Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Chet · Mishná 6 de 7

O que vem escavando: julgado por causa de seu fim

הַבָּא בַמַּחְתֶּרֶת נִדּוֹן עַל שֵׁם סוֹפוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná aplica o mesmo princípio da mishná anterior — julgamento por causa do fim previsível — ao ladrão que invade uma casa escavando, e regula o caso do barril que ele quebra ao entrar, conforme haja ou não responsabilidade de sangue por matá-lo.

O que vem escavando é julgado por causa de seu fim. Se estava vindo escavando e quebrou o barril: se há sangue por ele, é responsável; se não há sangue por ele, está isento. — Do mesmo modo que o filho rebelde e contumaz é julgado por seu fim previsível, também o ladrão que invade uma casa por meio de escavação é julgado por essa mesma lógica: presume-se que, se o dono da casa se levantasse para defender seus bens, o invasor o mataria sem hesitar — e por isso a Torá permite que o dono o mate primeiro, antes que ele chegue a fazê-lo. A mishná aplica esse princípio a um caso concreto: se, ao escavar para entrar, o invasor quebra um barril, sua responsabilidade por esse dano depende exatamente da mesma pergunta que decide se ele pode ser morto — se há "sangue" por matá-lo, ou seja, se matá-lo seria criminoso (como no caso excepcional de um pai que invade a casa do próprio filho), ele é responsável por pagar o barril; mas se não há sangue por matá-lo — se o dono da casa poderia matá-lo impunemente —, ele está isento até mesmo do pagamento pelo barril.

הַבָּא בַמַּחְתֶּרֶת נִדּוֹן עַל שֵׁם סוֹפוֹ. הָיָה בָא בַמַּחְתֶּרֶת וְשָׁבַר אֶת הֶחָבִית, אִם יֵשׁ לוֹ דָמִים, חַיָּב. אִם אֵין לוֹ דָמִים, פָּטוּר:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Shemot 22:1
אִם בַּמַּחְתֶּרֶת יִמָּצֵא הַגַּנָּב וְהֻכָּה וָמֵת אֵין לוֹ דָּמִים.
"Se, escavando, for encontrado o ladrão, e for ferido e morrer, não há por ele sangue."
O versículo seguinte, Shemot 22:2 — "se o sol já brilhou sobre ele, há por ele sangue" —, é a base da distinção entre as duas metades desta mishná: quando é razoavelmente certo que o invasor mataria o dono da casa para não ser detido, "não há por ele sangue", e ele pode ser morto impunemente; mas quando essa certeza não existe — como no caso de um pai que invade a casa do próprio filho, presumindo-se que jamais o mataria —, "há por ele sangue", e matá-lo seria criminoso.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 8:6
הַבָּא בַמַּחְתֶּרֶת נִדּוֹן עַל שֵׁם סוֹפוֹ הָיָה בָא כו': וְכֵן הַבָּא בַמַּחְתֶּרֶת יָדוּעַ הוּא שֶׁכַּוָּנָתוֹ, שֶׁאִם יַעֲמֹד בַּעַל הַבַּיִת לְהַצִּיל מָמוֹנוֹ מִיָּדוֹ שֶׁיַּהַרְגֶנּוּ, וּלְפִיכָךְ מֻתָּר לְהָרְגוֹ. וְאֵין הֶפְרֵשׁ בֵּין שֶׁבָּא בַמַּחְתֶּרֶת אוֹ בְּדֶרֶךְ הֶחָצֵר וְדֶרֶךְ גַּג וְדֶרֶךְ קַרְפֵּף, אֲבָל דִּבֵּר הַכָּתוּב בַּהֹוֶה בְּרֹב. וּכְבָר נִתְבָּאֵר בִּכְתֻבּוֹת וְזוּלָתוֹ, כִּי מֵעִקָּרֵנוּ אֵין אָדָם מֵת וּמְשַׁלֵּם, וּלְפִיכָךְ הַבָּא בַמַּחְתֶּרֶת, אִם שָׁבַר חָבִית בְּעֵת כְּנִיסָתוֹ וְלֹא יִהְיוּ שָׁם עֵדִים, שֶׁאָז דָּמוֹ מֻתָּר כְּמוֹ שֶׁנֶּאֱמַר אֵין לוֹ דָמִים, וְהוּא פָטוּר מִדְּמֵי הֶחָבִית. וְאִם שְׁבָרָהּ בְּצֵאתוֹ וּכְבָר פָּנָה לָלֶכֶת לְדַרְכּוֹ שֶׁאֵין מֻתָּר לְהָרְגוֹ אִם יֵשׁ שָׁם עֵדִים, כְּמוֹ שֶׁנֶּאֱמַר דָּמִים לוֹ, הוּא חַיָּב בִּדְמֵי הֶחָבִית.

Rambam esclarece que o mesmo princípio vale para qualquer invasão feita com a intenção de matar caso encontre resistência — seja por escavação, seja pelo telhado, pelo quintal ou por um terreno cercado —, e que a Torá menciona "escavação" apenas por ser o caso mais comum. Acrescenta o princípio geral de que ninguém morre e paga ao mesmo tempo: por isso, se o invasor quebra o barril ao entrar, num momento em que — sem testemunhas presentes — seu sangue seria lícito, ele fica isento do pagamento; mas se quebra o barril ao sair, já de costas e a caminho de ir embora, quando sua morte já não seria lícita mesmo com testemunhas presentes, ele permanece responsável pelo valor do barril.

Bartenura · Sanhedrin 8:6
הַבָּא בַמַּחְתֶּרֶת. שֶׁאָמְרָה תוֹרָה יֵהָרֵג: נִדּוֹן עַל שֵׁם סוֹפוֹ. שֶׁסּוֹפוֹ לַהֲרֹג אֶת בַּעַל הַבַּיִת אִם יַעֲמֹד כְּנֶגְדּוֹ לְהַצִּיל אֶת שֶׁלּוֹ: אִם יֶשׁ לוֹ דָמִים חַיָּב. כְּגוֹן הָאָב הַבָּא בַמַּחְתֶּרֶת עַל הַבֵּן, בְּיָדוּעַ שֶׁרַחֲמֵי הָאָב עַל הַבֵּן, לְפִיכָךְ אֵין הַבֵּן רַשַּׁאי לְהָרְגוֹ, וְאִם שָׁבַר הָאָב הֶחָבִית, חַיָּב לְשַׁלֵּם: אֵין לוֹ דָמִים פָּטוּר. וּשְׁאָר כָּל אָדָם הַבָּא בַמַּחְתֶּרֶת, שֶׁאִם הֲרָגוֹ בַּעַל הַבַּיִת אֵין לוֹ דָמִים, אִם שָׁבַר אֶת הֶחָבִית פָּטוּר מִלְּשַׁלֵּם, שֶׁכֵּיוָן שֶׁהוּא מִתְחַיֵּב בְּנַפְשׁוֹ פָּטוּר מִן הַתַּשְׁלוּמִין, שֶׁאֵין אָדָם מֵת וּמְשַׁלֵּם.

Bartenura explica que "julgado por causa de seu fim" significa que se presume que o invasor acabaria por matar o dono da casa, caso este se opusesse a ele para salvar seus bens. Dá o exemplo clássico da exceção: um pai que invade escavando a casa do próprio filho — como se presume que o amor de pai por filho jamais chegaria a matá-lo, o filho não tem permissão de matar o pai, e se o pai quebra o barril, permanece responsável pelo pagamento. Já em qualquer outro caso, onde o dono da casa poderia matar o invasor impunemente, este fica isento do pagamento do barril precisamente porque está sujeito à pena capital — e ninguém morre e paga ao mesmo tempo.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 72a–72b, s.v. מתני' הבא במחתרת; נדון על שם סופו; מאי טעמא דמחתרת; אב הבא על הבן; ואין לי אלא מחתרת; זו היא התראתו
מַתְנִי' הַבָּא בַמַּחְתֶּרֶת — שֶׁאָמְרָה תוֹרָה יֵהָרֵג: נִדּוֹן עַל שֵׁם סוֹפוֹ — דְּהָא לֹא קָטַל וּמַקְטִיל, מִשּׁוּם דְּסוֹפוֹ לַהֲרֹג בַּעַל הַבַּיִת כְּשֶׁיַּעֲמֹד כְּנֶגְדּוֹ לְהַצִּיל מָמוֹנוֹ: מַאי טַעְמָא דְּמַחְתֶּרֶת — שֶׁאָמְרָה תוֹרָה אֵין לוֹ דָמִים, כְּלוֹמַר הֲרֵי הוּא לְךָ כְּמִי שֶׁאֵין לוֹ דָם וּנְשָׁמָה וּמֻתָּר לְהָרְגוֹ. חֲזָקָה אֵין אָדָם מַעֲמִיד עַצְמוֹ עַל מָמוֹנוֹ, שֶׁרוֹאֶה שֶׁאַחֵר נוֹטְלוֹ וְשׁוֹתֵק, הִלְכָּךְ יוֹדֵעַ הַגַּנָּב הַזֶּה שֶׁבַּעַל הַבַּיִת עוֹמֵד עַל מָמוֹנוֹ לְהַצִּילוֹ, וּמֵימַר אָמַר הַגַּנָּב: אִי אָזִילְנָא לְגַבֵּיהּ, קָאֵי בְּאַפַּאי, וְאִי קָאֵי, קָטִילְנָא לֵיהּ, וְאָמְרָה לְךָ תוֹרָה אֵין לוֹ דָמִים, וּמְלַמֶּדֶתְךָ מֵאַחַר שֶׁהוּא בָּא לְהָרְגְךָ, הַשְׁכֵּם אַתָּה לְהָרְגוֹ: אַב הַבָּא עַל הַבֵּן — בְּמַחְתֶּרֶת מִסָּפֵק, אַל יַהַרְגֶהוּ בְּנוֹ, דְּוַדַּאי רַחֲמֵי הָאָב עַל בְּנוֹ, וַאֲפִלּוּ הוּא מַצִּיל מָמוֹנוֹ לֹא יַהַרְגֶהוּ, הִלְכָּךְ דָּמִים לוֹ עַד שֶׁיִּוָּדַע לְךָ כַּשֶּׁמֶשׁ שֶׁהוּא אַכְזָרִי עָלֶיךָ וְשׂוֹנַאֲךָ: וְאֵין לִי אֶלָּא מַחְתֶּרֶת — גַּגּוֹ, חֲצֵרוֹ וְקַרְפֵּיפוֹ מִנַּיִן? תַּלְמוּד לוֹמַר יִמָּצֵא הַגַּנָּב, מִכָּל צַד: זוֹ הִיא הַתְרָאָתוֹ — שֶׁאֵינוֹ צָרִיךְ הַתְרָאָה אַחֶרֶת, אֶלָּא הוֹרְגוֹ מִיָּד, דְּכֵיוָן דְּטָרַח וּמָסַר נַפְשֵׁיהּ לַחְתֹּר, אַדַּעְתָּא דְּהָכִי אָתָא, דְּאִי קָאֵי לְאַפֵּיהּ קָטִילְנָא לֵיהּ.

Rashi explica a lógica da presunção legal: como é natural que ninguém aceite passivamente ver seus bens levados por outro, o dono da casa certamente resistirá — e o próprio invasor, sabendo disso, já entra decidido a matar quem se opuser. Por isso a Torá adianta o direito de defesa: já que ele vem para matar, o dono deve antecipar-se e matá-lo primeiro. No caso do pai que invade a casa do filho, Rashi confirma que a dúvida favorece o pai — presume-se seu amor paterno até prova em contrário tão clara quanto a luz do sol. Explica ainda que a palavra "escavação" no versículo não limita o caso a essa forma específica de invasão — a expressão "for encontrado o ladrão" inclui qualquer via de entrada, seja pelo telhado, pelo quintal ou por um terreno cercado. E fecha explicando por que essa invasão dispensa a advertência formal: o próprio esforço de escavar e arriscar a vida para entrar já demonstra a intenção de matar quem se lhe opuser, o que substitui, por si só, a advertência exigida em outras transgressões.