Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Tet · Mishná 7 de 10

Um voto contra muitos: quando a liberação de um libera todos

כֵּיצַד. אָמַר, קוֹנָם שֶׁאֵינִי נֶהֱנֶה לְכֻלְּכֶם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná aplica o princípio de Rabi Akiva — o voto parcialmente liberado é liberado por inteiro — a votos que envolvem múltiplas pessoas, distinguindo três formulações: "a todos vós" (uma só unidade), "a este e a este" encadeados (uma cadeia, cuja liberação depende de onde se rompe), e "a este, um sacrifício, e a este, um sacrifício" (juramentos distintos, cada um exigindo sua própria abertura).

Como assim? Disse, "Konam, que eu não me beneficie de todos vós" — se um deles foi liberado, todos ficam liberados. "Que eu não me beneficie deste e deste" — se o primeiro foi liberado, todos ficam liberados; se o último foi liberado, só o último fica permitido, e todos os demais ficam proibidos; se o do meio foi liberado, dele para baixo fica permitido, dele para cima fica proibido. "Que eu não me beneficie deste, um sacrifício, e deste, um sacrifício" — necessitam de uma abertura para cada um deles.A mishná distingue três estruturas gramaticais do mesmo voto múltiplo. "A todos vós" é uma declaração única e indivisa — como o voto de sábados e festas da mishná anterior —, de modo que liberar qualquer parte libera o todo. "A este e a este", dito pessoa por pessoa, forma uma cadeia onde cada nome se apoia no anterior ("este é como o primeiro"): romper a cadeia pelo início desfaz tudo o que vem depois, mas romper pelo fim ou pelo meio só libera o que está a partir dali. Já quem repete a palavra "korban" (sacrifício) para cada pessoa individualmente formula, na prática, votos totalmente separados, cada um exigindo sua própria abertura independente.

כֵּיצַד. אָמַר, קוֹנָם שֶׁאֵינִי נֶהֱנֶה לְכֻלְּכֶם, הֻתַּר אֶחָד מֵהֶן, הֻתְּרוּ כֻלָּן. שֶׁאֵינִי נֶהֱנֶה לָזֶה וְלָזֶה, הֻתַּר הָרִאשׁוֹן, הֻתְּרוּ כֻלָּן. הֻתַּר הָאַחֲרוֹן, הָאַחֲרוֹן מֻתָּר, וְכֻלָּן אֲסוּרִין. הֻתַּר הָאֶמְצָעִי, הֵימֶנּוּ וּלְמַטָּה מֻתָּר, הֵימֶנּוּ וּלְמַעְלָה אָסוּר. שֶׁאֵינִי נֶהֱנֶה לָזֶה קָרְבָּן וְלָזֶה קָרְבָּן, צְרִיכִין פֶּתַח לְכָל אֶחָד וְאֶחָד:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A distinção entre o voto que se rompe como uma cadeia e o voto repetido "korban" a "korban" — cada vedação formulada como um juramento pleno e independente — ecoa a mesma exigência de precisão literal da linguagem do voto que fundamenta toda a lei de juramentos.

Vayikrá (Levítico) 5:4
אוֹ נֶפֶשׁ כִּי תִשָּׁבַע לְבַטֵּא בִשְׂפָתַיִם לְהָרַע אוֹ לְהֵיטִיב, לְכֹל אֲשֶׁר יְבַטֵּא הָאָדָם בִּשְׁבֻעָה, וְנֶעְלַם מִמֶּנּוּ
Ou quando uma pessoa jurar, pronunciando com os lábios, para mal ou para bem, tudo o que o homem pronunciar em juramento, e isso lhe for oculto.

O princípio de que o juramento se define exatamente por aquilo que foi "pronunciado com os lábios" é a base pela qual a mishná distingue, com tanto rigor gramatical, entre uma vedação única sobre um grupo, uma cadeia de vedações encadeadas e uma série de vedações repetidas palavra por palavra com "korban". A referência à linguagem do sacrifício (korban) em cada repetição também remete à estrutura da culpa de quem jura falsamente sobre depósito, tratada com este mesmo verbo de pronunciar com os lábios — e é dessa área da lei de juramentos que a mishná importa a regra de que cada pessoa mencionada separadamente exige sua própria liberação.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, cujo comentário cobre conjuntamente as mishnayot 9:6 e 9:7, identifica a posição de Rabi Shimon por trás da terceira cláusula, sobre "a este, um sacrifício, e a este, um sacrifício".

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 9:6-9:7
וְאָמְרוּ לָזֶה קָרְבָּן וְלָזֶה קָרְבָּן, אָמְנָם זֶה מַאֲמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן שֶׁאֵינוֹ סוֹבֵר הַחִלּוּקִים עַד שֶׁיֹּאמַר שְׁבוּעָה לְכָל אֶחָד וְאֶחָד. אֲבָל כְּשֶׁאוֹמֵר שֶׁאֵינִי נֶהֱנֶה לָזֶה וְלָזֶה צְרִיכִין פֶּתַח לְכָל אֶחָד וְאֶחָד אַחַר שֶׁהִזְכִּיר וָא"ו הַנּוֹסֶפֶת, וְהֲלָכָה כְּרַבִּי עֲקִיבָא

Rambam identifica a cláusula final — "a este, um sacrifício, e a este, um sacrifício" — como refletindo a posição de Rabi Shimon em matéria de juramentos de depósito, segundo a qual não há responsabilidade múltipla a menos que o jurador repita a fórmula plena para cada pessoa individualmente. Rambam nota também que, quando o votante usa o "vav" adicional entre os nomes ("a este e a este"), isso por si só já indica vedações distintas que exigem aberturas separadas — e conclui que, quanto ao princípio geral do voto parcialmente liberado, a halachá segue Rabi Akiva.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica o mecanismo da cadeia "este é como o primeiro"; Bartenura detalha a base talmúdica da comparação com o juramento de depósito de Rabi Shimon.

Rashi · רש"י
Nedarim 66a
הֻתַּר הָרִאשׁוֹן הֻתְּרוּ כֻלָּן. כְּדְאוֹקִימְנָא בְּפֶרֶק ד' נְדָרִים שֶׁתְּלָאָן כֻּלָּן בָּרִאשׁוֹן... אָמַר שֶׁאֵינִי נֶהֱנֶה לָזֶה קָרְבָּן וְלָזֶה קָרְבָּן צְרִיכִין פֶּתַח לְכָל אֶחָד וְאֶחָד, אַף עַל פִּי שֶׁאָמַר כָּל טַעֲנוֹתָיו בְּתוֹךְ כְּדֵי דִבּוּר

Rashi explica que a estrutura "este e este" só funciona como cadeia quando o votante formulou cada nome subsequente como dependente do anterior — "este é como o primeiro" — de modo que todos ficam tecnicamente amarrados ao elo inicial. Sobre a cláusula final, Rashi enfatiza que, mesmo quando o votante pronuncia toda a lista de nomes com "korban" em rápida sucessão, dentro do mesmo fôlego de fala, ainda assim cada repetição da palavra korban constitui um voto pleno e separado, exigindo sua própria abertura individual.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 9:6-9:7
זֶה מַאֲמַר רַבִּי שִׁמְעוֹן שֶׁאֵינוֹ סוֹבֵר הַחִלּוּקִים עַד שֶׁיֹּאמַר שְׁבוּעָה לְכָל אֶחָד וְאֶחָד כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר בִּשְׁבוּעוֹת

Rambam remete à Massechet Shevuot, onde Rabi Shimon debate o caso de cinco pessoas reivindicando um depósito de um só réu: segundo ele, o réu só se torna responsável por múltiplos juramentos falsos se declarar a fórmula do juramento separadamente para cada reivindicante. A mesma lógica estrutura aqui a exigência de que cada "korban" pronunciado individualmente constitua uma vedação plena e independente, exigindo sua própria abertura.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 9:7
לָזֶה וְלָזֶה. כְּגוֹן שֶׁאָסַר הָרִאשׁוֹן עָלָיו בְּקוֹנָם, וְאָמַר עַל הַשֵּׁנִי הֲרֵי זֶה כָּרִאשׁוֹן... לָזֶה קָרְבָּן וְלָזֶה קָרְבָּן. הָא מַתְנִיתִין רַבִּי שִׁמְעוֹן הִיא, דְּאָמַר גַּבֵּי שְׁבוּעַת הַפִּקָּדוֹן אִם הָיוּ חֲמִשָּׁה תּוֹבְעִים אוֹתוֹ וְכָפַר וְנִשְׁבַּע וְהוֹדָה שֶׁאֵינוֹ חַיָּב קָרְבָּן עַל כָּל אֶחָד עַד שֶׁיֹּאמַר שְׁבוּעָה לְכָל אֶחָד וְאֶחָד

Bartenura confirma que a estrutura "este e este" se forma quando o votante amarra explicitamente cada nome novo ao anterior, dizendo "este é como o primeiro" — daí a lógica da cadeia. Sobre a cláusula final, Bartenura cita diretamente a fonte em Massechet Shevuot: assim como Rabi Shimon exige que o réu de um depósito jure separadamente para cada um dos cinco reivindicantes para ser responsabilizado por cada falso juramento, aqui também repetir "korban" para cada pessoa nomeada cria vedações plenamente independentes, cada uma exigindo sua própria abertura.