Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Chet · Mishná 1 de 7

Abrindo o Perek Chet: "hoje", "esta semana", "este mês"

קוֹנָם יַיִן שֶׁאֲנִי טוֹעֵם הַיּוֹם, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁתֶּחְשָׁךְ
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Abrindo o Perek Chet, a mishná muda de eixo: depois de sete capítulos sobre categorias de alimentos e destinatários vedados, o foco passa a ser a extensão temporal das expressões usadas no voto — quanto tempo, exatamente, dura a proibição quando o nazireu diz "hoje", "este Shabat", "este mês", "este ano" ou "esta semana" (referindo-se ao ciclo de shemitá).

Konam, o vinho que eu provar hoje — não fica proibido senão até escurecer. Este Shabat — fica proibido durante todo o Shabat, e também o Shabat que passou. Este mês — fica proibido durante todo o mês, e também o próximo Rosh Chodesh. Este ano — fica proibido durante todo o ano, e também o próximo Rosh HaShaná. Esta semana — fica proibido durante toda a semana, e também a sétima que passou. E se disse "um dia", "um Shabat", "um mês", "um ano", "uma semana" — fica proibido de dia em dia.A mishná distingue duas famílias de expressões que soam parecidas mas produzem resultados opostos. Quando o nazireu usa o artigo definido com um demonstrativo — "este Shabat", "este mês" —, ele está apontando para a unidade de tempo em que já se encontra, e a linguagem corrente estende essa unidade retroativamente até seu início: "este Shabat" inclui todos os dias da semana já passados desde o Shabat anterior, e "este mês" inclui o Rosh Chodesh que virá, porque o dia de Rosh Chodesh é contado como parte do mês novo, não do antigo. Mas quando ele usa a forma indefinida — "um dia", "um mês" — a expressão não aponta para nenhuma unidade fixa do calendário, e por isso a proibição corre estritamente vinte e quatro horas, ou o período proporcional, a partir do exato instante da fala, "de dia em dia" — sem se prender aos limites naturais do calendário.

קוֹנָם יַיִן שֶׁאֲנִי טוֹעֵם הַיּוֹם, אֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁתֶּחְשָׁךְ. שַׁבָּת זוֹ, אָסוּר בְּכָל הַשַּׁבָּת, וְשַׁבָּת שֶׁעָבְרָה. חֹדֶשׁ זֶה, אָסוּר בְּכָל הַחֹדֶשׁ, וְרֹאשׁ חֹדֶשׁ לְהַבָּא. שָׁנָה זוֹ, אָסוּר בְּכָל הַשָּׁנָה, וְרֹאשׁ הַשָּׁנָה לֶעָתִיד לָבֹא. שָׁבוּעַ זֶה, אָסוּר בְּכָל הַשָּׁבוּעַ, וּשְׁבִיעִית שֶׁעָבְרָה. וְאִם אָמַר יוֹם אֶחָד, שַׁבָּת אֶחָת, חֹדֶשׁ אֶחָד, שָׁנָה אֶחָת, שָׁבוּעַ אֶחָד, אָסוּר מִיּוֹם לְיוֹם:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A própria contagem do dia de "tarde a tarde" — que explica por que "hoje" se encerra ao escurecer e não à meia-noite — vem do mandamento sobre o Yom Kipur, que fixa a unidade básica do calendário hebraico usada por toda a mishná.

Vayikra (Levítico) 23:32
שַׁבַּת שַׁבָּתוֹן הוּא לָכֶם וְעִנִּיתֶם אֶת נַפְשֹׁתֵיכֶם, בְּתִשְׁעָה לַחֹדֶשׁ בָּעֶרֶב מֵעֶרֶב עַד עֶרֶב תִּשְׁבְּתוּ שַׁבַּתְּכֶם
Shabat completo de descanso será para vós, e afligireis vossas almas; aos nove do mês, à tarde, de tarde a tarde guardareis vosso descanso.

A expressão "me'erev ad erev" — de tarde a tarde — estabelece que o dia hebraico se conta do anoitecer ao anoitecer seguinte, e é exatamente esse princípio que a mishná aplica quando diz que quem veda o vinho "hoje" fica proibido apenas "até escurecer": o dia da fala termina no mesmo instante em que, pelo calendário da Torá, um novo dia começa. Esse mesmo princípio de contagem cronológica governa as demais unidades da mishná — semana, mês, ano, ciclo sabático — todas construídas sobre a mesma lógica de fronteiras exatas entre um período e o seguinte, de modo que a linguagem comum ("este mês", "este ano") é lida à luz de como a própria Torá demarca os limites do tempo.

Halachot · הֲלָכוֹת

Rambam, no Perush HaMishná, explica por que "este Shabat" e "esta semana" incluem o período que já passou, enquanto Rosh Chodesh e Rosh HaShaná pertencem ao período seguinte.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 8:1
עִנְיַן אָמְרוֹ וְשַׁבָּת שֶׁעָבַר, שֶׁאָסוּר עָלָיו הַיַּיִן גַּם כֵּן יוֹם הַשַּׁבָּת, לְפִי שֶׁהוּא נִמְנֶה עִם הַיָּמִים שֶׁעָבְרוּ לְפָנָיו שֶׁאָסַר עָלָיו בָּהֶן הַיַּיִן, לְמַה שֶּׁאָמַר "שַׁבָּת זוֹ"

Rambam explica que a razão de "este Shabat" incluir também o Shabat que já passou está em como a semana se conta: os seis dias que antecedem o Shabat são todos "dias que levam" a ele, de modo que dizer "este Shabat" no meio da semana necessariamente inclui o Shabat anterior, já que ambos pertencem ao mesmo ciclo semanal contínuo apontado pela expressão. O mesmo raciocínio vale para "esta semana", referindo-se ao ciclo de sete anos da shemitá: o ano sabático que já passou integra o mesmo "shavua" mencionado no voto.

Rambam · Perush HaMishná, Nedarim 8:1
וְכֵן הַדִּין בְּאָמְרוֹ "שָׁבוּעַ זֶה" שֶׁנַּחְשֹׁב הַשְּׁבִיעִית בְּמַדְרֵגַת מַה שֶּׁלְּפָנֶיהָ, וְאֵינוֹ כֵן רֹאשׁ חֹדֶשׁ וְרֹאשׁ הַשָּׁנָה, אֲבָל מֻתָּר לוֹ לִשְׁתּוֹת בָּהֶם

Rambam contrasta esse padrão com Rosh Chodesh e Rosh HaShaná, que pertencem ao mês e ao ano seguintes, não ao que passou: por isso "este mês" e "este ano" se estendem para a frente, incluindo o primeiro dia do próximo período, e não para trás. A diferença de direção — semana e shemitá olhando para trás, mês e ano olhando para frente — depende de qual unidade contém a outra pela convenção do calendário e da linguagem comum, não de uma regra única aplicável a todas as expressões por igual.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Rashi, no Talmud, explica a mecânica de cada uma das cinco unidades de tempo listadas pela mishná; Rambam e Bartenura completam com a distinção final entre a forma definida e a forma indefinida da expressão.

Rashi · רש"י
Nedarim 60a
מַתְנִי' קוֹנָם יַיִן שֶׁאֲנִי טוֹעֵם הַיּוֹם. דְּמַשְׁמַע כָּל זְמַן שֶׁהוּא יוֹם וְתוּ לֹא: שַׁבָּת זוֹ. וְהָיָה עוֹמֵד בְּשַׁבָּת, אָסוּר בְּכָל הַשַּׁבָּת בְּשֵׁשֶׁת יְמֵי הַשָּׁבוּעַ: וְהַשַּׁבָּת שֶׁעָבְרָה. כְּלוֹמַר בְּשַׁבָּת שֶׁהוּא עוֹמֵד בְּתוֹכָהּ. וְכֵן אִם הָיָה עוֹמֵד בְּרֹאשׁ הַשָּׁנָה וְאָמַר קוֹנָם יַיִן שֶׁאֵינִי טוֹעֵם שָׁנָה זוֹ, אָסוּר בְּכָל הַשָּׁנָה, וּלְפִיכָךְ קָרֵי לֶעָתִיד לָבֹא, לְפִי שֶׁהוּא נִמְנֶה לַיָּמִים הַבָּאִים: וְאִם אָמַר שֶׁאֵינִי טוֹעֵם יוֹם אֶחָד מֵעֵת לְעֵת, שֶׁאִם הָיָה עוֹמֵד בִּשְׁעַת הַנֶּדֶר בַּחֲצִי הַיּוֹם, אָסוּר לְמָחָר עַד חֲצִי הַיּוֹם

Rashi confirma que "hoje" nunca ultrapassa o dia corrente, e explica que quem está no meio da semana e diz "este Shabat" fixa a proibição em todo o ciclo dos seis dias úteis que giram em torno de um único Shabat — o que passou e, por extensão de linguagem, também o que vem. No caso de "este ano", dito no próprio Rosh HaShaná, a proibição corre todo o ano recém-iniciado, e por isso a mishná chama o próximo Rosh HaShaná de "lehaba" (o que virá), pois ele se conta junto aos dias futuros ainda dentro do mesmo ano corrente. Já quem diz "um dia" fixa a proibição estritamente por vinte e quatro horas a partir do momento exato da fala — "me'et le'et" — mesmo que esse período comece no meio de um dia do calendário e termine no meio do dia seguinte.

Rambam · פירוש המשנה
Perush HaMishná, Nedarim 8:1
דַּע כִּי מִי שֶׁנִּשְׁבַּע שֶׁאֵינוֹ טוֹעֵם הַיּוֹם, אִם הָיָה עוֹמֵד בִּתְחִלַּת הַיּוֹם אוֹ בְּאֶמְצָעוֹ, אֵין הֶפְרֵשׁ, וְאֵינוֹ אָסוּר אֶלָּא עַד שֶׁתֶּחְשָׁךְ, שֶׁכֵּן דֶּרֶךְ לְשׁוֹן הַנּוֹדְרִים

Rambam observa que a hora exata do dia em que o voto é pronunciado não altera o resultado: seja no início da manhã, seja já ao meio-dia, quem diz "hoje" sempre fica proibido apenas até o anoitecer daquele mesmo dia, porque essa é a maneira corrente como as pessoas falam ao fazer um voto — a palavra "hoje" no uso comum sempre aponta para o restante do dia civil, não para vinte e quatro horas a partir do momento da fala. Essa observação de Rambam prepara o contraste final da mishná com "um dia", que segue a lógica oposta, contada estritamente de hora em hora.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 8:1
קוֹנָם יַיִן. עַד שֶׁתֶּחְשָׁךְ. שֶׁכֵּן דֶּרֶךְ לְשׁוֹן בְּנֵי אָדָם, כְּשֶׁאוֹמְרִים הַיּוֹם רוֹצִים לוֹמַר עַד הַשְׁלָמַת הַיּוֹם: שַׁבָּת זוֹ. הָיָה עוֹמֵד בְּאֶמְצַע הַשָּׁבוּעַ וְאָמַר שַׁבָּת זוֹ אָסוּר בְּכָל הַשָּׁבוּעַ: אִם אָמַר יוֹם אֶחָד, שַׁבָּת אֶחָת, חֹדֶשׁ אֶחָד, שָׁנָה אֶחָת, שָׁבוּעַ אֶחָד, אָסוּר מִיּוֹם לְיוֹם. אִם עוֹמֵד בְּאֶמְצַע הַיּוֹם וְאוֹמֵר יוֹם אֶחָד, אָסוּר עַד לְמָחָר כָּעֵת הַזֹּאת

Bartenura resume a regra prática: "hoje" sempre termina ao completar-se o dia, porque essa é a linguagem corrente das pessoas comuns. Quando o nazireu está no meio da semana e diz "este Shabat", a proibição cobre a semana inteira que gira em torno daquele Shabat, incluindo os dias que já passaram. Mas se ele muda a formulação para "um dia" — usando o numeral indefinido em vez do demonstrativo —, a régua muda completamente: a proibição passa a correr rigorosamente vinte e quatro horas a partir do exato instante da fala, "me'et le'et", ainda que isso signifique terminar no meio do dia seguinte. O mesmo padrão se estende, com os devidos ajustes de escala, a "um mês", "um ano" e "uma semana" de shemitá.