Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Chet · Mishná 2 de 7

As quantidades e as exceções do filho rebelde

מֵאֵימָתַי חַיָּב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná fixa as quantidades mínimas de carne e vinho que geram responsabilidade, e a divergência de Rabi Yosei quanto a essas medidas.

A partir de quando é responsável? Desde que coma um tartemar de carne e beba meio log de vinho italiano. Rabi Yosei diz: um maneh de carne e um log de vinho.A mishná passa da questão da idade — tratada na mishná anterior — para a questão da quantidade: apenas comer carne e beber vinho não basta para tornar o filho responsável; é preciso que o faça em medida mínima definida, e num tipo de vinho de qualidade — o vinho italiano, que atrai o bebedor a repetir o hábito. Rabi Yosei discorda das medidas do primeiro sábio e propõe as suas próprias, maiores em vinho e diferentes em carne.

מֵאֵימָתַי חַיָּב, מִשֶּׁיֹּאכַל טַרְטֵימַר בָּשָׂר וְיִשְׁתֶּה חֲצִי לֹג יַיִן הָאִיטַלְקִי. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, מָנֶה בָּשָׂר וְלֹג יָיִן.
A mishná enumera uma longa série de circunstâncias — ligadas a alguma mitzvá ou a alguma transgressão paralela — em que o filho, mesmo comendo carne e bebendo vinho em quantidade, não se torna filho rebelde e contumaz.

Comeu em companhia reunida para uma mitzvá; comeu por ocasião da intercalação do mês; comeu segundo dízimo em Jerusalém; comeu carcaças não abatidas e animais com lesão fatal, répteis e criaturas rastejantes; comeu produto não dizimado, e primeiro dízimo do qual não se separou sua terumá, e segundo dízimo e coisa consagrada que não foram resgatados — A mishná enumera duas categorias opostas de circunstâncias, cuja conclusão comum virá no trecho seguinte. Na primeira — comer numa reunião ligada a uma mitzvá, num banquete de intercalação do mês, ou o segundo dízimo comido em Jerusalém conforme sua própria regra — o próprio contexto de mitzvá torna esse consumo diferente do consumo comum que a Torá tinha em vista. Na segunda — comer carne proibida, como carcaças, animais com lesão fatal ou répteis, ou produtos agrícolas ainda sujeitos a dízimo não separado, ou consagrados não resgatados — o próprio ato de comer já constitui uma transgressão distinta. Em ambos os casos, como a mishná explicará a seguir, esse consumo não conta para formar a condição de filho rebelde e contumaz.

אָכַל בַּחֲבוּרַת מִצְוָה, אָכַל בְּעִבּוּר הַחֹדֶשׁ, אָכַל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בִּירוּשָׁלַיִם, אָכַל נְבֵלוֹת וּטְרֵפוֹת, שְׁקָצִים וּרְמָשִׂים, אָכַל טֶבֶל וּמַעֲשֵׂר רִאשׁוֹן שֶׁלֹּא נִטְּלָה תְרוּמָתוֹ וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְהֶקְדֵּשׁ שֶׁלֹּא נִפְדּוּ,
A mishná resume a regra geral — comida de mitzvá ou comida de transgressão não contam, e é preciso especificamente carne e vinho — e traz o verso bíblico e a alusão que fundamentam a exigência dessas duas substâncias específicas.

Comeu algo que envolve uma mitzvá, ou algo que envolve uma transgressão; comeu qualquer alimento mas não comeu carne; bebeu qualquer bebida mas não bebeu vinho — não se torna filho rebelde e contumaz, a não ser que coma carne e beba vinho, como está dito: "glutão e beberrão" (Devarim 21). E, embora não haja prova direta da matéria, há alusão à matéria, como está dito: "Não estejas entre os beberrões de vinho, entre os glutões de carne" (Mishlei 23).A mishná fecha resumindo o princípio por trás de toda a lista anterior: só conta como consumo do filho rebelde e contumaz aquele que não está ligado a mitzvá nem a transgressão — e mesmo esse consumo neutro só gera responsabilidade se envolver especificamente carne e especificamente vinho, nunca outro alimento ou outra bebida, por mais fartos que sejam. A base dessa exigência é a própria palavra da Torá, "glutão e beberrão", cujo sentido técnico de comer carne e beber vinho não está provado de modo direto no versículo que institui a lei, mas encontra apoio — como mera alusão, não prova formal — num versículo de Mishlei que emprega as mesmas duas raízes, "beberrões de vinho" e "glutões de carne", lado a lado.

אָכַל דָּבָר שֶׁהוּא מִצְוָה וְדָבָר שֶׁהוּא עֲבֵרָה, אָכַל כָּל מַאֲכָל וְלֹא אָכַל בָּשָׂר, שָׁתָה כָל מַשְׁקֶה וְלֹא שָׁתָה יַיִן, אֵינוֹ נַעֲשֶׂה בֵּן סוֹרֵר וּמוֹרֶה, עַד שֶׁיֹּאכַל בָּשָׂר וְיִשְׁתֶּה יַיִן, שֶׁנֶּאֱמַר (דברים כא) זוֹלֵל וְסֹבֵא. וְאַף עַל פִּי שֶׁאֵין רְאָיָה לַדָּבָר, זֵכֶר לַדָּבָר, שֶׁנֶּאֱמַר (משלי כג) אַל תְּהִי בְסֹבְאֵי יָיִן בְּזֹלְלֵי בָשָׂר לָמוֹ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Devarim 21:20
וְאָמְרוּ אֶל זִקְנֵי עִירוֹ בְּנֵנוּ זֶה סוֹרֵר וּמֹרֶה אֵינֶנּוּ שֹׁמֵעַ בְּקֹלֵנוּ זוֹלֵל וְסֹבֵא.
"E dirão aos anciãos de sua cidade: 'Este nosso filho é rebelde e contumaz, não escuta a nossa voz, é glutão e beberrão.'"
Mishlei 23:20
אַל תְּהִי בְסֹבְאֵי יָיִן בְּזֹלְלֵי בָשָׂר לָמוֹ.
"Não estejas entre os beberrões de vinho, entre os glutões de carne."
A mishná é explícita: o versículo de Devarim não prova, por si só, que "glutão" e "beberrão" se referem especificamente a carne e a vinho — essa identificação vem apenas por alusão, do versículo de Mishlei, que emprega as mesmas duas palavras lado a lado com carne e vinho explícitos.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 8:2
מֵאֵימָתַי חַיָּב מִשֶּׁיֹּאכַל טַרְטֵימַר בָּשָׂר וְיִשְׁתֶּה כו׳: טַרְטֵימַר בָּשָׂר חֲצִי מָנֶה, וּמִתְּנָאָיו עַד שֶׁיִּהְיֶה אוֹתוֹ הַבָּשָׂר בָּשֵׁל וְלֹא בָשֵׁל, וְכֵן יַיִן מָזוּג וְלֹא מָזוּג. וְאָמְרוּ דָּבָר שֶׁהוּא לוֹ מִדְּרַבָּנָן, כְּגוֹן תַּנְחוּמֵי אֲבֵלִים, וְכָל דָּבָר שֶׁהוּא לוֹ עֲבֵרָה, כְּגוֹן שֶׁאָכַל בְּיוֹם תַּעֲנִית צִבּוּר, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר אֵינֶנּוּ שׁוֹמֵעַ בְּקוֹלֵנוּ, וְעַד שֶׁלֹּא יִהְיֶה בְּאוֹתוֹ הַמַּעֲשֶׂה שֶׁלּוֹ אֶלָּא הַמָּרוֹת אָבִיו וְאִמּוֹ בִּלְבַד, לֹא הַמָּרוֹת הַתּוֹרָה. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי.

Rambam esclarece que o tartemar é meio maneh, e que uma das condições é que a carne esteja apenas parcialmente cozida — nem crua, nem bem passada — e o vinho, apenas parcialmente diluído, ambos no ponto que atrai o comportamento glutão. Explica ainda que "algo que é para ele por decreto rabínico" inclui, por exemplo, o consolo formal dos endoentados — que não conta como transgressão real —, e "algo que é para ele transgressão" inclui comer num dia de jejum público, pois o texto exige que a única desobediência presente no ato seja a rebeldia contra pai e mãe, não uma desobediência simultânea contra a própria Torá. Conclui que a halachá não segue Rabi Yosei.

Bartenura · Sanhedrin 8:2
טַרְטֵימַר. חֲצִי מָנֶה. וְהוּא שֶׁיִּהְיֶה הַבָּשָׂר בָּשִׁיל וְלֹא בָשִׁיל, כְּדֶרֶךְ שֶׁהַלִּסְטִים אוֹכְלִים: מִן הַיַּיִן הָאִיטַלְקִי. שֶׁהוּא מְשֻׁבָּח וּמִמְּשִׁיךְ בָּתְרֵיהּ, וְהוּא דְשָׁתֵי לֵיהּ מְזִיג וְלֹא מְזִיג: רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר כוּ'. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יוֹסֵי: אָכַל בַּחֲבוּרַת מִצְוָה. בִּסְעֻדָּה שֶׁל מִצְוָה: אָכַל בְּעִבּוּר הַחֹדֶשׁ. אַף עַל גַּב דְּאֵין עוֹלִין לְאוֹתָהּ סְעֻדָּה אֶלָּא בְּפַת וְקִטְנִית בִּלְבַד, וְאִיהוּ אַסִּיק בָּשָׂר וְיַיִן — הוֹאִיל וּבְמִצְוָה קָעָסֵיק, לֹא מִמְּשִׁיךְ: אָכַל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי בִּירוּשָׁלַיִם. כֵּיוָן דִּכְדֶרֶךְ מִצְוָתוֹ הוּא, דִּכְתִיב בְּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי (דברים יד) בַּבָּקָר וּבַצֹּאן וּבַיַּיִן וּבַשֵּׁכָר, לֹא מִמְּשִׁיךְ: נְבֵלוֹת וּטְרֵפוֹת שְׁקָצִים וּרְמָשִׂים. דִּכְתִיב אֵינֶנּוּ שֹׁמֵעַ בְּקֹלֵנוּ, וְלֹא זֶה שֶׁאֲפִלּוּ בְקוֹלוֹ שֶׁל הַמָּקוֹם בָּרוּךְ הוּא אֵינוֹ שׁוֹמֵעַ: דָּבָר שֶׁהוּא מִצְוָה. דְּרַבָּנָן, לַאֲתוֹיֵי תַּנְחוּמֵי אֲבֵלִים: וְדָבָר שֶׁהוּא עֲבֵרָה. לַאֲתוֹיֵי תַּעֲנִית צִבּוּר שֶׁאִסּוּרוֹ מִדִּבְרֵי סוֹפְרִים.

Bartenura acrescenta detalhes práticos: o vinho italiano é de qualidade superior e por isso puxa o bebedor a repetir o consumo — desde que bebido parcialmente diluído, no ponto exato do vício. Sobre a refeição de intercalação do mês, nota que ela normalmente admite apenas pão e legumes, e mesmo assim, se o filho acrescentou carne e vinho por conta própria, o contexto de mitzvá ainda o protege, pois não é o tipo de consumo que gera vício. Sobre o segundo dízimo em Jerusalém, explica que comer carne, gado, vinho e bebida forte ali é precisamente o modo prescrito dessa mitzvá — logo, também não conta. Quanto às carnes proibidas, liga a isenção ao mesmo versículo "não escuta a nossa voz": quem come contra a própria Torá não pode ser descrito como alguém que só desobedece à voz dos pais. E explica os dois exemplos finais: "algo que é mitzvá" inclui o consolo formal dos enlutados, decretado pelos sábios; "algo que é transgressão" inclui comer num dia de jejum público, cuja proibição também é de origem rabínica.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 70a, s.v. תרטימר; יין האיטלקי; בחבורת מצוה; אכל מעשר שני; ואע"פ שאין ראיה לדבר
תַּרְטֵימַר — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ לָהּ: יַיִן הָאִיטַלְקִי — טוֹב וּמְעֻלֶּה הוּא וּמַמְשִׁיךְ בָּתְרֵיהּ, אֲבָל בְּחַמְרָא אַחֲרִינָא אֵינוֹ חַיָּב בַּחֲצִי לֹג: בַּחֲבוּרַת מִצְוָה — בִּסְעֻדַּת מִצְוָה אָכַל לְטַרְטֵימַר זֶה, אֲפִלּוּ גְנָבוֹ מִשֶּׁל אָבִיו, וְכֵן אִם אֲכָלוֹ בְּמִנְיָן שֶׁהָיוּ נִקְבָּצִין לְעַבֵּר הַחֹדֶשׁ, גַּם שָׁם הָיוּ עוֹשִׂים סְעֻדּוֹת: אָכַל מַעֲשֵׂר שֵׁנִי — וְכֵן כֻּלָּם אַף עַל פִּי שֶׁגְּנָבוֹ מִשֶּׁל אָבִיו, פָּטוּר: וְאַף עַל פִּי שֶׁאֵין רְאָיָה לַדָּבָר — דִּלְמָא מַאֲכָל אַחֲרִינָא נַמִּי קְרָא לֵיהּ זוֹלֵל, וּמִיהוּ שְׁלֹמֹה אַהָא אַזְהֲרֵיהּ דְּמַמְשִׁיךְ טְפֵי: זֵכֶר לַדָּבָר — דִּבְבָשָׂר מִקְרֵי זוֹלֵל, וּבְיַיִן מִקְרֵי סוֹבֵא.

Rashi observa que a medida exata do tartemar é discutida na própria Guemará, e confirma que o vinho italiano é de qualidade superior — daí a exigência de apenas meio log, enquanto outro vinho comum não geraria responsabilidade nessa medida menor. Confirma também que o contexto de mitzvá protege o filho mesmo quando o dinheiro usado foi roubado do próprio pai — tanto na refeição comunitária ligada a uma mitzvá quanto na reunião para a intercalação do mês, ocasiões em que era costume realizar banquetes. E, sobre a base bíblica da exigência de carne e vinho especificamente, explica que o versículo de Devarim, por si só, não prova que "glutão" se refira à carne, pois a palavra poderia describir o exagero em qualquer alimento — mas Salomão, no versículo de Mishlei, ligou as duas expressões a esses dois itens específicos, o que basta como alusão: "glutão" associado à carne, "beberrão" associado ao vinho.