Seder Tehorot · Massechet Pará · Perek Chet · Mishná 8 de 11

Os mares como mikvê: a disputa entre Rabi Meir, Rabi Yehudá e Rabi Yossei

כָּל הַיַּמִּים כְּמִקְוֶה, שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית א), וּלְמִקְוֵה הַמַּיִם קָרָא יַמִּים, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הַיָּם הַגָּדוֹל כְּמִקְוֶה, לֹא נֶאֱמַר יַמִּים, אֶלָּא שֶׁיֶּשׁ בּוֹ מִינֵי יַמִּים הַרְבֵּה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, כָּל הַיַּמִּים מְטַהֲרִין בְּזוֹחֲלִין, וּפְסוּלִין לַזָּבִים וְלַמְצֹרָעִים וּלְקַדֵּשׁ מֵהֶן מֵי חַטָּאת:
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Se os mares têm o estatuto de mikvê ou de fonte, e se são válidos para consagrar a água de chatat

Todos os mares são como um mikvê, pois foi dito (Bereshit 1): ‘e ao ajuntamento (mikvê) das águas Ele chamou mares’ — palavras de Rabi Meir. Rabi Yehudá diz: o Grande Mar é como um mikvê; não foi dito ‘mares’ senão porque há nele muitas espécies de mares. Rabi Yossei diz: todos os mares purificam quando fluentes (zochalin), mas são inválidos para os zavim, para os metzoraim e para consagrar deles a água de chatat.

A oitava mishná encerra a série de refrões sobre a transmissão indireta da impureza e retoma o tema central do tratado: as qualificações da própria água usada para a consagração. Abre-se aqui uma nova unidade (8:8 a 8:11) dedicada às fontes de água válidas e inválidas — mares, águas salgadas ou mornas, rios que se misturam, poços e canais. A mishná discute se os mares recebem o estatuto de ‘mikvê’ (água reunida e parada) ou o de ‘maayan’ (fonte, água viva e fluente), questão que determina se purificam apenas por imersão parada ou também em fluxo, e se servem para consagrar a água de expiação, que exige especificamente ‘água viva’ (mayim chayim).

כָּל הַיַּמִּים כְּמִקְוֶה, שֶׁנֶּאֱמַר (בראשית א), וּלְמִקְוֵה הַמַּיִם קָרָא יַמִּים, דִּבְרֵי רַבִּי מֵאִיר. רַבִּי יְהוּדָה אוֹמֵר, הַיָּם הַגָּדוֹל כְּמִקְוֶה, לֹא נֶאֱמַר יַמִּים, אֶלָּא שֶׁיֶּשׁ בּוֹ מִינֵי יַמִּים הַרְבֵּה. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, כָּל הַיַּמִּים מְטַהֲרִין בְּזוֹחֲלִין, וּפְסוּלִין לַזָּבִים וְלַמְצֹרָעִים וּלְקַדֵּשׁ מֵהֶן מֵי חַטָּאת:

Fontes bíblicas · מְקוֹרוֹת

Bereshit (Gênesis) 1:10
וַיִּקְרָא אֱלֹהִים לַיַּבָּשָׁה אֶרֶץ וּלְמִקְוֵה הַמַּיִם קָרָא יַמִּים וַיַּרְא אֱלֹהִים כִּי טוֹב׃

Bereshit 1:10 — "E Elokim chamou o seco de terra, e ao ajuntamento (mikvê) das águas chamou mares; e viu Elokim que era bom."

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Pará 8:8
כל הימים דינן דין המקוה ר"ל שאינן מים חיים כמו מי המעיין ואין ראוי בהן טבילה לזבים ולא ילקח מהם מים לטהרת מצורע ולמי חטאת רבי יהודה אומר שהים המקיף…

Todos os mares têm o estatuto do mikvê — isto é, que não são água viva como a água da fonte, e não são apropriados para a imersão dos zavim, e não se toma deles água para a purificação do metzorá nem para a água de chatat. Rabi Yehudá diz que apenas o Mar Circundante (o Mediterrâneo) é que tem o estatuto do mikvê e não é considerado como fonte; mas os demais mares são como água de fonte, e são apropriados para a imersão dos zavim e para consagrar deles a água de chatat. E o versículo chamou o Mar Circundante de ‘mares’ por haver nele todas as espécies de águas, e não porque todo mar se chame ‘mikvê’, como diria Rabi Meir.

E ‘zochalin’ são as águas que correm e fluem; e ainda se explicará em Mikvaot (capítulo 5) que a fonte purifica em (águas) fluentes — ou seja, que, se houvesse junto à fonte espécies de (águas) fluentes, nessas águas fluentes se poderia realizar a imersão, mesmo que sua medida fosse menor do que a da fonte; e não é assim com as águas que correm de um mikvê, que não purificam a menos que estejam reunidas na medida de quarenta se’ah, como ainda se explicará em Mikvaot (ibid.). E disse Rabi Yossei que os demais mares, além do Grande Mar, são considerados como fonte quanto a purificarem em (águas) fluentes, e que as águas que correm e fluem deles purificam em qualquer quantidade, como a fonte; mas são considerados como mikvê quanto a serem inválidos para a água de chatat, para a purificação do metzorá e para a imersão do zav. E a lei é como Rabi Yossei.

Bartenura · Pará 8:8
כָּל הַיַּמִּים כְּמִקְוֶה. לְכָל הָנֵי מִלֵּי דְּקָתָנֵי בְסוֹפוֹ. (וגם) אֵין מְטַהֲרִין…

Sobre “todos os mares são como um mikvê”: quanto a todas estas coisas ensinadas no final (da mishná) — (e também) não purificam quando fluentes, pois o mikvê só purifica quando (as águas estão) reunidas, não quando fluentes, como está escrito (Vayikrá 11): ‘porém a fonte…’ — a fonte purifica quando fluente, e o mikvê não purifica quando fluente.

Sobre “e são inválidos para os zavim”: pois o zav precisa de água viva, como está escrito (ibid. 15): ‘e lavará o seu corpo em água viva’; e para o metzorá, como está escrito (ibid. 14): ‘…sobre um recipiente de barro, sobre água viva’; e para a água de chatat, como está escrito (Bamidbar 19): ‘água viva num recipiente’.

Sobre “o Grande Mar é como um mikvê”: o versículo não chamou de ‘mikvê’ senão o Grande Mar, pois é dele que fala o versículo na narrativa da criação, onde se reuniram todas as águas da criação; e não foi dito ‘mares’ no plural senão porque nele se misturam muitas espécies de mares, pois todos os rios vão em direção a ele.

Sobre “Rabi Yossei diz”: todos os mares e o Grande Mar têm sobre eles a lei de fonte quanto a purificarem quando fluentes, porque os rios correm e fluem sobre eles; mas são inválidos quanto à lei de água viva, pois o versículo os chama de ‘mikvê’. E a lei é como Rabi Yossei.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Pará não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste tratado.