meio de um eruv.
"E mukafot" é quando há um cercamento entre elas, ou seja, uma partição feita de cortinas ou algo semelhante.
"Do mar para a terra seca" — ou seja, da carmelit ao domínio público.
"Do mar para o barco" — da carmelit ao domínio privado.
"Transportam-se de um ao outro" — se pertencem a duas pessoas, transportam-se por meio de eruv, pois são como duas casas de donos diferentes que precisam se unir.
"Mukafot" — próximas uma da outra, como na expressão "não se cercam com boê" (termo técnico de outra área da lei).
"Não se transportam de um ao outro" — pois quando eles se afastam um do outro, mesmo momentaneamente, a carmelit interrompe entre eles e anula o eruv que os unia.
"Transportam-se de dentro dela para o mar" — a Guemará discute a permissão de derramar água de um barco para o mar via suas paredes — pelo caminho de suas paredes, como despejando líquidos, conforme se explicará adiante, pois o poder do lançamento na carmelit os sábios não decretaram proibição.
"Mas não do mar para dentro dela" — pois não há uso do mar para dentro do barco pelo caminho das paredes, pois se alguém encher e lançar sobre as paredes, a água desceria ao fundo do barco e não retornaria ao mar, criando um transporte proibido pleno.
"E por isso mencionou 'profunda de dez'" — explicação da condição de profundidade mínima do barco para esta permissão — pois se não tem dez tefachim de profundidade, ela própria é carmelit, e se transporta livremente até mesmo do mar para dentro dela.