O filho rebelde e contumaz é julgado por causa de seu fim: que morra inocente, e não morra culpado. Pois a morte dos ímpios é benefício para eles e benefício para o mundo; e para os justos, é mal para eles e mal para o mundo. — A mishná revela, só agora, o fundamento de toda a severidade das mishnayot anteriores: o filho não é condenado à morte pela gravidade do que já fez — comer carne e beber vinho em excesso não seria, por si só, crime capital —, mas por causa do caminho para o qual esse comportamento aponta. Antevendo que ele acabará por esgotar os bens do pai e, sem recursos para sustentar o vício, se tornará um assaltante de estradas, a Torá prefere que morra ainda relativamente inocente a que morra depois de acumular crimes muito mais graves. Dessa lógica particular, a mishná extrai um princípio geral: a morte dos ímpios é boa tanto para eles — que deixam de acumular culpa — quanto para o mundo, que se livra de seu mal; e a morte dos justos é ruim tanto para eles — que deixam de acumular mérito — quanto para o mundo, que perde sua influência benéfica.
Vinho e sono para os ímpios são benefício para eles e benefício para o mundo; e para os justos, mal para eles e mal para o mundo. Dispersão para os ímpios é benefício para eles e benefício para o mundo; e para os justos, mal para eles e mal para o mundo. Reunião para os ímpios é mal para eles e mal para o mundo; e para os justos, benefício para eles e benefício para o mundo. Tranquilidade para os ímpios é mal para eles e mal para o mundo; e para os justos, benefício para eles e benefício para o mundo. — A mishná aplica a mesma estrutura de pensamento a quatro outros pares. Enquanto bebem e dormem, os ímpios não têm oportunidade de prejudicar ninguém — o que é bom tanto para eles quanto para o mundo —, ao passo que, para os justos, esse mesmo tempo é tempo perdido de estudo e de boas ações, prejudicando os dois lados. A dispersão dos ímpios impede que se reúnam para se incitar mutuamente ao mal, o que também é duplamente benéfico; já a dispersão dos justos os priva da capacidade de se apoiarem e se aconselharem entre si, o que prejudica ambos. Por isso, a reunião — o oposto — inverte exatamente os sinais: reunir ímpios é duplamente prejudicial, e reunir justos é duplamente benéfico. E a tranquilidade dos ímpios, que os deixa livres para agir sem obstáculo, é duplamente ruim; a dos justos, que lhes dá tempo e paz para se dedicar ao bem, é duplamente boa.
Rambam explica o princípio "julgado por causa de seu fim": a Torá atesta que aquele que, ainda na juventude, se entrega dessa forma à voracidade do apetite, inevitavelmente acabará por assaltar e derramar sangue de outras pessoas para sustentar o hábito ao qual se acostumou — e por isso o Criador ordenou que fosse morto antecipadamente, antes que chegasse a matar outros.
Bartenura detalha o percurso previsto: o filho acaba por esgotar os bens do pai, e ao buscar sustentar seu vício sem encontrar recursos, passa a sentar-se à beira dos caminhos e assaltar os viajantes — por isso a Torá prefere que morra inocente a que morra culpado desses crimes maiores. Explica cada par: enquanto bebem e dormem, os ímpios não acrescentam pecado, o que traz paz a toda a terra; para os justos, esse mesmo tempo é tempo perdido de estudo da Torá, e sua inatividade traz punição ao mundo. E a dispersão dos ímpios os impede de se aconselharem e se ajudarem mutuamente no mal — o oposto do que ocorreria caso permanecessem reunidos.
Rashi acompanha cada par de opostos com a mesma lógica dupla: a morte, o vinho e o sono dos ímpios trazem paz porque interrompem o acúmulo de pecado, ao passo que, para os justos, interromper sua atividade — seja pela morte, pelo sono, ou pela dispersão — priva tanto a eles quanto o mundo do mérito e da proteção que sua Torá e suas boas ações trazem consigo. Nota especialmente que a tranquilidade dos justos lhes dá o tempo livre necessário para se dedicarem à Torá e aos mandamentos — daí seu duplo benefício. E, voltando ao caso concreto do filho rebelde e contumaz, explica os termos "esgota" — no sentido de consumir por completo os bens do pai — e "hábito" — referindo-se especificamente ao costume de carne e vinho ao qual ele já se habituou.