A Mishná · הַמִּשְׁנָה
A partir do versículo que ordena ferir os moradores da cidade a fio de espada, a mishná ensina que a caravana de burros e camelos que atravessa a cidade pode, por sua presença, salvá-la da condenação coletiva.
"Ferirás, sim, ferirás os moradores daquela cidade a fio de espada" — a caravana de burros e a caravana de camelos que passa de um lugar a outro, eis que estas a salvam. — O versículo de Devarim, que ordena a destruição pela espada dos "moradores" da cidade, é lido com precisão: só se consideram "moradores" os que ali residem de fato. Uma caravana de comerciantes de burros ou camelos, de passagem pela cidade — mesmo que ali permaneça por um período —, não se conta entre os moradores fixos; e, não sendo desviada ao culto de ídolos, sua presença pode compor, junto à minoria fiel da cidade, uma maioria que evita a condenação coletiva.
הַכֵּה תַכֶּה אֶת יוֹשְׁבֵי הָעִיר הַהִיא לְפִי חָרֶב. הַחַמֶּרֶת וְהַגַּמֶּלֶת הָעוֹבֶרֶת מִמָּקוֹם לְמָקוֹם, הֲרֵי אֵלּוּ מַצִּילִין אוֹתָהּ.
Do versículo que ordena exterminar a cidade, seus habitantes e seus animais, os Sábios derivam que o patrimônio dos justos que se encontrava dentro da cidade se perde junto com ela, mas o que estava fora dela é preservado; já o patrimônio dos ímpios se perde em qualquer caso.
"Destrói totalmente a ela e a tudo o que nela há, e o seu gado, a fio de espada" — daqui disseram: o patrimônio dos justos que estava dentro dela se perde, e o que estava fora dela é salvo; e o dos ímpios, tanto o que estava dentro dela quanto o que estava fora dela, eis que se perde. — A ordem bíblica de destruição total inclui explicitamente "tudo o que nela há" — o que os Sábios interpretam como abarcando até mesmo o patrimônio de habitantes justos, não idólatras, desde que fisicamente presente dentro dos limites da cidade condenada; fora dela, esse mesmo patrimônio é preservado. Já o patrimônio dos ímpios — os próprios idólatras condenados — é perdido em qualquer caso, esteja onde estiver.
הַחֲרֵם אֹתָהּ וְאֶת כָּל אֲשֶׁר בָּהּ וְאֶת בְּהֶמְתָּהּ לְפִי חָרֶב, מִכָּאן אָמְרוּ נִכְסֵי צַדִּיקִים שֶׁבְּתוֹכָהּ אוֹבְדִין, שֶׁבְּחוּצָה לָהּ פְּלֵטִין. וְשֶׁל רְשָׁעִים, בֵּין שֶׁבְּתוֹכָהּ בֵּין שֶׁבְּחוּצָה לָהּ, הֲרֵי אֵלּוּ אוֹבְדִין.
Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת
Devarim 13:16
הַכֵּה תַכֶּה אֶת יֹשְׁבֵי הָעִיר הַהִוא לְפִי חָרֶב הַחֲרֵם אֹתָהּ וְאֶת כָּל אֲשֶׁר בָּהּ וְאֶת בְּהֶמְתָּהּ לְפִי חָרֶב.
"Ferirás, sim, ferirás os moradores daquela cidade a fio de espada, destruindo totalmente a ela e a tudo o que nela há, e o seu gado, a fio de espada."
Deste único versículo a mishná extrai duas leis distintas: da palavra "moradores" — que exclui, por definição, quem apenas passa pela cidade sem nela residir — deriva-se que a caravana de passagem pode salvar a cidade; e da expressão "tudo o que nela há", entendida em sua abrangência mais ampla, deriva-se que até o patrimônio dos justos localizado dentro da cidade é destruído junto com ela.
Halachot · הֲלָכוֹת
Rambam · Perush HaMishná, Sanhedrin 10:5
הכה תכה את יושבי העיר הזאת לפי הרב כו': אמרו החמרת והגמלת העוברת, כלם תוארים, והמתואר חסר, וכאילו אמר: השיירה החמרת והגמלת העוברת ממקום למקום.
Rambam faz uma observação gramatical: as expressões "חַמֶּרֶת" e "גַּמֶּלֶת" são adjetivos, cujo substantivo está implícito — a mishná deve ser lida como se dissesse "a caravana condutora de burros e a caravana condutora de camelos que passa de um lugar a outro", esclarecendo que o sujeito da lei é a própria caravana de comerciantes em trânsito, não os animais em si.
Bartenura · Sanhedrin 10:5
הַחַמֶּרֶת וְהַגַּמֶּלֶת. שַׁיָּרָא שֶׁל חַמָּרִים וְשֶׁל גַּמָּלִים שֶׁנִּשְׁתַּהוּ בָעִיר שְׁלֹשִׁים יוֹם, הָוֵי לְהוּ בִכְלַל יוֹשְׁבֵי עִירָם: הֲרֵי אֵלּוּ מַצִּילִין. אִם רֹב אַנְשֵׁי הָעִיר הֻדְּחוּ וּמִעוּט לֹא הֻדְּחוּ, וְחַמָּרִים וְגַמָּלִים שֶׁלֹּא הֻדְּחוּ מַשְׁלִימִין אֶת הַמֻּעָט לַעֲשׂוֹתָן רֹב, הֲרֵי אֵלּוּ מַצִּילִין, שֶׁאֵין מָמוֹנָן אָבֵד אֶלָּא נִדּוֹנִין כִּיחִידִים. וְהוּא הַדִּין דְּגוֹרְמִין נַמִּי לַעֲשׂוֹת עִיר הַנִּדַּחַת אִם הֻדְּחוּ עִמָּם לַעֲשׂוֹתָם רֹב, אֶלָּא דְתַנָּא אַזְּכוּתָא קָא מְהַדַּר. וְעוֹד דְּהָא פְּסִיקָא לֵיהּ טְפֵי, דִּסְתַם חַמֶּרֶת וְגַמֶּלֶת אֵין דַּעְתָּן מְעֹרֶבֶת עִם בְּנֵי הָעִיר שֶׁיִּהְיוּ נִדָּחִין עִמָּהֶן.
Bartenura precisa a condição temporal implícita na mishná: só se considera "moradora" a caravana de condutores de burros ou camelos que permaneceu na cidade por trinta dias, período que a inclui entre os moradores da cidade para efeito desta lei. Explica o mecanismo pelo qual ela "salva" a cidade: se a maioria já foi desviada e a minoria não, os condutores não desviados podem completar essa minoria até formar uma nova maioria não desviada — evitando a condenação coletiva e fazendo com que os idólatras sejam julgados apenas como indivíduos. E observa que, por simetria lógica, o mesmo raciocínio deveria valer para o sentido inverso — condutores que se desviam também poderiam compor a maioria que condena a cidade —, mas a mishná prefere formular a lei pelo lado favorável, e, além disso, o caso comum é que caravaneiros de passagem não têm vínculo de intenção com os moradores da cidade a ponto de serem arrastados ao mesmo julgamento coletivo.
Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים
Rashi · רש״י
Sanhedrin 111b, s.v. הכה תכה את יושבי העיר ההיא לפי חרב; ה"ג החרם אותה וכל אשר בה
הַכֵּה תַכֶּה אֶת יוֹשְׁבֵי הָעִיר הַהִיא לְפִי חֶרֶב, הַחַמֶּרֶת וְהַגַּמֶּלֶת הָעוֹבֶרֶת מִמָּקוֹם לְמָקוֹם מַצִּילִין — מִדִּכְתִיב יוֹשְׁבֵי, מִכְּלָל דְּשַׁיָּרָא שֶׁל חַמָּרִים וְגַמָּלִים שֶׁנִּשְׁתַּהוּ בָעִיר שְׁלֹשִׁים יוֹם, כִּדְמְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא, דַּהֲווֹ לְהוּ יוֹשְׁבֵי הָעִיר, הֲרֵי אֵלּוּ מַצִּילִין: אִם רֹב אַנְשֵׁי הָעִיר הֻדְּחוּ וְחַמָּרִים וְגַמָּלִים מַשְׁלִימִין הַמִּעוּט וְעוֹשֶׂה אוֹתָם רֹב, מַצִּילִין עֲלֵיהֶם שֶׁאֵין מָמוֹנָם אָבֵד אֶלָּא נִדּוֹנִים כִּיחִידִים: הַ"ג הַחֲרֵם אוֹתָהּ וְכָל אֲשֶׁר בָּהּ, מִכָּאן אָמְרוּ צַדִּיקִים כוּ' וְשֶׁל רְשָׁעִים בֵּין מִתּוֹכָהּ בֵּין מִחוּצָה לָהּ אֲבוּדִים — בַּגְּמָרָא מְפָרֵשׁ לַהּ מִדִּכְתִיב "כֹּל".
Rashi confirma a leitura precisa da palavra "moradores" no versículo, esclarecendo — como faz a Guemará — que ela pressupõe residência de trinta dias, condição que transforma a caravana de comerciantes em "moradora" apta a integrar a maioria que salva a cidade. Sobre a segunda parte da mishná, Rashi remete a explicação detalhada à Guemará, notando que é da palavra "כֹּל" ("tudo o que nela há"), em sua abrangência mais ampla, que se deriva a inclusão do patrimônio dos justos localizado dentro da cidade entre o que é destruído.