Aquele que pretende transportar algo à sua frente, e o objeto vai lhe parar atrás, está isento — pois sua intenção era vigiar o objeto de modo mais eficaz, à vista, e o resultado foi uma vigilância inferior, atrás de si onde não pode vê-lo continuamente; e como o resultado não corresponde à intenção original, falta a "obra pensada" completa. Se pretendia transportar atrás de si e o objeto vai lhe parar à frente, é responsável — pois, ainda que o resultado não seja idêntico ao pretendido, obteve algo melhor do que pretendia — uma vigilância mais eficaz — e isso é considerado suficiente para completar a intenção. Em verdade disseram — expressão que introduz uma halachá recebida com certeza, sem discussão — a mulher que se cinge com um avental, quer pendure algo à sua frente quer atrás, é responsável — mesmo se sua intenção original fosse pendurar de um lado e o objeto acabasse do outro — pois é próprio dele estar sempre girando — o avental, por sua natureza, gira ao redor da cintura com o movimento do corpo, de modo que, desde o início, ela sabe e aceita que o objeto pendurado pode acabar tanto à frente quanto atrás — e por isso ambos os resultados estão dentro de sua intenção original. Rabi Yehudá diz: também os que recebem bilhetes — os mensageiros reais que carregam correspondência oficial em bastões ocos pendurados ao pescoço, que igualmente giram com o movimento — aplicando-se a eles a mesma regra do avental.
Esta mishná não traz nova fonte bíblica direta, mas aprofunda o princípio geral de que toda proibição de trabalho no Shabat pressupõe uma "obra pensada" (melechet machshevet).
Por que a "vigilância obtida" determina a responsabilidade. A tradição oral ensina que a proibição de "fazer obra" no Shabat só se aplica a uma ação verdadeiramente pensada e concluída conforme a intenção — melechet machshevet. Esta mishná testa esse princípio num caso sutil: quando a intenção da pessoa e o resultado físico do seu ato divergem, o que determina a responsabilidade não é a coincidência exata entre intenção e resultado, mas se o resultado obtido serve, ou não, ao propósito por trás da intenção. Quem quer transportar algo à frente do corpo o faz para vigiá-lo melhor; se o objeto acaba atrás, o propósito de vigilância eficaz falhou, e por isso está isento. Mas quem pretendia transportar atrás — aceitando uma vigilância inferior — e o objeto acaba à frente, obteve mais do que pretendia; o propósito essencial (transportar o objeto de modo seguro) foi mais do que cumprido, e por isso é responsável.
Como o Rambam codifica esta regra da intenção contrariada em Hilchot Shabat, capítulo treze.
Por que a halachá segue o primeiro sábio quanto aos mensageiros. A halachá não segue Rabi Yehudá quanto a estender a regra do avental aos mensageiros reais com bastões ocos: o primeiro sábio (tanna kama), cuja opinião prevalece por ser anônima e implicitamente aceita pela maioria, restringe a regra do "giro previsto desde o início" apenas ao avental feminino, cujo uso e movimento são universalmente conhecidos por quem o veste; já o bastão do mensageiro, embora também gire, não tem o mesmo grau de previsibilidade automática associada ao seu uso.
Os comentadores explicam o mecanismo do avental (sinar) e dos bastões dos mensageiros reais (pitkin).
"Avental" é uma peça atada à cintura, e quando se pendura nele algo, quer à frente quer atrás, a mulher que o usa é responsável, pois o avental está sempre girando, ou seja, virando.
E "os que recebem bilhetes" são os que levam as cartas e as correspondências, isto é, os enviados a pé do rei, ou seja, os corredores — pois colocam esses bilhetes em bastões ocos em forma de cana oca, e os penduram ao pescoço. Rabi Yehudá diz que esse bastão oco gira ao redor do pescoço e se vira de um lado a outro, isto é, à frente e atrás do corpo, tal como o avental. E a halachá não é como Rabi Yehudá.
"À sua frente e vai lhe parar atrás, está isento" — pois pretendia uma vigilância superior e obteve em suas mãos uma vigilância inferior.
"Atrás de si e vai lhe parar à frente, é responsável" — pois pretendia uma vigilância inferior e obteve em suas mãos uma vigilância superior.
"Avental" — uma espécie de calção pequeno que se ata por modéstia; e se pendurou nele algum objeto para transportar, e ele foi parar do outro lado, é responsável.
"Pois é próprio dele estar sempre girando" — é seu costume estar sempre virando e girando ao seu redor, e desde o início ela sabia que ele acabaria por se virar.
"Rabi Yehudá diz: também os que recebem bilhetes" — do rei. Os corredores que carregam cartas as colocam em bastões ocos em forma de canas e os penduram ao pescoço, e é próprio daquele bastão estar sempre virando e girando à frente e atrás ao redor do pescoço, e o mensageiro sabia que ele acabaria por se virar. E a halachá não é como Rabi Yehudá.
O fato de a considerarmos responsável quer à frente quer atrás não significa que ela tenha tido essa dupla intenção no momento de se cingir; mas mesmo que sua intenção original fosse para um lado, e o objeto tenha ido parar do outro lado, ela é responsável — visto que é próprio do avental estar sempre girando ao redor do corpo, já desde o início, quando se cingiu, ela agiu com a intenção de que o objeto acabaria por se virar; e não há aqui, portanto, nenhuma mudança em relação à intenção original.
O que vem a seguir. A quinta mishná do Perek Yud deixará o tema da intenção e do modo de carregar para tratar de um assunto distinto, mas relacionado: a responsabilidade compartilhada quando duas pessoas transportam juntas um objeto que uma só não conseguiria carregar sozinha — além de retomar, agora sob nova luz, as medidas mínimas de impureza aplicadas ao transporte de partes de um cadáver, de uma carcaça e de um réptil impuro.