Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud · Mishná 3

A maneira costumeira de transportar: mão, ombro e seio

הַמּוֹצִיא בֵּין בִּימִינוֹ בֵּין בִּשְׂמֹאלוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quem transporta na mão direita, na mão esquerda, no seio ou sobre o ombro é responsável, pois assim era a maneira de carregar dos filhos de Kehat no deserto; mas quem transporta ao inverso da mão, no pé, na boca, no cotovelo, na orelha, no cabelo, na faixa de baixo virada para baixo, entre a faixa e a túnica, na barra da túnica, no sapato ou na sandália, está isento, pois não transportou à maneira costumeira de quem transporta

Aquele que transporta, seja na sua direita seja na sua esquerda, dentro do seu seio ou sobre seu ombro, é responsávelpois estas são as maneiras normais e dignas de carregarpois assim era a carga dos filhos de Kehata família levítica encarregada de transportar os objetos sagrados do Mishcan no deserto, que os carregava sobre o ombro, conforme relatado na Torá. Ao inverso da sua mãocom as costas da mão, e não com a palma, um jeito incomumno seu pé, na sua boca e no seu cotovelo, na sua orelha e no seu cabelo, e na sua faixa com a abertura voltada para baixode modo que o objeto tende a cair, um jeito que ninguém usa para de fato transportar algoentre sua faixa e sua túnicaum espaço apertado e instávele na barra da sua túnica, no seu sapato, na sua sandália, está isentode trazer oferendapois não transportou à maneira costumeira de quem transportae o versículo que fundamenta a proibição de transportar fala da "obra" no sentido de uma ação normal e deliberada, não de um gesto incomum e descuidado.

הַמּוֹצִיא בֵּין בִּימִינוֹ בֵּין בִּשְׂמֹאלוֹ, בְּתוֹךְ חֵיקוֹ אוֹ עַל כְּתֵפוֹ, חַיָּב, שֶׁכֵּן מַשָּׂא בְנֵי קְהָת. כִּלְאַחַר יָדוֹ, בְּרַגְלוֹ, בְּפִיו וּבְמַרְפְּקוֹ, בְּאָזְנוֹ וּבִשְׂעָרוֹ, וּבְפֻנְדָּתוֹ וּפִיהָ לְמַטָּה, בֵּין פֻּנְדָּתוֹ לַחֲלוּקוֹ, וּבִשְׂפַת חֲלוּקוֹ, בְּמִנְעָלוֹ, בְּסַנְדָּלוֹ, פָּטוּר, שֶׁלֹּא הוֹצִיא כְּדֶרֶךְ הַמּוֹצִיאִין:

Fonte na Torá — a carga dos filhos de Kehat · מַשָּׂא בְּנֵי קְהָת

A mishná apoia sua definição de "maneira costumeira" no relato bíblico sobre como os levitas da família de Kehat carregavam os utensílios sagrados.

Bemidbar 7:9
וְלִבְנֵי קְהָת לֹא נָתָן, כִּי עֲבֹדַת הַקֹּדֶשׁ עֲלֵהֶם בַּכָּתֵף יִשָּׂאוּ.
Mas aos filhos de Kehat não deu carroças, pois sobre eles estava o serviço sagrado — e ao ombro o carregavam.

Por que "ao ombro" define a maneira normativa de transportar. Quando Moshé distribuiu carroças aos levitas para o transporte do Mishcan, os filhos de Kehat — responsáveis pela arca, pela mesa, pela menorá e pelos demais utensílios sagrados — não receberam carroças, pois sua carga deveria ser levada "ao ombro". Este versículo é a fonte de que carregar sobre o ombro é uma forma respeitável e deliberada de transportar algo, contrastando com o transporte incidental ou descuidado. A Guemará amplia esse princípio: se o ombro é a maneira digna e normativa de carregar cargas pesadas e importantes, também o são a mão (direita ou esquerda) e o seio — modos igualmente comuns e intencionais de portar objetos — enquanto qualquer outro método (nas costas da mão, entre os dentes, dependurado no cabelo) é considerado atípico e, por isso, isento da responsabilidade bíblica plena, ainda que rabinicamente desaconselhado.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica a regra da "maneira costumeira de transportar" em Hilchot Shabat, capítulo doze.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 12:13
הַמּוֹצִיא מֵרְשׁוּת לִרְשׁוּת כְּדֶרֶךְ הַמּוֹצִיאִין, בֵּין בִּימִינוֹ בֵּין בִּשְׂמֹאלוֹ, בְּתוֹךְ חֵיקוֹ אוֹ עַל כְּתֵפוֹ, חַיָּב, שֶׁכֵּן הָיְתָה מַשְׂאַת בְּנֵי קְהָת בַּכָּתֵף.
Aquele que transporta de um domínio a outro à maneira costumeira de quem transporta — seja na sua direita seja na sua esquerda, dentro do seu seio ou sobre seu ombro — é responsável, pois assim era a carga dos filhos de Kehat, ao ombro.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 12:14
הוֹצִיא כִּלְאַחַר יָדוֹ, בְּרַגְלוֹ, בְּפִיו, בְּמַרְפְּקוֹ, בְּאָזְנוֹ, בִּשְׂעָרוֹ, בְּפֻנְדָּתוֹ כְּשֶׁפִּיהָ לְמַטָּה, בֵּין פֻּנְדָּתוֹ לַחֲלוּקוֹ, בִּשְׂפַת חֲלוּקוֹ, בְּמִנְעָלוֹ אוֹ בְּסַנְדָּלוֹ, פָּטוּר, שֶׁלֹּא הוֹצִיא כְּדֶרֶךְ הַמּוֹצִיאִין, וְאָסוּר לַעֲשׂוֹת כֵּן לְכַתְּחִלָּה מִשּׁוּם שְׁבוּת.
Transportou ao inverso de sua mão, no seu pé, na sua boca, no seu cotovelo, na sua orelha, no seu cabelo, na sua faixa com a abertura voltada para baixo, entre sua faixa e sua túnica, na barra de sua túnica, no seu sapato ou na sua sandália — está isento, pois não transportou à maneira costumeira de quem transporta; mas é proibido fazê-lo de propósito, por decreto rabínico.

Isento mas proibido. O Rambam acrescenta um detalhe essencial que a mishná apenas implica: a isenção da oferenda pelo pecado nestes casos incomuns não significa permissão. Os sábios proibiram, por decreto preventivo (shevut), transportar objetos mesmo por esses meios atípicos, para que a prática de recorrer a métodos "isentos" não banalize o respeito à proibição bíblica de transporte.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam o significado técnico de cada termo — a fundá (faixa oca), o cotovelo, e a barra da túnica.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 10:3
הוֹצָאַת בְּנֵי קְהָת לָאָרוֹן הָיְתָה בַּכָּתֵף, וְקָרָאָהּ הַשֵּׁם יִתְבָּרֵךְ עֲבוֹדָה, שֶׁנֶּאֱמַר: כִּי עֲבֹדַת הַקֹּדֶשׁ עֲלֵהֶם בַּכָּתֵף יִשָּׂאוּ. "לְאַחַר יָדוֹ" פֵּרוּשׁ עַל גַּב יָדוֹ. "מַרְפְּקוֹ" כָּךְ נִקְרָא בְּעַרְבִי מִרְפַ"ק, וְהוּא הַפֶּרֶק הָאֶמְצָעִי מִן הַזְּרוֹעַ. "אֲפוּנְדָּתוֹ" הוּא בֶּגֶד הַזֵּעָה, וְהוּא בֶּגֶד צַר יִלְבַּשׁ אוֹתוֹ הָאָדָם דָּבוּק לִבְשָׂרוֹ, וּבוֹ מְקוֹמוֹת תְּפוּרִים חֲלוּלִים כְּמוֹ חֲרִיטִין, וּמַצְנִיעַ שָׁם הָאָדָם מַה שֶּׁהוּא רוֹצֶה, וְלוֹבֵשׁ עָלָיו בִּגְדוֹ הַנִּקְרָא חָלוּק. וְכַאֲשֶׁר יְהַפֵּךְ אֲפוּנְדָּתוֹ מִלְּמַטָּה לְמַעְלָה, יָשׁוּב פְּתִיחַת אוֹתָן הַחֲרִיטִין לְמַטָּה, וְיִפֹּל מַה שֶּׁבְּתוֹכָם מִדָּבָר שֶׁיֵּשׁ לוֹ כֹּבֶד בְּלִי סָפֵק. "שְׂפַת חֲלוּקוֹ" שְׂפַת בִּגְדוֹ הַתַּחְתּוֹנָה.

O transporte dos filhos de Kehat referente à arca era feito ao ombro, e o próprio Nome, bendito seja, chamou isso de "serviço", como está dito: "pois sobre eles estava o serviço sagrado — e ao ombro o carregavam".

"Ao inverso da sua mão" significa: sobre o dorso da mão. "Cotovelo" — assim se chama em árabe mirfaq, e é a articulação intermediária do braço. "Sua fundá" é a peça de roupa para o suor, uma vestimenta justa que a pessoa veste colada ao corpo, com espaços costurados e ocos como bolsos, onde guarda o que deseja, vestindo por cima dela sua roupa chamada túnica. E quando se vira a fundá de baixo para cima, a abertura desses bolsos fica voltada para baixo, e certamente cairá o que houver dentro deles com algum peso.

"Barra da túnica" é a borda inferior de sua roupa.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 10:3
שֶׁכֵּן מַשָּׂא בְנֵי קְהָת. בַּכָּתֵף יִשָּׂאוּ, וִימִין וּשְׂמֹאל וְחֵיק אוֹרְחָא דְּאַרְעָא: מַרְפְּקוֹ. הַפֶּרֶק הָאֶמְצָעִי שֶׁבַּזְּרֹעַ, וּבָעֲרָבִי כָּךְ שְׁמוֹ מרפ"ק: בַּאֲפוּנְדָתוֹ. אֵזוֹר חָלוּל: פִּיהָ לְמַטָּה. אֵין דֶּרֶךְ הוֹצָאָה בְּכָךְ. אֲבָל פִּיהָ לְמַעְלָה דֶּרֶךְ הוֹצָאָה בְּכָךְ. פֵּרוּשׁ אַחֵר, אֲפוּנְדָתוֹ בֶּגֶד שֶׁלּוֹבֵשׁ סָמוּךְ לִבְשָׂרוֹ לְקַבֵּל הַזֵּעָה, וּרְגִילִין לַעֲשׂוֹת בּוֹ כְּעֵין כִּיסִין, וּכְשֶׁמְּהַפְּכִים אוֹתוֹ מִלְּמַטָּה לְמַעְלָה נִמְצָא פִּי הַכִּיס לְמַטָּה: שְׂפַת חֲלוּקוֹ. הַשָּׂפָה הַתַּחְתּוֹנָה שֶׁל חָלוּק.

"Pois assim era a carga dos filhos de Kehat" — como está dito: "ao ombro o carregavam"; e a direita, a esquerda e o seio são o modo costumeiro do mundo, tal como o ombro.

"Seu cotovelo" — a articulação intermediária do braço, e em árabe assim é seu nome, mirfaq.

"Na sua fundá" — uma faixa oca. "Com a abertura para baixo" — não é modo costumeiro de transportar assim; mas com a abertura para cima, é modo costumeiro de transportar assim. Outra explicação: a fundá é uma roupa que se veste junto ao corpo para absorver o suor, e costuma-se fazer nela uma espécie de bolsos; e quando se a vira de baixo para cima, a abertura do bolso fica voltada para baixo.

"Barra da sua túnica" — a orla inferior da túnica.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 92a
מפקע - קורע: בנסכא - שהן חתיכות ארוכות וכל זמן שמקצתן בפנים לא קנה: ופרכינן וכיון דאיכא שנצין - רצועות שקורין אשטולד"ץ: מפיק ליה עד פומיה ושקיל - וכיון דמצי למשקלינהו קני ולענין שבת לא מיחייב עד דמפיק להו לשנצין דעל ידו הוא אגוד לרה"י שהרי לא יצאו: ומכרכי עילויה - שאין יכול להוציאו בלא שנצין.

"Rasga" — termo usado na Guemará ao discutir um caso relacionado de objeto preso por cordões: significa cortar.

"Em barras" — isto é, em pedaços compridos de metal; e enquanto parte deles ainda está dentro, não os adquiriu por completo, princípio análogo ao da cesta de frutas na mishná anterior.

"E perguntamos: já que há cordões" — tiras que se chamam eshtoldetze os puxa até a boca do recipiente e os retira — então, já que é capaz de retirá-los, já os adquiriu; mas quanto ao Shabat não se torna responsável até que retire os cordões, pois por meio deles o objeto ainda está atado ao domínio privado, já que eles próprios ainda não saíram.

"E os enrolam sobre ele" — pois não é possível retirá-lo sem os cordões.

De onde vem a próxima distinção. Depois de estabelecer quais partes do corpo constituem a "maneira costumeira" de transportar, a próxima mishná refinará ainda mais o critério de responsabilidade: não mais o modo físico de carregar, mas a direção pretendida do transporte — o que acontece quando a intenção original da pessoa (transportar para a frente, por exemplo) não coincide com o resultado final do seu movimento (o objeto acabando atrás dela).