Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Tet · Mishná 6 de 10

Abrindo por sábados e festas: a regra de Rabi Akiva sobre voto parcialmente liberado

פּוֹתְחִין בְּיָמִים טוֹבִים וּבְשַׁבָּתוֹת
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

A mishná apresenta mais uma abertura consensual — lembrar ao votante os dias sagrados que certamente não pretendia incluir em sua proibição — e usa esse caso para introduzir um princípio revolucionário de Rabi Akiva sobre o alcance de qualquer liberação parcial de um voto.

Abre-se pelos dias festivos e pelos sábados. No princípio diziam: esses dias ficam permitidos e todos os demais dias ficam proibidos — até que veio Rabi Akiva e ensinou que o voto cujo parte foi liberada, é liberado por inteiro.Quando alguém jura, por exemplo, não comer carne ou não beber vinho por um determinado período, o sábio pode lembrá-lo de que sábados e festas exigem alegria através de comida e bebida — e que ele certamente não pretendia jurar contra esse mandamento. Originalmente, os sábios entendiam que essa abertura liberava apenas os próprios dias sagrados, deixando o resto do voto intacto. Rabi Akiva revolucionou essa lógica: como o voto inteiro foi pronunciado como uma única declaração unificada, uma vez provado que uma parte dele foi feita por engano, todo o voto se revela um erro desde a raiz, e cai por inteiro.

פּוֹתְחִין בְּיָמִים טוֹבִים וּבְשַׁבָּתוֹת. בָּרִאשׁוֹנָה הָיוּ אוֹמְרִים, אוֹתָן הַיָּמִים מֻתָּרִין וּשְׁאָר כָּל הַיָּמִים אֲסוּרִין, עַד שֶׁבָּא רַבִּי עֲקִיבָא וְלִמֵּד, שֶׁהַנֶּדֶר שֶׁהֻתַּר מִקְצָתוֹ, הֻתַּר כֻּלּוֹ:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

O fundamento da abertura pelos dias sagrados é o mandamento profético de tratar o sábado como delícia — uma alegria que inclui, segundo a tradição, comida farta e vinho, tornando implausível que um voto de abstinência pretendesse incluí-los.

Yeshayahu (Isaías) 58:13
וְקָרָאתָ לַשַּׁבָּת עֹנֶג, לִקְדוֹשׁ ה׳ מְכֻבָּד
E chamarás ao sábado delícia, e ao dia santo do Eterno, honrado.

O versículo "chamarás ao sábado delícia" é a base pela qual o sábio pergunta ao votante: se soubesses que o sábado, dentro do período do teu voto, exige de ti alegria através de comida e bebida, terias mesmo jurado incluí-lo? Como quase ninguém pretende, ao fazer um voto de abstinência, violar deliberadamente o mandamento de honrar o sábado com fartura, essa abertura é aceita sem disputa — mas a verdadeira inovação da mishná está no passo seguinte de Rabi Akiva, que transforma essa liberação pontual de um único dia em fundamento para desfazer o voto inteiro.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica o mecanismo do voto parcialmente liberado, e sua explicação cobre também o próximo mishná sobre múltiplas pessoas vedadas.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 9:6
כְּגוֹן שֶׁנִּשְׁבַּע שֶׁלֹּא יִשְׁתֶּה יַיִן אוֹ שֶׁלֹּא יֹאכַל בָּשָׂר כָּךְ וְכָךְ יָמִים, לְכָךְ אוֹמֵר אִלּוּ יָדַעְתָּ בִּשְׁעַת הַשְּׁבוּעָה שֶׁהַשַּׁבָּת אוֹ יוֹם טוֹב שֶׁנִּכְלָל בְּאֵלּוּ הַיָּמִים אַתָּה מְחֻיָּב בּוֹ בַּאֲכִילַת בָּשָׂר וּשְׁתִיַּת יַיִן... כְּלוּם הָיִיתָ נִשְׁבָּע

Rambam ilustra o caso típico: alguém jurou não beber vinho ou não comer carne por certo número de dias, sem perceber que um sábado ou uma festa cairia dentro desse período — dias em que a fartura de comida e vinho é uma obrigação, conforme "chamarás ao sábado delícia". A resposta afirmativa do votante libera esses dias. Rambam confirma que a inovação de Rabi Akiva — de que a liberação de parte do voto libera o voto inteiro — é a halachá vigente, e nota que esse princípio contrasta com a posição de Rabi Shimon sobre juramentos múltiplos, tratada na mishná seguinte.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi explica a mecânica da disputa sobre "dias permitidos" e "dias proibidos"; Bartenura detalha a lógica de Rabi Akiva sobre por que o voto inteiro cai quando uma parte se revela erro.

Rashi · רש"י
Nedarim 66a
מַתְנִיתִין אוֹתָן הַיָּמִים. יָמִים טוֹבִים וְשַׁבָּתוֹת שֶׁבָּהֶן מֻתָּר וּשְׁאָר יְמוֹת הַשָּׁנָה אָסוּר

Rashi esclarece a posição original, anterior a Rabi Akiva: os sábios sabiam liberar especificamente os próprios sábados e festas contidos no período do voto, mas mantinham proibido todo o restante dos dias, como se cada dia do voto fosse uma unidade jurídica independente, passível de liberação isolada.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 9:6-9:7
אוֹתוֹ הַמַּאֲמָר שֶׁל רַבִּי שִׁמְעוֹן שֶׁאֵינוֹ סוֹבֵר הַחִלּוּקִים עַד שֶׁיֹּאמַר שְׁבוּעָה לְכָל אֶחָד וְאֶחָד כְּמוֹ שֶׁיִּתְבָּאֵר בִּשְׁבוּעוֹת, עִקַּר דַּעְתִּי וְאֵינָהּ הֲלָכָה. אֲבָל כְּשֶׁאוֹמֵר שֶׁאֵינִי נֶהֱנֶה לָזֶה וְלָזֶה צְרִיכִין פֶּתַח לְכָל אֶחָד וְאֶחָד

Rambam, comentando conjuntamente as mishnayot 9:6 e 9:7, explica que a mishná seguinte, sobre quem veda proveito a várias pessoas nomeadas uma a uma ("a este, um sacrifício, e a este, um sacrifício"), reflete a posição de Rabi Shimon — que trata cada vedação como um juramento distinto, exigindo abertura própria para cada uma — mas essa não é a halachá final sobre juramentos em geral. Ainda assim, quanto ao caso específico de "a este e a este", a lei aceita que cada nome requer sua própria abertura.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 9:6
פּוֹתְחִין בְּיָמִים טוֹבִים וּבְשַׁבָּתוֹת. אִם נָדַר לְהִתְעַנּוֹת אוֹ שֶׁלֹּא לֶאֱכֹל בָּשָׂר לִזְמַן קָצוּב... שֶׁנֶּדֶר שֶׁהֻתַּר מִקְצָתוֹ הֻתַּר כֻּלּוֹ. אַף עַל פִּי שֶׁלֹּא מָצָא פֶּתַח עַל כֻּלּוֹ, דְּלֹא נָדַר מֵעִקָּרָא אֶלָּא עַל דַּעַת שֶׁיִּתְקַיֵּם כֻּלּוֹ

Bartenura explica a lógica revolucionária de Rabi Akiva: o votante nunca pretendeu fazer dez ou vinte votos separados, um para cada dia — ele fez um único voto, pensado como uma unidade contínua e indivisível, com a intenção de que o voto inteiro se cumprisse exatamente como planejado. Uma vez que se prova que essa intenção original já continha um erro quanto a uma parte do período — os dias sagrados —, revela-se que o próprio ato de vontade por trás de todo o voto estava viciado, e por isso ele cai por inteiro, não apenas na parte corrigida.