Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Bet · Mishná 3 de 5

O luto do rei — Rabi Yehudá e o precedente de David e Avner

מֵת לוֹ מֵת, אֵינוֹ יוֹצֵא מִפֶּתַח פַּלְטְרִין שֶׁלּוֹ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A terceira mishná continua as leis de luto, agora do lado do rei: pelos Sábios, ele não sai sequer do palácio para acompanhar o cortejo de um parente falecido; Rabi Yehudá discorda, apoiando-se no próprio David, que seguiu o leito de Avner, e os Sábios respondem que aquilo foi um caso excepcional, para aplacar as suspeitas do povo. A mishná fecha com o assento distinto do rei — o dargash — quando ele próprio é consolado.

Se lhe morre um morto, não sai da entrada de seu palácio. Rabi Yehudá diz: se quis seguir o leito, segue, pois assim encontramos a respeito de David, que seguiu o leito de Avner, como está dito: "e o rei David seguiu o leito" (Shmuel II 3:31). Disseram-lhe: a coisa não foi senão para aplacar o povo.Segundo os Sábios, não convém à dignidade do rei acompanhar um cortejo fúnebre, mesmo de um parente próximo — ele permanece dentro de seu palácio. Rabi Yehudá contesta com o precedente explícito de David, que pessoalmente seguiu o leito de Avner, seu general assassinado. Os Sábios respondem que aquele gesto de David não estabelece uma regra geral: foi uma medida excepcional e pontual, destinada a convencer o povo de que a morte de Avner não havia sido ordenada por ele mesmo.

E quando o consolam, todo o povo se reclina sobre o chão, e ele se reclina sobre o dargash.Assim como no caso do Sumo Sacerdote, quando o rei é consolado por ocasião de um luto, o povo se assenta no chão em sinal de partilha do pesar, mas o próprio rei se reclina sobre um assento distinto e mais honroso — o dargash — reservado normalmente como peça decorativa da casa, e usado nessa ocasião especial.

מֵת לוֹ מֵת, אֵינוֹ יוֹצֵא מִפֶּתַח פַּלְטְרִין שֶׁלּוֹ. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, אִם רוֹצֶה לָצֵאת אַחַר הַמִּטָּה, יוֹצֵא, שֶׁכֵּן מָצִינוּ בְדָוִד שֶׁיָּצָא אַחַר מִטָּתוֹ שֶׁל אַבְנֵר, שֶׁנֶּאֱמַר (שם ג) וְהַמֶּלֶךְ דָּוִד הֹלֵךְ אַחֲרֵי הַמִּטָּה. אָמְרוּ לוֹ, לֹא הָיָה הַדָּבָר אֶלָּא לְפַיֵּס אֶת הָעָם. וּכְשֶׁמְּנַחֲמִין אוֹתוֹ, כָּל הָעָם מְסֻבִּין עַל הָאָרֶץ וְהוּא מֵסֵב עַל הַדַּרְגָּשׁ:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Rabi Yehudá apoia sua posição no relato explícito de Shmuel II sobre David seguindo pessoalmente o leito fúnebre de Avner ben Ner, seu general, assassinado por Yoav.

Shmuel II 3:31
וַיֹּאמֶר דָּוִד אֶל יוֹאָב וְאֶל כָּל הָעָם אֲשֶׁר אִתּוֹ, קִרְעוּ בִגְדֵיכֶם וְחִגְרוּ שַׂקִּים וְסִפְדוּ לִפְנֵי אַבְנֵר, וְהַמֶּלֶךְ דָּוִד הֹלֵךְ אַחֲרֵי הַמִּטָּה.
"E disse David a Yoav e a todo o povo que estava com ele: rasgai vossas vestes, cingi sacos e lamentai diante de Avner. E o rei David ia atrás do leito."
A Guemará (Sanhedrin 20a) narra o pano de fundo: o povo suspeitava que a morte de Avner às mãos de Yoav houvesse sido tramada pelo próprio David, e por isso o gesto de acompanhar pessoalmente o leito — algo que, segundo os Sábios, não condiz normalmente com a dignidade real — foi uma medida excepcional para desfazer essa suspeita e provar publicamente sua inocência.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam identifica o palácio real e o dargash, e confirma que a halachá segue os Sábios contra Rabi Yehudá. Bartenura explica por que seria uma desonra ao rei mostrar-se enlutado diante do povo.

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 2:3
מֵת לוֹ מֵת אֵינוֹ יוֹצֵא מִפֶּתַח פַּלְטְרִין שֶׁלּוֹ כו': פַּלְטְרִין שֶׁלּוֹ הוּא אַרְמוֹנוֹ. לְפַיְּסוֹ — לְדַבֵּר עַל לֵב הָעָם וּלְהוֹדִיעָם כִּי לֹא הָיְתָה כַּוָּנָתוֹ לְהָרְגוֹ. וְדַרְגָּשׁ הוּא מִמִּינֵי הַכִּסְאוֹת וְהַמִּטּוֹת וְהוּא גָּדוֹל מִסַּפְסָל, וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה.

Rambam identifica o "palterin" como o palácio real. Explica que "aplacá-lo" significa falar ao coração do povo e dar-lhes a conhecer que sua intenção não havia sido matar Avner. E define o "dargash" como um tipo de assento ou leito, maior e mais honroso que o "safsal" (o banco simples do Sumo Sacerdote) — e conclui que a halachá não segue Rabi Yehudá, mas sim os Sábios, que restringem o rei ao palácio mesmo no luto.

Bartenura · Sanhedrin 2:3
אֵינוֹ יוֹצֵא מִפֶּתַח פַּלְטְרִין שֶׁלּוֹ. שֶׁגְּנַאי הוּא לַמֶּלֶךְ לְהַרְאוֹת עָגְמַת נֶפֶשׁ לִפְנֵי הָעָם. לְפַיֵּס אֶת הָעָם. כְּדֵי שֶׁיַּכִּירוּ שֶׁלֹּא בַעֲצַת דָּוִד הָרַג יוֹאָב אֶת אַבְנֵר. וְאֵין הֲלָכָה כְּרַבִּי יְהוּדָה. דַּרְגָּשׁ. מִטָּה.

Bartenura explica que a razão pela qual o rei não sai do palácio, segundo os Sábios, é que seria desonroso ao rei mostrar sinais de angústia e luto diante do povo. Sobre o precedente de David, esclarece que o propósito daquele gesto foi apenas fazer o povo reconhecer que Avner não havia sido morto por conselho de David — não estabelecendo, portanto, uma regra geral. E confirma que a halachá não segue Rabi Yehudá. Define o "dargash" simplesmente como um tipo de leito.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, sobre a Guemará de Sanhedrin 20a, detalha as duas fases da reação do povo à morte de Avner, e explica o costume, a origem e o material do dargash.

Rashi · רש״י
Sanhedrin 20a, s.v. בתחילה להכרותו, ולבסוף להברותו; דרגש ערסא דגדא
בַּתְּחִלָּה לְהַכְרוֹתוֹ — שֶׁהָיוּ סְבוּרִין שֶׁמֵּאִתּוֹ הָיְתָה הֲרִיגַת אַבְנֵר. וּלְבַסּוֹף לְהַבְרוֹתוֹ — שֶׁיָּדְעוּ הַבֵּרוּר שֶׁלֹּא מֵאֵת דָּוִד נֶהֱרַג אַבְנֵר. דַּרְגָּשׁ עַרְסָא דְגַדָּא — נוֹהֲגִין הָיוּ לַעֲרֹךְ מִטָּה וְשֻׁלְחָן בַּבַּיִת, וְלֹא הָיוּ מִשְׁתַּמְּשִׁין בָּהֶן כְּלָל, אֶלָּא לְמַזָּל הַבַּיִת מֻנַּחַת, מִשּׁוּם נִחוּשׁ גָּדָא — מַזָּל, וְדוֹמֶה גָּד גָּדִי.

Rashi explica a expressão da Guemará sobre a reação do povo em duas fases: no início, o povo se reunia para "condená-lo" — pois suspeitavam que a morte de Avner tivesse partido do próprio David — e ao final, para "consolá-lo" — quando ficou claro que Avner não fora morto por ordem de David. É precisamente por essa suspeita inicial que o gesto de acompanhar o leito se fez necessário, como explicam os Sábios na mishná. Sobre o dargash, Rashi conta seu costume: era hábito das casas manter um leito e uma mesa especiais, que não eram usados normalmente, mas ficavam dispostos apenas como sinal de sorte e prosperidade da casa — associados ao nome "Gad", a divindade pagã da sorte. Esse mesmo móvel, normalmente ocioso, era o assento sobre o qual o rei se reclinava quando consolado — precisamente por não ter sido usado antes, tornando-se apropriado a essa ocasião solene.