Na noite que antecede o dia catorze de Nissan, busca-se o chametz à luz da vela. — na véspera do catorze de Nissan, ao anoitecer, quando o dia catorze já começou segundo a contagem judaica que inicia a noite, os sábios instituíram que se faça uma busca minuciosa pela casa em busca de chametz, e essa busca deve ser feita à luz de uma vela — não à luz do dia, do sol ou de uma tocha —, pois a chama pequena e concentrada da vela é mais eficaz para alcançar cantos e fendas escuras.
Todo lugar onde não se costuma trazer chametz não precisa de busca. — a obrigação de buscar não é absoluta: aplica-se apenas aos lugares onde há razão para supor que chametz possa ter sido levado, como os cômodos de morar e os locais de armazenar comida; lugares que, por sua natureza, nunca recebem pão ou massa fermentada — como um celeiro de gado ou um depósito fechado — ficam dispensados dessa busca.
E por que disseram duas fileiras na adega? Porque é um lugar onde se costuma trazer chametz. — a mishná explica por que, apesar da regra anterior, os sábios exigiram a busca de fileiras específicas de barris na adega de vinho: porque ali, mesmo sendo um depósito, era hábito trazer pão para acompanhar o vinho enquanto se trabalhava, tornando-a um lugar onde chametz de fato costumava entrar.
Beit Shamai diz: duas fileiras ao longo de toda a adega. E Beit Hilel diz: as duas fileiras externas, que são as de cima. — as duas escolas discordam sobre o alcance da busca: Beit Shamai exige revistar duas fileiras completas de barris, ao longo de todo o comprimento da adega, enquanto Beit Hilel considera suficiente revistar apenas as duas fileiras externas e superiores, mais próximas da entrada e mais acessíveis a quem ali trabalhava, sem necessidade de adentrar as fileiras internas.
É este versículo, exigindo que o fermento "não se ache" em casa durante os sete dias da festa, que fundamenta a obrigação rabínica de buscar o chametz na véspera. A Torá proíbe apenas a permanência do chametz, sem detalhar como garantir sua ausência; os sábios, entendendo que a mera intenção de não possuí-lo não bastaria para evitar transgressões inadvertidas, instituíram a busca ativa, à luz da vela, na noite anterior ao início da proibição. A regra de que "todo lugar onde não se costuma trazer chametz não precisa de busca" já reflete essa lógica: a obrigação de buscar existe apenas onde há razão real para temer que o fermento proibido pelo versículo esteja presente.
O Rambam codifica a mitzvá de eliminar o chametz antes do prazo bíblico e a instituição rabínica da busca à luz da vela na noite de catorze de Nissan.
É mitzvá positiva de origem bíblica eliminar o chametz antes do tempo em que sua consumação se torna proibida, como está dito, "no primeiro dia eliminareis o fermento de vossas casas"... E é por palavra dos sábios buscar o chametz nos esconderijos e nas fendas, revistá-lo e removê-lo de todo o seu domínio; e assim também é por palavra dos sábios que se busca e se elimina o chametz durante a noite, a partir do início da noite de catorze, à luz da vela, porque à noite todo o povo se encontra em casa.
Rambam explica o uso da palavra "or" para a noite e a razão da adega de vinho; Bartenura detalha o motivo da busca à luz da vela; Rashi, na Guemará, situa cada termo desde a abertura do tratado.
"Na noite que antecede o dia catorze de Nissan busca-se o chametz à luz da vela, etc.": a busca do chametz precisa ser feita na noite de catorze, ainda que ele não fique proibido na alimentação senão a partir do meio-dia de catorze. E instituíram isso assim porque a luz da vela à noite é apropriada para a busca, e as pessoas costumam estar em suas casas naquele momento.
Chama-se a noite de "or" (luz) do mesmo modo que muitas coisas são chamadas por seu oposto, e nisso houve a intenção de falar em linguagem positiva. E "martef" é o nome do depósito de vinho.
"Na noite que antecede o dia catorze de Nissan" — a noite cujo dia seguinte será catorze; e o tanna chama a noite de "or" (luz), do mesmo modo que se chama o cego de "sagui nehor" (o de muita luz), usando linguagem eufemística e positiva.
"Busca-se o chametz" — há quem explique a razão da busca: para que não se transgrida "não se verá" e "não se achará", caso haja chametz em sua casa.
"À luz da vela" — na Guemará se deduz que a busca do chametz precisa ser feita à luz da vela.
"Duas fileiras" — de barris dispostos na adega de vinho, é preciso buscar entre eles.
Nossa mishná — deve-se ler "na noite que antecede o dia catorze". "À luz da vela" — na Guemará (folha 7b) explica-se a razão.
"Busca-se" — para que não se transgrida "não se verá" e "não se achará".
"E por que disseram" — isso será explicado adiante na própria mishná.
"Duas fileiras" — de barris dispostos na adega de vinho, é preciso buscar entre eles; depois de termos dito que todo lugar onde não se costuma trazer chametz não precisa de busca, por que precisariam buscar ali? E se explica que isso só foi dito de uma adega onde se costuma trazer chametz, como a adega da qual se retira vinho para consumo direto.
"Duas fileiras ao longo de toda a adega" — na Guemará (folha 8b) se explica qual é o alcance dessa medida.
"As duas fileiras externas etc." — explica-se na Guemará (mesmo local).