Seder Moed · Massechet Pessachim · Perek Tet · Mishná 1 de 11

Quem estava impuro ou em caminho distante, e o Pessach Sheni

מִי שֶׁהָיָה טָמֵא אוֹ בְדֶרֶךְ רְחוֹקָה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre o Perek Tet com o instituto do Pessach Sheni — o segundo Pessach, um mês depois, para quem não pôde trazer o primeiro. A mishná distingue duas categorias de impedidos: o impuro e quem estava em caminho distante, que a própria Torá isenta de carét; e quem errou ou foi forçado por qualquer outro motivo, que permanece sujeito a carét se, tendo podido, não trouxer o segundo Pessach.

Quem estava impuro ou em caminho distante e não fez o primeiro, fará o segundo. Quem errou ou foi forçado e não fez o primeiro, fará o segundo. — Tanto o impuro e quem estava longe demais para chegar a tempo, quanto quem simplesmente errou quanto à data ou foi impedido por alguma outra força maior, e por isso deixou de trazer o korban Pessach no seu horário próprio — no catorze de Nissan —, têm todos a mesma saída: trazer o Pessach Sheni, um mês depois, no catorze de Iyar.

Se assim é, por que se disse impuro ou que estava em caminho distante? Porque estes são isentos de carét, e aqueles são culpados de carét. — Já que ambos os grupos podem igualmente recorrer ao Pessach Sheni, a mishná pergunta por que a Torá precisou mencionar especificamente o impuro e o viajante distante, e não bastou falar em termos gerais de quem não trouxe o Pessach. A resposta está na pena: se o impuro ou o viajante distante também deixarem de trazer o segundo Pessach, não incorrem em carét, pois a Torá os isentou explicitamente já no primeiro Pessach; mas quem foi impedido por erro ou por outra força maior — e não por impureza ou distância — permanece sob a ameaça de carét, caso também não traga o Pessach Sheni.

מִי שֶׁהָיָה טָמֵא אוֹ בְדֶרֶךְ רְחוֹקָה וְלֹא עָשָׂה אֶת הָרִאשׁוֹן, יַעֲשֶׂה אֶת הַשֵּׁנִי. שָׁגַג אוֹ נֶאֱנַס וְלֹא עָשָׂה אֶת הָרִאשׁוֹן, יַעֲשֶׂה אֶת הַשֵּׁנִי. אִם כֵּן, לָמָּה נֶאֱמַר טָמֵא אוֹ שֶׁהָיָה בְדֶרֶךְ רְחוֹקָה, שֶׁאֵלּוּ פְּטוּרִין מֵהִכָּרֵת, וְאֵלּוּ חַיָּבִין בְּהִכָּרֵת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Bamidbar 9:10,13
דַּבֵּר אֶל בְּנֵי יִשְׂרָאֵל לֵאמֹר, אִישׁ אִישׁ כִּי יִהְיֶה טָמֵא לָנֶפֶשׁ אוֹ בְדֶרֶךְ רְחֹקָה לָכֶם אוֹ לְדֹרֹתֵיכֶם וְעָשָׂה פֶסַח לַה׳. ... וְהָאִישׁ אֲשֶׁר הוּא טָהוֹר וּבְדֶרֶךְ לֹא הָיָה וְחָדַל לַעֲשׂוֹת הַפֶּסַח וְנִכְרְתָה הַנֶּפֶשׁ הַהִוא מֵעַמֶּיהָ, כִּי קָרְבַּן ה׳ לֹא הִקְרִיב בְּמֹעֲדוֹ חֶטְאוֹ יִשָּׂא הָאִישׁ הַהוּא.
Fala aos filhos de Israel, dizendo: qualquer homem que estiver impuro por um morto, ou em caminho distante, seja de vós, seja de vossas gerações, fará o Pessach para o Eterno. ... Mas o homem que está puro, e não estava em caminho, e deixou de fazer o Pessach, será extirpada aquela alma de seu povo, pois a oferenda do Eterno não trouxe em seu tempo determinado; seu pecado carregará aquele homem.

Este par de versículos é a base direta de toda a distinção da mishná. O versículo 10 concede explicitamente ao impuro e a quem está em caminho distante o direito de trazer o Pessach Sheni, sem cominar pena alguma sobre eles caso também não o façam; já o versículo 13 reserva a pena de carét exclusivamente a "o homem que está puro, e não estava em caminho" — ou seja, quem não tinha nenhum dos dois impedimentos bíblicos explícitos — "e deixou de fazer o Pessach". É desse contraste preciso entre os dois versículos que a mishná deriva sua pergunta retórica: se de qualquer forma ambos os grupos recorrem ao mesmo Pessach Sheni, a menção específica do impuro e do viajante distante só pode servir para marcar que apenas eles ficam isentos de carét, deixando os demais impedidos — por erro ou força maior — sob a mesma ameaça do versículo 13.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, no Perush HaMishná, explica a lógica por trás da isenção do impuro e do viajante distante, e a base bíblica da responsabilidade dos demais.

Rambam · Perush HaMishná, Pessachim 9:1
מִי שֶׁהָיָה טָמֵא אוֹ בְדֶרֶךְ רְחוֹקָה כוּ׳. כְּשֶׁהָיָה טָמֵא אוֹ בְדֶרֶךְ רְחוֹקָה בְּפֶסַח רִאשׁוֹן וְלֹא עָשָׂה אֶת הַשֵּׁנִי אֵינוֹ חַיָּב כָּרֵת, לְפִי שֶׁנִּפְטָר מִפֶּסַח רִאשׁוֹן שֶׁנֶּאֱמַר בּוֹ לְשׁוֹן כָּרֵת, וְנִדְחָה לְפֶסַח שֵׁנִי שֶׁלֹּא נֶאֱמַר בּוֹ לְשׁוֹן כָּרֵת. וּכְשֶׁשָּׁגַג אוֹ נֶאֱנַס בְּפֶסַח רִאשׁוֹן וְלֹא עָשָׂה אֶת הַשֵּׁנִי, חַיָּב כָּרֵת, כִּי לְשׁוֹן הַתּוֹרָה, כָּל מִי שֶׁלֹּא הָיָה טָמֵא אוֹ בְדֶרֶךְ רְחוֹקָה וְלֹא עָשָׂה פֶּסַח כְּלָל, חַיָּב כָּרֵת. וְהוּא אָמְרוֹ יִתְעַלֶּה, וְהָאִישׁ אֲשֶׁר הוּא טָהוֹר וּבְדֶרֶךְ לֹא הָיָה וְגוֹ׳. וְזֶה עִנְיַן אָמְרָם בְּכָאן, אֵלּוּ פְּטוּרִין מִן הַכָּרֵת וְאֵלּוּ חַיָּבִין.

Quem estava impuro ou em caminho distante etc. Quando estava impuro ou em caminho distante no primeiro Pessach e não fez o segundo, não é culpado de carét, pois foi isento do primeiro Pessach — sobre o qual se disse a expressão de carét —, e foi remetido ao Pessach Sheni, sobre o qual não se disse a expressão de carét. Mas quando errou ou foi forçado no primeiro Pessach e não fez o segundo, é culpado de carét, pois a expressão da Torá é: todo aquele que não estava impuro nem em caminho distante e não fez o Pessach de forma alguma é culpado de carét. E isto é o que Ele, exaltado seja, disse: "mas o homem que está puro, e não estava em caminho" etc. E este é o sentido do que disseram aqui: estes são isentos de carét, e aqueles são culpados.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura resume a mesma lógica de forma concisa; Rashi, na Guemará, situa a pergunta retórica da mishná dentro do debate talmúdico sobre o alcance exato da expressão "por que se disse".

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Pessachim 9:1
מִי שֶׁהָיָה טָמֵא. שֶׁאֵלּוּ פְּטוּרִין מִן הַכָּרֵת. הַטָּמֵא אוֹ שֶׁהָיָה בְדֶרֶךְ רְחוֹקָה פְּטָרָן הַכָּתוּב מִלַּעֲשׂוֹת פֶּסַח רִאשׁוֹן, וְעִקַּר כָּרֵת בְּפֶסַח רִאשׁוֹן הוּא, לְפִיכָךְ אִם לֹא עָשׂוּ פֶסַח שֵׁנִי פְּטוּרִים מִן הַכָּרֵת: וְאֵלּוּ חַיָּבִין בְּהִכָּרֵת. הַשּׁוֹגֵג אוֹ הָאָנוּס חַיָּבִין הָיוּ בְּפֶסַח רִאשׁוֹן, אֶלָּא שֶׁהַשְּׁגָגָה וְהָאֹנֶס עִכַּבְתָּן, וּכְשֶׁהֵזִידוּ וְלֹא עָשׂוּ פֶסַח שֵׁנִי חַיָּבִין בְּהִכָּרֵת, כְּדִכְתִיב וְהָאִישׁ אֲשֶׁר הוּא טָהוֹר וּבְדֶרֶךְ לֹא הָיָה וְחָדַל לַעֲשׂוֹת הַפֶּסַח וְנִכְרְתָה, מַשְׁמַע דְּעַל כָּל שְׁאָר שְׁגָגוֹת וָאֳנָסִין שֶׁאֵרְעוּ בָרִאשׁוֹן חוּץ מִטָּמֵא וְדֶרֶךְ רְחוֹקָה, חַיָּבִין כָּרֵת אִם לֹא עָשׂוּ פֶּסַח שֵׁנִי.

"Quem estava impuro" — porque estes são isentos de carét. O impuro, ou quem estava em caminho distante, o versículo os isentou de fazer o primeiro Pessach, e a raiz do carét está no primeiro Pessach; por isso, se não fizeram o Pessach Sheni, são isentos de carét.

"E estes são culpados de carét" — quem errou ou foi forçado já era culpado no primeiro Pessach, apenas que o erro e a força maior os impediram; e quando, tendo agido de propósito, não fizeram o Pessach Sheni, tornam-se culpados de carét, como está escrito "mas o homem que está puro, e não estava em caminho, e deixou de fazer o Pessach, será extirpada" — o que indica que, quanto a todos os demais erros e forças maiores ocorridos no primeiro Pessach, fora impureza e caminho distante, são culpados de carét se não fizerem o Pessach Sheni.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Pessachim 92b
מַתְנִי' מִי שֶׁהָיָה טָמֵא: אִם כֵּן לָמָּה נֶאֱמַר טָמֵא — בַּגְּמָרָא פָּרֵיךְ, הָא אִיצְטְרִיךְ, דְּאִי בָּעֵי לְמֶעְבַּד בָּרִאשׁוֹן לָא מָצֵי עָבֵיד, אֶלָּא אַדֶּרֶךְ רְחוֹקָה קָאֵי, דְּאָנוּס הֲוֵי דְּלָא מָצֵי עָבֵיד. וְהָכִי נַמִּי אָמְרִינַן בַּגְּמָרָא, וְאִי בָּעֵי לְמֶעְבַּד עַל יְדֵי שְׁלוּחוֹ עָבֵיד, כְּמַאן דְּאָמַר בַּגְּמָרָא הֻרְצָה. וְהִלְכָּךְ, הוֹאִיל וּשְׁאָר אוֹנָסִין אִידְּחוּ לְשֵׁנִי, אֹנֶס דְּדֶרֶךְ רְחוֹקָה לָמָּה לִי דְּאִדְּכַר רַחֲמָנָא טְפֵי מֵאֹנֶס אַחֲרִינָא. הָא דֶּרֶךְ רְחוֹקָה אָנוּס הוּא, שֶׁאֵינוֹ יָכוֹל לִיכָּנֵס כָּל שְׁעַת שְׁחִיטָה, כִּדְאָמְרִינַן בַּגְּמָרָא, וּלְאַשְׁמוֹעִינַן דְּאִי בָּעֵי לְמֶעְבַּד לָא מָצֵי עָבֵיד. שֶׁאֵלּוּ פְּטוּרִין מִן הַהִכָּרֵת — טָמֵא וְדֶרֶךְ רְחוֹקָה, וְשָׁגַג וְנֶאֱנַס וְאֵלּוּ חַיָּבִין, מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא.

"Mishná: quem estava impuro" — "se assim é, por que se disse impuro" — na Guemará se pergunta: mas isso já era necessário, pois se quisesse fazer no primeiro, não poderia; a questão só recai sobre quem estava em caminho distante, que é considerado forçado por não poder fazê-lo. E também dizemos na Guemará que, se quiser fazê-lo por meio de um enviado, pode fazê-lo, segundo quem diz na Guemará que isso "se completa" — e por isso, já que os demais casos de força maior foram remetidos ao segundo, por que a Torá precisaria mencionar especificamente a força maior do caminho distante mais do que qualquer outra força maior? Porque o caminho distante é considerado força maior no sentido de que a pessoa não consegue entrar durante todo o horário de abate, como dizemos na Guemará, e isso vem nos ensinar que, mesmo que quisesse fazê-lo, não conseguiria.

"Porque estes são isentos de carét" — o impuro e quem estava em caminho distante, e quem errou e foi forçado; "e estes são culpados" — explica-se na Guemará.