Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Tet · Mishná 8 de 10

O vinho envelhecido e a cebola cufri: quando refutar a premissa libera todo o voto

קוֹנָם יַיִן שֶׁאֵינִי טוֹעֵם, שֶׁהַיַּיִן רַע לַמֵּעָיִם
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná aplica o princípio do voto parcialmente liberado a um novo tipo de caso: quando o próprio votante declara uma premissa médica geral e falsa como motivo de seu voto, e essa premissa é refutada por uma única exceção, a liberação dessa exceção se estende, pela lógica de Rabi Akiva, a toda a categoria vedada.

"Konam, vinho que eu não provo, porque o vinho é ruim para os intestinos" — disseram-lhe: "Mas o vinho envelhecido é bom para os intestinos" — fica liberado quanto ao envelhecido. E não apenas quanto ao envelhecido fica liberado, mas quanto a todo o vinho. "Konam, cebola que eu não provo, porque a cebola é ruim para o coração" — disseram-lhe: "Mas a cebola cufri é boa para o coração" — fica liberado quanto à cufri. E não apenas quanto à cufri fica liberado, mas quanto a todas as cebolas. Houve um caso, e Rabi Meir o liberou quanto a todas as cebolas.O votante formula seu voto como uma generalização médica: todo vinho é ruim para os intestinos, toda cebola é ruim para o coração. Quando lhe mostram uma exceção concreta — o vinho envelhecido, a cebola cufri — que contradiz essa generalização, sua premissa inteira se revela um erro, não apenas quanto ao caso específico da exceção. Pela mesma lógica de Rabi Akiva vista nos casos anteriores, a descoberta de que uma parte da categoria vedada não se encaixa no motivo declarado desfaz o voto inteiro, porque o próprio fundamento da generalização original já não se sustenta.

קוֹנָם יַיִן שֶׁאֵינִי טוֹעֵם, שֶׁהַיַּיִן רַע לַמֵּעָיִם, אָמְרוּ לוֹ, וַהֲלֹא הַמְיֻשָּׁן יָפֶה לַמֵּעָיִם, הֻתַּר בַּמְיֻשָּׁן. וְלֹא בַמְיֻשָּׁן בִּלְבַד הֻתַּר, אֶלָּא בְכָל הַיָּיִן. קוֹנָם בָּצָל שֶׁאֵינִי טוֹעֵם, שֶׁהַבָּצָל רַע לַלֵּב. אָמְרוּ לוֹ, הֲלֹא הַכֻּפְרִי יָפֶה לַלֵּב, הֻתַּר בַּכֻּפְרִי. וְלֹא בַכֻּפְרִי בִלְבַד הֻתַּר, אֶלָּא בְכָל הַבְּצָלִים. מַעֲשֶׂה הָיָה, וְהִתִּירוֹ רַבִּי מֵאִיר בְּכָל הַבְּצָלִים:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A refutação da premissa "o vinho é ruim" pela existência do vinho envelhecido, que alegra o corpo, ecoa a descrição bíblica clássica do vinho como dádiva que alegra o coração do homem — o oposto exato do que o votante alegou como motivo de seu voto.

Tehilim (Salmos) 104:15
וְיַיִן יְשַׂמַּח לְבַב אֱנוֹשׁ, לְהַצְהִיל פָּנִים מִשָּׁמֶן, וְלֶחֶם לְבַב אֱנוֹשׁ יִסְעָד
E o vinho alegra o coração do homem, fazendo reluzir o rosto mais que o óleo, e o pão sustenta o coração do homem.

O versículo que descreve o vinho como aquilo que "alegra o coração do homem" é a contrapartida bíblica exata da premissa que o votante alegou — que o vinho seria "ruim" — e ilustra por que bastou uma única exceção concreta, o vinho envelhecido, para que os sábios desmontassem inteiramente sua generalização. A tradição reconhece o vinho, sobretudo o envelhecido e bem guardado, como benéfico ao corpo e ao espírito, e é precisamente esse reconhecimento amplamente compartilhado que torna a alegação original do votante "o vinho é ruim para os intestinos" tão facilmente refutável — e, uma vez refutada em um caso, refutada por completo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica que a distinção decisiva está em qual fórmula exata o votante usou ao expressar sua condição, determinando se a liberação parcial se estende a tudo.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 9:8
כָּל זְמַן שֶׁאָמַר הַנּוֹדֵר אִלּוּ יָדַעְתִּי שֶׁהַמְיֻשָּׁן יָפֶה הָיִיתִי מַתְנֶה עַל הַיַּיִן וְהָיִיתִי אוֹמֵר יָשָׁן מֻתָּר וְהֶחָדָשׁ אָסוּר, אוֹ שֶׁיֹּאמַר אִלּוּ יָדַעְתִּי זֶה לֹא הָיִיתִי נִשְׁבָּע כְּלָל, הוּא מֻתָּר בֶּחָדָשׁ וּבַיָּשָׁן בְּלֹא שְׁאֵלָה לְחָכָם

Rambam explica que "ruim para os intestinos" e "ruim para o coração" são expressões usadas por comparação, não afirmações médicas técnicas exatas, e que o resultado depende da resposta do próprio votante: se ele admite que, sabendo do vinho envelhecido, jamais teria jurado contra vinho algum, a liberação cobre tudo, sem sequer precisar de consulta formal a um sábio; mas se ele responde que teria formulado o voto de outro modo — permitindo apenas o vinho envelhecido e proibindo o resto — então a liberação fica restrita apenas ao envelhecido.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi não trata diretamente desta mishná no daf principal; Rambam e Bartenura esclarecem a lógica da generalização refutada e o motivo pelo qual a mishná não aceita a objeção óbvia de que "não é ruim" já bastaria.

Rashi · רש"י
Nedarim 66a
וְתֵיפוֹק לִי דְּאֵין רַע. אַמַּאי קָא מְהַדַּר תַּנָּא דְּהֵיכָא דְּאָמְרוּ לוֹ וַהֲלֹא הַמְיֻשָּׁן יָפֶה לַמֵּעַיִם דְּלָא הֲוֵי נֶדֶר, מַשְׁמַע דַּוְקָא יָפֶה, דְּאִי לֹא הֲוֵי לֹא רַע וְלֹא יָפֶה לֹא הֻתַּר, וְתֵיפוֹק לֵיהּ דְּלָא הֲוֵי נֶדֶר דְּאֵינוֹ רַע וְהָוֵי נֶדֶר בְּטָעוּת. וְעוֹדִי יָפֶה קָתָנֵי

Rashi levanta e resolve uma dificuldade textual: por que a mishná precisa provar que o vinho envelhecido é "bom", quando bastaria mostrar que ele simplesmente "não é ruim" para já invalidar a premissa do voto como erro? Rashi responde que a mishná escolhe deliberadamente o caso mais forte — provando que o vinho envelhecido não é apenas neutro, mas positivamente benéfico — precisamente para deixar claro que a exceção não é um caso de fronteira, mas uma refutação completa e inequívoca da generalização original, do mesmo modo que, no caso paralelo da mulher feia do próximo capítulo, a mishná não fala de alguém que deixou de ser feia, mas de alguém que já era bonita desde o início.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 9:8
אָמְרוּ רַע לַמֵּעַיִם וְרַע לַלֵּב עַל דֶּרֶךְ דִּמְיוֹן, וְכֵן נִתְבָּאֵר בַּשַּׁ"ס, וּבָא בְּדִמְיוֹן מִזְּמַן הַנֶּדֶר וּמִן הַדְּבָרִים שֶׁנִּשְׁבַּע עֲלֵיהֶם וּמִן הָאָדָם שֶׁנִּשְׁבַּע עֲלֵיהֶם

Rambam explica que as expressões "ruim para os intestinos" e "ruim para o coração" são formulações populares aproximadas, não diagnósticos médicos técnicos, e que por isso o resultado da abertura depende inteiramente da resposta específica do votante sobre o que ele teria feito de modo diferente — se soubesse do vinho envelhecido ou da cebola cufri — no momento exato de seu voto.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 9:8
וְלֹא בַמְיֻשָּׁן בִּלְבַד הֻתַּר אֶלָּא בְכָל הַיָּיִן. וְדַוְקָא שֶׁאָמַר אִלּוּ יָדַעְתִּי כֵן לֹא הָיִיתִי נוֹדֵר כְּלָל, אוֹ הָיִיתִי אוֹמֵר יָשָׁן מֻתָּר וְחָדָשׁ אָסוּר. אֲבָל אָמַר אִלּוּ הָיִיתִי יוֹדֵעַ הָיִיתִי אוֹמֵר כָּל יַיִן אָסוּר עָלַי חוּץ מִן הַיָּשָׁן, הֲרֵי זֶה אֵין מֻתָּר לוֹ אֶלָּא הַיָּשָׁן בִּלְבַד

Bartenura confirma a mesma condição decisiva já apontada por Rambam: a liberação total só ocorre quando o votante confirma que sequer teria feito o voto, ou que teria formulado a proibição de modo invertido — permitindo o envelhecido e proibindo apenas o novo. Se, ao contrário, ele afirma que teria mantido a proibição sobre todo o vinho exceto o envelhecido, então apenas o envelhecido é liberado, e o restante do voto permanece inteiramente de pé.