Seder Tehorot · Massechet Ohalot · Perek Dalet · Mishná 1 de 3

O armário e a impureza em sua espessura

מִגְדָּל שֶׁהוּא עוֹמֵד בָּאֲוִיר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abre o Perek Dálet com o armário de madeira — cujas próprias paredes têm um vão oco em sua espessura — parado ao ar livre, examinando a relação entre a impureza no vão interno e a impureza na espessura das paredes, com a disputa de Rabi Yosei sobre a divisão meio a meio; e o mesmo armário parado dentro da casa, com a regra dos utensílios situados entre ele e o chão, a parede ou as vigas

Um armário que está de pé ao ar livre: [havendo] impureza em seu interior, os utensílios que estão em sua espessura são puros. [Havendo] impureza em sua espessura, os utensílios que estão em seu interior são puros. Rabi Yosei diz: metade e metade. Se estava de pé dentro da casa: [havendo] impureza em seu interior, a casa é impura. [Havendo] impureza na casa, o que está em seu interior é puro, pois o caminho da impureza é sair, e não é seu caminho entrar. Utensílios que estão entre ele e o chão, entre ele e a parede, entre ele e as vigas: se há ali uma abertura de um palmo, são impuros; e se não há, são puros. [Havendo] impureza ali, a casa é impura.

Com esta mishná, abre-se o Perek Dálet, que passa do biv (cano de esgoto) e das demais cavidades naturais do capítulo anterior para um novo objeto arquitetônico: o migdal, um armário de madeira cujas próprias paredes duplas contêm um vão oco em sua espessura — usado para guardar agulhas, tubos e pequenos utensílios —, mas sem que esse vão tenha a abertura mínima de um palmo. Quando esse armário está de pé ao ar livre, ele funciona como dois ohalot superpostos e reciprocamente independentes: o vão interno principal e o vão da espessura das paredes. A impureza em um deles não afeta o outro, exatamente pela mesma lógica de reciprocidade já vista no biv de 3:7. Rabi Yosei discorda desse esquema binário e propõe uma terceira via: divide-se a espessura da parede ao meio, de modo que a metade voltada para dentro se equipare ao interior, e a metade voltada para fora se equipare ao exterior — halachá que não prevalece. Quando o mesmo armário está de pé dentro de uma casa, a mishná aplica o princípio do “ohel dentro de ohel”: se há impureza dentro do armário, ela se propaga também para a casa, pois o ohel externo (a casa) não protege contra a impureza que está sob um ohel interno; mas se a impureza está na casa, o interior do armário permanece protegido, pois o caminho da impureza é sair, não entrar. A mishná fecha examinando os utensílios guardados nos interstícios entre o armário e o chão, a parede ou as vigas da casa: se esses interstícios têm a medida de um palmo, eles se tornam impuros por qualquer impureza na casa; do contrário, permanecem protegidos — mas, havendo impureza precisamente nesses interstícios, toda a casa se torna impura, pois o armário não protege a casa da impureza que está sob ele mesmo.

מִגְדָּל שֶׁהוּא עוֹמֵד בָּאֲוִיר, טֻמְאָה בְתוֹכוֹ, כֵּלִים שֶׁבְּעָבְיוֹ טְהוֹרִים. טֻמְאָה בְעָבְיוֹ, כֵּלִים שֶׁבְּתוֹכוֹ טְהוֹרִים. רַבִּי יוֹסֵי אוֹמֵר, מֶחֱצָה לְמֶחֱצָה. הָיָה עוֹמֵד בְּתוֹךְ הַבַּיִת, טֻמְאָה בְתוֹכוֹ, הַבַּיִת טָמֵא. טֻמְאָה בַבַּיִת, מַה שֶּׁבְּתוֹכוֹ טָהוֹר, שֶׁדֶּרֶךְ הַטֻּמְאָה לָצֵאת וְאֵין דַּרְכָּהּ לְהִכָּנֵס. כֵּלִים שֶׁבֵּינוֹ לְבֵין הָאָרֶץ, שֶׁבֵּינוֹ לְבֵין הַכֹּתֶל, שֶׁבֵּינוֹ לְבֵין הַקּוֹרוֹת, אִם יֶשׁ שָׁם פּוֹתֵחַ טֶפַח, טְמֵאִין. וְאִם לָאו, טְהוֹרִין. טֻמְאָה שָׁם, הַבַּיִת טָמֵא:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Ohalot 4:1
עוֹמֵד בָּאֲוִיר — שֶׁלֹּא יְהֵא הַמִּגְדָּל תַּחַת אֹהֶל…

Sobre “de pé ao ar livre”: para que o armário não esteja sob um ohel, mas exposto ao céu. E havia nele câmaras que atravessavam sua espessura, entre estas duas tábuas [de suas paredes duplas]. E disse Rabi Yosei “metade e metade”: quer dizer que, se havia impureza em sua espessura, os utensílios que estão dentro do armário e que se estendem até a metade em que está a impureza são impuros, e os que se estendem até a outra metade são puros; e, do mesmo modo, se havia impureza em seu interior, a metade de sua espessura correspondente ao que se estende até o interior é impura.

Disse ainda que, quando esse armário está dentro da casa, ele é como uma casa dentro de outra casa; e os utensílios que estão entre ele e a parede não se tornam impuros, a menos que haja ali uma abertura de um palmo — e o mesmo vale entre ele e as vigas. E a versão da Tosefta é que consideramos as vigas como se descessem e fechassem [o espaço]. Outra explicação: a impureza não entra no ohel nem sai dele senão por uma abertura de um palmo. E disseram “impureza ali” — isto é, entre a parede e a parte de trás do armário, ou entre o teto da casa e o teto do armário, ou entre o chão do armário e o chão [da casa] —: a casa toda se torna impura, seja qual for o caso, porque essa impureza está dentro da casa, e o ohel não protege a impureza que está sob ele; pois o princípio que temos é que, se havia um ohel dentro de outro ohel, e a impureza estava sob o ohel interno, o ohel externo é impuro. E já mencionamos esse princípio no oitavo capítulo de Keilim, na formulação da Tosefta: “os ohalot protegem os puros de se tornarem impuros, mas não protegem os impuros de tornarem [outros] impuros” — e guarda-se esse princípio, pois é uma grande base. E, por ser dito aqui que, se havia impureza mesmo sob o armário ou atrás dele, toda a casa se torna impura, [conclui-se que] não há halachá como Rabi Yosei.

Bartenura · Ohalot 4:1
מִגְדָּל שֶׁהוּא עוֹמֵד בָּאֲוִיר. מִגְדַּל עֵץ שֶׁיֵּשׁ לוֹ דְפָנוֹת…

Sobre “um armário que está de pé ao ar livre”: um armário de madeira que tem paredes, e as próprias paredes têm um vão em sua espessura, como buracos perfurados de lado a lado, abertos para dentro e para fora, mas sem uma abertura de um palmo; e costumam guardar ali agulhas, tubos e utensílios pequenos.

Sobre “que está de pé ao ar livre”: sob o ar do céu, como quando está de pé no quintal.

Sobre “impureza em seu interior”: no vão do próprio armário.

Sobre “os utensílios que estão em sua espessura”: no vão da espessura das paredes.

Sobre “metade e metade”: da metade da espessura do armário para dentro, considera-se como dentro; da metade para fora, considera-se como fora — seja quando a impureza está no armário e os utensílios na espessura, seja quando a impureza está na espessura e os utensílios no armário. E não há halachá como Rabi Yosei.

Sobre “impureza em seu interior” (segunda ocorrência): dentro do armário.

Sobre “a casa é impura”: ainda que suas portas estejam fechadas — como se explica a razão, pois o caminho da impureza é sair dali para a casa.

Sobre “havendo impureza na casa, o que está dentro do armário é puro”: e isso se dá quando suas portas estão fechadas; pois, se estivessem abertas, não seria menos que uma janela entre duas casas. E a razão de o que está dentro do armário permanecer puro é que não é caminho da impureza que está na casa entrar no armário.

Sobre “se há ali uma abertura de um palmo”: entre a base do armário e o chão, ou entre a parede do armário e a parede [da casa], ou entre o teto do armário e o teto da casa.

Sobre “são impuros”: por causa da impureza que está na casa. Mas, se não há ali um palmo, o armário é considerado como colado [ao seu redor], e a impureza da casa não entra ali.

Sobre “havendo impureza ali, a casa é impura”: se havia impureza entre a base do armário e o chão da casa, ou entre o teto do armário e o teto da casa, ou entre as paredes do armário e as paredes da casa, ainda que não haja entre eles uma abertura de um palmo, a casa é impura, pois o armário não protege a impureza que está sob ele, dentro da casa, de contaminar tudo o que há na casa.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Ohalot não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraico que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido nesta e em todas as demais mishnayot deste capítulo.