Serviram-lhe o segundo copo, e aqui o filho pergunta a seu pai. E se o filho não tem discernimento, seu pai o ensina. — Ao ser servido o segundo copo — antes ainda de começar a refeição, contrariando toda a ordem costumeira das refeições —, é esse o momento apropriado para que o filho, notando a sequência estranha de eventos, pergunte espontaneamente ao pai o que há de diferente naquela noite. Se a criança ainda não tem idade ou discernimento suficiente para formular a pergunta sozinha, cabe ao próprio pai ensiná-la a perguntar, ou fazer a pergunta em seu lugar.
Por que se diferencia esta noite de todas as noites? Que em todas as noites comemos chametz e matzá, esta noite tudo é matzá. Que em todas as noites comemos outras verduras, esta noite é maror. Que em todas as noites comemos carne assada, cozida em água ou fervida, esta noite tudo é assado. Que em todas as noites molhamos uma vez, esta noite duas vezes. — A pergunta se estrutura em quatro observações concretas sobre o que torna aquela refeição tão diferente de todas as outras do ano: a ausência total de pão fermentado, substituído inteiramente pela matzá; o consumo deliberado de ervas amargas, algo que não se faz em nenhuma outra ocasião; o fato de toda a carne ser assada, e não preparada de outras formas; e a repetição incomum do ato de molhar os alimentos, feito apenas uma vez nas demais refeições.
E conforme o discernimento do filho, seu pai o ensina. Começa pelo desprezo e termina pelo louvor, e expõe a partir de “Arami Oved Avi”, até terminar toda a passagem. — Depois de ouvida a pergunta, o pai — ajustando o nível da explicação à capacidade de compreensão do próprio filho — responde contando a história do êxodo segundo uma estrutura fixa: começa relatando o aspecto mais rebaixado da origem do povo — seja a idolatria dos antepassados, seja a escravidão no Egito —, e só então avança gradualmente até o louvor e a redenção final. Essa narrativa se apoia na exposição detalhada da passagem bíblica que começa com as palavras “Arami Oved Avi” (um arameu perseguia meu pai), do livro de Devarim, expondo-a por completo, verso a verso, até seu final.
Esta passagem, originalmente a declaração recitada por quem trazia os primeiros frutos ao Templo, é a fonte escolhida pela mishná para a exposição central da Hagadá — não por acidente, mas porque ela já contém, em miniatura, toda a estrutura narrativa exigida: começa pela humilhação da perseguição e da descida a um povo estrangeiro, e termina no louvor da saída “com mão forte e braço estendido”. É exatamente essa estrutura de “começar pelo desprezo e terminar pelo louvor” que a mishná determina como princípio obrigatório de toda resposta ao filho, e é por isso que a exposição, palavra por palavra, desta passagem específica se tornou o corpo central da narrativa do Seder até os dias de hoje.
O Rambam, no Perush HaMishná, detalha o conteúdo exato do “desprezo” inicial da narrativa — a idolatria dos antepassados e a escravidão no Egito — antes de chegar à redenção final.
Serviram-lhe o segundo copo, e aqui o filho pergunta a seu pai etc. “Começa pelo desprezo” — é que se conte como éramos, antes de Avraham nosso pai, hereges e adoradores de ídolos, e associávamos outros ao Nome exaltado; e depois nos escolheu o Nome exaltado, e todo o sofrimento que nos alcançou no Egito; e depois nos redimiu o Nome exaltado. E a exposição dessa passagem é conhecida e publicamente sabida.
Bartenura esclarece uma variante textual sobre o momento exato da pergunta, e observa que a quarta pergunta — sobre a carne assada — só se aplicava enquanto o Templo estava de pé; Rashi, na Guemará, confirma o mesmo ponto sobre o segundo copo.
“E aqui o filho pergunta” — em todos os manuscritos não está escrito “vecan” (e aqui), mas “vechen” (e assim), como “assim as filhas de Tzelofchad falam”. Isto é, e é justo que, ao servir o segundo copo, o filho pergunte “por que se diferencia”.
“Esta noite tudo é assado” — enquanto o Templo estava de pé, era assim que o filho perguntava.
“Começa pelo desprezo” — no início, nossos pais eram adoradores de ídolos e nós éramos escravos.
“E termina pelo louvor” — que o Onipresente nos aproximou de Seu serviço e redimiu nossos pais do Egito.
“Mishná: e aqui o filho pergunta a seu pai” — aqui, ao servir o segundo copo, o filho pergunta a seu pai: por que se diferencia agora, que se serve um segundo copo antes da refeição?