Estas coisas contaminam por contato e por carregamento, mas não contaminam por cobertura: um osso do tamanho de um grão de cevada; a terra dos [outros] povos; o bet haperas; um membro do morto e um membro do vivo que não têm sobre si carne como convém; a espinha e o crânio quando deficientes. Quanto é a deficiência na espinha? Bet Shamai dizem: duas vértebras. Mas Bet Hilel dizem: mesmo uma vértebra. E no crânio? Bet Shamai dizem: como o furo de uma broca. Mas Bet Hilel dizem: o quanto se tira de um vivo e ele morre. De qual broca falaram? Da pequena, dos médicos — palavras de Rabi Meir. Mas os sábios dizem: da grande, da câmara [do Templo].
Depois de duas mishnayot dedicadas ao que contamina pela via mais grave — a cobertura — esta terceira inverte o quadro e lista o que contamina apenas pelas duas vias mais leves: contato direto e carregamento sem contato. O primeiro item, o osso do tamanho de um grão de cevada, é a contraparte exata do “osso de homem” da mishná anterior: um fragmento tão pequeno que já não se reconhece nele forma humana alguma, mas que ainda assim contamina por contato, porque o versículo bíblico que rege essa via não exige tal reconhecimento. A “terra dos povos” — qualquer território fora de Eretz Israel — é impura por decreto rabínico, sob a suposição de que em qualquer torrão de terra estrangeira pode haver um osso do tamanho de um grão de cevada, espalhado por sepulturas incontáveis. O bet haperas é um campo onde se sabe que houve uma sepultura arada, cujos ossos foram quebrados e espalhados pela terra lavrada — sujeito à mesma suspeita. Os membros sem carne suficiente, e a espinha ou o crânio deficientes, perdem o poder de contaminar por cobertura precisamente porque, sem a quantidade mínima de carne ou de ossos, deixam de ser reconhecíveis como “pessoa” — ainda que continuem a contaminar por contato, como qualquer osso. A disputa final, entre Bet Shamai e Bet Hilel, fixa a medida exata dessa deficiência: quantas vértebras podem faltar na espinha, e quanto pode faltar no crânio, antes que ele deixe de contaminar por cobertura.
A diferença de estatuto entre o osso mínimo e o “osso de homem” está na própria letra do texto. Bemidbar 19:18 fala de purificação para “o que tocar no osso…” sem qualificar esse osso como “osso de homem” — o que ensina que, para a impureza por contato, basta qualquer osso, mesmo sem forma humana reconhecível. Já Bemidbar 19:16, ao tratar da impureza por cobertura, especifica “…ou em osso de homem…” — exigindo, para essa via mais grave, que o osso seja reconhecido como pertencente a uma pessoa. É desse contraste textual que Rambam e Bartenura derivam toda a distinção desta mishná entre o osso do tamanho de um grão de cevada (que contamina só por contato e carregamento) e a espinha ou o crânio íntegros (que contaminam também por cobertura).
Já explicamos que o osso do tamanho de um grão de cevada contamina por contato e por carregamento, mas não contamina por cobertura, e demos a razão disso; e o mesmo vale para todo osso que não tenha semelhança humana, pela mesma causa.
Sobre “a terra dos povos”: todas as terras exceto Eretz Israel, pois, por sua negligência com os mortos, sepultam-nos em qualquer lugar — e por isso estenderam sobre suas terras esta impureza, por decreto rabínico, conforme explicamos na introdução, pois dizemos que em cada porção de sua terra pode haver um osso do tamanho de um grão de cevada.
E o “bet haperas” mencionado aqui é o lugar onde havia uma sepultura que foi arada, e os ossos se quebraram e se espalharam por aquele lugar; e diz-se também que já haverá, em cada porção dele, um osso do tamanho de um grão de cevada; e chama-se “bet haperas” porque foi pisado e os ossos se espalharam por toda aquela terra — e a maioria [dos comentadores], na linguagem dos sábios, explica que seu sentido é “espalhamento”.
“Makdeach” é a broca. Sobre “a pequena, dos médicos”: é uma pequena broca com a qual se abrem as chagas e os abscessos. Sobre “e a grande”, da câmara: já se explicou em Kelim (17:12) que a medida do furo que ela perfura é como uma pundion.
Sobre “o quanto se tira de um vivo e ele morre”: já se explicou no Talmud (Bechorot 37b) que isso equivale a uma selá; e já explicamos a medida da selá e da pundion no início de Kidushin (12b). E a disputa entre Rabi Meir e os sábios segue, na verdade, a opinião de Bet Shamai, que já foi rejeitada.
Sobre “um osso do tamanho de um grão de cevada”: contamina por contato e por carregamento, conforme está escrito (Bemidbar 19), “e sobre o que tocar…”, e ali não se diz “osso de homem” — para ensinar sobre o osso do tamanho de um grão de cevada, que contamina por contato ainda que não se reconheça nele que é de uma pessoa. Mas, quanto à cobertura, está escrito “quando um homem morrer numa tenda”; e quanto ao osso, para a impureza por cobertura, exigimos que se reconheça nele que é de uma pessoa, pois em outro lugar diz “osso de homem”.
Sobre “a terra dos povos”: todo território fora da Terra [de Israel] se chama “terra dos povos”. E aqui se trata de um torrão de terra vindo de fora da Terra, que contamina por contato e por carregamento, mas não contamina por cobertura. Mas quem entra na terra dos povos, mesmo sem tocar nem carregar — como quem vai montado a cavalo — é impuro, pois também sobre o próprio ar da terra dos povos decretaram.
Sobre “bet haperas”: um campo onde foi arada uma sepultura, e os ossos do morto se quebraram e foram pisados na terra daquele campo. E “peras” vem da expressão “perussá” (fatia, pedaço), como em “acaso não é repartir [paros] teu pão ao faminto” (Yeshayahu 58).
Sobre “quanto é a deficiência na espinha”: para que não contamine por cobertura, mas apenas por contato e por carregamento.
Sobre “como o furo de uma broca”: a largura completa do furo que se faz com uma sovela.
Sobre “o quanto se tira de um vivo e ele morre”: e os sábios estimaram essa deficiência como equivalente a uma selá.
Sobre “a pequena, dos médicos”: uma sovela pequena com a qual os médicos abrem as chagas.
Sobre “a grande, da câmara”: e os sábios estimaram que é um furo do tamanho de uma pundion.