Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Chet · Mishná 3 de 7

De quem furtou e onde comeu

גָּנַב מִשֶּׁל אָבִיו וְאָכַל בִּרְשׁוּת אָבִיו
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná exige uma combinação precisa entre a origem do furto e o local do consumo — só a combinação "furtou do pai, comeu na propriedade de outros" configura a rebeldia — e traz a divergência de Rabi Yosei bar Rabi Yehuda, que exige furto tanto do pai quanto da mãe.

Furtou do que era de seu pai e comeu na propriedade de seu pai; do que era de outros e comeu na propriedade de outros; do que era de outros e comeu na propriedade de seu pai — não se torna filho rebelde e contumaz, a não ser que furte do que é de seu pai e coma na propriedade de outros. Rabi Yosei bar Rabi Yehuda diz: não se torna filho rebelde e contumaz, a não ser que furte do que é de seu pai e do que é de sua mãe.A mishná examina quatro combinações possíveis entre a origem daquilo que o filho furta e o local onde ele o consome, e apenas uma delas configura a rebeldia completa: furtar especificamente do pai e comer especificamente na propriedade de outros. As outras três combinações — furtar do pai e comer em casa do pai, furtar de outros e comer em casa de outros, ou furtar de outros e comer em casa do pai — não bastam, cada uma por razão própria ligada ao vício de repetição que a Torá tinha em vista. Rabi Yosei bar Rabi Yehuda acrescenta uma exigência adicional: que o filho tenha furtado não apenas do pai, mas também de bens que pertencem especificamente à mãe.

גָּנַב מִשֶּׁל אָבִיו וְאָכַל בִּרְשׁוּת אָבִיו, מִשֶּׁל אֲחֵרִים וְאָכַל בִּרְשׁוּת אֲחֵרִים, מִשֶּׁל אֲחֵרִים וְאָכַל בִּרְשׁוּת אָבִיו, אֵינוֹ נַעֲשֶׂה בֵּן סוֹרֵר וּמוֹרֶה, עַד שֶׁיִּגְנֹב מִשֶּׁל אָבִיו וְיֹאכַל בִּרְשׁוּת אֲחֵרִים. רַבִּי יוֹסֵי בַר רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, עַד שֶׁיִּגְנֹב מִשֶּׁל אָבִיו וּמִשֶּׁל אִמּוֹ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 8:3
גָּנַב מִשֶּׁל אָבִיו וְאָכַל בִּרְשׁוּת אָבִיו מִשֶּׁל אֲחֵרִים כו׳: רְצוֹנוֹ לוֹמַר, רַבִּי יוֹסֵי בְּאָמְרוֹ שֶׁיִּגְנֹב מִדְּמֵי סְעֻדָּה הַמּוּכָנָה לְאָבִיו וּלְאִמּוֹ, אוֹ מִנִּכְסֵי הָאֵם אִם הָיָה לָהּ נְכָסִים שֶׁאֵין זְכוּת לְאָבִיו בָּהֶם, וְזֶהוּ כְּגוֹן שֶׁנָּתַן לָהּ אָדָם מַתָּנָה עַל מְנָת שֶׁאֵין לְבַעְלָהּ רְשׁוּת בָּהֶן, וְזֶה יִתָּכֵן לַעֲשׂוֹת. וּמִתְּנָאָיו עוֹד שֶׁיִּקַּח בְּעַצְמוֹ בְּאוֹתוֹ מָמוֹן הַגָּנוּב בָּשָׂר וְיַיִן בְּזוֹל, וְיֹאכְלֵם בַּמָּקוֹם שֶׁאָמַרְנוּ עַל הַפָּנִים הַנִּזְכָּרִים. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי בְּרַבִּי יְהוּדָה.

Rambam esclarece a posição de Rabi Yosei bar Rabi Yehuda: a exigência de furtar também "da mãe" refere-se a furtar do dinheiro já reservado para a refeição de pai e mãe, ou dos bens pessoais da mãe — caso ela possua bens sobre os quais o pai não tenha direito, como quando alguém lhe dá uma doação com a condição explícita de que o marido não tenha poder sobre ela, o que é juridicamente possível. Acrescenta ainda uma condição prática comum a toda a mishná: o filho deve usar o próprio dinheiro furtado para comprar carne e vinho a preço baixo, e comê-los no local indicado, seguindo as combinações já descritas. Conclui que a halachá não segue Rabi Yosei bar Rabi Yehuda.

Bartenura · Sanhedrin 8:3
גָּנַב מִשֶּׁל אָבִיו וְאָכַל בִּרְשׁוּת אָבִיו. אַף עַל גַּב דִּשְׁכִיחַ לֵיהּ לִגְנֹב מִשֶּׁל אָבִיו, הוֹאִיל וְאָכַל בִּרְשׁוּת אָבִיו מִתְפַּחֵד וּמִתְבַּעֵת מֵאָבִיו שֶׁמָּא יִרְאֶנּוּ, וְלֹא מִמְּשִׁיךְ: גָּנַב מִשֶּׁל אֲחֵרִים. לֹא שְׁכִיחַ לֵיהּ שֶׁיּוּכַל בְּכָל עֵת לִגְנֹב מִשֶּׁל אֲחֵרִים, וְלֹא מִמְּשִׁיךְ: עַד שֶׁיִּגְנֹב מִשֶּׁל אָבִיו. דִּשְׁכִיחַ לֵיהּ לִגְנֹב בְּכָל עֵת: וְיֹאכַל בִּרְשׁוּת אֲחֵרִים. שֶׁאֵינוֹ מִתְבַּעֵת שָׁם מֵאָבִיו, דְּבִכְהַאי גַּוְנָא וַדַּאי מִמְּשִׁיךְ: וּמִשֶּׁל אִמּוֹ. מִנְּכָסִים שֶׁיֵּשׁ לָהּ שֶׁאֵין לְאָבִיו רְשׁוּת בָּהֶן, כְּגוֹן שֶׁנָּתַן לָהּ אַחֵר נְכָסִים בְּמַתָּנָה עַל מְנָת שֶׁאֵין לְבַעְלָהּ רְשׁוּת בָּהֶן. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי בְרַבִּי יְהוּדָה.

Bartenura explica a lógica por trás de cada combinação: furtar do pai e comer sob os olhos do pai não gera vício, pois o filho vive com medo de ser flagrado; furtar de outros também não gera vício, pois não é fácil furtar de estranhos a qualquer momento. Só a combinação "furtou do pai — o que é fácil de repetir sempre — e comeu na propriedade de outros — onde não teme ser visto pelo pai" gera, de fato, o padrão repetido de vício que a Torá tinha em vista. E confirma que "da mãe", para Rabi Yosei bar Rabi Yehuda, refere-se aos bens que a mãe possui sem que o pai tenha poder sobre eles — como quando um terceiro lhe faz uma doação com a condição explícita de que o marido não tenha direito algum sobre ela. Conclui que a halachá não segue Rabi Yosei bar Rabi Yehuda.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 71a, s.v. מתני' משל אחרים ואכל ברשות אחרים; גמ' בעית; עד שיגנוב משל אביו; עד שיקח בשר בזול; על מנת שאין לבעליך רשות בהן
מַתְנִי' מִשֶּׁל אֲחֵרִים וְאָכַל בִּרְשׁוּת אֲחֵרִים — וַאֲפִלּוּ לֹא אֲכָלָן בִּרְשׁוּת בְּעָלִים עַצְמָן, וְטַעְמָא מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא: גְּמָ' בָּעִית — מִתְפַּחֵד מֵאָבִיו שֶׁלֹּא יָבִין, הִלְכָּךְ לֹא מִמְּשִׁיךְ: עַד שֶׁיִּגְנֹב מִשֶּׁל אָבִיו — דִּשְׁכִיחַ לֵיהּ לִגְנֹב תָּמִיד, וְאָכַל בִּרְשׁוּת אֲחֵרִים דְּלֹא בָּעִית שֶׁלֹּא יִרְאֶנּוּ אָבִיו, וּבְכִי הַאי גַּוְנָא מִמְּשִׁיךְ: עַד שֶׁיִּקַּח בָּשָׂר בְּזוֹל — אֲבָל אִם גָּנַב בָּשָׂר וְיַיִן עַצְמָן, לֹא: עַל מְנָת שֶׁאֵין לְבַעְלִיךְ רְשׁוּת בָּהֶן — דְּאִי לֹא אָמַר לָהּ הָכִי, זָכָה בָהֶן בַּעַל, דְּלֹא עָדִיף מִמְּצִיאָתָהּ.

Rashi observa que "de outros, e comeu na propriedade de outros" desqualifica o filho mesmo que não tenha comido na propriedade do dono específico daquilo que furtou — a razão será explicada na Guemará. Confirma a lógica do medo: comer diante do pai gera receio de ser percebido, o que impede o vício de se formar; já furtar do pai — algo fácil de repetir sempre — e comer na propriedade de outros — onde não teme ser visto por ele — é precisamente a combinação que gera o vício. Nota ainda uma condição técnica adicional discutida na Guemará: o dinheiro furtado deve ser usado para comprar carne e vinho a preço baixo, não a própria carne e o próprio vinho já furtados diretamente. E, sobre os bens da mãe, explica que a doação só fica fora do poder do marido se o doador explicitar a condição no momento da doação — do contrário, o marido a adquire automaticamente, do mesmo modo que adquire um achado da esposa.