Aquele que transporta alimentos e os depositou sobre o umbral — um espaço elevado diante da porta da casa, do lado externo, que tem a condição de carmelit — nem domínio público nem domínio privado — quer tenha ele mesmo voltado e os transportado adiante, quer outra pessoa os tenha transportado, está isento — de trazer oferenda pelo pecado — pois não realizou sua obra de uma só vez — já que o ato de remover do domínio privado terminou no umbral, um lugar isento, e o ato de depositar no domínio público começou dali, um segundo ato distinto, não uma única transferência direta do domínio privado ao domínio público. Uma cesta que está cheia de frutas e a depositou sobre o umbral externo — o mesmo espaço intermediário — ainda que a maior parte das frutas esteja do lado de fora — para além do umbral, mais próxima do domínio público — está isento, até que transporte toda a cesta — pois, enquanto uma parte da cesta ainda permanece no domínio privado, o transporte da cesta como um todo — um único objeto — ainda não se completou.
Esta mishná não traz nova fonte bíblica direta, mas aplica os fundamentos dos domínios (reshuyot) já estabelecidos no início do tratado, no Perek Alef.
Por que o "umbral" interrompe a responsabilidade. A tradição oral, ao definir o que conta como melechet machshevet — uma "obra pensada e completa" — exige que a remoção (akirá) do domínio de origem e o depósito (hanachá) no domínio de destino ocorram como um único ato contínuo, sem que o objeto passe, no meio do caminho, por um espaço de terceiro status. O umbral externo descrito nesta mishná é um carmelit — um espaço elevado entre três e nove tefachim (palmos) e com largura de quatro tefachim, que os sábios classificaram como nem domínio público nem domínio privado, mas uma categoria intermediária de origem rabínica. Quando alguém deposita o alimento ali, a obra de transporte "quebra" nesse ponto: a primeira parte (de dentro de casa até o umbral) termina num lugar isento, e a segunda parte (do umbral até a rua) é um novo início — de modo que nenhuma das duas metades, por si só, constitui o ato bíblico completo de "domínio privado direto ao domínio público".
Como o Rambam codifica esta regra da obra dividida em Hilchot Shabat, capítulo treze — no contexto geral das leis de transporte por etapas.
O objeto único não se divide. O Rambam esclarece que a regra da cesta se aplica precisamente porque a cesta e seu conteúdo são tratados como um único objeto contínuo: enquanto uma parte física dela ainda repousa no domínio privado, a "remoção" do domínio de origem simplesmente não terminou, independentemente de quantas frutas já estejam do lado de fora. Isso contrasta com o caso de alimentos soltos, não amarrados num único recipiente, cujo transporte se avalia peça por peça.
Os comentadores detalham a definição física do umbral (askupá) e por que a interrupção no meio isenta ambas as etapas.
"Umbral" (askupá) se chama a soleira inferior das portas das casas e das moradias e outros lugares semelhantes, assim como se chama "verga" a soleira superior. E o "umbral externo" é a plataforma elevada que fica diante da soleira das portas das casas, e se chama "externa" por estar voltada para o domínio público. E este umbral de que fala esta mishná tem o status de carmelit.
E o significado de "de uma só vez" é: numa única ocasião — pois isso não se chama obra a menos que seja a transferência de um objeto do domínio público para o domínio privado, ou do domínio privado para o domínio público, quando não houver entre eles nenhum outro domínio interposto.
"Sobre o umbral" — que tem status de carmelit, isto é, com altura entre três e nove tefachim, e largura de quatro.
"Pois não realizou sua obra de uma só vez" — não fez a remoção do domínio privado com o depósito no domínio público, que são os lugares que geram responsabilidade — pois só assim se constitui uma obra completa. Mas neste caso removeu do lugar de responsabilidade e depositou no carmelit, onde está isento por esse depósito; e depois removeu do carmelit, que não é lugar de responsabilidade, e depositou no domínio público — de modo que não se realizou remoção de um lugar de responsabilidade com depósito em lugar de responsabilidade numa única vez.
"Até que transporte" — ou seja, a não ser que tenha transportado, de início, toda a cesta. E isto se ensinou apenas quanto a uma cesta cheia de pepinos e abóboras, que são compridos e ainda restam pedaços dentro; mas se estivesse cheia de mostarda, cujos grãos, sendo tantos, já estariam todos do lado de fora, é tratado como quem já transportou a cesta inteira, e é responsável.
"Fora do muro da Azará" — expressão usada na Guemará ao discutir um caso análogo de transporte por etapas no Templo: refere-se ao perímetro do chel diante da Ezrat Nashim, ou à própria Ezrat Nashim, que se situa nesse perímetro.
"Chegam juntas" — ou seja, só quando a parte final for depositada e se somar ao restante é que se completa a medida mínima de responsabilidade — princípio análogo ao desta mishná, de que o transporte por etapas separadas, com repouso num lugar isento no meio do caminho, não se soma a uma única obra.
Preparando a mishná seguinte. O princípio de que uma obra dividida em duas etapas separadas por um lugar isento não gera responsabilidade se estenderá, na próxima mishná, para um ângulo distinto: não mais a divisão espacial do trajeto, mas a divisão pelo modo como o objeto é carregado — se pela mão, pelo ombro, ou por partes do corpo que não constituem "a maneira costumeira de quem transporta".