Seder Nezikin · Massechet Sanhedrin · Perek Yud · Mishná 6 de 6 — encerrando o perek

Um monte de ruínas para sempre

וְהָיְתָה תֵּל עוֹלָם לֹא תִבָּנֶה עוֹד
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A partir do versículo que ordena reunir o despojo na praça da cidade, a mishná ensina que, se a cidade não tem praça, é preciso criar uma; e que os objetos consagrados que nela havia devem ser resgatados, não queimados.

"E todo o seu despojo reunirás no meio de sua praça" — se ela não tem praça, fazem-se-lhe uma praça. Se sua praça estava fora dela, recolhem-na para dentro. "E queimarás com fogo a cidade e todo o seu despojo, por inteiro, para o Senhor teu Deus" — "seu despojo", e não o despojo do Céu. Daqui disseram: os objetos consagrados que nela havia devem ser resgatados, e as terumot devem apodrecer, e o segundo dízimo e os escritos sagrados devem ser guardados.A ordem de reunir o despojo na praça exige a existência prévia de uma praça — condição que a mishná ensina dever ser criada, se ausente, para que o preceito possa se cumprir literalmente. A expressão "seu despojo" é lida com precisão exclusiva: apenas o que pertencia aos moradores da cidade é destruído pelo fogo; o que já pertencia ao Céu — objetos consagrados ao Templo, terumot, segundo dízimo, textos sagrados — segue seu próprio regime, incompatível com a destruição total.

וְאֶת כָּל שְׁלָלָהּ תִּקְבֹּץ אֶל תּוֹךְ רְחֹבָהּ. אִם אֵין לָהּ רְחוֹב, עוֹשִׂין לָהּ רְחוֹב. הָיָה רְחוֹבָהּ חוּצָה לָהּ, כּוֹנְסִין אוֹתוֹ לְתוֹכָהּ. וְשָׂרַפְתָּ בָאֵשׁ אֶת הָעִיר וְאֶת כָּל שְׁלָלָהּ כָּלִיל לַה' אֱלֹהֶיךָ. שְׁלָלָהּ, וְלֹא שְׁלַל שָׁמָיִם. מִכָּאן אָמְרוּ, הַהֶקְדֵּשׁוֹת שֶׁבָּהּ יִפָּדוּ, וּתְרוּמוֹת יֵרָקְבוּ, מַעֲשֵׂר שֵׁנִי וְכִתְבֵי הַקֹּדֶשׁ יִגָּנֵזוּ.
Rabi Shimon ensina que destruir a cidade desviada é contado, diante do Céu, como oferecer um sacrifício totalmente consumido; e sobre "não será mais reconstruída", há controvérsia entre Rabi Yossei HaGelili, que a proíbe até como pomares, e Rabi Akiva, que a permite como pomares.

"Por inteiro, para o Senhor teu Deus" — disse Rabi Shimon: disse o Santo, bendito seja: se vós executais o julgamento na cidade desviada, Eu vos considero como se estivésseis oferecendo diante de Mim uma oferenda totalmente consumida. "E será um monte de ruínas para sempre; não será mais reconstruída" — não se fará nem sequer jardins e pomares — palavras de Rabi Yossei HaGelili. Rabi Akiva diz: "não será mais reconstruída" — como era, não será reconstruída, mas se fará dela jardins e pomares.Rabi Shimon eleva o ato de julgar e destruir a cidade desviada — por mais violento que pareça — à categoria de um serviço diante de Deus, comparável ao sacrifício mais completo do culto do Templo. A controvérsia final trata da extensão da proibição de reconstruir: Rabi Yossei HaGelili a lê de modo absoluto, proibindo qualquer uso agrícola do terreno; Rabi Akiva a restringe apenas à reconstrução da cidade como habitação, permitindo que o terreno seja convertido em jardins e pomares.

כָּלִיל לַה' אֱלֹהֶיךָ, אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן, אָמַר הַקָּדוֹשׁ בָּרוּךְ הוּא, אִם אַתֶּם עוֹשִׂים דִּין בְּעִיר הַנִּדַּחַת, מַעֲלֶה אֲנִי עֲלֵיכֶם כְּאִלּוּ אַתֶּם מַעֲלִין עוֹלָה כָלִיל לְפָנָי. וְהָיְתָה תֵּל עוֹלָם לֹא תִבָּנֶה עוֹד, לֹא תֵעָשֶׂה אֲפִלּוּ גַנּוֹת וּפַרְדֵּסִים, דִּבְרֵי רַבִּי יוֹסֵי הַגְּלִילִי. רַבִּי עֲקִיבָא אוֹמֵר, לֹא תִבָּנֶה עוֹד, לִכְמוֹ שֶׁהָיְתָה אֵינָהּ נִבְנֵית, אֲבָל נַעֲשֵׂית הִיא גַּנּוֹת וּפַרְדֵּסִים.
Encerrando o perek, a mishná ensina que a advertência de que nada do que é destinado à destruição deve permanecer nas mãos revela um princípio maior: enquanto houver ímpios no mundo, há ira no mundo; quando eles desaparecem, a ira se retira.

"E não se apegará à tua mão nada do que é destinado à destruição" — pois enquanto os ímpios estiverem no mundo, há ira no mundo; desaparecendo os ímpios do mundo, a ira se retira do mundo.Fecha-se o perek com um ensinamento que amplia o sentido de toda a passagem: a advertência de que nada do despojo condenado deve permanecer em posse de ninguém — ordenança prática, dirigida a evitar que se lucre com a destruição — é lida como figura de algo mais amplo: a própria presença dos ímpios no mundo é fonte permanente de ira Divina; sua eliminação, e não sua mera punição pontual, é o que traz alívio ao mundo.

וְלֹא יִדְבַּק בְּיָדְךָ מְאוּמָה מִן הַחֵרֶם, שֶׁכָּל זְמַן שֶׁהָרְשָׁעִים בָּעוֹלָם, חֲרוֹן אַף בָּעוֹלָם. אָבְדוּ רְשָׁעִים מִן הָעוֹלָם, נִסְתַּלֵּק חֲרוֹן אַף מִן הָעוֹלָם.

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Devarim 13:17
וְאֶת כָּל שְׁלָלָהּ תִּקְבֹּץ אֶל תּוֹךְ רְחֹבָהּ וְשָׂרַפְתָּ בָאֵשׁ אֶת הָעִיר וְאֶת כָּל שְׁלָלָהּ כָּלִיל לַה' אֱלֹהֶיךָ, וְהָיְתָה תֵּל עוֹלָם לֹא תִבָּנֶה עוֹד.
"E todo o seu despojo reunirás no meio de sua praça, e queimarás com fogo a cidade e todo o seu despojo, por inteiro, para o Senhor teu Deus; e será um monte de ruínas para sempre, não será mais reconstruída."
Devarim 13:18
וְלֹא יִדְבַּק בְּיָדְךָ מְאוּמָה מִן הַחֵרֶם.
"E não se apegará à tua mão nada do que é destinado à destruição."
A mishná percorre, versículo por versículo, toda a passagem final de Devarim 13 sobre a cidade desviada, extraindo de cada expressão — "sua praça", "seu despojo", "por inteiro", "não será mais reconstruída", "não se apegará à tua mão" — uma lei específica, até concluir com o princípio geral sobre a presença dos ímpios no mundo, encerrando não apenas a mishná, mas todo o Perek Yud.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 10:6
שנאמר ואת כל שללה תקבץ אל תוך רחבה כו': תרומות ירקבו אם הגיעו ליד הכהן, זכה בהן לפי שחשבו ממונו. אבל כשהן ביד ישראל, תנתן לכהן מדינה אחרת, לפי שהם של שמים. והלכה כרבי עקיבא.

Rambam precisa uma distinção prática sobre as terumot mencionadas na mishná: se já haviam chegado às mãos do sacerdote antes da destruição, ele as adquiriu como seu próprio patrimônio, e por isso apodrecem junto com o restante — pois já eram, tecnicamente, bens seus. Mas se ainda estavam em mãos de um israelita comum, sendo patrimônio do Céu, devem ser entregues a um sacerdote de outra cidade, e não são destruídas. Rambam conclui, por fim, que a halachá segue Rabi Akiva quanto à controvérsia final da mishná — permitindo que o terreno da cidade desviada seja convertido em jardins e pomares.

Bartenura · Sanhedrin 10:6
הָיָה רְחוֹבָהּ חוּצָה לָהּ. אִם מְקוֹם קִבּוּץ בְּנֵי הָעִיר הָיָה חוּצָה לָהּ, כּוֹנְסִים אוֹתָהּ לְתוֹךְ הָעִיר, שֶׁצָּרִיךְ לַעֲשׂוֹת לָהּ רְחוֹב בְּתוֹכָהּ: הֶקְדֵּשׁוֹת שֶׁבְּתוֹכָהּ יִפָּדוּ. כְּלוֹמַר אֵין נִשְׂרָפִים, אֶלָּא צְרִיכִים פְּדִיָּה כִּשְׁאָר כָּל הַהֶקְדֵּשׁוֹת: וּתְרוּמוֹת יֵרָקְבוּ. בַּגְּמָרָא מוֹקְמִינַן לַהּ בִּתְרוּמָה בְיַד כֹּהֵן, דְּמָמוֹן כֹּהֵן הוּא וְחָל עֲלֵיהּ אִסּוּר דְּעִיר הַנִּדַּחַת. וּמִיהוּ לֹא הָיוּ הַתְּרוּמוֹת נִשְׂרָפִים כִּשְׁאָר שְׁלָלָהּ, דְּלֹא מְזַלְזְלִינַן בָּהּ כֻּלֵּי הַאי, לְפִיכָךְ יֵרָקְבוּ: וּמַעֲשֵׂר שֵׁנִי. אַף עַל גַּב דְּמָמוֹן יִשְׂרָאֵל הוּא, הוֹאִיל וְקֹדֶשׁ אִקְּרֵי, לֹא יִשָּׂרֵף אֶלָּא יִגָּנֵז: לֹא תֵעָשֶׂה גַנּוֹת וּפַרְדֵּסִים. דְעוֹד, לְגַמְרֵי מַשְׁמַע: אֲבָל נַעֲשֵׂית הִיא גַּנּוֹת וּפַרְדֵּסִים. וַהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא.

Bartenura esclarece que, se o lugar de reunião dos habitantes ficava fora da cidade, é preciso recolhê-lo para dentro, pois a lei exige que a praça esteja no interior da própria cidade. Precisa que os objetos consagrados encontrados na cidade não são queimados, mas resgatados como qualquer outro objeto consagrado. Sobre as terumot, remete à Guemará a distinção entre as que já estavam em mãos do sacerdote — patrimônio dele, sujeito à proibição da cidade desviada, mas poupado da queima por respeito à sua santidade, devendo apodrecer — e explica que o segundo dízimo, embora pertença ao israelita, por ser chamado "consagrado" não é queimado, mas guardado. Por fim, confirma que a halachá segue Rabi Akiva: a cidade não pode ser reconstruída como habitação, mas pode se tornar jardins e pomares.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi · רש״י
Sanhedrin 111b, s.v. ואת כל שללה תקבץ אל תוך רחובה; היה רחובה חוצה לה; את העיר ואת כל שללה ולא שלל שמים; ה"ג כליל לה' אלהיך; לא תעשה גנות ופרדסין
וְאֶת כָּל שְׁלָלָהּ תִּקְבֹּץ אֶל תּוֹךְ רְחֹבָהּ, אֵין לָהּ רְחוֹב עוֹשִׂין לָהּ רְחוֹב — וּרְחוֹבָהּ דְּהַשְׁתָּא נַמִּי מַשְׁמַע: הָיָה רְחוֹבָהּ חוּצָה לָהּ — שֶׁמְּקוֹם קִבּוּץ בְּנֵי הָעִיר הָיָה חוּץ לָעִיר, כּוֹנְסִין אוֹתָהּ לָעִיר, שֶׁצָּרִיךְ לַעֲשׂוֹת לָהּ רְחוֹב בְּתוֹכָהּ, רְחוֹב סַרְטִיָּא גְדוֹלָה: אֶת הָעִיר וְאֶת כָּל שְׁלָלָהּ, וְלֹא שְׁלַל שָׁמַיִם — דִּשְׁלַל שָׁמַיִם פָּלֵט: מִכָּאן אָמְרוּ הֶקְדֵּשׁוֹת שֶׁבְּתוֹכָהּ יִפָּדוּ — כְּלוֹמַר אֵין נִשְׂרָפִין, אֶלָּא הֲרֵי הֵם כִּשְׁאָר הֶקְדֵּשׁ שֶׁצָּרִיךְ פְּדִיָּה, כָּל שֶׁכֵּן דִּשְׁלַל שָׁמַיִם הֵם: וּתְרוּמוֹת יֵרָקְבוּ — וּבַגְּמָרָא מוֹקְמִינַן לַהּ בִּתְרוּמָה בְּיַד כֹּהֵן, דְּמָמוֹן כֹּהֵן הוּא וְחָל עָלֶיהָ אִסּוּר דְּעִיר הַנִּדַּחַת: מַעֲשֵׂר שֵׁנִי — אַף עַל פִּי שֶׁהוּא נֶאֱכָל לְיִשְׂרָאֵל, הוֹאִיל וְקֹדֶשׁ אִיקְּרֵי, לֹא יִשָּׂרֵף אֶלָּא יִגָּנְזוּ וְכֵן כִּתְבֵי הַקֹּדֶשׁ יִגָּנְזוּ: הַ"ג כָּלִיל לַה' אֱלֹהֶיךָ, אָמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן כוּ' — כְּאִלּוּ אַתָּה מַעֲלֶה עוֹלָה שֶׁהוּא כָּלִיל לְפָנָי: לֹא תֵעָשֶׂה גַנּוֹת וּפַרְדֵּסִין וְכוּ' — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ בְּמַאי פְּלִיגִי: לִכְמוֹ שֶׁהָיְתָה — בְּיִשּׁוּב בָּתִּים.

Rashi acompanha, também nesta mishná final do perek, cada exegese: precisa que "sua praça" abrange tanto a praça atual da cidade quanto a que precisa ser criada, e que, se a praça se localizava fora da cidade, deve ser recolhida para dentro dos muros — como uma grande via pública. Confirma que "seu despojo" exclui explicitamente o despojo do Céu, que é poupado, e que os objetos consagrados encontrados na cidade não são queimados, mas resgatados como qualquer consagração comum. Registra o ensinamento de Rabi Shimon, segundo o qual destruir a cidade desviada é contado, diante de Deus, como oferecer uma oferenda totalmente consumida no altar. E remete à Guemará a discussão detalhada sobre o ponto exato da controvérsia entre Rabi Yossei HaGelili e Rabi Akiva quanto à reconstrução do terreno como jardins e pomares.