Seder Moed · Massechet Pessachim · Perek Alef · Mishná 1 de 7

A busca do chametz à luz da vela

אוֹר לְאַרְבָּעָה עָשָׂר בּוֹדְקִין אֶת הֶחָמֵץ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Massechet Pessachim abre com a mitzvá de eliminar o chametz antes da chegada da proibição de comê-lo: a busca é feita na noite que antecede o dia catorze de Nissan, à luz de uma vela, e os sábios estabelecem quais lugares exigem essa busca e quais não, tomando como exemplo a adega de vinho, onde Beit Shamai e Beit Hilel discordam sobre quantas fileiras de barris é preciso revistar.

Na noite que antecede o dia catorze de Nissan, busca-se o chametz à luz da vela.na véspera do catorze de Nissan, ao anoitecer, quando o dia catorze já começou segundo a contagem judaica que inicia a noite, os sábios instituíram que se faça uma busca minuciosa pela casa em busca de chametz, e essa busca deve ser feita à luz de uma vela — não à luz do dia, do sol ou de uma tocha —, pois a chama pequena e concentrada da vela é mais eficaz para alcançar cantos e fendas escuras.

Todo lugar onde não se costuma trazer chametz não precisa de busca.a obrigação de buscar não é absoluta: aplica-se apenas aos lugares onde há razão para supor que chametz possa ter sido levado, como os cômodos de morar e os locais de armazenar comida; lugares que, por sua natureza, nunca recebem pão ou massa fermentada — como um celeiro de gado ou um depósito fechado — ficam dispensados dessa busca.

E por que disseram duas fileiras na adega? Porque é um lugar onde se costuma trazer chametz.a mishná explica por que, apesar da regra anterior, os sábios exigiram a busca de fileiras específicas de barris na adega de vinho: porque ali, mesmo sendo um depósito, era hábito trazer pão para acompanhar o vinho enquanto se trabalhava, tornando-a um lugar onde chametz de fato costumava entrar.

Beit Shamai diz: duas fileiras ao longo de toda a adega. E Beit Hilel diz: as duas fileiras externas, que são as de cima.as duas escolas discordam sobre o alcance da busca: Beit Shamai exige revistar duas fileiras completas de barris, ao longo de todo o comprimento da adega, enquanto Beit Hilel considera suficiente revistar apenas as duas fileiras externas e superiores, mais próximas da entrada e mais acessíveis a quem ali trabalhava, sem necessidade de adentrar as fileiras internas.

אוֹר לְאַרְבָּעָה עָשָׂר, בּוֹדְקִין אֶת הֶחָמֵץ לְאוֹר הַנֵּר. כָּל מָקוֹם שֶׁאֵין מַכְנִיסִין בּוֹ חָמֵץ אֵין צָרִיךְ בְּדִיקָה. וְלָמָה אָמְרוּ שְׁתֵּי שׁוּרוֹת בַּמַּרְתֵּף, מָקוֹם שֶׁמַּכְנִיסִין בּוֹ חָמֵץ. בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, שְׁתֵּי שׁוּרוֹת עַל פְּנֵי כָל הַמַּרְתֵּף. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, שְׁתֵּי שׁוּרוֹת הַחִיצוֹנוֹת שֶׁהֵן הָעֶלְיוֹנוֹת:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

Shemot 12:19
שִׁבְעַת יָמִים שְׂאֹר לֹא יִמָּצֵא בְּבָתֵּיכֶם כִּי כָּל־אֹכֵל מַחְמֶצֶת וְנִכְרְתָה הַנֶּפֶשׁ הַהִוא מֵעֲדַת יִשְׂרָאֵל בַּגֵּר וּבְאֶזְרַח הָאָרֶץ׃
Sete dias fermento não se achará em vossas casas, pois todo aquele que comer o que é fermentado, será extirpada aquela alma da congregação de Israel, seja peregrino, seja natural da terra.

É este versículo, exigindo que o fermento "não se ache" em casa durante os sete dias da festa, que fundamenta a obrigação rabínica de buscar o chametz na véspera. A Torá proíbe apenas a permanência do chametz, sem detalhar como garantir sua ausência; os sábios, entendendo que a mera intenção de não possuí-lo não bastaria para evitar transgressões inadvertidas, instituíram a busca ativa, à luz da vela, na noite anterior ao início da proibição. A regra de que "todo lugar onde não se costuma trazer chametz não precisa de busca" já reflete essa lógica: a obrigação de buscar existe apenas onde há razão real para temer que o fermento proibido pelo versículo esteja presente.

Halachot · הֲלָכוֹת

O Rambam codifica a mitzvá de eliminar o chametz antes do prazo bíblico e a instituição rabínica da busca à luz da vela na noite de catorze de Nissan.

Rambam · Mishné Torá, Hilchot Chametz uMatzá 2:1, 3
מִצְוַת עֲשֵׂה מִן הַתּוֹרָה לְהַשְׁבִּית הֶחָמֵץ קֹדֶם זְמַן אִסּוּר אֲכִילָתוֹ שֶׁנֶּאֱמַר בַּיּוֹם הָרִאשׁוֹן תַּשְׁבִּיתוּ שְּׂאֹר מִבָּתֵּיכֶם... וּמִדִּבְרֵי סוֹפְרִים לְחַפֵּשׂ אַחַר הֶחָמֵץ בַּמַּחֲבוֹאוֹת וּבַחוֹרִים וְלִבְדֹּק וּלְהוֹצִיאוֹ מִכָּל גְּבוּלוֹ. וְכֵן מִדִּבְרֵי סוֹפְרִים שֶׁבּוֹדְקִין וּמַשְׁבִּיתִין הֶחָמֵץ בַּלַּיְלָה מִתְּחִלַּת לֵיל אַרְבָּעָה עָשָׂר לְאוֹר הַנֵּר, מִפְּנֵי שֶׁבַּלַּיְלָה כָּל הָעָם מְצוּיִין בַּבָּתִּים:

É mitzvá positiva de origem bíblica eliminar o chametz antes do tempo em que sua consumação se torna proibida, como está dito, "no primeiro dia eliminareis o fermento de vossas casas"... E é por palavra dos sábios buscar o chametz nos esconderijos e nas fendas, revistá-lo e removê-lo de todo o seu domínio; e assim também é por palavra dos sábios que se busca e se elimina o chametz durante a noite, a partir do início da noite de catorze, à luz da vela, porque à noite todo o povo se encontra em casa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rambam explica o uso da palavra "or" para a noite e a razão da adega de vinho; Bartenura detalha o motivo da busca à luz da vela; Rashi, na Guemará, situa cada termo desde a abertura do tratado.

Rambam · פֵּרוּשׁ הַמִּשְׁנָה
Comentário à Mishná, Pessachim 1:1
אוֹר לְאַרְבָּעָה עָשָׂר בּוֹדְקִין אֶת הֶחָמֵץ לְאוֹר הַנֵּר כוּ': בְּדִיקַת הֶחָמֵץ צָרִיךְ שֶׁיִּהְיֶה בְּלֵיל י"ד, אַף עַל פִּי שֶׁאֵינוֹ אָסוּר בּוֹ בַּאֲכִילָה עַד חֲצוֹת לְיוֹם י"ד. וְתִקְּנוּ זֶה לְפִי שֶׁאוֹר הַנֵּר בַּלַּיְלָה יָפֶה לִבְדִיקָה, וּבְנֵי אָדָם מְצוּיִים בְּבָתֵּיהֶם בְּאוֹתָהּ הָעֵת. נִקְרָא לַיְלָה "אוֹר" כְּמוֹ שֶׁקּוֹרִין דְּבָרִים הַרְבֵּה בְּהִפּוּכָן, וְכִוֵּן בָּזֶה כְּדֵי לְדַבֵּר בְּלִישָׁנָא מְעַלְיָא. וּמַרְתֵּף — שֵׁם אוֹצַר הַיַּיִן.

"Na noite que antecede o dia catorze de Nissan busca-se o chametz à luz da vela, etc.": a busca do chametz precisa ser feita na noite de catorze, ainda que ele não fique proibido na alimentação senão a partir do meio-dia de catorze. E instituíram isso assim porque a luz da vela à noite é apropriada para a busca, e as pessoas costumam estar em suas casas naquele momento.

Chama-se a noite de "or" (luz) do mesmo modo que muitas coisas são chamadas por seu oposto, e nisso houve a intenção de falar em linguagem positiva. E "martef" é o nome do depósito de vinho.

Bartenura · בַּרְטְנוּרָא
Comentário à Mishná, Pessachim 1:1
אוֹר לְאַרְבָּעָה עָשָׂר. לֵיל שֶׁלְּמָחֳרָתוֹ יִהְיֶה אַרְבָּעָה עָשָׂר. וְקוֹרֵא הַתַּנָּא לַלַּיְלָה אוֹר, כְּדֶרֶךְ שֶׁקּוֹרִין לְעִוֵּר סַגִּי נְהוֹר, וְלִישָׁנָא מְעַלְיָא נָקַט: בּוֹדְקִין אֶת הֶחָמֵץ. אִית דִּמְפָרְשֵׁי טַעֲמָא דִבְדִיקָה, כְּדֵי שֶׁלֹּא יַעֲבֹר עַל בַּל יֵרָאֶה וּבַל יִמָּצֵא, אִם יִהְיֶה חָמֵץ בְּבֵיתוֹ: לְאוֹר הַנֵּר. בַּגְּמָרָא יָלֵיף דִּבְדִיקַת חָמֵץ צְרִיכָה שֶׁתְּהֵא לְאוֹר הַנֵּר. שְׁתֵּי שׁוּרוֹת. שֶׁל חָבִיּוֹת הַסְּדוּרוֹת בְּמַרְתֵּף שֶׁל יַיִן, צָרִיךְ לִבְדֹּק בֵּינֵיהֶן.

"Na noite que antecede o dia catorze de Nissan" — a noite cujo dia seguinte será catorze; e o tanna chama a noite de "or" (luz), do mesmo modo que se chama o cego de "sagui nehor" (o de muita luz), usando linguagem eufemística e positiva.

"Busca-se o chametz" — há quem explique a razão da busca: para que não se transgrida "não se verá" e "não se achará", caso haja chametz em sua casa.

"À luz da vela" — na Guemará se deduz que a busca do chametz precisa ser feita à luz da vela.

"Duas fileiras" — de barris dispostos na adega de vinho, é preciso buscar entre eles.

Rashi · רַשִׁ״י
Comentário à Guemará, Pessachim 2a
מַתְנִי' אוֹר לְאַרְבָּעָה עָשָׂר גָּרְסִי': לְאוֹר הַנֵּר — בַּגְּמָרָא (דַּף ז:) מְפָרֵשׁ טַעְמָא: בּוֹדְקִין — שֶׁלֹּא יַעֲבֹר עָלָיו בְּבַל יֵרָאֶה וּבְבַל יִמָּצֵא: וּבַמֶּה אָמְרוּ — לְקַמָּן בְּמַתְנִיתִין: שְׁתֵּי שׁוּרוֹת — שֶׁל חָבִיּוֹת הַסְּדוּרוֹת בְּמַרְתֵּף שֶׁל יַיִן, צָרִיךְ לִבְדֹּק בֵּינֵיהֶם, אַחֲרֵי שֶׁאָמַרְנוּ כָּל מָקוֹם שֶׁאֵין מַכְנִיסִין בּוֹ חָמֵץ אֵין צָרִיךְ לִבְדֹּק, לָמָּה הֻצְרְכוּ לְבָדְקָן, וּמְפָרֵשׁ לֹא אָמְרוּ אֶלָּא בְּמַרְתֵּף שֶׁמַּכְנִיסִין בּוֹ חָמֵץ, כְּגוֹן מַרְתֵּף שֶׁמִּסְתַּפֵּק מִמֶּנּוּ יַיִן: שְׁתֵּי שׁוּרוֹת עַל פְּנֵי כָל הַמַּרְתֵּף — בַּגְּמָרָא (דַּף ח:) מְפָרֵשׁ מַאי הִיא: שְׁתֵּי שׁוּרוֹת הַחִיצוֹנוֹת כוּ' — מְפָרֵשׁ בַּגְּמָרָא (שָׁם):

Nossa mishná — deve-se ler "na noite que antecede o dia catorze". "À luz da vela" — na Guemará (folha 7b) explica-se a razão.

"Busca-se" — para que não se transgrida "não se verá" e "não se achará".

"E por que disseram" — isso será explicado adiante na própria mishná.

"Duas fileiras" — de barris dispostos na adega de vinho, é preciso buscar entre eles; depois de termos dito que todo lugar onde não se costuma trazer chametz não precisa de busca, por que precisariam buscar ali? E se explica que isso só foi dito de uma adega onde se costuma trazer chametz, como a adega da qual se retira vinho para consumo direto.

"Duas fileiras ao longo de toda a adega" — na Guemará (folha 8b) se explica qual é o alcance dessa medida.

"As duas fileiras externas etc." — explica-se na Guemará (mesmo local).