Seder Tehorot · Massechet Negaim · Perek Tet · Mishná 3 de 3

A mancha sobre a cicatriz do furúnculo

שָׁאֲלוּ אֶת רַבִּי אֱלִיעֶזֶר
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerra o Perek Tet com um debate entre Rabi Eliezer e Rabi Yehuda ben Beteira sobre o sentido do enclausuramento de uma mancha incapaz, por si mesma, de gerar qualquer sinal de impureza

Perguntaram a Rabi Eliezer: aquele em cuja palma da mão surgiu uma mancha do tamanho de um sela, e o lugar dela é a cicatriz de um furúnculo. Disse-lhes: enclausura-se. Disseram-lhe: por quê? Pois não é apta a gerar pelo branco, nem alastra, nem a carne viva a torna impura. Disse-lhes: talvez ela se contraia e alastre. Disseram-lhe: mas o lugar dela já é do tamanho de um grão! Disse-lhes: não ouvi. Disse-lhe Rabi Yehuda ben Beteira: posso ensinar algo sobre isso? Disse-lhe: se é para confirmar as palavras dos sábios, sim. Disse-lhe: talvez nasça dele outro furúnculo fora dele, e alastre para dentro dele. Disse-lhe: grande sábio és tu, pois confirmaste as palavras dos sábios.

A mishná que fecha o Perek Tet traz um caso-limite levado a Rabi Eliezer, e o debate que dele resulta ilustra como a halachá busca fundamento racional mesmo onde a tradição já está fixada. Um homem tem, na palma da mão, uma mancha do tamanho de um sela — uma moeda grande, bem maior que o grão mínimo exigido para as manchas comuns —, e essa mancha ocupa exatamente o lugar de uma cicatriz de furúnculo já cicatrizada havia tempo. Rabi Eliezer determina que ela deve ser enclausurada por uma semana, como qualquer mancha nova. Os sábios questionão o fundamento dessa decisão: a palma da mão nunca faz crescer pelo, de modo que o sinal do pelo branco é impossível ali; o furúnculo e a queimadura, como se estabeleceu na mishná anterior, não alastram para a pele da carne ao redor; e a carne viva não é sequer um dos dois sinais que tornam impuro o furúnculo e a queimadura — apenas o pelo branco e o alastramento o são, como ensinou a primeira mishná do capítulo. Se nenhum dos três caminhos possíveis de impureza está aberto, qual seria a utilidade do enclausuramento? Rabi Eliezer responde que a mancha, sendo do tamanho de um sela, poderia contrair-se até restar apenas do tamanho de um grão — e então, alastrando de volta para além desse grão, dentro da área original da cicatriz, produziria um alastramento válido. Os sábios replicam que essa resposta não resolve o problema: mesmo se a mancha já fosse, desde o início, do tamanho de um grão apenas, a mesma pergunta permaneceria — qual seria a utilidade do enclausuramento nesse caso? A essa réplica mais afiada, Rabi Eliezer admite honestamente não ter ouvido uma resposta de seus mestres. É então que Rabi Yehuda ben Beteira intervém, pedindo permissão para propor uma explicação; Rabi Eliezer aceita, sob a condição explícita de que a explicação sirva para confirmar — não para refutar — a tradição recebida dos sábios de que há enclausuramento nesse caso. Rabi Yehuda ben Beteira propõe: talvez nasça, fora da área da cicatriz, um novo furúnculo independente, e este alastre para dentro da mancha já enclausurada — pois, como ensinou a mishná anterior, um furúnculo pode alastrar para outro furúnculo, ainda que não para a pele da carne comum. Rabi Eliezer aceita com entusiasmo essa solução, louvando seu interlocutor precisamente por tê-la formulado dentro dos limites que ele mesmo havia estabelecido — confirmando, e não contestando, a palavra recebida dos sábios.

שָׁאֲלוּ אֶת רַבִּי אֱלִיעֶזֶר, מִי שֶׁעָלְתָה לְתוֹךְ יָדוֹ בַּהֶרֶת כַּסֶּלַע וּמְקוֹמָהּ צָרֶבֶת שְׁחִין. אָמַר לָהֶם, יַסְגִּיר. אָמְרוּ לוֹ, לָמָּה, לְגַדֵּל שֵׂעָר לָבָן אֵינָהּ רְאוּיָה, וּלְפִשְׂיוֹן אֵינָהּ פּוֹשָׂה, וּלְמִחְיָה אֵינָהּ מִטַּמָּא. אָמַר לָהֶן, שֶׁמָּא תִכְנֹס וְתִפְשֶׂה. אָמְרוּ לוֹ, וַהֲלֹא מְקוֹמָהּ כַּגְּרִיס. אָמַר לָהֶן, לֹא שָׁמַעְתִּי. אָמַר לוֹ רַבִּי יְהוּדָה בֶן בְּתֵירָא, אֲלַמֵּד בּוֹ. אָמַר לוֹ, אִם לְקַיֵּם דִּבְרֵי חֲכָמִים, הֵין. אָמַר לוֹ, שֶׁמָּא יִוָּלֵד לוֹ שְׁחִין אַחֵר חוּצָה לוֹ וְיִפְשֶׂה לְתוֹכוֹ. אָמַר לוֹ, חָכָם גָּדוֹל אַתָּה שֶׁקִּיַּמְתָּ דִּבְרֵי חֲכָמִים:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Negaim 9:3
כְּבָר קָדַם שֶׁהַשְּׁחִין וְהַמִּכְוָה לֹא יִטַּמְּאוּ בְּמִחְיָה…

Já precedeu que o furúnculo e a queimadura não se tornam impuros por carne viva, e que o sinal de impureza neles é apenas pelo branco ou alastramento; e já precedeu que o furúnculo e a queimadura não alastram para a pele da carne, nem a pele da carne alastra para dentro deles, e que o alastramento se dá apenas dentro do próprio furúnculo. E é sabido que a palma da mão do homem não faz crescer pelo nela; e apoiaram-se em Rabi Eliezer sobre esta premissa — que há, na palma, um furúnculo segundo a descrição condicionada nele, e uma mancha dentro deste furúnculo, e ele o enclausura. E perguntaram-lhe: qual será o fim deste enclausuramento, se pelo branco não crescerá nesta mancha, nem carne viva a tornará impura, e ela não tem lugar para alastrar, pois está dentro do furúnculo, e a pele da carne acresce, e o furúnculo não alastra para a pele da carne? E disse-lhes: a utilidade do enclausuramento é que talvez ela se contraia, ao sétimo dia, até voltar a ser do tamanho de um grão, e o sacerdote o isente; e depois disso ela alastre no restante do furúnculo que se contraiu dela, e se dará o alastramento, e ele será certificado impuro, pois o alastramento torna impuro depois da isenção, como precedeu no capítulo terceiro. E disseram-lhe: é possível, quando a mancha era do tamanho de um sela como supusemos, que ela se contraia e permaneça do tamanho de um grão; mas se o lugar dela já era do tamanho de um grão — isto é, se dentro da palma havia furúnculo e mancha do tamanho de um grão dentro do furúnculo —, qual seria a utilidade do enclausuramento?

E disse: não ouvi. Isto é, não ouvi a utilidade do enclausuramento nesta segunda premissa. E disse-lhe Rabi Yehuda ben Beteira: examinemos um pouco esta questão. E disse-lhe Rabi Eliezer: se encontrares um fundamento que obrigue o enclausuramento, e mostrares a utilidade do enclausuramento, dize-o; mas se sustentares o argumento de que não seria necessário o enclausuramento, não aceitarei de ti nada, pois eu recebi que ele precisa de enclausuramento, e não sei que coisa poderia acontecer neste enclausuramento capaz de gerar impureza além do que já é a finalidade do enclausuramento. E aprendemos de Rabi Yehuda a utilidade do enclausuramento, como se verá: disse que talvez nasça nele outro furúnculo, pois o furúnculo alastra para o furúnculo, como já estabelecemos — e esta é uma afirmação verdadeira.

Bartenura · Negaim 9:3
אָמְרוּ לוֹ לָמָּה. יַסְגִּיר הָא אִי אֶפְשָׁר לְהִוָּלֵד לוֹ סִימַן טֻמְאָה…

Sobre “disseram-lhe: por quê”: enclausura-se, se não é possível nascer nele um sinal de impureza?

Sobre “não é apta a gerar pelo”: pois a palma da mão nunca faz crescer pelo.

Sobre “não alastra”: pois o furúnculo e a queimadura não alastram para a pele da carne.

Sobre “não se torna impura por carne viva”: pois já ensinamos que é por dois sinais, pelo branco e alastramento, e não por carne viva.

Sobre “talvez ela se contraia”: até o tamanho de um grão; e quando o sacerdote a vir ao fim da semana, isentá-lo-á; e depois da isenção, ela voltará a alastrar dentro do furúnculo, cujo lugar é do tamanho de um sela, e então o certificará impuro.

Sobre “disseram-lhe: mas o lugar dela já é do tamanho de um grão”: isto é, se o lugar da cicatriz era apenas do tamanho de um grão, e a mancha estava dentro dele, por que enclausurar — acaso não cabe aqui dizer “talvez ela se contraia e alastre”?

Sobre “disse-lhes: não ouvi”: isto é, também este caso se enclausura, mas não ouvi a razão.

Sobre “posso ensinar sobre isso”: permite-me que eu ensine algo nesta lei.

Sobre “se é para confirmar as palavras dos sábios”: se encontras razão para confirmar as palavras dos sábios que disseram que precisa de enclausuramento, dize; mas para ensinar que não precisa de enclausuramento, não digas, pois não abandono o que recebi de meus mestres para ouvir de ti.

Sobre “talvez nasça dele outro furúnculo fora dele, e alastre para dentro dele”: pois furúnculo alastra para furúnculo. E assim é a halachá.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Negaim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste capítulo.
הֲדַרָן עֲלָךְ הַשְּׁחִין וְהַמִּכְוָה

Com esta terceira mishná, encerra-se o Perek Tet de Massechet Negaim — um capítulo breve, mas denso, inteiramente dedicado às pragas do furúnculo (shechin) e da queimadura (michvá). Abriu definindo com precisão os dois tipos de ferida a partir da origem do calor que os causou — fogo ou qualquer outra fonte —, e estabelecendo que ambos se tornam impuros por apenas dois sinais, pelo branco e alastramento, sem a carne viva (9:1). Em seguida, tratou da relação entre essas categorias: elas não se combinam nem alastram uma para a outra, nem para a pele da carne ao redor; feridas ainda supurantes permanecem puras; e apenas quando se forma sobre elas uma crosta firme, da espessura da casca de um alho, é que se cumpre a “cicatriz do furúnculo” mencionada na Torá, a partir da qual a área volta a poder contrair impureza (9:2). Fechou com um caso-limite trazido a Rabi Eliezer — uma mancha do tamanho de um sela sobre a cicatriz de um furúnculo na palma da mão, incapaz, por si mesma, de gerar pelo branco, alastramento ou carne viva —, e com o debate que daí resultou, até que Rabi Yehuda ben Beteira propusesse o fundamento que confirmou, sem contradizer, a tradição recebida dos sábios de que o caso exige enclausuramento (9:3).

O estudo da Mishná prossegue agora para o Perek Yud de Massechet Negaim, que continuará a examinar as regras da tzaraat e o processo de exame sacerdotal.