Seder Nashim · Massechet Nedarim · Perek Zayin · Mishná 9 de 9

Encerrando o Perek Zayin: a casa do pai antes da festa

שֶׁאַתְּ נֶהֱנֵית לִי עַד הַפֶּסַח אִם תֵּלְכִי לְבֵית אָבִיךְ עַד הֶחָג
Mishná (ed. Torat Emet, domínio público) · tradução original PT-BR

A Mishná · הַמִּשְׁנָה

Encerrando o Perek Zayin, a mishná aplica a mesma técnica de leitura sintática da mishná anterior a um caso ainda mais elaborado: um voto condicional, em que o marido veda seu próprio proveito à esposa como consequência de uma visita dela à casa do pai, com dois marcos temporais que trocam de posição.

Tu não me beneficiarás até o Pessach, se fores à casa de teu pai até a festa — se ela foi antes do Pessach, fica proibida em seu proveito até o Pessach; depois do Pessach, por não profanar sua palavra. Tu não me beneficiarás até a festa, se fores à casa de teu pai até o Pessach — e se ela foi antes do Pessach, fica proibida em seu proveito até a festa, e está permitida ir depois do Pessach.No primeiro caso, o marido veda seu próprio proveito a ela "até o Pessach" — uma proibição com prazo curto e definido —, condicionada a ela ir à casa do pai em algum momento "até a festa" (Sucot, mais distante). Se ela for antes do Pessach, cumprindo a condição cedo, o voto se ativa e ela fica proibida do proveito dele até o Pessach chegar; mas se ela, tendo feito a viagem que ativou o voto, ainda assim continuar se beneficiando dele mesmo depois que o Pessach já passou — quando a proibição já deveria ter cessado —, ela retroativamente teria violado a condição de "não profanará sua palavra", pois o texto sugere que ela não deveria ter ido antes do Pessach se pretendia continuar se beneficiando logo depois. No segundo caso, a proibição do proveito é "até a festa" — o prazo mais longo —, condicionada a ela ir à casa do pai "até o Pessach" — o prazo mais curto. Se ela for antes do Pessach, o voto se ativa e ela fica proibida até a festa (Sucot) inteira; mas justamente por essa proibição já ser tão longa e severa, ela está livre para ir à casa do pai logo depois do Pessach, pois a condição do voto — ir até o Pessach — já não pode mais ser cumprida ou violada depois dessa data.

שֶׁאַתְּ נֶהֱנֵית לִי עַד הַפֶּסַח אִם תֵּלְכִי לְבֵית אָבִיךְ עַד הֶחָג, הָלְכָה לִפְנֵי הַפֶּסַח, אֲסוּרָה בַהֲנָאָתוֹ עַד הַפֶּסַח. אַחַר הַפֶּסַח, בְּלֹא יַחֵל דְּבָרוֹ. שֶׁאַתְּ נֶהֱנֵית לִי עַד הֶחָג אִם תֵּלְכִי לְבֵית אָבִיךְ עַד הַפֶּסַח, וְהָלְכָה לִפְנֵי הַפֶּסַח, אֲסוּרָה בַהֲנָאָתוֹ עַד הֶחָג, וּמֻתֶּרֶת לֵילֵךְ אַחַר הַפָּסַח:

Fonte na Torá · מָקוֹר בַּתּוֹרָה

A própria expressão "não profanará sua palavra" da mishná é citação direta da lei dos votos em Bemidbar, no capítulo que também nomeia "a casa de seu pai" como o lugar de onde a jovem sai para o casamento — o mesmo destino mencionado nesta mishná.

Bemidbar (Números) 30:3-4
אִישׁ כִּי יִדֹּר נֶדֶר לַה׳ אוֹ הִשָּׁבַע שְׁבֻעָה לֶאְסֹר אִסָּר עַל נַפְשׁוֹ, לֹא יַחֵל דְּבָרוֹ, כְּכָל הַיֹּצֵא מִפִּיו יַעֲשֶׂה. וְאִשָּׁה כִּי תִדֹּר נֶדֶר לַה׳... בְּבֵית אָבִיהָ בִּנְעֻרֶיהָ
Um homem, quando fizer voto ao Eterno, ou jurar juramento para proibir sobre si mesmo uma restrição, não profanará sua palavra; conforme tudo o que sair de sua boca fará. E a mulher, quando fizer voto ao Eterno... na casa de seu pai, em sua juventude.

A Torá formula a regra geral dos votos com a expressão exata "lo yachel devaro" — não profanará sua palavra — que a mishná cita literalmente ao descrever a consequência de a esposa se beneficiar do marido depois do prazo que ela mesma provocou; e o mesmo capítulo bíblico nomeia "beit avihá" — a casa de seu pai — como o lar de origem da jovem antes do casamento, precisamente o destino da viagem condicional discutida nesta mishná. A precisão gramatical exigida pela mishná — distinguir qual prazo qualifica a proibição e qual prazo qualifica a condição — reflete o mesmo rigor com que a Torá formula "ככל היוצא מפיו יעשה", tudo o que sai da boca deve se cumprir exatamente como formulado, sem margem para interpretação frouxa da ordem das palavras.

Halachot · הֲלָכוֹת

Bartenura fecha o Perek Zayin explicando com precisão a mecânica das duas cláusulas temporais em jogo em cada uma das duas formulações da mishná, sem citação direta correspondente na Mishné Torá.

Bartenura · Nedarim 7:9
שֶׁאַתְּ נֶהֱנֵית לִי עַד הַפֶּסַח אִם הוֹלֶכֶת אַתְּ לְבֵית אָבִיךְ עַד הֶחָג. מִי שֶׁהָיָה עוֹמֵד אַחַר הֶחָג וְאָסַר הֲנָאָתוֹ עָלֶיהָ עַד הַפֶּסַח אִם תֵּלֵךְ לְבֵית אָבִיהָ עַד הֶחָג

Bartenura fixa o cenário: o marido, falando em algum momento depois de Sucot, veda seu proveito a ela até o próximo Pessach, sob a condição de que ela vá à casa do pai em qualquer momento até a festa (Sucot) seguinte. Bartenura acompanha então a mecânica de cada uma das duas formulações, mostrando como a posição da cláusula "até" determina se a proibição é curta e específica ou longa e ligada à duração inteira da condição.

Bartenura · Nedarim 7:9
לְאַחַר הַפֶּסַח בְּלֹא יַחֵל דְּבָרוֹ. כְּלוֹמַר, אִם הָלְכָה לְאַחַר הַפֶּסַח, עוֹבֶרֶת בְּבַל יַחֵל לְמַפְרֵעַ עַל מַה שֶּׁנֶּהֱנֵית מִמֶּנּוּ קֹדֶם הַפֶּסַח

Bartenura esclarece o ponto mais sutil do primeiro caso: a expressão "depois do Pessach, por não profanar sua palavra" não descreve uma nova proibição, mas uma transgressão retroativa — se ela continuar se beneficiando do marido depois do Pessach, mostra-se que já vinha se beneficiando indevidamente antes dele, revelando que a viagem à casa do pai não fez o efeito completo que o voto original exigia, e ela transgride "bal yachel" pelo proveito recebido antes do Pessach.

Perush — os Mefarshim · הַמְּפָרְשִׁים

Bartenura fecha o Perek Zayin com a análise integral das duas formulações espelhadas, mostrando como a mesma técnica sintática da mishná anterior se aplica agora a um voto condicional de duas cláusulas.

Bartenura · רע"ב
Nedarim 7:9
שֶׁאַתְּ נֶהֱנֵית לִי עַד הַפֶּסַח אִם הוֹלֶכֶת אַתְּ לְבֵית אָבִיךְ עַד הֶחָג. מִי שֶׁהָיָה עוֹמֵד אַחַר הֶחָג וְאָסַר הֲנָאָתוֹ עָלֶיהָ עַד הַפֶּסַח אִם תֵּלֵךְ לְבֵית אָבִיהָ עַד הֶחָג: לְאַחַר הַפֶּסַח בְּלֹא יַחֵל דְּבָרוֹ. כְּלוֹמַר, אִם הָלְכָה לְאַחַר הַפֶּסַח, עוֹבֶרֶת בְּבַל יַחֵל לְמַפְרֵעַ עַל מַה שֶּׁנֶּהֱנֵית מִמֶּנּוּ קֹדֶם הַפֶּסַח

Bartenura reúne, num único comentário, a leitura completa das duas formulações: na primeira, o prazo curto (até o Pessach) qualifica a proibição do proveito, e o prazo longo (até a festa) qualifica apenas a condição da viagem — por isso a proibição cessa no Pessach, mas se ela continuar se beneficiando depois disso, revela uma transgressão retroativa de "bal yachel". Na segunda formulação, invertendo os prazos entre proibição e condição, o resultado também se inverte: a proibição dura até a festa inteira, mas a condição da viagem só podia ser cumprida até o Pessach, liberando-a para ir depois disso sem qualquer nova consequência — pois depois do Pessach a condição do voto simplesmente deixou de estar em jogo. Com esta última distinção sintática, encerra-se o Perek Zayin, que abriu com a linguagem das categorias vegetais e fechou com a arquitetura precisa da própria frase do voto.