Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Zayin · Mishná 6 de 11

As formas de culto que tornam a idolatria punível

הָעוֹבֵד עֲבוֹדָה זָרָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná define quais atos, dentro da categoria de "servir a ídolos", geram a responsabilidade capital, e quais outros — embora relacionados ao culto idólatra — constituem apenas transgressão de uma proibição.

O que serve a ídolos: tanto o que o adora, quanto o que lhe sacrifica, quanto o que lhe queima incenso, quanto o que lhe verte libação, quanto o que se prostra a ele, quanto o que o aceita sobre si como divindade, e o que lhe diz: "és meu deus". Mas o que o abraça, o que o beija, o que o varre, o que asperge diante dele, o que o lava, o que o unge, o que o veste e o que lhe calça sandálias transgride uma proibição.A mishná distingue quatro formas de serviço — sacrificar, queimar incenso, verter libação e prostrar-se — que, por si só, geram responsabilidade capital mesmo que não sejam o modo costumeiro de adoração daquele ídolo específico; a estas soma-se a aceitação verbal explícita do ídolo como divindade, mesmo sem qualquer ato. Já os demais gestos listados — abraçar, beijar, limpar, aspergir, lavar, ungir, vestir e calçar o ídolo — são atos de reverência que, por si sós, não configuram a idolatria punível com apedrejamento, mas ainda assim transgridem uma proibição da Torá, salvo quando praticados como a forma própria de culto daquele ídolo específico.

הָעוֹבֵד עֲבוֹדָה זָרָה, אֶחָד הָעוֹבֵד, וְאֶחָד הַזּוֹבֵחַ, וְאֶחָד הַמְקַטֵּר, וְאֶחָד הַמְנַסֵּךְ, וְאֶחָד הַמִּשְׁתַּחֲוֶה, וְאֶחָד הַמְקַבְּלוֹ עָלָיו לֶאֱלוֹהַּ, וְהָאוֹמֵר לוֹ אֵלִי אָתָּה. אֲבָל הַמְגַפֵּף וְהַמְנַשֵּׁק וְהַמְכַבֵּד וְהַמְּרַבֵּץ וְהַמַּרְחִיץ, הַסָּךְ, הַמַּלְבִּישׁ וְהַמַּנְעִיל, עוֹבֵר בְּלֹא תַעֲשֶׂה.
A mishná acrescenta o voto e o juramento em nome do ídolo, e fecha com dois cultos particulares — Baal-Peor e Merkulis — cuja forma de adoração é, precisamente, um gesto que em qualquer outro contexto seria degradante.

O que faz voto em seu nome, e o que confirma em seu nome, transgride uma proibição. O que se descobre diante de Baal-Peor — esta é sua forma de culto. O que lança uma pedra a Merkulis — esta é sua forma de culto.Fazer um voto ou confirmar um juramento invocando o nome de um ídolo transgride uma proibição, ainda que não gere responsabilidade capital. Os dois casos finais ilustram um princípio já estabelecido: um ato só se conta como culto idólatra pleno, gerando a pena de apedrejamento, quando corresponde ao modo próprio de adoração daquele ídolo específico — mesmo que esse modo seja, em si, um gesto degradante e sem qualquer aparência de reverência, como o ato indecoroso associado a Baal-Peor, ou o lançamento de pedras associado a Merkulis.

הַנּוֹדֵר בִּשְׁמוֹ וְהַמְקַיֵּם בִּשְׁמוֹ, עוֹבֵר בְּלֹא תַעֲשֶׂה. הַפּוֹעֵר עַצְמוֹ לְבַעַל פְּעוֹר, זוֹ הִיא עֲבוֹדָתוֹ. הַזּוֹרֵק אֶבֶן לְמַרְקוּלִיס, זוֹ הִיא עֲבוֹדָתוֹ:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 7:6
הָעוֹבֵד עֲבוֹדַת אֱלִילִים אֶחָד הָעוֹבֵד וְאֶחָד כו׳: אַרְבָּעָה מִינִין מִן הָעֲבוֹדוֹת — זְבִיחָה, קִטּוּר, נִסּוּךְ וְהִשְׁתַּחֲוָאָה — כְּשֶׁעָבַד אוֹתָם בְּאַחַת מֵהֶן חַיָּב, וַאֲפִלּוּ לֹא עֲבָדָהּ כְּמוֹ שֶׁהוּא דַּרְכָּהּ. וּשְׁאָר הָעֲבוֹדוֹת אֵינוֹ חַיָּב עַד שֶׁיַּעַבְדֵם כְּמוֹ שֶׁדַּרְכָּם לְעָבְדָם, כְּגוֹן פּוֹעֵר עַצְמוֹ לְפָעוֹר וְזוֹרֵק אֶבֶן לְמַרְקוּלִיס. וְדַע כִּי עוֹבֵד עֲבוֹדָה זָרָה מֵאַהֲבָה אוֹ מִיִּרְאָה פָּטוּר, וְאִם קִבְּלָהּ עָלָיו בֶּאֱלוֹהַּ חַיָּב.

Rambam identifica sacrificar, queimar incenso, verter libação e prostrar-se como quatro modos de serviço que, sozinhos, sempre geram responsabilidade — mesmo que não sejam a forma costumeira daquele ídolo em particular — ao passo que as demais formas de reverência só geram responsabilidade quando correspondem ao modo próprio daquele ídolo específico. E acrescenta uma distinção importante: quem serve a um ídolo por medo ou para agradar a alguém, sem de fato aceitá-lo como divindade, está isento; a responsabilidade plena exige a aceitação do ídolo como deus.

Bartenura · Sanhedrin 7:6
אֶחָד הָעוֹבֵד. עֲבוֹדָה זָרָה בְּדָבָר שֶׁדֶּרֶךְ עֲבוֹדָתוֹ בְכָךְ: וְאֶחָד הַזּוֹבֵחַ כוּ׳. וְאַף עַל פִּי שֶׁאֵין דֶּרֶךְ עֲבוֹדָתָהּ בְּאַחַת מֵאַרְבַּע עֲבוֹדוֹת הַלָּלוּ, חַיָּב. וְכָל שְׁאָר עֲבוֹדוֹת חוּץ מֵאֵלּוּ אֵינוֹ חַיָּב עַד שֶׁיַּעֲבֹד כְּדֶרֶךְ עֲבוֹדָתָהּ: וְהַמְקַבְּלוֹ עָלָיו לֶאֱלוֹהַּ. אֲפִלּוּ בַאֲמִירָה בְעָלְמָא: הַמְגַפֵּף. מְחַבֵּק: עוֹבֵר בְּלֹא תַעֲשֶׂה. לֹא תָעָבְדֵם יְתֵרָה כְתִיב: הַפּוֹעֵר עַצְמוֹ. מַתְרִיז רְעִי לְפָנָיו: וְהַזּוֹרֵק אֶבֶן לְמַרְקוּלִיס. שֶׁעוֹבְדִים אוֹתוֹ בִּזְרִיקַת אֲבָנִים, וְהַמְסַלֵּק אֶבֶן מִלְּפָנָיו נַמִּי חַיָּב, שֶׁעוֹבְדִים אוֹתוֹ נַמִּי בְּסִלּוּק אֲבָנִים.

Bartenura confirma que os quatro modos de serviço mencionados geram responsabilidade mesmo quando não correspondem ao costume daquele ídolo, ao contrário de todas as outras formas de reverência, que exigem correspondência com o modo próprio. Nota que "aceitá-lo como divindade" se cumpre mesmo por uma simples declaração verbal, sem qualquer ato. Identifica "abraçar" como envolver com os braços, e explica que a proibição de servir ídolos por gestos menores decorre de uma repetição textual do versículo "não os servireis". Explica os dois cultos particulares: o de Baal-Peor consiste em um ato de exposição indecorosa diante do ídolo, e o de Merkulis, no lançamento de pedras — notando que também remover uma pedra de diante do ídolo é, pelo mesmo motivo, considerado um ato de culto pleno, já que este ídolo é servido tanto pelo lançamento quanto pela remoção de pedras.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 60b, s.v. מתני' אחד העובד; אחד המזבח ואחד המקטר וכו'; המגפף; מרקוליס
מַתְנִי' אֶחָד הָעוֹבֵד — מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא: אֶחָד הַזּוֹבֵחַ וְאֶחָד הַמְקַטֵּר וְכוּ׳ — וּבַגְּמָרָא מוֹקִים לָהּ לְכֻלָּהּ מַתְנִיתִין בְּשֶׁאֵין דַּרְכָּהּ שֶׁל אוֹתָהּ עֲבוֹדַת כּוֹכָבִים לְעָבְדָהּ בְּכָךְ, וְאַפִּלּוּ הָכִי אַהָנָךְ עֲבוֹדוֹת מִיחַיֵּב, כִּדְיָלֵיף לָהּ בְּבָרַיְתָא: הַמְגַפֵּף — שֶׁלֹּא כְּדַרְכָּהּ: מַרְקוּלִיס — מְצַדְּדִין שָׁלֹשׁ אֲבָנִים, אַחַת מִכָּאן וְאַחַת מִכָּאן וְאַחַת מִלְמַעְלָה עַל גַּבֵּיהֶן, וְקוֹרִין אוֹתָם מַרְקוּלִיס, וְעוֹבְדִין אוֹתָהּ בִּזְרִיקַת אֲבָנִים.

Rashi confirma que a Guemará estabelece toda a mishná no caso de um ídolo cuja forma própria de culto não é nenhuma das quatro mencionadas — ainda assim, essas quatro geram responsabilidade, como se aprende de uma beraita. Descreve fisicamente o Merkulis: três pedras dispostas em pé, uma de cada lado e uma sobre as duas, formando o ídolo que era adorado especificamente pelo lançamento de pedras.