Seder Tehorot · Massechet Negaim · Perek Yud · Mishná 8 de 10

O pelo preto que purifica a tinha para sempre

מִי שֶׁהָיָה בוֹ נֶתֶק וּבוֹ שֵׂעָר צָהֹב טָמֵא
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

O poder purificador definitivo do pelo preto sobre a tinha, e o debate sobre até onde se estende essa purificação irreversível

Aquele que tinha nele tinha com pelo amarelo é impuro. Se lhe nasceu pelo preto, é puro; mesmo que depois o pelo preto tenha se ido, permanece puro. Rabi Shimon ben Yehudá diz em nome de Rabi Shimon: toda tinha que se purificou uma vez, nunca mais tem impureza. Rabi Shimon diz: todo pelo amarelo que se purificou uma vez, nunca mais tem impureza.

Esta mishná explora as consequências do poder protetor do pelo preto descrito em 10:3, levando-o ao seu limite lógico. Uma pessoa com tinha e pelo amarelo dentro dela é impura — situação normal e esperada. Mas se, subsequentemente, cresce ali pelo preto (nas condições de proteção já estabelecidas), a pessoa torna-se pura; e a mishná acrescenta um detalhe notável: mesmo que esse pelo preto depois desapareça — deixando novamente apenas o pelo amarelo original —, a pessoa continua pura. O pelo preto, uma vez que cumpriu sua função purificadora, deixa uma marca permanente, e a mera reversão física ao estado anterior não basta para restaurar a impureza. A mishná então registra um debate sobre até que ponto esse princípio de purificação permanente se estende. Rabi Shimon ben Yehudá, falando em nome de Rabi Shimon, formula a versão mais ampla: qualquer tinha que tenha sido purificada uma única vez — por qualquer meio, seja pelo preto, seja pela cessação do alastramento — nunca mais poderá se tornar impura novamente, mesmo que surjam depois novos sinais de impureza no mesmo local. Já Rabi Shimon, em sua formulação própria (mais restrita, segundo a leitura usual), limita esse princípio irreversível especificamente ao pelo amarelo: um pelo amarelo que já foi neutralizado uma vez pela purificação nunca mais voltará a ser sinal de impureza, mas isso não impede que a mesma tinha volte a se tornar impura por outros meios, como um novo alastramento.

מִי שֶׁהָיָה בוֹ נֶתֶק וּבוֹ שֵׂעָר צָהֹב, טָמֵא. נוֹלַד לוֹ שֵׂעָר שָׁחֹר, טָהוֹר. אַף עַל פִּי שֶׁהָלַךְ לוֹ שֵׂעָר שָׁחֹר, טָהוֹר. רַבִּי שִׁמְעוֹן בֶּן יְהוּדָה אוֹמֵר מִשּׁוּם רַבִּי שִׁמְעוֹן, כָּל נֶתֶק שֶׁטָּהַר שָׁעָה אַחַת, אֵין לוֹ טֻמְאָה לְעוֹלָם. רַבִּי שִׁמְעוֹן אוֹמֵר, כָּל שֵׂעָר צָהֹב שֶׁטָּהַר שָׁעָה אַחַת, אֵין לוֹ טֻמְאָה לְעוֹלָם:

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam · Perush HaMishná, Negaim 10:8
עַל דַּעַת תַּ“ק הַנֶּתֶק טָהוֹר וַאֲפִלּוּ הָלַךְ מִמֶּנּוּ הַשֵּׂעָר הַשָּׁחֹר…

Na opinião do tanná kama, a tinha é pura, mesmo que dela tenha ido embora o pelo preto e permanecido o pelo amarelo — e ela é pura. Mas se cresceu nela outro pelo amarelo depois que se foi o pelo preto que havia nela, ou se alastrou na pele, ela é impura. E Rabi Shimon ben Yehudá diz que essa tinha, se foi purificada, nunca mais se tornará impura — mesmo que alastre na pele depois de removido o pelo preto, e mesmo que lhe nasça depois outro pelo amarelo. E Rabi Shimon diz que, se alastrou na pele depois da remoção do pelo preto, é impura; mas se lhe surgiu depois disso pelo amarelo, é pura — pois esse pelo amarelo encontrado nela não é sinal de impureza, por causa do pelo preto que havia nela; e assim todo pelo amarelo que se renove depois não permanecerá como sinal de impureza nessa tinha. E a prova das três posições vem da expressão (Vayikrá 13): “curada está a tinha, pura ela é”. E a halachá é como o tanná kama.

Bartenura · Negaim 10:8
וּבוֹ שֵׂעָר צָהֹב טָמֵא. שֵׂעָר צָהֹב מְטַמֵּא בֵּין בַּתְּחִלָּה…

Sobre “com pelo amarelo, é impuro”: o pelo amarelo torna impuro tanto no início quanto ao fim da primeira semana, ao fim da segunda semana, ou depois da isenção.

Sobre “nasceu-lhe pelo preto, é puro”: seja que brotou depois da tinha, mesmo que não esteja enclausurado; seja que é remanescente, (neste caso) apenas quando enclausurado, distante do que está em pé o espaço de dois pelos, conforme dissemos.

Sobre “mesmo que depois o pelo preto tenha se ido, permanece puro”: pois, uma vez purificado o amarelo, não volta a tornar impuro, ainda que caia o preto. Mas se foi certificado por alastramento, e veio o preto e purificou o alastramento, e depois disso o preto se foi, o alastramento volta a tornar impuro; ou se alastrou, recuou e voltou a alastrar, não dizemos que, uma vez purificada a tinha, ela não torna mais impura (nesse caso).

Sobre “toda tinha que se purificou uma vez”: seja que foi certificado por alastramento e recuou, ou que veio pelo preto e a purificou; seja que foi certificado por pelo amarelo e veio pelo preto e o purificou, e depois disso o preto se foi; ou o que recuou voltou a se destacar — nunca mais essa tinha terá impureza, mesmo que subsistam seus sinais de impureza próprios, como pelo amarelo e alastramento. E não apenas nesses casos, em que já se purificaram por pelo preto, mas mesmo que alastre depois que o preto se foi, ou lhe nasça outro pelo amarelo — uma vez que a tinha já se purificou, nunca mais tem impureza.

Sobre “Rabi Shimon diz: todo pelo amarelo que se purificou uma vez”: como este que estava presente na hora em que veio o preto, nunca mais terá impureza. Mas se, depois que o preto se foi, nasceu na tinha outro pelo amarelo, ou alastrou depois disso, é impuro — pois não dizemos “toda tinha que se purificou” (neste caso). E a halachá é como o tanná kama.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Massechet Negaim não possui Guemará no Talmud Bavli — como a maior parte de Seder Tehorot (com exceção de Massechet Nidá), é um tratado de mishnayot puras, sem o debate amoraíco que caracteriza a maioria dos demais tratados. Por isso, o comentário de Rashi é omitido em todas as mishnayot deste capítulo.