A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A mishná estabelece que a responsabilidade por entregar um filho a Molech exige a combinação de dois atos distintos — a entrega aos seus sacerdotes e a passagem pelo fogo — sendo que qualquer um deles isoladamente não gera responsabilidade capital.
O que dá de sua semente a Molech não é responsável até que o entregue a Molech e o faça passar pelo fogo. Se o entregou a Molech e não o fez passar pelo fogo, ou o fez passar pelo fogo e não o entregou a Molech, não é responsável, até que o entregue a Molech e o faça passar pelo fogo. — A mishná exige a conjunção precisa de dois elementos para configurar a transgressão punível: a entrega da criança aos sacerdotes encarregados desse culto, e a passagem pelo fogo propriamente dita. Qualquer um dos dois atos isolado — a entrega sem a passagem, ou a passagem sem a entrega prévia — não configura a transgressão descrita na Torá, e portanto não gera a pena de apedrejamento.
הַנּוֹתֵן מִזַּרְעוֹ לַמֹּלֶךְ, אֵינוֹ חַיָּב עַד שֶׁיִּמְסֹר לַמֹּלֶךְ וְיַעֲבִיר בָּאֵשׁ. מָסַר לַמֹּלֶךְ וְלֹא הֶעֱבִיר בָּאֵשׁ, הֶעֱבִיר בָּאֵשׁ וְלֹא מָסַר לַמֹּלֶךְ, אֵינוֹ חַיָּב, עַד שֶׁיִּמְסֹר לַמֹּלֶךְ וְיַעֲבִיר בָּאֵשׁ.
A mishná define, em seguida, dois tipos de adivinhação incluídos entre os apedrejados: o mestre de ov, que faz uma voz falar por sua axila, e o adivinho yidoni, que produz a voz por sua própria boca — distinguindo-os ainda de quem apenas os consulta.
O mestre de ov: este é o ventríloquo que fala por sua axila. E o yidoni: este é o que fala por sua própria boca. Eis que estes são apedrejados, e o que os consulta transgride uma proibição. — A mishná distingue tecnicamente as duas práticas: o mestre de ov produz sua voz de adivinhação por meio da axila, sem mover os lábios; o yidoni fala pela própria boca, mas de modo que a voz pareça vir de outra fonte que não ele mesmo. Ambos os praticantes são passíveis de apedrejamento; já a pessoa que meramente os procura, para obter uma resposta sobre o futuro, não incorre em pena capital, mas transgride uma proibição da Torá.
בַּעַל אוֹב זֶה פִתּוֹם הַמְדַבֵּר מִשֶּׁחְיוֹ, וְיִדְּעוֹנִי זֶה הַמְדַבֵּר בְּפִיו, הֲרֵי אֵלּוּ בִסְקִילָה, וְהַנִּשְׁאָל בָּהֶם בְּאַזְהָרָה:
Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת
Devarim 18:10–11
לֹא יִמָּצֵא בְךָ מַעֲבִיר בְּנוֹ וּבִתּוֹ בָּאֵשׁ, קֹסֵם קְסָמִים מְעוֹנֵן וּמְנַחֵשׁ וּמְכַשֵּׁף. וְחֹבֵר חָבֶר וְשֹׁאֵל אוֹב וְיִדְּעֹנִי וְדֹרֵשׁ אֶל הַמֵּתִים.
"Não se achará em ti quem faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, quem pratique adivinhações, quem faça presságios, quem faça encantamentos, quem seja feiticeiro; quem faça encantamento de encantador, quem consulte um ov ou um yidoni, quem procure os mortos."
Este versículo enumera lado a lado, como práticas proibidas, a passagem de filhos pelo fogo e a consulta a ov e yidoni — os dois temas tratados nesta mishná. A proibição de Vayikra 18:21, "de tua semente não darás para fazer passar a Molech", é a fonte específica da proibição relativa ao Molech.
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 7:7
הַנּוֹתֵן מִזַּרְעוֹ לַמֹּלֶךְ אֵינוֹ חַיָּב עַד שֶׁיִּמְסֹר כו׳: זוֹ הַהַעֲבָרָה אֵינָהּ שְׂרֵפָה, כְּמוֹ שֶׁחָשַׁב הֶהָמוֹן רַב לְמְאֹד, אֲבָל עִקָּרוֹ הוּא כְּשֶׁהָיוּ מַבְעִירִין אֵשׁ וְהָיוּ מְלַהֲטִין אוֹתוֹ לְשֵׁם אוֹתוֹ הַפֶּסֶל הַיָּדוּעַ שֶׁהָיוּ עוֹבְדִין אוֹתוֹ בְּכָךְ, וְהוּא הַנִּקְרָא מֹלֶךְ. וּמִתְּנָאֵי שֶׁיִּמְסֹר וְיַעֲבִיר מִקְצָת זַרְעוֹ, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר מִזַּרְעֲךָ וְלֹא כָּל זַרְעֲךָ. וּבַעַל אוֹב מְפֻרְסָם בִּלְשׁוֹן הַמִּקְרָא, מִין מִמִּינִים.
Rambam esclarece que a "passagem pelo fogo" associada a Molech não é uma queima literal do filho, como muitos supõem, mas um rito no qual se acendia fogo e a criança era feita passar rapidamente por ele — de um lado a outro — diante do ídolo, sem ser consumida. Nota também que a exigência bíblica é apenas de "tua semente", não de "toda a tua semente" — daí se aprender que basta parte da descendência, não sendo necessário oferecer todos os filhos. Sobre o mestre de ov, esclarece que é uma prática reconhecida na linguagem bíblica, distinta de outras formas de consulta aos mortos.
Bartenura · Sanhedrin 7:7
שֶׁיִּמְסֹר לַמֹּלֶךְ. מוֹסְרוֹ בְּיַד הַכְּמָרִים: וְיַעֲבִיר בָּאֵשׁ. מַעֲבִירוֹ מִצַּד זֶה לְצַד זֶה: אוֹב זֶה פִתּוֹם. לוֹקֵחַ גֻּלְגֹּלֶת שֶׁל מֵת לְאַחַר שֶׁנִּתְאַכֵּל הַבָּשָׂר, וּמַקְטִיר לָהּ וְשׁוֹאֵל מִמֶּנָּה עֲתִידוֹת וְהִיא מְשִׁיבָה: וְהַמְדַבֵּר מִשֶּׁחְיוֹ. וְיֵשׁ שֶׁעוֹשִׂים שֶׁיָּשִׁיב הַמֵּת דֶּרֶךְ בֵּית הַשֶּׁחִי: וְיִדְּעוֹנִי. חַיָּה שֶׁשְּׁמָהּ יַדּוּעַ, וְצוּרָתָהּ כְּצוּרַת אָדָם בְּפָנֶיהָ וְיָדֶיהָ וְרַגְלֶיהָ, וְהִיא מְחֻבֶּרֶת בְּטַבּוּרָהּ לְחֶבֶל הַיּוֹצֵא מִן הַשֹּׁרֶשׁ שֶׁנִּשְׁרַשׁ בָּאָרֶץ שֶׁמִּשָּׁם חִיּוּתָהּ: וְהַנִּשְׁאָל בָּהֶם. שֶׁבָּא וְשׁוֹאֵל בָּהֶם לְהַגִּיד לוֹ דְּבַר הֶעָתִיד: בְּאַזְהָרָה. דְּאַל תִּפְנוּ אֶל הָאֹבֹת.
Bartenura explica que "entregar a Molech" significa depositar a criança nas mãos dos sacerdotes desse culto, e "passar pelo fogo", conduzi-la de um lado ao outro das chamas. Sobre o ov, traz a explicação de que o praticante toma o crânio de um morto, já sem carne, queima incenso diante dele e pergunta sobre o futuro, recebendo uma resposta que parece vir dali — ou, alternativamente, faz a resposta parecer vir de sua própria axila. Sobre o yidoni, traz a tradição de um animal chamado "yadua", de forma quase humana, ligado por um cordão à raiz que o prende à terra, de onde recebe sua vitalidade. E confirma que consultar essas práticas, mesmo sem praticá-las, transgride a proibição de "não vos voltareis para os ovot".
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
Rashi · רש״י
Sanhedrin 64a–65a, s.v. מתני' שימסור למולך; ויעביר באש; פיתום; ידעוני המדבר בפיו; הרי אלו בסקילה; והנשאל בהם; באזהרה
מַתְנִי' שֶׁיִּמְסֹר לַמֹּלֶךְ — מוֹסְרוֹ בְּיַד מְשָׁרְתֵי עֲבוֹדָה זָרָה: וְיַעֲבִיר בָּאֵשׁ — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ הֵיכִי הֲווּ עָבְדֵי, וְיָלְפֵי מִקְּרָאֵי דְּתַרְוַיְהוּ בָּעֵינַן: פִּתּוֹם — שֵׁם הַמְכַשֵּׁף הַמְדַבֵּר מִשֶּׁחְיוֹ, מַעֲלֶה אֶת הַמֵּת מִן הָאָרֶץ וּמוֹשִׁיב לוֹ בְּשֶׁחְיוֹ תַּחַת זְרוֹעוֹתָיו וּמְדַבֵּר: יִדְּעוֹנִי הַמְדַבֵּר בְּפִיו — חַיָּה אַחַת יֵשׁ שֶׁשְּׁמָהּ יָדוּעַ, וּמַכְנִיס מִמֶּנָּה עֶצֶם לְתוֹךְ פִּיו, וְהָעֶצֶם מְדַבֵּר מֵאֵלָיו עַל יְדֵי כְּשָׁפִים: הֲרֵי אֵלּוּ בִסְקִילָה — כִּדְכְתִיב בָּאֶבֶן יִרְגְּמוּ אֹתָם: וְהַנִּשְׁאָל בָּהֶם — שֶׁבָּא וְשׁוֹאֵל בָּהֶם לְהַגִּיד לוֹ דְּבַר הֶעָתִיד: בְּאַזְהָרָה — דְּאַל תִּפְנוּ אֶל הָאֹבוֹת.
Rashi confirma que "entregar a Molech" é depositar a criança nas mãos dos servidores desse culto, e remete à Guemará para o detalhamento do rito e a demonstração, a partir dos versículos, de que ambos os elementos — entrega e passagem pelo fogo — são exigidos. Sobre os dois tipos de adivinhação, confirma a descrição técnica: o mestre de ov produz a voz do morto por sua própria axila; o yidoni introduz na boca um osso do animal chamado "yadua", que fala por meio de feitiçaria. Ambos são apedrejados, conforme o versículo que ordena apedrejá-los; e quem apenas os consulta transgride a proibição de não se voltar para os praticantes de ov.