Se a carne se contaminou e o sebo permanece íntegro, não se lança o sangue. — Diferente das demais oferendas, o korban Pessach existe fundamentalmente para ser comido pelas famílias, e não apenas para que seu sebo seja queimado no altar. Por isso, se a própria carne — a parte destinada ao consumo humano — se contaminou, mesmo que o sebo destinado ao altar continue puro, o sangue não é lançado, pois lançar o sangue serviria apenas para habilitar o sebo à queima e a carne à refeição; e uma vez que a carne, propósito central do sacrifício, já não pode ser comida, falta a razão de ser de todo o processo.
Se o sebo se contaminou e a carne permanece íntegra, lança-se o sangue. Mas nas demais oferendas consagradas não é assim: mesmo que a carne se tenha contaminado e o sebo permaneça íntegro, lança-se o sangue. — Se, ao contrário, é apenas o sebo que se contamina, enquanto a carne permanece pura e apta para ser comida, o sangue é lançado normalmente, pois o propósito essencial do korban Pessach — habilitar a carne para a refeição das famílias — ainda pode ser cumprido. Já nas demais oferendas consagradas — que existem primariamente para que seu sebo seja queimado no altar, sendo a porção comida pelos cohanim ou donos apenas secundária — a regra se inverte: mesmo que a carne se contamine e apenas o sebo permaneça puro, o sangue ainda é lançado, pois o propósito principal daquelas oferendas, a queima do sebo no altar, continua realizável.
É desta ênfase da Torá sobre o consumo do korban Pessach — "cada homem segundo o que come" — que se deriva o princípio central desta mishná: que a razão de ser do Pessach, ao contrário das demais oferendas, é o consumo de sua carne pelas famílias, e não a queima de suas partes no altar. Por isso, quando é a carne que se contamina, faltando o próprio propósito da mitsvá, não se lança o sangue; mas quando é apenas o sebo que se contamina, permanecendo intacta a carne destinada à refeição, o sangue é lançado normalmente, pois a finalidade essencial ainda pode ser cumprida — o inverso exato do que ocorre nas demais oferendas consagradas, cujo fim principal é o altar.
O Rambam, no Perush HaMishná, reafirma que o Pessach existe fundamentalmente para o consumo humano, o que explica por que a contaminação da carne, e não do sebo, é o que impede o lançamento do sangue.
Já sabes que a oferenda do Pessach não veio senão para o consumo; por isso, se a carne se contaminou, não se lança o sangue, pois não nos apoiamos senão sobre o consumo da carne.
Bartenura confirma que o Pessach existe para o consumo humano, o que explica a regra e sua inversão nas demais oferendas; Rashi, na Guemará, resume a mesma distinção diretamente sobre a mishná.
"Se a carne se contaminou e o sebo permanece íntegro, não se lança etc.": já sabes que a oferenda do Pessach não veio senão para o consumo; por isso, se a carne se contaminou, não se lança o sangue, pois não nos apoiamos senão sobre o consumo da carne.
"Se a carne se contaminou e o sebo permanece íntegro, não se lança o sangue" — pois o propósito essencial do Pessach vem para o consumo humano.
"Mas nas demais oferendas consagradas não é assim" — pois mesmo que a carne se tenha contaminado e o sebo permaneça íntegro, lança-se o sangue.
"Mishná: se a carne se contaminou e o sebo permanece íntegro, não se lança o sangue" — mesmo segundo Rabi Eliezer, pois o propósito essencial do Pessach vem para o consumo humano.
"Mas nas demais oferendas consagradas não é assim" — mesmo segundo Rabi Yehoshua, que mesmo se a carne se contaminou e o sebo permanece íntegro, lança-se o sangue, pois há ali duas coisas: o que habilita, e o restante — já que o sangue habilita as porções do altar para o altar.