Seder Moed · Massechet Pessachim · Perek Yud (último) · Mishná 4 de 9

O segundo copo, as quatro perguntas e a resposta que começa pelo desprezo

מָזְגוּ לוֹ כוֹס שֵׁנִי, וְכָאן הַבֵּן שׁוֹאֵל
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Chega ao coração narrativo do Seder: o momento em que se serve o segundo copo, ainda antes da refeição — uma sequência incomum que, somada a todos os elementos estranhos já vistos, provoca naturalmente a pergunta da criança. A mishná registra as quatro diferenças que compõem essa pergunta tradicional, e estabelece o princípio estrutural de toda a resposta: começar pelo aspecto mais humilhante da história e terminar pelo louvor.

Serviram-lhe o segundo copo, e aqui o filho pergunta a seu pai. E se o filho não tem discernimento, seu pai o ensina. — Ao ser servido o segundo copo — antes ainda de começar a refeição, contrariando toda a ordem costumeira das refeições —, é esse o momento apropriado para que o filho, notando a sequência estranha de eventos, pergunte espontaneamente ao pai o que há de diferente naquela noite. Se a criança ainda não tem idade ou discernimento suficiente para formular a pergunta sozinha, cabe ao próprio pai ensiná-la a perguntar, ou fazer a pergunta em seu lugar.

Por que se diferencia esta noite de todas as noites? Que em todas as noites comemos chametz e matzá, esta noite tudo é matzá. Que em todas as noites comemos outras verduras, esta noite é maror. Que em todas as noites comemos carne assada, cozida em água ou fervida, esta noite tudo é assado. Que em todas as noites molhamos uma vez, esta noite duas vezes. — A pergunta se estrutura em quatro observações concretas sobre o que torna aquela refeição tão diferente de todas as outras do ano: a ausência total de pão fermentado, substituído inteiramente pela matzá; o consumo deliberado de ervas amargas, algo que não se faz em nenhuma outra ocasião; o fato de toda a carne ser assada, e não preparada de outras formas; e a repetição incomum do ato de molhar os alimentos, feito apenas uma vez nas demais refeições.

E conforme o discernimento do filho, seu pai o ensina. Começa pelo desprezo e termina pelo louvor, e expõe a partir de “Arami Oved Avi”, até terminar toda a passagem. — Depois de ouvida a pergunta, o pai — ajustando o nível da explicação à capacidade de compreensão do próprio filho — responde contando a história do êxodo segundo uma estrutura fixa: começa relatando o aspecto mais rebaixado da origem do povo — seja a idolatria dos antepassados, seja a escravidão no Egito —, e só então avança gradualmente até o louvor e a redenção final. Essa narrativa se apoia na exposição detalhada da passagem bíblica que começa com as palavras “Arami Oved Avi” (um arameu perseguia meu pai), do livro de Devarim, expondo-a por completo, verso a verso, até seu final.

מָזְגוּ לוֹ כוֹס שֵׁנִי, וְכָאן הַבֵּן שׁוֹאֵל אָבִיו, וְאִם אֵין דַּעַת בַּבֵּן, אָבִיו מְלַמְּדוֹ, מַה נִּשְׁתַּנָּה הַלַּיְלָה הַזֶּה מִכָּל הַלֵּילוֹת, שֶׁבְּכָל הַלֵּילוֹת אָנוּ אוֹכְלִין חָמֵץ וּמַצָּה, הַלַּיְלָה הַזֶּה כֻלּוֹ מַצָּה. שֶׁבְּכָל הַלֵּילוֹת אָנוּ אוֹכְלִין שְׁאָר יְרָקוֹת, הַלַּיְלָה הַזֶּה מָרוֹר. שֶׁבְּכָל הַלֵּילוֹת אָנוּ אוֹכְלִין בָּשָׂר צָלִי, שָׁלוּק, וּמְבֻשָּׁל, הַלַּיְלָה הַזֶּה כֻלּוֹ צָלִי. שֶׁבְּכָל הַלֵּילוֹת אָנוּ מַטְבִּילִין פַּעַם אַחַת, הַלַּיְלָה הַזֶּה שְׁתֵּי פְעָמִים. וּלְפִי דַעְתּוֹ שֶׁל בֵּן, אָבִיו מְלַמְּדוֹ. מַתְחִיל בִּגְנוּת וּמְסַיֵּם בְּשֶׁבַח, וְדוֹרֵשׁ מֵאֲרַמִּי אוֹבֵד אָבִי, עַד שֶׁיִּגְמֹר כֹּל הַפָּרָשָׁה כֻלָּהּ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Devarim 26:5,8
אֲרַמִּי אֹבֵד אָבִי, וַיֵּרֶד מִצְרַיְמָה וַיָּגָר שָׁם בִּמְתֵי מְעָט, וַיְהִי שָׁם לְגוֹי גָּדוֹל עָצוּם וָרָב. ... וַיּוֹצִאֵנוּ ה׳ מִמִּצְרַיִם בְּיָד חֲזָקָה וּבִזְרֹעַ נְטוּיָה וּבְמֹרָא גָּדֹל וּבְאֹתוֹת וּבְמֹפְתִים.
Um arameu perseguia meu pai, e ele desceu ao Egito e ali peregrinou com poucos homens, e ali se tornou uma nação grande, poderosa e numerosa. ... E o Eterno nos tirou do Egito com mão forte, e com braço estendido, e com grande temor, e com sinais e com portentos.

Esta passagem, originalmente a declaração recitada por quem trazia os primeiros frutos ao Templo, é a fonte escolhida pela mishná para a exposição central da Hagadá — não por acidente, mas porque ela já contém, em miniatura, toda a estrutura narrativa exigida: começa pela humilhação da perseguição e da descida a um povo estrangeiro, e termina no louvor da saída “com mão forte e braço estendido”. É exatamente essa estrutura de “começar pelo desprezo e terminar pelo louvor” que a mishná determina como princípio obrigatório de toda resposta ao filho, e é por isso que a exposição, palavra por palavra, desta passagem específica se tornou o corpo central da narrativa do Seder até os dias de hoje.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, no Perush HaMishná, detalha o conteúdo exato do “desprezo” inicial da narrativa — a idolatria dos antepassados e a escravidão no Egito — antes de chegar à redenção final.

Rambam · Perush HaMishná, Pessachim 10:4
מָזְגוּ לוֹ כוֹס שֵׁנִי וְכָאן הַבֵּן שׁוֹאֵל אָבִיו כוּ׳ מַתְחִיל בִּגְנוּת. הוּא שֶׁיְּסַפֵּר אֵיךְ הָיִינוּ קֹדֶם אַבְרָהָם אָבִינוּ כּוֹפְרִים וְעוֹבְדֵי גִּלּוּלִים וּמְשַׁתְּפִין הַשֵּׁם יִתְעַלֶּה, וְאַחַר כָּךְ בָּחַר בָּנוּ הַשֵּׁם יִתְעַלֶּה, וְאֶת כָּל הַתְּלָאָה אֲשֶׁר מְצָאַתְנוּ בְּמִצְרַיִם, וְאַחַר כָּךְ גְּאָלָנוּ הַשֵּׁם יִתְעַלֶּה. וְדֶרֶשׁ אוֹתָהּ הַפָּרָשָׁה יָדוּעַ וּמְפֻרְסָם.

Serviram-lhe o segundo copo, e aqui o filho pergunta a seu pai etc. “Começa pelo desprezo” — é que se conte como éramos, antes de Avraham nosso pai, hereges e adoradores de ídolos, e associávamos outros ao Nome exaltado; e depois nos escolheu o Nome exaltado, e todo o sofrimento que nos alcançou no Egito; e depois nos redimiu o Nome exaltado. E a exposição dessa passagem é conhecida e publicamente sabida.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura esclarece uma variante textual sobre o momento exato da pergunta, e observa que a quarta pergunta — sobre a carne assada — só se aplicava enquanto o Templo estava de pé; Rashi, na Guemará, confirma o mesmo ponto sobre o segundo copo.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Pessachim 10:4
וְכָאן הַבֵּן שׁוֹאֵל. בְּכָל הַסְּפָרִים אֵין כָּתוּב וְכָאן, אֶלָּא וְכֵן, כְּמוֹ ״כֵּן בְּנוֹת צְלָפְחָד דֹּבְרֹת״. כְּלוֹמַר וְדִין הוּא שֶׁבִּמְזִיגַת כּוֹס שֵׁנִי יִהְיֶה הַבֵּן שׁוֹאֵל מַה נִּשְׁתַּנָּה: הַלַּיְלָה הַזֶּה כֻלּוֹ צָלִי. בִּזְמַן שֶׁבֵּית הַמִּקְדָּשׁ קַיָּם הָיָה הַבֵּן שׁוֹאֵל כָּךְ: מַתְחִיל בִּגְנוּת. מִתְּחִלָּה עוֹבְדֵי עֲבוֹדָה זָרָה הָיוּ אֲבוֹתֵינוּ וַעֲבָדִים הָיִינוּ: וּמְסַיֵּם בְּשֶׁבַח. שֶׁקֵּרְבָנוּ הַמָּקוֹם לַעֲבוֹדָתוֹ וְגָאַל אֶת אֲבוֹתֵינוּ מִמִּצְרָיִם.

“E aqui o filho pergunta” — em todos os manuscritos não está escrito “vecan” (e aqui), mas “vechen” (e assim), como “assim as filhas de Tzelofchad falam”. Isto é, e é justo que, ao servir o segundo copo, o filho pergunte “por que se diferencia”.

“Esta noite tudo é assado” — enquanto o Templo estava de pé, era assim que o filho perguntava.

“Começa pelo desprezo” — no início, nossos pais eram adoradores de ídolos e nós éramos escravos.

“E termina pelo louvor” — que o Onipresente nos aproximou de Seu serviço e redimiu nossos pais do Egito.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Pessachim 116a
מַתְנִי' וְכָאן הַבֵּן שׁוֹאֵל אָבִיו — כָּאן, בִּמְזִיגַת כּוֹס שֵׁנִי, הַבֵּן שׁוֹאֵל אֶת אָבִיו: מַה נִּשְׁתַּנָּה עַכְשָׁיו שֶׁמּוֹזְגִין כּוֹס שֵׁנִי קֹדֶם אֲכִילָה.

“Mishná: e aqui o filho pergunta a seu pai” — aqui, ao servir o segundo copo, o filho pergunta a seu pai: por que se diferencia agora, que se serve um segundo copo antes da refeição?