Seder Moed · Massechet Shabat · Perek Yud · Mishná 1

Quem guarda algo para semente, amostra ou remédio

הַמַּצְנִיעַ לְזֶרַע וּלְדֻגְמָא וְלִרְפוּאָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abertura do Perek Yud: quem guarda deliberadamente um objeto para um propósito específico — semente, amostra de mercadoria ou remédio — e depois o transporta no Shabat sem lembrar por qual dos três motivos o guardou, é responsável por qualquer quantidade, pois age conforme sua intenção original; mas qualquer outra pessoa só é responsável se transportar a medida padrão daquele item

Aquele que guarda algo para servir de semente, ou de amostra, ou de remédioantes do Shabat, com uma dessas três finalidades em mentee o transportou no Shabatsem lembrar, no momento do transporte, qual das três razões o levara a guardá-lo, e o transportou de modo genéricoé responsável por qualquer quantidadepor menor que seja, pois transportou segundo a intenção original com que o havia guardado, e essa intenção continua válida. Mas qualquer outra pessoa não é responsável por ele senão pela sua medidaa medida padrão daquele tipo de objeto, como as sementes de horta ou o gafanhoto tratados no fim do capítulo anterior — pois quem não o guardou especialmente não tem a intenção que reduz a medida mínima. Se o trouxe de volta para dentroo mesmo objeto que guardara e depois transportara para fora, e mudou de ideia sobre usá-lo, recolhendo-o de volta ao domínio privadonão é responsável por ele senão pela sua medidapois, ao desistir de sua finalidade original, sua intenção especial se anula, e ele volta a ser tratado como qualquer outra pessoa em relação a esse objeto.

הַמַּצְנִיעַ לְזֶרַע וּלְדֻגְמָא וְלִרְפוּאָה, וְהוֹצִיאוֹ בְּשַׁבָּת, חַיָּב בְּכָל שֶׁהוּא. וְכָל אָדָם אֵין חַיָּב עָלָיו אֶלָּא כְשִׁעוּרוֹ. חָזַר וְהִכְנִיסוֹ, אֵינוֹ חַיָּב עָלָיו אֶלָּא כְשִׁעוּרוֹ:

Fontes na Torá · מְקוֹרוֹת בַּתּוֹרָה

A proibição genérica de transportar objetos de um domínio a outro no Shabat deriva do mesmo princípio de "não fareis nenhum trabalho" que fundamenta todo o tratado.

Shemot 35:2-3
שֵׁשֶׁת יָמִים תֵּעָשֶׂה מְלָאכָה וּבַיּוֹם הַשְּׁבִיעִי יִהְיֶה לָכֶם קֹדֶשׁ שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן לַיהוָה, כָּל הָעֹשֶׂה בוֹ מְלָאכָה יוּמָת. לֹא תְבַעֲרוּ אֵשׁ בְּכֹל מֹשְׁבֹתֵיכֶם בְּיוֹם הַשַּׁבָּת.
Seis dias se fará trabalho, e no sétimo dia haverá para vós santidade, Shabat completo para Hashem; todo aquele que fizer trabalho nele morrerá. Não acendereis fogo em nenhuma de vossas habitações no dia do Shabat.

Por que esta passagem serve de base ao princípio de "intenção" (machshavá) que rege esta mishná. O versículo introdutório de Vayakhel, que precede a ordem de trazer os materiais para o Mishcan, é a mesma fonte de onde a Guemará extrai as trinta e nove categorias de trabalho proibido, entre elas hotza'ah — o transporte de um domínio a outro. Mas esta mishná ensina algo mais fino: que a responsabilidade por transportar uma quantidade mínima não depende apenas do tamanho do objeto, mas também da intenção de quem o guardou. Quem separa deliberadamente um item para um uso específico — ainda que pequeno — já demonstra, com esse ato de guardá-lo (hatzná'ah), que aquele objeto tem valor e significado para ele; e essa intenção original acompanha o objeto quando ele o transporta, tornando-o responsável mesmo por uma quantidade inferior à medida padrão. Este princípio — de que "todo aquele que age, age segundo sua intenção primeira" — permeia a mishná inteira e será a chave para as próximas cinco mishnayot do Perek Yud, todas dedicadas a refinar os detalhes de quando o transporte é considerado completo e intencional.

Halachot · הֲלָכוֹת

Como o Rambam codifica esta regra da intenção em Hilchot Shabat, capítulo dezoito.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 18:16
כָּל הַמַּצְנִיעַ דָּבָר מִן הַדְּבָרִים כְּדֵי לְהִשְׁתַּמֵּשׁ בּוֹ אוֹ כְּדֵי שֶׁיִּהְיֶה מָצוּי אֶצְלוֹ, וְהוֹצִיאוֹ בְּשַׁבָּת, חַיָּב עָלָיו כָּל שֶׁהוּא, שֶׁהֲרֵי חִשֵּׁב עָלָיו וְקָבַע לוֹ מָקוֹם. וְכָל אָדָם שֶׁהוֹצִיא כַּיּוֹצֵא בּוֹ, אֵינוֹ חַיָּב עַד שֶׁיּוֹצִיא כְּשִׁעוּר.
Todo aquele que guarda algo dentre as coisas para dele se servir, ou para que fique disponível junto a si, e o transportou no Shabat, é responsável por qualquer quantidade, pois já pensou sobre ele e lhe fixou um lugar. E qualquer outra pessoa que transportar objeto semelhante não é responsável até que transporte a medida padrão.
Rambam · Mishné Torá, Hilchot Shabat 18:17
הַצְּנִיעוֹ לְאֶחָד מִשְּׁלֹשָׁה דְּבָרִים אֵלּוּ, וְשָׁכַח לְמָה הִצְנִיעוֹ, וְהוֹצִיאוֹ סְתָם בְּשַׁבָּת, חַיָּב, שֶׁעַל דַּעַת הָרִאשׁוֹנָה הוֹצִיאוֹ. חָזַר וְהִכְנִיסוֹ, וְנִמְלַךְ עָלָיו שֶׁלֹּא לְהַצְנִיעוֹ עוֹד, בָּטְלָה מַחְשַׁבְתּוֹ הָרִאשׁוֹנָה, וְאֵינוֹ חַיָּב עוֹד עָלָיו אֶלָּא כְּשִׁעוּרוֹ.
Guardou-o para um destes três propósitos, e esqueceu por qual deles o guardara, e o transportou de modo genérico no Shabat, é responsável, pois transportou segundo a intenção original. Se o trouxe de volta para dentro, e decidiu não mais guardá-lo para aquele fim, sua intenção original se anula, e não é mais responsável por ele senão pela sua medida.

O alcance do princípio. A halachá segue integralmente esta mishná sem controvérsia entre os sábios: a força da intenção original de quem guarda um objeto persiste mesmo quando ele próprio já não se lembra do motivo exato, contanto que o motivo tenha existido. Isso ensina um princípio mais amplo, aplicado em muitas outras áreas da halachá: a ação presente pode herdar o significado de uma intenção passada, desde que não tenha havido, entretanto, uma mudança de ideia explícita que a anule.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Os comentadores explicam por que a Mishná escolheu a linguagem "aquele que guarda" em vez de "aquele que transporta", e como se define a medida de cada objeto guardado.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Shabat 10:1
שִׁעוּר זֹאת הַמִּשְׁנָה הוּא זֶה: הַמַּצְנִיעַ קֹדֶם הַשַּׁבָּת לְזֶרַע וּלְדֻגְמָא וְלִרְפוּאָה, וְשָׁכַח לָמָּה הִצְנִיעוֹ, וְהוֹצִיאוֹ בְּשַׁבָּת סְתָם, חַיָּב עָלָיו בְּכָל שֶׁהוּא, שֶׁעַל דַּעַת הָרִאשׁוֹנָה הוֹצִיאוֹ. וּפֵרוּשׁ דֻּגְמָא — מָשָׁל וְדִמְיוֹן, רוֹצֶה לוֹמַר שֶׁהִצְנִיעַ אוֹתוֹ דָּבָר לְהַרְאוֹתוֹ לְעִיּוּן.

O sentido desta mishná é este: quem guarda antes do Shabat para semente, para amostra e para remédio, e esqueceu por que o havia guardado, e o transportou no Shabat de modo genérico, é responsável por qualquer quantidade, pois transportou segundo a intenção original.

E o significado de "amostra" — dugma — é modelo e exemplo, ou seja, que guardou aquele objeto para mostrá-lo a compradores em potencial, a fim de que examinassem a mercadoria antes de adquiri-la.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Shabat 10:1
הַמַּצְנִיעַ. קֹדֶם הַשַּׁבָּת: לְזֶרַע וּלְדֻגְמָא. לְהַרְאוֹת שֶׁיֵּשׁ לוֹ סַמְמָנִים וְיִקְנוּ מִמֶּנּוּ: וְלִרְפוּאָה. וְשָׁכַח בְּשַׁבָּת לְמַה הִצְנִיעַ, וְהוֹצִיאוֹ סְתָם, חַיָּב עָלָיו בְּכָל שֶׁהוּא, שֶׁעַל דַּעַת הָרִאשׁוֹנָה הוֹצִיאוֹ, וְהָא אַחְשְׁבֵיהּ: אֶלָּא כְשִׁעוּרוֹ. כָּל אֶחָד שִׁעוּר הַמְּפֹרָשׁ בּוֹ: חָזַר וְהִכְנִיסוֹ. זֶה שֶׁהִצְנִיעַ פָּחוֹת מִכְּשִׁעוּר וְהוֹצִיאוֹ, אִם נִמְלַךְ בּוֹ שֶׁלֹּא לְזָרְעוֹ וְחָזַר וְהִכְנִיסוֹ: אֵינוֹ חַיָּב. בְּהַכְנָסָה זוֹ אֶלָּא אִם כֵּן יֵשׁ בּוֹ שִׁעוּר שָׁלֵם, דְּכֵיוָן דְּנִמְלַךְ שֶׁלֹּא לְזָרְעוֹ בָּטְלָה מַחְשַׁבְתּוֹ וַהֲרֵי הוּא כְּכָל אָדָם.

"Aquele que guarda" — antes do Shabat. "Para semente e para amostra" — para mostrar que possui certos produtos, e assim comprarão dele.

"E para remédio" — e esqueceu no Shabat por que o havia guardado, e o transportou de modo genérico, é responsável por qualquer quantidade, pois transportou segundo a intenção original — e já lhe conferiu importância desde a hatzná'ah.

"Senão pela sua medida" — cada objeto tem a medida especificada para ele. "Se o trouxe de volta para dentro" — este que guardara menos que a medida e o transportara para fora: se mudou de ideia sobre plantá-lo e o trouxe de volta para dentro — "não é responsável" — por esta segunda entrada, a não ser que haja nele a medida completa, pois, tendo desistido de plantá-lo, sua intenção especial se anula, e ele passa a ser como qualquer outra pessoa.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Shabat 91a
מהו דתימא - כיון דשכח בשעת הוצאה שלא היה זכור בהצנעתו: בטלה לו מחשבתו - ואין כאן לא חשיבות מחשבת הצנעה ולא מחשבת הוצאה: קמ"ל - דכל העושה סתם על דעת הראשונה עושה ובחשיבותיה קמא קאי.

"Poderias pensar" — que, no caso de esquecimento, não fosse responsável, pois uma vez que esqueceu no momento do transporte, não estava lembrado, ao guardá-lo, daquilo que faria depois.

"Sua intenção se anularia" — seria esse o argumento a favor de isentá-lo: e não haveria aqui nem a importância da intenção de guardar, nem a importância da intenção de transportar.

"Isso nos ensina" — que todo aquele que age de modo genérico, age segundo a intenção primeira, e permanece na importância inicial que havia atribuído ao objeto quando o guardou, ainda que depois a tenha esquecido.

Abrindo o Perek Yud. Esta mishná inaugura o décimo capítulo de Shabat, que continuará o assunto técnico do transporte (hotza'ah) que atravessou os Perakim Zayin a Tet, mas agora sob um ângulo diferente: não mais as medidas mínimas de cada objeto, e sim as condições de intenção e de modo que determinam se um ato de transporte é considerado completo e responsável. As próximas mishnayot tratarão de objetos deixados no umbral da porta, de partes do corpo usadas para carregar, e da direção pretendida do transporte — todas variações sobre o mesmo tema central: o que torna um ato de hotza'ah uma "obra completa" (melechet machshevet) pela qual se é responsável.