Rabban Gamliel dizia: todo aquele que não disse estas três palavras no Pessach não cumpriu sua obrigação, e são elas: Pessach, matzá e maror. — Não basta comer os três elementos centrais do Seder; segundo Rabban Gamliel, é uma obrigação essencial da noite explicar verbalmente, em voz alta, o motivo e o significado de cada um deles — sem essa explicação, a pessoa não cumpriu integralmente sua obrigação da noite.
Pessach, porque o Onipresente saltou sobre as casas de nossos pais no Egito. Matzá, porque nossos pais foram redimidos no Egito. Maror, porque os egípcios amargaram a vida de nossos pais no Egito. — Cada elemento carrega seu próprio significado histórico específico: o korban Pessach relembra o momento em que Deus “saltou” — passou por cima — das casas marcadas dos israelitas durante a décima praga, poupando seus primogênitos; a matzá relembra a pressa da própria redenção, quando a massa não teve tempo de crescer; e o maror relembra a amargura da escravidão que os egípcios impuseram aos israelitas.
Em cada geração a pessoa é obrigada a se ver como se ela mesma tivesse saído do Egito, como está dito: “E contarás a teu filho naquele dia, dizendo: por causa disto fez o Eterno por mim, ao eu sair do Egito.” — Não basta relatar o êxodo como um evento histórico distante; a mishná exige uma identificação pessoal e vívida, em que cada indivíduo, em cada geração subsequente, sinta como se a própria libertação tivesse acontecido consigo mesmo, apoiando-se no versículo que fala em primeira pessoa: “fez o Eterno por mim”.
Por isso somos obrigados a agradecer, louvar, glorificar, honrar, exaltar, enaltecer, abençoar, elevar e aclamar Àquele que fez por nossos pais e por nós todos estes milagres — nos tirou da escravidão para a liberdade, do pesar para a alegria, do luto para a festa, da escuridão para a grande luz, e da servidão para a redenção; e diremos diante dEle: Halelucá! — Essa identificação pessoal com a experiência da libertação culmina na exigência de expressar gratidão com o máximo possível de expressões de louvor, reconhecendo cada uma das transformações radicais operadas pelo êxodo — de escravos a livres, de tristeza a alegria — e concluindo com a recitação do Halel, o conjunto de salmos de louvor.
É a formulação exata deste versículo, em primeira pessoa — “fez o Eterno por mim” —, que serve de base direta à exigência mais radical da mishná: que cada pessoa, em cada geração, se veja como se ela mesma, pessoalmente, tivesse saído do Egito. O versículo não diz “por causa disto fez o Eterno pelos nossos pais”, mas “por mim”; essa formulação em primeira pessoa transforma o relato do êxodo de uma simples lição de história para uma experiência de identificação vivida e renovada a cada ano, na qual cada participante do Seder é convocado a sentir-se como um dos que efetivamente saíram da escravidão egípcia rumo à liberdade.
O Rambam, no Perush HaMishná, confirma que a halachá segue integralmente Rabban Gamliel quanto à obrigação de explicar os três nomes.
Rabban Gamliel dizia: todo aquele que não disse estas três palavras etc. E a halachá é como Rabban Gamliel.
Bartenura esclarece que “não disse” significa não explicou o motivo de cada elemento; Rashi, na Guemará, detalha o costume prático de erguer a matzá — mas não a carne — ao pronunciar cada nome.
“Todo aquele que não disse estas três palavras” — quem não explicou o motivo destas três coisas.
“Guemará: precisa erguer” — quando diz “esta matzá que comemos”.
“Carne não se ergue” — quando diz “o Pessach que nossos pais comiam no Egito”, não erguerá a carne que é lembrança do korban Pessach.
“Não precisa erguer” — pois não pode dizer “este Pessach”, já que não há mais o korban propriamente dito.