Konam, o vinho que eu provar hoje — não fica proibido senão até escurecer. Este Shabat — fica proibido durante todo o Shabat, e também o Shabat que passou. Este mês — fica proibido durante todo o mês, e também o próximo Rosh Chodesh. Este ano — fica proibido durante todo o ano, e também o próximo Rosh HaShaná. Esta semana — fica proibido durante toda a semana, e também a sétima que passou. E se disse "um dia", "um Shabat", "um mês", "um ano", "uma semana" — fica proibido de dia em dia. — A mishná distingue duas famílias de expressões que soam parecidas mas produzem resultados opostos. Quando o nazireu usa o artigo definido com um demonstrativo — "este Shabat", "este mês" —, ele está apontando para a unidade de tempo em que já se encontra, e a linguagem corrente estende essa unidade retroativamente até seu início: "este Shabat" inclui todos os dias da semana já passados desde o Shabat anterior, e "este mês" inclui o Rosh Chodesh que virá, porque o dia de Rosh Chodesh é contado como parte do mês novo, não do antigo. Mas quando ele usa a forma indefinida — "um dia", "um mês" — a expressão não aponta para nenhuma unidade fixa do calendário, e por isso a proibição corre estritamente vinte e quatro horas, ou o período proporcional, a partir do exato instante da fala, "de dia em dia" — sem se prender aos limites naturais do calendário.
A própria contagem do dia de "tarde a tarde" — que explica por que "hoje" se encerra ao escurecer e não à meia-noite — vem do mandamento sobre o Yom Kipur, que fixa a unidade básica do calendário hebraico usada por toda a mishná.
A expressão "me'erev ad erev" — de tarde a tarde — estabelece que o dia hebraico se conta do anoitecer ao anoitecer seguinte, e é exatamente esse princípio que a mishná aplica quando diz que quem veda o vinho "hoje" fica proibido apenas "até escurecer": o dia da fala termina no mesmo instante em que, pelo calendário da Torá, um novo dia começa. Esse mesmo princípio de contagem cronológica governa as demais unidades da mishná — semana, mês, ano, ciclo sabático — todas construídas sobre a mesma lógica de fronteiras exatas entre um período e o seguinte, de modo que a linguagem comum ("este mês", "este ano") é lida à luz de como a própria Torá demarca os limites do tempo.
Rambam, no Perush HaMishná, explica por que "este Shabat" e "esta semana" incluem o período que já passou, enquanto Rosh Chodesh e Rosh HaShaná pertencem ao período seguinte.
Rambam explica que a razão de "este Shabat" incluir também o Shabat que já passou está em como a semana se conta: os seis dias que antecedem o Shabat são todos "dias que levam" a ele, de modo que dizer "este Shabat" no meio da semana necessariamente inclui o Shabat anterior, já que ambos pertencem ao mesmo ciclo semanal contínuo apontado pela expressão. O mesmo raciocínio vale para "esta semana", referindo-se ao ciclo de sete anos da shemitá: o ano sabático que já passou integra o mesmo "shavua" mencionado no voto.
Rambam contrasta esse padrão com Rosh Chodesh e Rosh HaShaná, que pertencem ao mês e ao ano seguintes, não ao que passou: por isso "este mês" e "este ano" se estendem para a frente, incluindo o primeiro dia do próximo período, e não para trás. A diferença de direção — semana e shemitá olhando para trás, mês e ano olhando para frente — depende de qual unidade contém a outra pela convenção do calendário e da linguagem comum, não de uma regra única aplicável a todas as expressões por igual.
Rashi, no Talmud, explica a mecânica de cada uma das cinco unidades de tempo listadas pela mishná; Rambam e Bartenura completam com a distinção final entre a forma definida e a forma indefinida da expressão.
Rashi confirma que "hoje" nunca ultrapassa o dia corrente, e explica que quem está no meio da semana e diz "este Shabat" fixa a proibição em todo o ciclo dos seis dias úteis que giram em torno de um único Shabat — o que passou e, por extensão de linguagem, também o que vem. No caso de "este ano", dito no próprio Rosh HaShaná, a proibição corre todo o ano recém-iniciado, e por isso a mishná chama o próximo Rosh HaShaná de "lehaba" (o que virá), pois ele se conta junto aos dias futuros ainda dentro do mesmo ano corrente. Já quem diz "um dia" fixa a proibição estritamente por vinte e quatro horas a partir do momento exato da fala — "me'et le'et" — mesmo que esse período comece no meio de um dia do calendário e termine no meio do dia seguinte.
Rambam observa que a hora exata do dia em que o voto é pronunciado não altera o resultado: seja no início da manhã, seja já ao meio-dia, quem diz "hoje" sempre fica proibido apenas até o anoitecer daquele mesmo dia, porque essa é a maneira corrente como as pessoas falam ao fazer um voto — a palavra "hoje" no uso comum sempre aponta para o restante do dia civil, não para vinte e quatro horas a partir do momento da fala. Essa observação de Rambam prepara o contraste final da mishná com "um dia", que segue a lógica oposta, contada estritamente de hora em hora.
Bartenura resume a regra prática: "hoje" sempre termina ao completar-se o dia, porque essa é a linguagem corrente das pessoas comuns. Quando o nazireu está no meio da semana e diz "este Shabat", a proibição cobre a semana inteira que gira em torno daquele Shabat, incluindo os dias que já passaram. Mas se ele muda a formulação para "um dia" — usando o numeral indefinido em vez do demonstrativo —, a régua muda completamente: a proibição passa a correr rigorosamente vinte e quatro horas a partir do exato instante da fala, "me'et le'et", ainda que isso signifique terminar no meio do dia seguinte. O mesmo padrão se estende, com os devidos ajustes de escala, a "um mês", "um ano" e "uma semana" de shemitá.