Seder Moed · Massechet Pessachim · Perek Yud (último) · Mishná 5 de 9

Os três nomes de Rabban Gamliel: Pessach, matzá e maror

רַבָּן גַּמְלִיאֵל הָיָה אוֹמֵר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Traz o ensinamento central de Rabban Gamliel sobre a estrutura obrigatória da noite do Seder: não basta comer o Pessach, a matzá e o maror — é preciso também explicar em voz alta o motivo de cada um desses três elementos. A mishná encerra com a exigência mais ampla de toda a noite: que cada pessoa, em cada geração, se veja como se ela mesma tivesse pessoalmente saído do Egito, culminando na obrigação de agradecer e louvar a Deus por essa libertação.

Rabban Gamliel dizia: todo aquele que não disse estas três palavras no Pessach não cumpriu sua obrigação, e são elas: Pessach, matzá e maror.Não basta comer os três elementos centrais do Seder; segundo Rabban Gamliel, é uma obrigação essencial da noite explicar verbalmente, em voz alta, o motivo e o significado de cada um deles — sem essa explicação, a pessoa não cumpriu integralmente sua obrigação da noite.

Pessach, porque o Onipresente saltou sobre as casas de nossos pais no Egito. Matzá, porque nossos pais foram redimidos no Egito. Maror, porque os egípcios amargaram a vida de nossos pais no Egito.Cada elemento carrega seu próprio significado histórico específico: o korban Pessach relembra o momento em que Deus “saltou” — passou por cima — das casas marcadas dos israelitas durante a décima praga, poupando seus primogênitos; a matzá relembra a pressa da própria redenção, quando a massa não teve tempo de crescer; e o maror relembra a amargura da escravidão que os egípcios impuseram aos israelitas.

Em cada geração a pessoa é obrigada a se ver como se ela mesma tivesse saído do Egito, como está dito: “E contarás a teu filho naquele dia, dizendo: por causa disto fez o Eterno por mim, ao eu sair do Egito.”Não basta relatar o êxodo como um evento histórico distante; a mishná exige uma identificação pessoal e vívida, em que cada indivíduo, em cada geração subsequente, sinta como se a própria libertação tivesse acontecido consigo mesmo, apoiando-se no versículo que fala em primeira pessoa: “fez o Eterno por mim”.

Por isso somos obrigados a agradecer, louvar, glorificar, honrar, exaltar, enaltecer, abençoar, elevar e aclamar Àquele que fez por nossos pais e por nós todos estes milagres — nos tirou da escravidão para a liberdade, do pesar para a alegria, do luto para a festa, da escuridão para a grande luz, e da servidão para a redenção; e diremos diante dEle: Halelucá!Essa identificação pessoal com a experiência da libertação culmina na exigência de expressar gratidão com o máximo possível de expressões de louvor, reconhecendo cada uma das transformações radicais operadas pelo êxodo — de escravos a livres, de tristeza a alegria — e concluindo com a recitação do Halel, o conjunto de salmos de louvor.

רַבָּן גַּמְלִיאֵל הָיָה אוֹמֵר, כָּל שֶׁלֹּא אָמַר שְׁלֹשָׁה דְבָרִים אֵלּוּ בְּפֶסַח, לֹא יָצָא יְדֵי חוֹבָתוֹ, וְאֵלּוּ הֵן, פֶּסַח, מַצָּה, וּמָרוֹר. פֶּסַח, עַל שׁוּם שֶׁפָּסַח הַמָּקוֹם עַל בָּתֵּי אֲבוֹתֵינוּ בְמִצְרַיִם. מַצָּה, עַל שׁוּם שֶׁנִּגְאֲלוּ אֲבוֹתֵינוּ בְמִצְרַיִם. מָרוֹר, עַל שׁוּם שֶׁמֵּרְרוּ הַמִּצְרִים אֶת חַיֵּי אֲבוֹתֵינוּ בְמִצְרָיִם. בְּכָל דּוֹר וָדוֹר חַיָּב אָדָם לִרְאוֹת אֶת עַצְמוֹ כְאִלּוּ הוּא יָצָא מִמִּצְרַיִם, שֶׁנֶּאֱמַר, וְהִגַּדְתָּ לְבִנְךָ בַּיּוֹם הַהוּא לֵאמֹר, בַּעֲבוּר זֶה עָשָׂה ה' לִי בְּצֵאתִי מִמִּצְרָיִם. לְפִיכָךְ אֲנַחְנוּ חַיָּבִין לְהוֹדוֹת, לְהַלֵּל, לְשַׁבֵּחַ, לְפָאֵר, לְרוֹמֵם, לְהַדֵּר, לְבָרֵךְ, לְעַלֵּה, וּלְקַלֵּס, לְמִי שֶׁעָשָׂה לַאֲבוֹתֵינוּ וְלָנוּ אֶת כָּל הַנִּסִּים הָאֵלּוּ, הוֹצִיאָנוּ מֵעַבְדוּת לְחֵרוּת, מִיָּגוֹן לְשִׂמְחָה, וּמֵאֵבֶל לְיוֹם טוֹב, וּמֵאֲפֵלָה לְאוֹר גָּדוֹל, וּמִשִּׁעְבּוּד לִגְאֻלָּה. וְנֹאמַר לְפָנָיו, הַלְלוּיָהּ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 13:8
וְהִגַּדְתָּ לְבִנְךָ בַּיּוֹם הַהוּא לֵאמֹר, בַּעֲבוּר זֶה עָשָׂה ה׳ לִי בְּצֵאתִי מִמִּצְרָיִם.
E contarás a teu filho naquele dia, dizendo: por causa disto fez o Eterno por mim, ao eu sair do Egito.

É a formulação exata deste versículo, em primeira pessoa — “fez o Eterno por mim” —, que serve de base direta à exigência mais radical da mishná: que cada pessoa, em cada geração, se veja como se ela mesma, pessoalmente, tivesse saído do Egito. O versículo não diz “por causa disto fez o Eterno pelos nossos pais”, mas “por mim”; essa formulação em primeira pessoa transforma o relato do êxodo de uma simples lição de história para uma experiência de identificação vivida e renovada a cada ano, na qual cada participante do Seder é convocado a sentir-se como um dos que efetivamente saíram da escravidão egípcia rumo à liberdade.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam, no Perush HaMishná, confirma que a halachá segue integralmente Rabban Gamliel quanto à obrigação de explicar os três nomes.

Rambam · Perush HaMishná, Pessachim 10:5
רַבָּן גַּמְלִיאֵל הָיָה אוֹמֵר כָּל שֶׁלֹּא אָמַר שְׁלֹשָׁה דְבָרִים אֵלּוּ כוּ׳. וְהַהֲלָכָה כְּרַבָּן גַּמְלִיאֵל.

Rabban Gamliel dizia: todo aquele que não disse estas três palavras etc. E a halachá é como Rabban Gamliel.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura esclarece que “não disse” significa não explicou o motivo de cada elemento; Rashi, na Guemará, detalha o costume prático de erguer a matzá — mas não a carne — ao pronunciar cada nome.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Pessachim 10:5
כָּל שֶׁלֹּא אָמַר שְׁלֹשָׁה דְבָרִים אֵלּוּ. שֶׁלֹּא פֵרֵשׁ טַעְמָן שֶׁל שְׁלֹשָׁה דְבָרִים הַלָּלוּ.

“Todo aquele que não disse estas três palavras” — quem não explicou o motivo destas três coisas.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Pessachim 116b
גְּמָ' צָרִיךְ לְהַגְבִּיהַּ — כְּשֶׁהוּא אוֹמֵר מַצָּה זוֹ שֶׁאָנוּ אוֹכְלִין: בָּשָׂר אֵין מַגְבִּיהַּ — כְּשֶׁהוּא אוֹמֵר פֶּסַח שֶׁהָיוּ אֲבוֹתֵינוּ בְּמִצְרַיִם אוֹכְלִים, לֹא יַגְבִּיהַּ הַבָּשָׂר שֶׁהוּא זֵכֶר לַפֶּסַח: אֵין צָרִיךְ לְהַגְבִּיהַּ — דְּהָא לֹא מָצֵי לְמֵימַר פֶּסַח זֶה.

“Guemará: precisa erguer” — quando diz “esta matzá que comemos”.

“Carne não se ergue” — quando diz “o Pessach que nossos pais comiam no Egito”, não erguerá a carne que é lembrança do korban Pessach.

“Não precisa erguer” — pois não pode dizer “este Pessach”, já que não há mais o korban propriamente dito.