O rei não julga, e não o julgam; não testemunha, e não testemunham a seu respeito; não faz chalitzá, e não fazem chalitzá com sua esposa; não faz ibum, e não fazem ibum com sua esposa. — Ao contrário do Sumo Sacerdote, que participa normalmente da vida judicial e testemunhal, o rei está inteiramente afastado dela: nem senta em tribunal para julgar, nem pode ser levado a julgamento; nem presta testemunho, nem pode ser objeto de testemunho perante o tribunal; e as leis de cunhado — chalitzá e ibum — simplesmente não se aplicam a ele, em nenhuma direção, por não condizerem com a honra da realeza.
Rabi Yehudá diz: se quis fazer chalitzá ou ibum, é lembrado para o bem. Disseram-lhe: não o ouvem. E não desposam sua viúva. Rabi Yehudá diz: um rei desposa a viúva de um rei, pois assim encontramos que David desposou a viúva de Saul, como está dito: "e te dei a casa de teu senhor e as mulheres de teu senhor em teu seio" (Shmuel II 12:8). — Rabi Yehudá entende que a exclusão do rei da chalitzá e do ibum não é uma proibição, mas um privilégio dispensável: se ele mesmo desejar exercê-lo, em benefício da viúva de seu irmão, é elogiado por isso. Os Sábios rejeitam essa posição — mesmo que o próprio rei renuncie à sua honra ao propor a chalitzá, a corte não aceita, pois a honra da realeza não é dele para renunciar. Quanto à viúva de um rei, ninguém mais pode desposá-la por respeito à coroa — mas Rabi Yehudá permite que outro rei o faça, citando o precedente de David, que desposou as esposas de Saul após sua morte.
A mishná apoia a posição de Rabi Yehudá no versículo em que o profeta Natan relembra a David que D'us lhe deu as esposas de seu antecessor Saul. A Guemará acrescenta o versículo de Yirmiyahu que prova que os reis da Casa de David, ao contrário dos reis de Israel em geral, de fato julgam e são julgados.
Rambam explica por que a restrição vale apenas para os reis de Israel em geral e não para a Casa de David, e por que a halachá segue os Sábios contra Rabi Yehudá quanto à chalitzá. Bartenura confirma os mesmos pontos e acrescenta o motivo da honra régia.
Rambam explica que a exclusão do julgamento vale apenas para os reis de Israel em geral, que eram transgressores em seu reinado, não valorizavam a humildade e não se submetiam às palavras da Torá. Já os reis da Casa de David julgam e são julgados normalmente, pois conheciam a Torá e não viam mal na humildade e na submissão a seus preceitos — sendo seu reinado fundado sobre a Torá, isso em nada diminuía sua dignidade; e o próprio David fazia parte do Sinédrio Grande. A halachá segue Rabi Yehudá quanto ao rei desposar a viúva de outro rei; mas quanto à chalitzá e ao ibum, não se ouve o rei mesmo que ele deseje realizá-los, pois isso seria uma vergonha para ele — a viúva cuspiria diante dele — e onde não há chalitzá, não há ibum. E um princípio fundamental: um rei que renuncia à sua própria honra, sua honra não fica renunciada; por isso não se ouve seu desejo.
Bartenura confirma que a exclusão do julgamento vale especificamente para os reis de Israel, que não se submetiam à palavra dos Sábios; já um rei da Casa de David julga e é julgado, conforme o versículo de Yirmiyahu. Explica também por que não se ouve o rei quanto à chalitzá: mesmo que ele renuncie à sua honra, essa honra não fica renunciada — seria uma desonra para ele que a viúva cuspisse diante dele no ato da chalitzá, e como ela não é apta à chalitzá, também não é apta ao ibum. E confirma que a halachá segue Rabi Yehudá quanto ao rei poder desposar a viúva de outro rei.
Rashi, sobre a Guemará de Sanhedrin 19a-19b, narra o episódio do rei Yanai perante o tribunal de Shimon ben Shatach — a base histórica da exclusão dos reis de Israel — e explica por que a chalitzá seria uma desonra para a viúva do rei.
Rashi conta o pano de fundo desta lei: quando o rei Yanai compareceu perante o tribunal de Shimon ben Shatach para ser julgado pelo assassinato cometido por seu servo, os juízes disseram entre si "voltai vossos olhos para ele" — isto é, julgai-o com integridade, sem bajulação nem favoritismo. E "que testemunhem a teu respeito" refere-se ao fato de que seu próprio servo matou alguém — e como o servo de um homem é equiparado ao seu jumento, tratando-se de perda patrimonial, é preciso que o próprio dono seja julgado em sua presença. Sobre a proibição da chalitzá e do ibum: elas não se aplicam à esposa do rei porque, sendo viúva, ela fica proibida de casar-se com qualquer outro que não seja outro rei — e a chalitzá seria uma desonra para o próprio rei falecido, que a viúva cuspisse diante do tribunal em seu nome, assim como o ibum seria uma desonra, erguer descendência em nome do irmão de um rei. E "as que lhe são aptas" significa: as mulheres permitidas a um rei em geral — mas não as próprias esposas de Saul, que só a David foram permitidas.