Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud · Mishná 4

A intenção contrariada, e o avental da mulher

הַמִּתְכַּוֵּן לְהוֹצִיא לְפָנָיו וּבָא לוֹ לְאַחֲרָיו
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Quem pretende transportar um objeto amarrado à sua frente, mas o objeto acaba indo parar atrás dele, está isento, pois obteve uma vigilância menor do que a pretendida; mas quem pretende transportar atrás e o objeto vem parar à frente é responsável, pois obteve vigilância maior; e por isso a mulher que se cinge com um avental é responsável quer pendure algo à frente quer atrás, pois é próprio do avental girar em torno do corpo — segundo Rabi Yehudá, o mesmo vale para os mensageiros reais que carregam cartas em bastões ocos pendurados ao pescoço

Aquele que pretende transportar algo à sua frente, e o objeto vai lhe parar atrás, está isentopois sua intenção era vigiar o objeto de modo mais eficaz, à vista, e o resultado foi uma vigilância inferior, atrás de si onde não pode vê-lo continuamente; e como o resultado não corresponde à intenção original, falta a "obra pensada" completa. Se pretendia transportar atrás de si e o objeto vai lhe parar à frente, é responsávelpois, ainda que o resultado não seja idêntico ao pretendido, obteve algo melhor do que pretendia — uma vigilância mais eficaz — e isso é considerado suficiente para completar a intenção. Em verdade disseramexpressão que introduz uma halachá recebida com certeza, sem discussãoa mulher que se cinge com um avental, quer pendure algo à sua frente quer atrás, é responsávelmesmo se sua intenção original fosse pendurar de um lado e o objeto acabasse do outropois é próprio dele estar sempre girandoo avental, por sua natureza, gira ao redor da cintura com o movimento do corpo, de modo que, desde o início, ela sabe e aceita que o objeto pendurado pode acabar tanto à frente quanto atrás — e por isso ambos os resultados estão dentro de sua intenção original. Rabi Yehudá diz: também os que recebem bilhetesos mensageiros reais que carregam correspondência oficial em bastões ocos pendurados ao pescoço, que igualmente giram com o movimento — aplicando-se a eles a mesma regra do avental.

הַמִּתְכַּוֵּן לְהוֹצִיא לְפָנָיו וּבָא לוֹ לְאַחֲרָיו, פָּטוּר, לְאַחֲרָיו וּבָא לוֹ לְפָנָיו, חַיָּב. בֶּאֱמֶת אָמְרוּ, הָאִשָּׁה הַחוֹגֶרֶת בְּסִינָר בֵּין מִלְּפָנֶיהָ וּבֵין מִלְּאַחֲרֶיהָ חַיֶּבֶת, שֶׁכֵּן רָאוּי לִהְיוֹת חוֹזֵר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אַף מְקַבְּלֵי פִתְקִין:

Sobre a intenção e a "obra pensada" · עַל מְלֶאכֶת מַחֲשֶׁבֶת

Esta mishná não traz nova fonte bíblica direta, mas aprofunda o princípio geral de que toda proibição de trabalho no Shabat pressupõe uma "obra pensada" (melechet machshevet).

Shemot 20:9-10
שֵׁשֶׁת יָמִים תַּעֲבֹד וְעָשִׂיתָ כָּל מְלַאכְתֶּךָ, וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַיהוָה אֱלֹהֶיךָ, לֹא תַעֲשֶׂה כָל מְלָאכָה.
Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra, mas o sétimo dia é Shabat para Hashem teu D'us; não farás nele nenhuma obra.

Por que a "vigilância obtida" determina a responsabilidade. A tradição oral ensina que a proibição de "fazer obra" no Shabat só se aplica a uma ação verdadeiramente pensada e concluída conforme a intenção — melechet machshevet. Esta mishná testa esse princípio num caso sutil: quando a intenção da pessoa e o resultado físico do seu ato divergem, o que determina a responsabilidade não é a coincidência exata entre intenção e resultado, mas se o resultado obtido serve, ou não, ao propósito por trás da intenção. Quem quer transportar algo à frente do corpo o faz para vigiá-lo melhor; se o objeto acaba atrás, o propósito de vigilância eficaz falhou, e por isso está isento. Mas quem pretendia transportar atrás — aceitando uma vigilância inferior — e o objeto acaba à frente, obteve mais do que pretendia; o propósito essencial (transportar o objeto de modo seguro) foi mais do que cumprido, e por isso é responsável.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica esta regra da intenção contrariada em Hilchot Shabat, capítulo treze.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 13:8
הַמִּתְכַּוֵּן לְהוֹצִיא לְפָנָיו, וְנִמְצָא הַדָּבָר לְאַחֲרָיו, פָּטוּר, לְפִי שֶׁלֹּא נַעֲשֵׂית מְלַאכְתּוֹ כְּמַחְשַׁבְתּוֹ. נִתְכַּוֵּן לְאַחֲרָיו, וְנִמְצָא לְפָנָיו, חַיָּב, שֶׁהֲרֵי נִתְכַּוֵּן לִשְׁמִירָה פְּחוּתָה וְעָלְתָה בְּיָדוֹ שְׁמִירָה מְעֻלָּה.
Aquele que pretende transportar à sua frente, e o objeto se encontra atrás de si, está isento, pois sua obra não se realizou conforme sua intenção. Pretendeu atrás de si, e se encontra à frente, é responsável, pois pretendia uma vigilância inferior e obteve em suas mãos uma vigilância superior.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 13:9
הָאִשָּׁה הַחוֹגֶרֶת בְּסִינָר, וְתָלְתָה בּוֹ דָּבָר וְהוֹצִיאָתְהוּ, בֵּין מִלְּפָנֶיהָ בֵּין מִלְּאַחֲרֶיהָ, חַיֶּבֶת, שֶׁכֵּן דֶּרֶךְ הַסִּינָר לִהְיוֹת חוֹזֵר סָבִיב לַגּוּף, וּמִתְּחִלָּה יָדְעָה שֶׁסּוֹפוֹ לְהִתְהַפֵּךְ.
A mulher que se cinge com um avental, e pendurou nele um objeto e o transportou, quer à sua frente quer atrás de si, é responsável, pois é próprio do avental estar sempre girando ao redor do corpo, e desde o início ela sabia que ele acabaria por se virar.

Por que a halachá segue o primeiro sábio quanto aos mensageiros. A halachá não segue Rabi Yehudá quanto a estender a regra do avental aos mensageiros reais com bastões ocos: o primeiro sábio (tanna kama), cuja opinião prevalece por ser anônima e implicitamente aceita pela maioria, restringe a regra do "giro previsto desde o início" apenas ao avental feminino, cujo uso e movimento são universalmente conhecidos por quem o veste; já o bastão do mensageiro, embora também gire, não tem o mesmo grau de previsibilidade automática associada ao seu uso.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam o mecanismo do avental (sinar) e dos bastões dos mensageiros reais (pitkin).

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 10:4
סִינָר חָגוּר, וְכַאֲשֶׁר תִּתְלֶה דָּבָר בְּסִינָר שֶׁלָּהּ בֵּין מִלְּפָנֶיהָ בֵּין מִלְּאַחֲרֶיהָ חַיֶּבֶת, לְפִי שֶׁהוּא סוֹבֵב, כְּלוֹמַר חוֹזֵר. וּמְקַבְּלֵי פִתְקִין הֵם הַלּוֹקְחִים הַכְּתָבִים וְהָאִגְּרוֹת, רוֹצֶה לוֹמַר שְׁלוּחֵי הַמֶּלֶךְ הָרַגְלִים, כְּלוֹמַר הָרָצִים, כִּי נוֹתְנִין אֵלּוּ הַפִּתְקִין בְּעֵצִים חֲלוּלִים בְּצוּרַת קָנֶה חָלוּל, וְתוֹלִין אוֹתָן בְּצַוְּארֵיהֶן. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר כִּי זֶה הַקָּנֶה הֶחָלוּל הוּא סוֹבֵב בְּצַוָּארוֹ וְחוֹזֵר מִצַּד אֶל צַד, כְּלוֹמַר לְפָנָיו וּלְאַחֲרָיו. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

"Avental" é uma peça atada à cintura, e quando se pendura nele algo, quer à frente quer atrás, a mulher que o usa é responsável, pois o avental está sempre girando, ou seja, virando.

E "os que recebem bilhetes" são os que levam as cartas e as correspondências, isto é, os enviados a pé do rei, ou seja, os corredores — pois colocam esses bilhetes em bastões ocos em forma de cana oca, e os penduram ao pescoço. Rabi Yehudá diz que esse bastão oco gira ao redor do pescoço e se vira de um lado a outro, isto é, à frente e atrás do corpo, tal como o avental. E a halachá não é como Rabi Yehudá.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 10:4
לְפָנָיו וּבָא לוֹ לְאַחֲרָיו פָּטוּר. דְּנִתְכַּוֵּן לִשְׁמִירָה מְעֻלָּה וְעָלְתָה בְּיָדוֹ שְׁמִירָה פְּחוּתָה: לְאַחֲרָיו וּבָא לוֹ לְפָנָיו חַיָּב. דְּנִתְכַּוֵּן לִשְׁמִירָה פְּחוּתָה וְעָלְתָה בְּיָדוֹ שְׁמִירָה מְעֻלָּה: סִינָר. כְּעֵין מִכְנָסַיִם קְטַנִּים חוֹגְרוֹת אוֹתָן לִצְנִיעוּת, וְאִם תָּלְתָה בָּהֶן שׁוּם דָּבָר לְהוֹצִיא וּבָא לָהּ לְצַד אַחֵר חַיֶּבֶת: שֶׁכֵּן רָאוּי לִהְיוֹת חוֹזֵר. דַּרְכּוֹ לִהְיוֹת חוֹזֵר וְסוֹבֵב סְבִיבוֹתֶיהָ, וּמִתְּחִלָּה יָדְעָה שֶׁסּוֹפוֹ לְהִתְהַפֵּךְ: רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר אַף מְקַבְּלֵי פִתְקִין. שֶׁל מֶלֶךְ. הָרָצִים הַנּוֹשְׂאִים אִגְּרוֹת נוֹתְנִים אוֹתָם בְּעֵצִים חֲלוּלִים כִּדְמוּת קָנִים וְתוֹלִים בְּצַוָּארָם, וְדֶרֶךְ אוֹתוֹ קָנֶה לִהְיוֹת חוֹזֵר וְסוֹבֵב מִלְּפָנָיו וּמֵאַחֲרָיו סָבִיב לְצַוָּארוֹ, וְיוֹדֵעַ הָיָה שֶׁסּוֹפוֹ לְהִתְהַפֵּךְ. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

"À sua frente e vai lhe parar atrás, está isento" — pois pretendia uma vigilância superior e obteve em suas mãos uma vigilância inferior.

"Atrás de si e vai lhe parar à frente, é responsável" — pois pretendia uma vigilância inferior e obteve em suas mãos uma vigilância superior.

"Avental" — uma espécie de calção pequeno que se ata por modéstia; e se pendurou nele algum objeto para transportar, e ele foi parar do outro lado, é responsável.

"Pois é próprio dele estar sempre girando" — é seu costume estar sempre virando e girando ao seu redor, e desde o início ela sabia que ele acabaria por se virar.

"Rabi Yehudá diz: também os que recebem bilhetes" — do rei. Os corredores que carregam cartas as colocam em bastões ocos em forma de canas e os penduram ao pescoço, e é próprio daquele bastão estar sempre virando e girando à frente e atrás ao redor do pescoço, e o mensageiro sabia que ele acabaria por se virar. E a halachá não é como Rabi Yehudá.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 92b
הא דמחייבינן לה בין מלפניה בין מלאחריה, לאו דוקא בשעת חגירה נתכוונה כן, אלא אפילו נתכוונה מתחלה לצד אחד ובא לה לצד אחר, חייבת, הואיל וראוי הסינר להיות חוזר תמיד סביב גופה, מתחלה כשחגרתו כבר נתכוונה על דעת כן שסופו להתהפך, ואין כאן שינוי מחשבה.

O fato de a considerarmos responsável quer à frente quer atrás não significa que ela tenha tido essa dupla intenção no momento de se cingir; mas mesmo que sua intenção original fosse para um lado, e o objeto tenha ido parar do outro lado, ela é responsável — visto que é próprio do avental estar sempre girando ao redor do corpo, já desde o início, quando se cingiu, ela agiu com a intenção de que o objeto acabaria por se virar; e não há aqui, portanto, nenhuma mudança em relação à intenção original.

O que vem a seguir. A quinta mishná do Perek Yud deixará o tema da intenção e do modo de carregar para tratar de um assunto distinto, mas relacionado: a responsabilidade compartilhada quando duas pessoas transportam juntas um objeto que uma só não conseguiria carregar sozinha — além de retomar, agora sob nova luz, as medidas mínimas de impureza aplicadas ao transporte de partes de um cadáver, de uma carcaça e de um réptil impuro.