Seder Moed · Massechet Pessachim · Perek Alef · Mishná 2 de 7

Não se teme que a doninha tenha arrastado o chametz

אֵין חוֹשְׁשִׁין שֶׁמָּא גָרְרָה חֻלְדָּה
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Uma mishná breve que estabelece um limite lógico para a preocupação com o chametz: depois de concluída a busca, não se teme que um animal tenha arrastado pão de um cômodo já revistado para outro, pois um temor desse tipo, se levado a sério, jamais teria fim.

Não se teme que uma doninha tenha arrastado o chametz de uma casa para outra, ou de um lugar para outro.depois de concluída a busca minuciosa em um cômodo, não é preciso temer que, enquanto se passa a revistar o cômodo seguinte, uma doninha ou outro animal pequeno tenha carregado um pedaço de chametz do lugar já revistado para o lugar ainda por revistar, exigindo assim repetir a busca no primeiro cômodo.

Pois, se assim fosse, também se deveria temer de um pátio para outro pátio, e de uma cidade para outra cidade, e a coisa não teria fim.a mishná justifica por que esse temor é descartado: se ele fosse levado a sério, não haveria razão para limitá-lo à própria casa — o mesmo raciocínio se aplicaria entre pátios vizinhos, e até entre cidades diferentes, tornando impossível encerrar a busca; por isso os sábios estabeleceram que, uma vez concluída a busca em determinado lugar, presume-se que ele permanece livre de chametz.

אֵין חוֹשְׁשִׁין שֶׁמָּא גָרְרָה חֻלְדָּה מִבַּיִת לְבַיִת וּמִמָּקוֹם לְמָקוֹם, דְּאִם כֵּן, מֵחָצֵר לְחָצֵר וּמֵעִיר לְעִיר, אֵין לַדָּבָר סוֹף:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 12:19
שִׁבְעַת יָמִים שְׂאֹר לֹא יִמָּצֵא בְּבָתֵּיכֶם כִּי כָּל־אֹכֵל מַחְמֶצֶת וְנִכְרְתָה הַנֶּפֶשׁ הַהִוא מֵעֲדַת יִשְׂרָאֵל בַּגֵּר וּבְאֶזְרַח הָאָרֶץ׃
Sete dias fermento não se achará em vossas casas, pois todo aquele que comer o que é fermentado, será extirpada aquela alma da congregação de Israel, seja peregrino, seja natural da terra.

O versículo exige que o fermento "não se ache" em casa, e é justamente esse padrão que a mishná vem delimitar. A obrigação de buscar o chametz existe para garantir o cumprimento desse "não se achará"; mas a Torá não exige uma certeza absoluta e infinita, apenas uma busca diligente e razoável. Por isso, uma vez feita a busca em cada cômodo, presume-se cumprida a obrigação, sem que se precise temer possibilidades remotas e sem fim, como o deslocamento de migalhas por um animal de um lugar já revistado para outro — pois, levado a esse extremo, o "não se achará" jamais poderia ser verificado com certeza.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica esta regra, explicitando o limite entre uma cidade e outra como o caso extremo que demonstra o absurdo do temor infinito.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Chametz uMatzá 2:7
אֵין חוֹשְׁשִׁין שֶׁמָּא גָּרְרָה חֻלְדָּה חָמֵץ לְמָקוֹם שֶׁאֵין מַכְנִיסִין בּוֹ חָמֵץ, שֶׁאִם נָחוּשׁ מִבַּיִת לְבַיִת, נָחוּשׁ מֵעִיר לְעִיר, וְאֵין לַדָּבָר סוֹף:

Não se teme que uma doninha tenha arrastado chametz para um lugar onde não se costuma trazer chametz; pois, se temêssemos de uma casa para outra, teríamos de temer de uma cidade para outra, e a coisa não teria fim.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam esclarece o sentido simples do termo "arrastar"; Bartenura explica o cenário concreto de uma busca em andamento entre cômodos; Rashi, na Guemará, confirma a mesma leitura.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Pessachim 1:2
אֵין חוֹשְׁשִׁין שֶׁמָּא גָרְרָה חֻלְדָּה מִבַּיִת לְבַיִת כוּ': גָּרְרָה עִנְיָנוֹ יָדוּעַ, כְּמוֹ "גּוֹרֵר אָדָם מִטָּה כִּסֵּא וְסַפְסָל" (שַׁבָּת דַּף כב), מִגִּזְרַת "הַנִּגָּרִים אַרְצָה" (שְׁמוּאֵל ב יד). וְחֻלְדָּה גַּם כֵּן יָדוּעַ:

"Não se teme que uma doninha tenha arrastado de uma casa para outra, etc.": o sentido de "garerah" (arrastou) é conhecido, como em "um homem pode arrastar uma cama, uma cadeira e um banco" (Shabat 22a), da mesma raiz de "os derramados por terra" (II Shemuel 14); e "chulda" (doninha) também é palavra conhecida.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Pessachim 1:2
אֵין חוֹשְׁשִׁין. כְּשֶׁבָּדַק הַבַּיִת בְּזָוִית זוֹ וּבָא לִבְדֹּק זָוִית זוֹ, אֵין חוֹשְׁשִׁין שֶׁמָּא בְּתוֹךְ שֶׁבָּאתִי לְזוֹ גֵּרְרָה חֻלְדָּה לַמָּקוֹם הַבָּדוּק, וְצָרִיךְ אֲנִי לַחְזֹר וְלִבְדֹּק. שֶׁאִם בָּאתָ לָחוּשׁ לְכָךְ, הֲרֵי גַּם מֵחָצֵר לְחָצֵר יֵשׁ לוֹמַר כֵּן.

"Não se teme" — quando se revistou a casa neste canto e se vai revistar aquele outro canto, não se teme que, enquanto se caminhava de um para o outro, uma doninha tenha arrastado chametz para o lugar já revistado, exigindo repetir a busca ali.

Pois, se você viesse a temer por isso, o mesmo se poderia dizer de um pátio para outro pátio — e assim sucessivamente, sem limite algum.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Pessachim 9a
מַתְנִי' אֵין חוֹשְׁשִׁין שֶׁמָּא גֵּרְרָה חֻלְדָּה כוּ' — אֵין חוֹשְׁשִׁין כְּשֶׁבָּדַק זָוִית זוֹ וּבָא לִבְדֹּק זוֹ, שֶׁמָּא בְּתוֹךְ שֶׁבָּא לִבְדֹּק זוֹ גֵּרְרָה חֻלְדָּה חָמֵץ לַמָּקוֹם הַבָּדוּק, וְצָרִיכְנָא לַחְזֹר וְלִבְדֹּק: שֶׁאִם כֵּן — שֶׁבָּאתָ לָחוּשׁ לְכָךְ, הֲרֵי גַּם מֵחָצֵר לְחָצֵר יֵשׁ לוֹמַר כָּךְ, אֲנִי בָּדַקְתִּי קֹדֶם לַחֲבֵרִי, וּלְאַחַר בְּדִיקָתִי הֵבִיאָה חֻלְדָּה חָמֵץ מֵחֲצַר חֲבֵרִי לְחָצְרִי, וְאֵין לַדָּבָר סוֹף. וְלָאו חָצֵר מַמָּשׁ קָאָמַר, אֶלָּא כָּל בָּתֵּי הֶחָצֵר קָרוּי חָצֵר:

Nossa mishná — "não se teme que uma doninha tenha arrastado, etc." — não se teme que, quando já se revistou este canto e se vai revistar aquele, tenha uma doninha arrastado chametz, enquanto isso, para o lugar já revistado, exigindo repetir a busca.

"Pois se assim fosse" — se você viesse a temer por isso, o mesmo se poderia dizer de um pátio para outro pátio: eu revistei antes do meu vizinho, e depois da minha busca uma doninha trouxe chametz do pátio do meu vizinho para o meu — e a coisa não teria fim. E não se refere a um pátio no sentido literal, mas a todo o conjunto de casas de um pátio, que se chama "pátio".