Quem abate o Pessach sobre o chametz transgride uma proibição. Rabi Yehudá diz: também o tamid. — A Torá proíbe abater um sacrifício enquanto ainda há chametz na posse de quem realiza a operação. A mishná aplica essa proibição, no mínimo, ao korban Pessach: se, no momento do abate, o próprio abatedor ou algum membro do grupo de comensais ainda possui chametz, comete-se uma transgressão — ainda que o sacrifício em si não se torne inválido. Rabi Yehudá estende a mesma proibição ao tamid da tarde da véspera de Pessach, entendendo que a palavra "meu sacrifício" no versículo também o inclui.
Rabi Shimon diz: o Pessach, no dia catorze — abatido com a devida intenção, é responsável; sem a devida intenção, é isento. E todos os demais sacrifícios, seja com a devida intenção seja sem ela, são isentos. E no meio da festa — com a devida intenção, é isento; sem a devida intenção, é responsável. E todos os demais sacrifícios, seja com a devida intenção seja sem ela, são responsáveis, exceto a oferenda de pecado abatida sem a devida intenção. — Rabi Shimon estabelece um critério mais sutil: a proibição de abater sobre chametz só se aplica a um abate que seja "abate válido" para aquele sacrifício naquele momento. No catorze de Nissan, só o próprio Pessach — abatido com a intenção correta — conta como tal, tornando quem o abate sobre chametz responsável; os demais sacrifícios ficam isentos naquele dia, pois não é seu momento próprio. Já no meio da festa, quando o Pessach fora de seu tempo é inválido, é justamente o abate "sem a devida intenção" que se torna relevante, invertendo o critério, enquanto os demais sacrifícios — que ali são seu abate próprio — tornam-se responsáveis, com exceção da oferenda de pecado abatida sem intenção, que é sempre inválida por si mesma.
O mesmo versículo aparece, com pequenas variações, também em Shemot 23:18 — "não sacrificarás sobre chametz o sangue de meu sacrifício" — e os Sábios contam essas duas ocorrências da palavra "meu sacrifício" como duas proibições distintas, uma referente ao Pessach e outra a todos os demais sacrifícios oferecidos enquanto ainda há chametz por perto. É dessa duplicação textual que nasce a disputa da mishná: em que circunstâncias exatas cada uma das duas proibições se aplica, e a quem — ao abatedor apenas, ou a qualquer membro do grupo de comensais que ainda possua chametz em sua posse.
O Rambam, no Perush HaMishná, explica a base textual da disputa entre os Sábios, Rabi Yehudá e Rabi Shimon, e conclui que a lei segue a opinião dos Sábios.
Quanto ao que disse o Nome, bendito seja: "não abaterás sobre chametz o sangue de meu sacrifício" — os Sábios dizem que ao dizer "meu sacrifício" ele se refere ao korban, e este é o Pessach... e Rabi Yehudá diz que "meu sacrifício" é o que me é exclusivo, referindo-se ao korban tamid... e a lei segue os Sábios.
Bartenura desdobra passo a passo a lógica de Rabi Shimon, explicando por que "com a devida intenção" e "sem ela" trocam de posição entre o catorze de Nissan e o restante da festa; Rashi, na Guemará, resume os mesmos pontos ao comentar a mishná.
"Quem abate o Pessach sobre chametz, etc.": e por isso disse "e no meio da festa, com a devida intenção, é isento", pois então ele é inválido e não é o korban Pessach — desde que o cordeiro pudesse ainda ser oferecido como Pessach adiado para um segundo Pessach.
"Sem a devida intenção, é responsável" — pois ele é como os demais sacrifícios, e é proibida a oferenda de qualquer sacrifício que seja sobre chametz, sendo responsável por chibatadas por isso.
"Quem abate o Pessach sobre chametz" — quer dizer, e no momento do abate havia chametz na posse do abatedor ou de um dos membros do grupo. "Transgride uma proibição" — pois "não abaterás sobre chametz o sangue de meu sacrifício", e o sacrifício não se invalida.
"Rabi Shimon diz: o Pessach no catorze" — que o abateu sobre chametz, "com a devida intenção, é responsável" — por causa de "não abaterás sobre chametz", pois é Pessach válido e é abate próprio. "Sem a devida intenção, é isento" — pois é inválido, e abate impróprio não se chama abate.
"E no meio da festa" — dentro dos dias de Pessach, se o abateu com a intenção do Pessach sobre chametz, "é isento" — pois o Pessach fora de seu tempo, com essa intenção, é inválido, sendo abate impróprio. "Sem a devida intenção, é responsável" — pois é para isso que ele serve, sendo abate próprio.
"Exceto a oferenda de pecado abatida sem a devida intenção" — pois ela é inválida, já que está escrito em seu abate "ela é oferenda de pecado" — ela, e não a que foi abatida sem sua devida intenção.
"Mishná: quem abate o Pessach sobre chametz transgride uma proibição" — pois "não abaterás sobre chametz", etc. "Também o tamid" — o tamid da tarde da véspera de Pessach que o abateu sobre chametz, e a razão se aprende na Guemará.
"Rabi Shimon diz: o Pessach no catorze" — que o abateu sobre chametz. "Com a devida intenção, é responsável" — por causa de "não abaterás sobre chametz", pois é Pessach válido e é abate próprio.
"E todos os demais sacrifícios" — que foram abatidos no catorze, depois do meio-dia, sobre chametz, com a devida intenção ou sem ela, "são isentos" — como se explica na Guemará: no momento em que se é responsável pelo Pessach, não se é responsável pelos demais sacrifícios.