Um assassino que se misturou com outros — todos estão isentos. Rabi Yehuda diz: recolhem-nos à câmara. — Quando um indivíduo já condenado à pena capital se mistura de tal forma com outras pessoas que se torna impossível determinar com certeza qual delas é o condenado, o tribunal não pode executar nenhuma delas — pois isso arriscaria matar um inocente, o que a lei não tolera mesmo à custa de deixar o culpado sem punição formal. Rabi Yehuda não discorda desse princípio, mas propõe uma solução para não deixar o assassino solto: recolher a todos à câmara de detenção, onde, com o tempo, a alimentação restrita leva à morte apenas de quem ali deveria mesmo perecer.
Todos os condenados a penas capitais que se misturaram uns com os outros são julgados pela mais leve. Os condenados a apedrejamento misturados com os condenados a queima — Rabi Shimon diz: são julgados por apedrejamento, pois a queima é mais severa. E os Sábios dizem: são julgados por queima, pois o apedrejamento é mais severo. — Havendo mistura entre pessoas condenadas a penas diferentes, sem meio de saber qual pena cabe a cada uma, o tribunal aplica a todas a pena mais leve entre as em jogo — o mesmo princípio de dúvida em favor da vida usado no caso do assassino isolado. Mas para aplicar esse princípio é preciso primeiro saber qual das duas penas é, de fato, a mais leve — e é exatamente aí que Rabi Shimon e os Sábios divergem quanto à hierarquia entre apedrejamento e queima.
Rabi Shimon lhes disse: se a queima não fosse mais severa, não teria sido dada à filha de sacerdote que cometeu adultério. Disseram-lhe: se o apedrejamento não fosse mais severo, não teria sido dado ao blasfemo e ao que serve ídolos. — Cada lado argumenta a partir de quem recebe cada pena. Rabi Shimon raciocina que, sendo a transgressão da filha de sacerdote particularmente grave — pois profana também a santidade paterna —, a pena que lhe coube, a queima, deve ser a mais severa das duas. Os Sábios contra-argumentam que o apedrejamento é reservado a quem nega os próprios fundamentos da fé — o blasfemo e o idólatra —, transgressões mais graves que qualquer relação proibida, o que mostra que o apedrejamento é a pena mais severa.
Os condenados a decapitação misturados com os condenados a estrangulamento — Rabi Shimon diz: por espada. E os Sábios dizem: por estrangulamento. — O mesmo padrão de disputa se repete no segundo par de penas: Rabi Shimon considera o estrangulamento a pena mais severa, e por isso, na mistura, julga todos pela decapitação — a mais leve das duas em sua avaliação. Os Sábios, ao contrário, consideram a decapitação a mais severa, e por isso julgam todos pelo estrangulamento.
Rambam esclarece um ponto importante: a controvérsia de Rabi Yehuda não é sobre o caso simples de duas pessoas entre as quais se desconhece qual delas cometeu o assassinato — nesse caso, todos concordam que ambas ficam isentas, sem exceção. A controvérsia é sobre um caso diferente: um boi já condenado à pena capital, que se mistura com outros bois. Ali, a opinião comum é apedrejar todos os bois, já que todos ficam proibidos de uso; Rabi Yehuda discorda e propõe recolhê-los à câmara em vez de apedrejá-los. A halachá não segue nem Rabi Yehuda nem Rabi Shimon.
Bartenura ilustra o caso do assassino misturado: duas pessoas estavam de pé e uma flecha saiu do meio delas e matou alguém — ambas ficam isentas, e isso vale mesmo que uma delas seja conhecida por sua piedade e presumivelmente não tenha sido quem atirou a flecha; essa presunção de caráter não basta para condenar a outra. Sobre Rabi Yehuda, esclarece que a mishná está incompleta e deve ser lida como referindo-se a um boi já condenado, misturado com outros — que a opinião comum apedreja todos, e Rabi Yehuda propõe recolhê-los para morrerem de fome em vez de apedrejá-los; a halachá não o segue. E resume secamente o argumento de cada lado sobre decapitação e estrangulamento: para Rabi Shimon, o estrangulamento é mais severo; para os Sábios, a espada é mais severa.
Rashi remete a identidade dos "outros" misturados ao esclarecimento da Guemará, e detalha o procedimento da câmara: ali os condenados são alimentados com cevada até que o ventre se rompa. Explica o princípio de julgar pela pena mais leve: uma vez misturados, sem saber quem é responsável pela pena mais severa e quem pela mais leve, não é permitido agravar arbitrariamente a situação de ninguém — julga-se pela mais leve, que está de todo modo incluída dentro da mais severa. E nota que, mesmo que a maioria dos misturados fossem condenados à queima e apenas um ao apedrejamento, Rabi Shimon ainda assim julgaria todos por apedrejamento, por considerá-lo mais leve. Sobre os argumentos finais, explica que a transgressão da filha do sacerdote é grave porque profana também seu pai, e que o blasfemo e o idólatra "estendem a mão contra o fundamento" — negam a própria raiz da fé.