Seder Tehorot · Massechet Nidá · Perek Yud · Mishná 8 de 8 · Última mishná do tratado

A que vê no décimo primeiro dia

הָרוֹאָה יוֹם אַחַד עָשָׂר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Última mishná do tratado: a que vê sangue no décimo primeiro dia, imerge à noite e tem relações; a disputa de Beit Shamai e Beit Hilel; o gargran; a tarbut raá e a suspensão do toque e da relação

A que vê [sangue] no dia onze e imergiu à tarde e teve relações — Beit Shamai diz: tornam impuros leito e assento, e são obrigados ao sacrifício. E Beit Hilel diz: isentos do sacrifício. Imergiu no dia seguinte e teve relações com seu marido, e depois viu [sangue] — Beit Shamai diz: tornam impuros leito e assento, e isentos do sacrifício. E Beit Hilel diz: eis que este é um glutão (gargerán). E concordam quanto à que vê dentro dos onze dias e imergiu à tarde e teve relações, que tornam impuros leito e assento e são obrigados ao sacrifício. Imergiu no dia seguinte e teve relações — eis que isto é má cultura (tarbut raá), e seu toque e sua relação ficam em suspenso (teluyim).

Encerra-se o tratado com o caso mais delicado dos onze dias de possível zivá: o décimo primeiro dia é o último desse período, e o dia seguinte a ele já pertence, com certeza, aos próximos sete dias de nidá, sem se somar aos dias de zivá. Se a mulher vê sangue precisamente nesse décimo primeiro dia, imerge já à noite seguinte e tem relações, Beit Shamai exige que ela e seu marido tratem esse sangramento como se fosse de uma zavá pequena que precisa de dia guardado, tornando impuros leito e assento e trazendo sacrifício; Beit Hilel isenta do sacrifício, pois, sendo o décimo primeiro o último dia possível de zivá, um sangramento nele nunca se soma a um dia posterior para constituir zivá grave. Se, em vez disso, ela aguarda até o dia seguinte para imergir e ter relações, e só depois vê sangue, Beit Shamai ainda impõe a impureza de leito e assento, mas isenta do sacrifício, já que ela cumpriu parte da guarda; Beit Hilel chama essa pressa de “glutão” — apressado em pecar —, mas a considera, do ponto de vista da pureza, permitida. Todos concordam que, se ela viu dentro dos onze dias, mesmo que imerja e tenha relações na mesma noite, ambos ficam impuros e obrigados ao sacrifício, pois ali não houve guarda alguma. Mas se, dentro dos onze dias, ela imerge apenas no dia seguinte e tem relações sem completar a guarda devida, isto é chamado “má cultura” — um comportamento reprovável, pois se ela vier a ver sangue depois, o contato e a relação daquele dia ficam retroativamente em suspenso, sujeitos a se tornarem impuros conforme o resultado.

הָרוֹאָה יוֹם אַחַד עָשָׂר וְטָבְלָה לָעֶרֶב וְשִׁמְּשָׁה, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, מְטַמְּאִין מִשְׁכָּב וּמוֹשָׁב, וְחַיָּבִין בַּקָּרְבָּן. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, פְּטוּרִין מִן הַקָּרְבָּן. טָבְלָה בַיוֹם שֶׁלְּאַחֲרָיו וְשִׁמְּשָׁה אֶת בֵּיתָהּ וְאַחַר כָּךְ רָאֲתָה, בֵּית שַׁמַּאי אוֹמְרִים, מְטַמְּאִין מִשְׁכָּב וּמוֹשָׁב וּפְטוּרִים מִן הַקָּרְבָּן. וּבֵית הִלֵּל אוֹמְרִים, הֲרֵי זֶה גַרְגְּרָן. וּמוֹדִים בְּרוֹאָה בְתוֹךְ אַחַד עָשָׂר יוֹם וְטָבְלָה לָעֶרֶב וְשִׁמְּשָׁה, שֶׁמְּטַמְּאִין מִשְׁכָּב וּמוֹשָׁב וְחַיָּבִין בַּקָּרְבָּן. טָבְלָה בַיּוֹם שֶׁלְּאַחֲרָיו וְשִׁמְּשָׁה, הֲרֵי זוֹ תַרְבּוּת רָעָה, וּמַגָּעָן וּבְעִילָתָן תְּלוּיִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Nidá 10:8

Rambam explica: já nos veio a explicação diversas vezes sobre estes onze dias, e dissemos que são os dias aptos para a zivá; e quando ela vê sangue dentro desses onze dias, sua lei é que aguarde aquele dia e a noite seguinte a ele com proibição de relações, e o que se deita com ela nesse tempo é obrigado a sacrifício, e tornam impuros leito e assento, ela e seu parceiro, e são obrigados a uma oferenda de pecado por aquela relação; e esta é a zavá pequena. E no dia seguinte àquele em que viu, imerge ao nascer do sol, como se explicou no tratado Meguilá, e aguarda todo aquele dia, temendo que talvez veja sangue; e se não vir sangue, estará permitida a seu marido à tarde; e se viu sangue nele, aquele dia e a noite seguinte também são impuros, e ela é zavá pequena, e no terceiro dia imerge depois do nascer do sol e aguarda todo aquele dia, e se não vir, estará permitida a seu marido: e esta é a que guarda dia contra dia. E esta é sua lei quando viu dentro dos onze dias, e nisto não há controvérsia. A controvérsia é sobre quem viu sangue no próprio décimo primeiro dia e imergiu à tarde, que é o décimo segundo, e teve relações, pois não há diferença para Beit Shamai entre quem vê no décimo primeiro dia ou no oitavo ou no nono dentro dos onze, que tornam impuros leito e assento e são obrigados ao sacrifício, ela e seu parceiro; e Beit Hilel isenta do sacrifício, pois eles não contam o décimo primeiro dia na categoria de oitavo ou nono, já que a que vê no décimo primeiro dia nunca será zavá grande por essa visão, pois se vir no dia seguinte é contado como dias de nidá e não pode se somar ao dia seguinte, como o nono e o que vem antes dele dentro dos onze dias. E se ela imergiu no dia seguinte, que é o décimo segundo, início dos dias de nidá, e teve relações com seu marido e depois viu — diz Beit Hilel: eis que este é um glutão, e glutão é o que se apressa em comer, pois deveria ter aguardado todo aquele dia sem vir a ela; e se veio a ela, está isento de tudo, salvo que se apressou; e Beit Shamai diz que ela e seu parceiro tornam impuros leito e assento, como quem se deita com a que guarda dia contra dia. E disse “eis que isto é má cultura”, pois deveria ter aguardado todo o dia seguinte, que ela guarda, e não ter relações até a terceira noite; e se teve relações no dia guardado depois da imersão, ambos são obrigados a sacrifício condicional, e as coisas puras que ela e seu parceiro tocarem naquele dia ficam em suspenso; e isto é o que disse, “e seu toque e sua relação ficam em suspenso”, aludindo a essa má cultura. E saiba que a que vê no décimo dia precisa de guarda, ainda que não seja de modo algum zavá grande por essa visão, e isto é claro pelo que explicamos neste tratado.

Com esta mishná, encerra-se também o Perush HaMishná do Rambam sobre Massechet Nidá (“Salik perush hamishnayot leHaRambam miMassechet Nidá”).

Bartenura · Nidá 10:8

Bartenura explica: sobre “a que vê no dia onze” — que é o fim dos dias de zivá, e o dia seguinte a ele não se junta com ele para a zivá; pois se ela viu no dia doze e treze, não é zavá grande por causa disso, já que estes são o início dos dias de nidá e não se juntam com os dias de zivá. Sobre “Beit Shamai diz: tornam impuros leito e assento” — e mesmo o que teve relações torna impuros leito e assento, a ponto de tornar impuros alimentos e líquidos, pois é como quem teve relações com a que guarda dia contra dia, já que Beit Shamai entende que o décimo primeiro dia precisa de guarda. E Beit Hilel isenta do sacrifício, pois entende que o décimo primeiro dia, já que o dia seguinte a ele não se junta com ele para a zivá, não precisa de guarda; porém, quanto à impureza, concordam que quem tem relações com ela torna impuro por decreto rabínico, decreto do décimo primeiro por causa do que está dentro do décimo primeiro, que torna impuro seu parceiro por lei bíblica; mas quanto ao sacrifício, para trazer alimento comum ao pátio [do Templo], não. Sobre “imergiu no dia seguinte a ele” — pois já fez alguma guarda, e é guarda válida, exceto que dentro dos onze dias é proibido fazer assim, para que não venha a uma dúvida, receando que veja depois da relação e os dias se juntem para a zivá. Sobre “tornam impuros leito e assento” — por decreto rabínico, mesmo o que teve relações torna impuros leito e assento, decreto por causa do que está dentro dos onze dias. Sobre “e isentos do sacrifício” — pois ela já fez a guarda; e ainda que tenha voltado a ver, não se juntam para a zivá, pois é já o início da nidá. Sobre “gargerán” — apressado em pecar, temendo que se acostume a isso dentro dos onze dias; mas quanto à impureza, é puro. Sobre “e são obrigados ao sacrifício” — mesmo que não venha a ver no dia seguinte, pois ela precisa de guarda, e esta não guardou de modo algum, e resulta que teve relações com uma zavá pequena. Sobre “imergiu no dia seguinte a ele” — fez alguma guarda, e teve relações. Sobre “eis que isto é má cultura” — pois talvez ela venha a ver depois e se junte com o dia anterior, e sua imersão não seja imersão válida. Sobre “e seu toque” — quanto à pureza e à impureza. Sobre “e sua relação” — quanto ao sacrifício. Sobre “ficam em suspenso” — pois se ela vier a ver, seu toque é toque de zavá e são obrigados ao sacrifício por sua relação; e se não vier a ver, seu toque é puro, e são isentos do sacrifício por sua relação.

Perush — os Mefarshim · פֵּרוּשׁ הַמְּפָרְשִׁים

Rashi רַשִׁ"י
Nidá 71b
מַתְנִי’ הָרוֹאָה יוֹם י”א – שֶׁהִיא סוֹף יְמֵי זוֹב, וְאֵין יוֹם שֶׁלְּאַחֲרָיו מִצְטָרֵף עִמּוֹ לְזִיבָה: מִשְׁכָּב וּמוֹשָׁב – אֲפִילּוּ בּוֹעֲלָהּ מְטַמֵּא מִשְׁכָּב וּמוֹשָׁב לְטַמֵּא אֳכָלִין וּמַשְׁקִין, שֶׁהוּא כְּבוֹעֵל שׁוֹמֶרֶת יוֹם כְּנֶגֶד יוֹם, דְּקָסָבַר יוֹם י”א בָּעֵי שִׁמּוּר:

Rashi explica: sobre “a que vê no dia onze” — que é o fim dos dias de zivá, e o dia seguinte a ele não se junta com ele para a zivá. Sobre “leito e assento” — mesmo o que teve relações com ela torna impuros leito e assento, a ponto de tornar impuros alimentos e líquidos, pois é como quem teve relações com a que guarda dia contra dia, já que [Beit Shamai] entende que o décimo primeiro dia precisa de guarda.

סְלִיק מַסֶּכְתָּא דְּנִדָּה
Aqui se conclui Massechet Nidá — o sétimo tratado de Seder Tehorot, e o único, entre os doze tratados desta Ordem, a possuir Guemará própria no Talmud Bavli. O Perek Yud, último do tratado, com oito mishnayot, reuniu os casos finais ligados à atribuição de sangue e às fronteiras entre pureza e impureza: a jovem que se casa antes ou depois de sua idade de ver sangue, e por quantas noites se atribui o sangramento à ferida da virgindade, segundo Beit Shamai e Beit Hilel (10:1); a nidá que se examinou no sétimo dia pela manhã e não se separou ao crepúsculo, e a presunção de pureza ou de impureza retroativa que daí resulta, com a leniência da mulher de veset fixo e a disputa entre Rabi Yehudá e os Sábios (10:2); o zav e a zavá que se examinaram apenas no primeiro e no sétimo dia de sua contagem, e a disputa entre Rabi Eliezer, Rabi Yehoshua e Rabi Akiva sobre a presunção de pureza dos dias intermediários (10:3); o zav, a zavá, a nidá, a parturiente e o leproso que, ao morrer, continuam a tornar impuro por carregamento até que a carne apodreça, o gentio que disso é isento, e a instituição de imergir os utensílios de toda mulher morta por respeito às nidot, segundo Beit Shamai e Beit Hilel (10:4); a mulher que morre e da qual sai um quarto de log de sangue, que torna impura como mancha e por tenda, com a exceção de Rabi Yehudá para o sangue arrancado após a morte e sua concessão quanto à que morre no parto (10:5); a que se assenta sobre sangue de pureza e sua permissão, restrita depois, de tocar coisas comuns preparadas com a santidade das coisas sagradas, com fonte em Vayikrá 12:4 (10:6); o acordo quanto ao dízimo, à chalá e à pureza da teruma tocada por seus líquidos, e a disputa sobre a imersão final ao término dos dias de sangue de pureza (10:7); e, nesta última mishná, o caso da que vê sangue no décimo primeiro dia — o último dia possível de zivá —, a disputa entre Beit Shamai e Beit Hilel sobre a impureza de leito e assento e a obrigação do sacrifício, a figura do gargerán que se apressa dentro dos onze dias, e a tarbut raá de quem não completa a guarda devida, deixando toque e relação em suspenso (10:8).

Massechet Nidá percorreu, ao longo de seus dez capítulos e setenta e nove mishnayot, todo o arco das leis da mulher que vê sangue: a controvérsia entre Shamai, Hilel e os Sábios sobre até quando retroage a impureza de quem não percebeu o início do fluxo (Perek Alef); o exame do sangue, os panos, os prazos e a presunção de pureza, com a classificação das cores puras e impuras (Perek Bet); as leis do aborto e da mulher que dá à luz, os tecidos, as formas e os prazos de formação do feto (Perek Guimel); as cuteias, as tzedukot, a gentia e a leprosa, a dor de parto e a presunção de pureza (Perek Dalet); as idades da maturidade, do recém-nascido à ailonit e ao saris (Perek Hei); os sinais de maioridade e a longa série de pares assimétricos que atravessam impureza, tribunais, leis agrícolas, cashrut e bênçãos (Perek Vav); as fontes de impureza corporal, as manchas de sangue e a credibilidade dos samaritanos (Perek Zayin); as manchas de sangue no corpo, na roupa e no pano de exame, e o caso de Rabi Akiva (Perek Chet); os casos de dúvida ligados à urina, as três mulheres numa cama, as sete substâncias que testam mancha de sangue, e os sinais do corpo que anunciam a menstruação (Perek Tet); e, por fim, este último perek, sobre a jovem recém-casada, os dias da nidá e da zivá, os mortos que tornam impuro por carregamento, e os limites finais entre pureza e impureza no sangue de parto e nos dias de zivá (Perek Yud). Por possuir Guemará no Talmud Bavli — iniciando em Nidá 2a e se estendendo até perto do final de Nidá 73a —, cada mishná deste tratado reuniu, além do Rambam (Perush HaMishná) e do Bartenura, o comentário de Rashi sobre a respectiva folha do Talmud.

Com o encerramento deste tratado, o estudo da Mishná em Seder Tehorot prossegue para os cinco tratados restantes desta Ordem — Machshirin, Zavim, Tevul Yom, Yadayim e Uktzin —, somando-se aos tratados já concluídos de Keilim, Ohalot, Negaim, Pará, Tehorot, Mikvaot e agora Nidá.