Duas tinhas, uma dentro da outra, e uma fileira de pelo separando entre elas: se houve brecha em um só lugar, a interna é impura; em dois lugares, é pura. Quanto deve ser a brecha? O espaço de dois pelos. Se houve brecha em um só lugar do tamanho de um grão partido, é pura.
Esta mishná espelha a anterior, mas com uma geometria diferente: em vez de duas tinhas lado a lado, uma tinha envolve a outra por completo, como uma faixa concêntrica ao redor de um núcleo interno, novamente separadas por uma fileira de pelo preto. À primeira vista, a regra parece idêntica — brecha em um lugar torna impuro, brecha em dois lugares purifica —, e de fato é assim quando a brecha é pequena: uma única abertura na fileira separadora une a tinha interna à externa, tornando a interna impura (pois herda o tamanho combinado das duas). Mas a mishná introduz uma reviravolta notável no seu fechamento: se a brecha em um só lugar já atinge o tamanho de um grão partido, o resultado se inverte, e a tinha interna torna-se pura. A razão, explicada pelos comentadores, é que uma brecha dessa dimensão não é mais uma simples “abertura” que une as duas tinhas preexistentes — ela mesma passa a constituir, sozinha, uma tinha do tamanho mínimo requerido. Com isso, tinha interna, brecha e tinha externa se fundem numa única e mesma praga contínua, dentro da qual os dois pelos pretos remanescentes (um de cada lado da antiga fileira) tornam-se, eles mesmos, pelo enclausurado protegendo o conjunto — de modo paradoxal, quanto maior a brecha nesse caso específico, mais ela favorece a pureza.
“Tinha dentro de tinha”: é quando uma está dentro da outra. E quando havia brecha em um só lugar, a tinha interna é impura, pois há pelo preto ao seu lado (mas não dentro dela); e quando a fileira de pelo sofreu brecha em dois lugares, tudo volta a ser uma só tinha, com pelo preto dentro dela.
E do mesmo modo, quando a fileira sofreu brecha em um só lugar, e essa abertura já tem o tamanho de um grão partido, a interna também volta a ser pura — pois a interna e a externa se tornam uma só praga, com pelo preto dentro dela, e não veio pelo preto pela margem, como se dava na tinha (do caso anterior). E isso se compreende a partir da comparação entre as duas configurações que descrevemos.
Sobre “uma dentro da outra”: por exemplo, uma tinha quadrada do tamanho do grão redondo, com uma fileira de pelo a cercando ao redor, e fora dessa fileira uma tinha do tamanho de um grão cerca toda a sua volta — isto é, uma faixa de tinha, da largura de uma lentilha, envolvendo a fileira de pelo; e essa é a medida da tinha que envolve os pelos enclausurados.
Sobre “se houve brecha em um lugar, é impuro”: a interna. Pois há pelo preto ao seu lado, mas não enclausurado dentro dela. Mas a externa é pura, pois há dois pelos pretos enclausurados dentro dela.
Sobre “em dois lugares, é puro”: a interna, e com mais razão a externa — pois ambas se tornam uma só tinha, com dois pelos pretos enclausurados dentro dela.
Sobre “quanto deve ser a brecha”: para que, ocorrendo em dois lugares, seja puro — o espaço de dois pelos.
Sobre “se houve brecha em um lugar do tamanho de um grão partido, é puro”: e o que dissemos antes, que uma brecha em um lugar é impura, refere-se a uma brecha menor que o tamanho de um grão partido. Mas quando a brecha já atinge o tamanho de um grão partido, mesmo sendo em um só lugar, as duas tinhas se tornam uma só, e os pelos remanescentes ficam enclausurados.