Seder Moed · Massechet Pessachim · Perek Chet · Mishná 8 de 8 (última do perek)

O onen, quem recolhe ossos, e o convertido na véspera de Pessach

אוֹנֵן טוֹבֵל וְאוֹכֵל אֶת פִּסְחוֹ לָעֶרֶב
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o Perek Chet retomando o onen, agora para especificar exatamente o alcance de sua permissão: ele imerge e come seu próprio korban Pessach à noite, mas não outras coisas sagradas; já quem apenas soube da morte de um parente, ou recolheu seus ossos, pode comer de qualquer coisa sagrada.

O onen imerge e come seu Pessach à noite, mas não coisas sagradas. Quem soube de seu morto, e quem recolheu para ele os ossos, imerge e come coisas sagradas. — Como já se estabeleceu, o onen — cujo parente morreu e ainda não foi sepultado — pode comer seu próprio korban Pessach ao anoitecer, depois de imergir em água, pois a proibição bíblica de comer coisas sagradas em condição de onen vale apenas durante o dia. Mas essa permissão específica se limita ao korban Pessach, cuja obrigação carrega a pena de carét: quanto a outras coisas sagradas, os sábios mantiveram, mesmo à noite, a proibição rabínica contra o onen, já que ali não há o mesmo risco de uma transgressão tão grave. Já quem apenas ouviu a notícia da morte de um parente distante, sem tê-lo diante de si, ou quem recolheu seus ossos numa segunda sepultura — situações consideradas uma forma mais branda e apenas rabínica de luto — pode, depois de imergir, comer normalmente de qualquer coisa sagrada, inclusive à noite.

אוֹנֵן טוֹבֵל וְאוֹכֵל אֶת פִּסְחוֹ לָעֶרֶב, אֲבָל לֹא בַקָּדָשִׁים. הַשּׁוֹמֵעַ עַל מֵתוֹ, וְהַמְלַקֵּט לוֹ עֲצָמוֹת, טוֹבֵל וְאוֹכֵל בַּקָּדָשִׁים.
Encerra o perek com a disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel sobre o gentio que se converte na véspera de Pessach: Bet Shamai permite que ele coma seu Pessach naquela mesma noite após imergir, enquanto Bet Hilel o compara a quem se afasta de uma sepultura, exigindo o processo completo de purificação.

O convertido que se converteu na véspera de Pessach: Bet Shamai diz, imerge e come seu Pessach à noite. E Bet Hilel diz, quem se afasta da orlá é como quem se afasta de um túmulo. — Quando um gentio se converte ao judaísmo bem na véspera de Pessach, Bet Shamai permite que ele, tendo imergido para sua conversão, coma seu korban Pessach naquela mesma noite, tratando sua conversão como suficiente para removê-lo de qualquer status de impureza. Bet Hilel discorda, comparando quem sai da condição de incircunciso — orlá — a quem sai do contato com um túmulo: assim como quem teve contato com um cadáver precisa passar por um processo de purificação de sete dias, com aspersões específicas no terceiro e no sétimo dia, também o convertido, ao sair de sua condição gentia — que Bet Hilel trata como uma forma de impureza retroativa —, não pode simplesmente imergir e comer no mesmo dia, temendo que, se lhe permitirem fazê-lo, no ano seguinte ele possa erroneamente aplicar a mesma lógica a uma impureza real de contato com um morto.

גֵּר שֶׁנִּתְגַּיֵּר בְּעֶרֶב פֶּסַח, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, טוֹבֵל וְאוֹכֵל אֶת פִּסְחוֹ לָעֶרֶב. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, הַפּוֹרֵשׁ מִן הָעָרְלָה כְּפוֹרֵשׁ מִן הַקָּבֶר:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 29:33
וְאָכְלוּ אֹתָם אֲשֶׁר כֻּפַּר בָּהֶם, לְמַלֵּא אֶת יָדָם לְקַדֵּשׁ אֹתָם, וְזָר לֹא יֹאכַל כִּי קֹדֶשׁ הֵם.
E comerão as coisas com que se fez expiação por eles, para consagrar suas mãos, para os santificar; mas o estranho não comerá, pois são sagradas.

Este versículo, ao apresentar a obrigação de comer as coisas sagradas simplesmente como um mandamento positivo, é a base para a distinção que a mishná traça entre o korban Pessach — cuja obrigação carrega a pena de carét — e as demais coisas sagradas, sujeitas apenas a um mandamento positivo comum. É exatamente essa diferença de gravidade que explica por que os sábios não firmaram a proibição rabínica de aninut noturno diante do risco de carét envolvido em deixar de comer o Pessach, mas a mantiveram intacta quanto às demais coisas sagradas, cuja transgressão, por não envolver carét, não justificava a mesma flexibilização.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, no Perush HaMishná, explica por que apenas o convertido gentio, e não o incircunciso judeu, é objeto da disputa entre Bet Shamai e Bet Hilel.

Rambam · Perush HaMishná, Pessachim 8:8
וְלֹא חָלְקוּ בֵּית שַׁמַּאי וּבֵית הִלֵּל אֶלָּא בְּגֵר בִּלְבַד, לְפִי שֶׁנֶּאֱמַר שֶׁמָּא לְשָׁנָה הַבָּאָה יִהְיֶה טְמֵא נֶפֶשׁ וְיֹאמַר, כְּמוֹ שֶׁטָּהַרְתִּי בַּשָּׁנָה שֶׁעָבְרָה וְאָכַלְתִּי פֶּסַח לָעֶרֶב, כָּמוֹ כֵן עַכְשָׁיו אֶטְבֹּל וְאֹכַל פִּסְחִי. אֲבָל עָרֵל יִשְׂרָאֵל, טוֹבֵל וְאוֹכֵל פִּסְחוֹ לָעֶרֶב.

E Bet Shamai e Bet Hilel só discordaram quanto ao convertido, porque se disse: talvez no ano seguinte ele se torne impuro por contato com um morto, e diga, "assim como me purifiquei no ano passado e comi o Pessach à noite, também agora imergirei e comerei meu Pessach"; mas o incircunciso israelita imerge e come seu Pessach à noite.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura desenvolve a base bíblica da distinção entre aninut de dia e de noite, e explica em detalhe a razão da gezerá de Bet Hilel quanto ao convertido; Rashi, na Guemará, confirma a mesma estrutura de razões, com a nota adicional de que esta é uma das onze estringências do sagrado sobre o profano.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Pessachim 8:8
אוֹנֵן טוֹבֵל וְאוֹכֵל פִּסְחוֹ לָעֶרֶב. דְּאֵין אֲנִינוּת מִן הַתּוֹרָה אֶלָּא בַיּוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר וְאָכַלְתִּי חַטָּאת הַיּוֹם, יוֹם אָסוּר, לַיְלָה מֻתָּר. וּטְבִילָה בָעֵי, מִתּוֹךְ שֶׁנֶּאֱסַר עַד עַכְשָׁיו בְּקָדָשִׁים אַצְרְכוּהוּ רַבָּנָן טְבִילָה. אֲבָל לֹא אָכֵיל אוֹנֵן בִּשְׁאָר קָדָשִׁים לָעֶרֶב, דַּאֲנִינוּת לַיְלָה אֲסוּרָה מִדְּרַבָּנָן, וּלְגַבֵּי פֶסַח לֹא הֶעֱמִידוּ דִבְרֵיהֶם בִּמְקוֹם כָּרֵת: הַשּׁוֹמֵעַ עַל מֵתוֹ. יוֹם שְׁמוּעָה הָוֵי אוֹנֵן דְּרַבָּנָן: כְּפוֹרֵשׁ מִן הַקָּבֶר. וְצָרִיךְ הַזָּאָה שְׁלִישִׁי וּשְׁבִיעִי. וְלֹא נֶחְלְקוּ בֵּית שַׁמַּאי וּבֵית הִלֵּל אֶלָּא בְּעָרֵל נָכְרִי שֶׁמָּל בְּיוֹם אַרְבָּעָה עָשָׂר, דְּבֵית הִלֵּל סָבְרֵי גְּזֵרָה שֶׁמָּא יִטְמָא לְשָׁנָה הַבָּאָה וְיֹאמַר אֶשְׁתָּקַד לֹא טָהַרְתִּי מִכָּל טֻמְאָה עַד יוֹם עֶרֶב פֶּסַח שֶׁטָּבַלְתִּי וְאָכַלְתִּי, הַשְׁתָּא נַמִּי אֶטְבֹּל וְאֹכַל, וְלֹא יָדַע דְּאֶשְׁתָּקַד נָכְרִי הֲוָה וְלֹא מְקַבֵּל טֻמְאָה, עַכְשָׁיו יִשְׂרָאֵל הוּא וּמְקַבֵּל טֻמְאָה. וּבֵית שַׁמַּאי סָבְרֵי לֹא גָזְרִינַן. אֲבָל עָרֵל יִשְׂרָאֵל, כְּגוֹן שֶׁמֵּתוּ אֶחָיו מֵחֲמַת מִילָה, דִּבְרֵי הַכֹּל טוֹבֵל וְאוֹכֵל פִּסְחוֹ לָעֶרֶב.

"O onen imerge e come seu Pessach à noite" — pois a condição de onen pela Torá vale apenas de dia, como está dito "e se eu tivesse comido chatat hoje" — de dia é proibido, de noite é permitido. E precisa de imersão, pois, tendo sido proibido até agora quanto às coisas sagradas, os sábios lhe exigiram imersão. Mas o onen não come de outras coisas sagradas à noite, pois a condição de onen à noite é proibida por decreto rabínico, e quanto ao Pessach não firmaram suas palavras em lugar de carét. "Quem soube de seu morto" — o dia da notícia é considerado onen rabínico. "Como quem se afasta de um túmulo" — e precisa de aspersão no terceiro e no sétimo dia. E Bet Shamai e Bet Hilel só discordaram quanto ao incircunciso gentio que se circuncidou no dia catorze, pois Bet Hilel entende que se decreta, por receio de que no ano seguinte ele se torne impuro e diga "no ano passado eu não me purifiquei de toda impureza até o dia da véspera de Pessach, quando imergi e comi, agora também imergirei e comerei", sem saber que no ano passado era gentio e não recebia impureza, mas agora é judeu e recebe impureza. E Bet Shamai entende que não se decreta. Mas o incircunciso israelita, como aquele cujos irmãos morreram por causa da circuncisão, segundo todos imerge e come seu Pessach à noite.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Pessachim 91b-92a
מַתְנִי' אוֹנֵן טוֹבֵל וְאוֹכֵל אֶת פִּסְחוֹ לָעֶרֶב — וְאַף עַל פִּי שֶׁעֲדַיִן לֹא נִקְבַּר, דְּאֵין אֲנִינוּת מִן הַתּוֹרָה אֶלָּא בַּיּוֹם, שֶׁנֶּאֱמַר הֵן הַיּוֹם הִקְרִיבוּ וַאֲנִי אוֹנֵן וְאָכַלְתִּי חַטָּאת הַיּוֹם, יוֹם אָסוּר לַיְלָה מֻתָּר בִּשְׁחִיטַת קָדָשִׁים, וְטְבִילָה בָעֵי, וְזוֹ אַחַת מֵאַחַת עֶשְׂרֵה מַעֲלוֹת דְּחֻמְרָא בַּקֹּדֶשׁ, הָאוֹנֵן וְהַמְחֻסָּר כִּפּוּרִים צְרִיכִין טְבִילָה לַקֹּדֶשׁ, מִתּוֹךְ שֶׁנֶּאֶסְרוּ עַד עַכְשָׁיו בְּקָדָשִׁים אַצְרְכִינְהוּ רַבָּנָן טְבִילָה: הַשּׁוֹמֵעַ עַל מֵתוֹ — יוֹם שְׁמוּעָה הָוֵי אוֹנֵן דְּרַבָּנָן: כְּפוֹרֵשׁ מִן הַקָּבֶר — וְצָרִיךְ הַזָּאָה שְׁלִישִׁי וּשְׁבִיעִי: גְּמָ' לֹא הֶעֱמִידוּ דִבְרֵיהֶם — לְאָסְרוֹ בַּאֲכִילַת פִּסְחוֹ מִפְּנֵי אֲנִינוּת דִּבְרֵיהֶם, דְּהָא פֶּסַח כָּרֵת הוּא, אֲבָל אֲכִילַת קָדָשִׁים עֲשֵׂה בְּעָלְמָא הוּא, וְאָכְלוּ אֹתָם אֲשֶׁר כֻּפַּר בָּהֶם.

"Mishná: o onen imerge e come seu Pessach à noite" — ainda que o morto ainda não tenha sido sepultado, pois a condição de onen pela Torá vale apenas de dia, como está dito "eis que hoje ofereceram e eu sou onen, e se eu tivesse comido chatat hoje" — de dia é proibido, de noite é permitido no abate de coisas sagradas; e precisa de imersão, e esta é uma das onze estringências do sagrado sobre o profano: o onen e o que carece de expiação precisam de imersão para o sagrado, pois, tendo sido proibidos até agora quanto às coisas sagradas, os sábios lhes exigiram imersão. "Quem soube de seu morto" — o dia da notícia é considerado onen rabínico. "Como quem se afasta de um túmulo" — e precisa de aspersão no terceiro e no sétimo dia. "Guemará: não firmaram suas palavras" — para proibi-lo de comer seu Pessach por causa da condição de onen deles, pois o Pessach carrega carét; mas comer coisas sagradas é apenas um mandamento positivo, e "comerão as coisas com que se fez expiação por eles".