Aquele que guarda algo para servir de semente, ou de amostra, ou de remédio — antes do Shabat, com uma dessas três finalidades em mente — e o transportou no Shabat — sem lembrar, no momento do transporte, qual das três razões o levara a guardá-lo, e o transportou de modo genérico — é responsável por qualquer quantidade — por menor que seja, pois transportou segundo a intenção original com que o havia guardado, e essa intenção continua válida. Mas qualquer outra pessoa não é responsável por ele senão pela sua medida — a medida padrão daquele tipo de objeto, como as sementes de horta ou o gafanhoto tratados no fim do capítulo anterior — pois quem não o guardou especialmente não tem a intenção que reduz a medida mínima. Se o trouxe de volta para dentro — o mesmo objeto que guardara e depois transportara para fora, e mudou de ideia sobre usá-lo, recolhendo-o de volta ao domínio privado — não é responsável por ele senão pela sua medida — pois, ao desistir de sua finalidade original, sua intenção especial se anula, e ele volta a ser tratado como qualquer outra pessoa em relação a esse objeto.
A proibição genérica de transportar objetos de um domínio a outro no Shabat deriva do mesmo princípio de "não fareis nenhum trabalho" que fundamenta todo o tratado.
Por que esta passagem serve de base ao princípio de "intenção" (machshavá) que rege esta mishná. O versículo introdutório de Vayakhel, que precede a ordem de trazer os materiais para o Mishcan, é a mesma fonte de onde a Guemará extrai as trinta e nove categorias de trabalho proibido, entre elas hotza'ah — o transporte de um domínio a outro. Mas esta mishná ensina algo mais fino: que a responsabilidade por transportar uma quantidade mínima não depende apenas do tamanho do objeto, mas também da intenção de quem o guardou. Quem separa deliberadamente um item para um uso específico — ainda que pequeno — já demonstra, com esse ato de guardá-lo (hatzná'ah), que aquele objeto tem valor e significado para ele; e essa intenção original acompanha o objeto quando ele o transporta, tornando-o responsável mesmo por uma quantidade inferior à medida padrão. Este princípio — de que "todo aquele que age, age segundo sua intenção primeira" — permeia a mishná inteira e será a chave para as próximas cinco mishnayot do Perek Yud, todas dedicadas a refinar os detalhes de quando o transporte é considerado completo e intencional.
Como o Rambam codifica esta regra da intenção em Hilchot Shabat, capítulo dezoito.
O alcance do princípio. A halachá segue integralmente esta mishná sem controvérsia entre os sábios: a força da intenção original de quem guarda um objeto persiste mesmo quando ele próprio já não se lembra do motivo exato, contanto que o motivo tenha existido. Isso ensina um princípio mais amplo, aplicado em muitas outras áreas da halachá: a ação presente pode herdar o significado de uma intenção passada, desde que não tenha havido, entretanto, uma mudança de ideia explícita que a anule.
Os comentadores explicam por que a Mishná escolheu a linguagem "aquele que guarda" em vez de "aquele que transporta", e como se define a medida de cada objeto guardado.
O sentido desta mishná é este: quem guarda antes do Shabat para semente, para amostra e para remédio, e esqueceu por que o havia guardado, e o transportou no Shabat de modo genérico, é responsável por qualquer quantidade, pois transportou segundo a intenção original.
E o significado de "amostra" — dugma — é modelo e exemplo, ou seja, que guardou aquele objeto para mostrá-lo a compradores em potencial, a fim de que examinassem a mercadoria antes de adquiri-la.
"Aquele que guarda" — antes do Shabat. "Para semente e para amostra" — para mostrar que possui certos produtos, e assim comprarão dele.
"E para remédio" — e esqueceu no Shabat por que o havia guardado, e o transportou de modo genérico, é responsável por qualquer quantidade, pois transportou segundo a intenção original — e já lhe conferiu importância desde a hatzná'ah.
"Senão pela sua medida" — cada objeto tem a medida especificada para ele. "Se o trouxe de volta para dentro" — este que guardara menos que a medida e o transportara para fora: se mudou de ideia sobre plantá-lo e o trouxe de volta para dentro — "não é responsável" — por esta segunda entrada, a não ser que haja nele a medida completa, pois, tendo desistido de plantá-lo, sua intenção especial se anula, e ele passa a ser como qualquer outra pessoa.
"Poderias pensar" — que, no caso de esquecimento, não fosse responsável, pois uma vez que esqueceu no momento do transporte, não estava lembrado, ao guardá-lo, daquilo que faria depois.
"Sua intenção se anularia" — seria esse o argumento a favor de isentá-lo: e não haveria aqui nem a importância da intenção de guardar, nem a importância da intenção de transportar.
"Isso nos ensina" — que todo aquele que age de modo genérico, age segundo a intenção primeira, e permanece na importância inicial que havia atribuído ao objeto quando o guardou, ainda que depois a tenha esquecido.
Abrindo o Perek Yud. Esta mishná inaugura o décimo capítulo de Shabat, que continuará o assunto técnico do transporte (hotza'ah) que atravessou os Perakim Zayin a Tet, mas agora sob um ângulo diferente: não mais as medidas mínimas de cada objeto, e sim as condições de intenção e de modo que determinam se um ato de transporte é considerado completo e responsável. As próximas mishnayot tratarão de objetos deixados no umbral da porta, de partes do corpo usadas para carregar, e da direção pretendida do transporte — todas variações sobre o mesmo tema central: o que torna um ato de hotza'ah uma "obra completa" (melechet machshevet) pela qual se é responsável.